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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Eu quero ser escritor. Pronto, falei.



Prof. Amilcar Bernardi


Eu quero ser escritor. Escritor famoso, afinal, todos que escrevem são escritores (independente da popularidade). Ouvi dizer que “querer é poder”. Evidentemente que isso é uma inverdade. Eu posso querer escrever e ter o poder de escrever: isso é fato. Porém, a inverdade está em querer ser famoso e ter o poder de sê-lo.
Um cantor de banheiro que acredita cantar bem, que tem opinião inquebrantável favorável sobre si mesmo, só por isso é de fato um cantor? Se ninguém quer ouvi-lo, até o evita, ele é de fato um cantor? Sua fé em si mesmo, seu desejo de ser algo, sua esperança e seu querer fazem dele um cantor? Desconfio que não. Claro, assim como todos que escrevem são escritores, todos que cantam são cantores. O sucesso é outra questão. Talvez tenha pouca relação entre si o cantar (e o escrever) e os palcos famosos (e a academia Brasileira de letras).
Esse querer é algo totalmente meu. Os outros (que fazem de mim famoso) é o imponderável, o toque de sorte ou o desejo divino. Tenho consciência que há caminhos mais curtos para o sucesso popular. Poderia apresentar minha beleza na nudez (a minha natureza não permitirá isso!) como muitas mulheres fazem. Poderia também assassinar alguém estupidamente e na prisão escrever um livro sobre como matei e mutilei minha vítima. Aí eu seria famoso... mas seria um escritor de qualidade porque sou famoso?
Surge uma questão antropológica: ser popular é critério para ser algo (escritor ou cantor)? E o que não é conhecido pode ser algo? Na democracia a verdade é a verdade da maioria, então, para ser algo o critério é o mesmo?
A relação EU (querer) e os OUTROS (que podem ou não querer o que eu quero) é algo insolúvel. Então, como sujeito existencialmente livre, continuarei escolhendo querer ser escritor... mesmo que ninguém concorde com isso ou que saiba deste meu querer. Pronto, falei.

domingo, 23 de dezembro de 2012

PESSOAS DESPREZÍVEIS



Prof. Amilcar Bernardi



É de uso comum a afirmação que estamos no mundo da informação. Tudo é comunicação de idéias. O mundo não é algo tátil, mas algo comunicado, significado. Chego a dizer que só existe aquilo que pode ser significado, que pode ser informado de alguma forma. É possível a seguinte máxima: ser é ser expressado, significado.
Tanto é verdade que sem sairmos de casa conhecemos e valoramos outros países e culturas (damos significado ao que não conhecemos). Em frente a nosso computador viajamos por galáxias e sonhamos com vida em outros planetas. Nos sites de relacionamento conhecemos pessoas, tornamo-nos amigos e, não raro, nos apaixonamos e casamos. Conhecemos coisas e pessoas através de sons, imagens e contatos físicos falados... se for possível tal contato, pois não é necessário.
Antes de trabalharmos em uma empresa, ela quer saber do nosso conhecimento. Lê nosso currículo, avalia testes e entrevistas com psicólogos. Quer a informação sobre nossa pessoa para aferir a quantidade e qualidade de informações/conhecimentos que temos a oferecer à empresa. Caso essa avaliação seja negativa, somos impedidos como pessoa de pertencer ao quadro funcional da instituição. Na nossa vida pessoal, quando amamos alguém, a amamos porque o que ela sabe/pensa/conhece é agradável para nós. Então a aceitamos como pessoa amada. Não a amamos pelo corpo ou pela beleza.... é muito pouco! Afinal, amamos o que a pessoa significa (informação) para nós.
Na Grécia clássica ser escravo era não ter voz. Aquele que era escravo não era ouvido, não tinha como expressar-se. Não informava, logo, não era ninguém, não podia ser avaliado. Imagina hoje! Quem não pode ser informação, nada é... ou é pior que um escravo grego!
Penso que o pior que podemos fazer na atualidade é tornar uma pessoa desprezível (de desprezar, menosprezar). Melhor dizendo, tornar o que a pessoa sabe uma informação sem valor cognitivo. Esquecendo deliberadamente que toda a informação é importante. Cruelmente é possível menosprezar o que uma pessoa informa, podemos diminuir o que alguém sabe e diz... isso a ponto de tornar a pessoa uma persona menos, desprezível, não audível! Algo como nos tornarmos surdos para quem fala o que desprezamos. É uma tentativa de tornarmos a pessoa algo sem significado! Isso é horrível. Ainda mais numa sociedade da informação!
Fico pensando sobre o aluno que “não aprendeu”. Os instrumentos avaliativos afirmam que o aprendiz não tem nada a informar sobre os conteúdos trabalhados, ou que o que ele tem a informar é desprezível. E quando o aluno avaliado desfavoravelmente demonstra sua insatisfação, a sua expressão pessoa(al) é desprezada. O que quer comunicar (ele mesmo é uma informação) não é ouvido... são informações tornadas ignóbeis pela autoridade. Fico refletindo... a avaliação mal sucedida é apenas o desprezo dos infinitos saberes que o aprendiz tem? E a avaliação “nota dez”? Seria apenas a supervalorização de alguns saberes sobre outros? Portanto, o “dez” é 100% a exclusão dos saberes ignóbeis (tornado ignóbeis)?
Evidente que não tenho respostas. Porém tenho uma convicção: não podemos tornar conhecimentos pessoais desprezíveis ou de segunda classe. Se assim o fizermos, pessoas serão menos, serão desprezadas e não ouvidas. Toda a pessoa tem informações, toda a pessoa sabe (sabe algo). Ninguém tem o direito de tornar desprezível alguém porque informa o que não quer ouvir em algum contexto. Sei que o contexto escolar exclui muitas informações/saberes/pessoas. E isso não é bom.

(imagem da internet)

sábado, 22 de dezembro de 2012

vídeo-aula Platão II

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Vídeo-aula Platão I

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1959



Richie Valens tocando,
Rocking Roll no ar!
Eu não sou desse lugar!
Sou do tempo passado!
Sou descompassado,
o ontem é meu passo!
Deus! No compasso
das mocinhas envergonhadas,
no voar dos carros envenenados!
No ontem eu ando!
No hoje desando
numa incrível dor!
Ah! Antigo amor,
de épocas passadas!
Épocas encantadas
que não podem voltar!
Richie! Como posso amar
se hoje os amores nada valem?
Tequila, Rock e Valens!
Máquina do tempo, me leva embora!
A modernidade não é minha hora!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conto do livro "ùltimas Páginas"



A beleza indizível
Prof. Amílcar Bernardi

Desde cedo, muito jovem, ele percebeu a importância da palavra. Ele percebeu que todos falam, quase nascem falando. Porém, tornar a fala uma arte é para poucos. Sentia-se um ser especial porque não só tinha idéias... podia expressa-las através de sons articulados. Falar é uma promessa! Falar é prometer que o que falamos terá sentido para o ouvinte! Expressar é dar esperança de entendimento e fartura de idéias! Ele sabia que abrir a boca ou escrever é comprometer-se! É deixar o outro na expectativa!
Um dia na escola escreveu sua primeira redação. A professora exigente pediu título, coerência entre os parágrafos, uma introdução, um desenvolvimento e a bendita conclusão. Enquanto escrevia como a professora queria, ele pensava sobre o ato de escrever. Descobriu por si mesmo que grafar o pensamento era algo muito especial. Grafar no papel é descontextualizar/expatriar o pensamento da cabeça do autor. Depois, é jogar essas coisas na cabeça/contexto do outro!  Uma loucura! Um ato de fé! Quem escreve acredita fortemente na capacidade do leitor de entender o que foi escrito fora do contexto da cabeça do escritor!
Ficava pensando que adultos e professores falam, orientam, e palestram na esperança de serem entendidos. E quem os ouve acredita na promessa de a fala ter conteúdo inteligível. Quanta crença!
Atilado e mordaz, sabia que o feio pode ser dito de maneira bela. Também sabia que a coisa mais linda do mundo pode ficar feia na boca de um falante inexperiente! Aprendeu isso lendo poesias e romances. Então concluiu: o que nos faz diferentes dos animais é a capacidade de expressar! A capacidade de expressar nos faz diferente e inferiores aos animais, quando pessoas más expressam maldade. Podemos ser diferentes dos animais ficando além deles... e podemos nos diferenciar ficando aquém deles!
Falar, ele concluiu, é dar nome as coisas! As coisas só existem porque as nomeamos! Nomear é existir! Eu existo porque expresso, porque falo e dou nome ao mundo!!!!!!! Então, pensou o jovem, sou dono do mundo! Eu posso tudo ao poder falar/escrever tudo! Eu sou um deus, o deus da palavra! Como as demais pessoas não sabiam disso?  Qual Nietzsche sentia-se nas alturas!
Brincava com figuras de linguagem. Divertia-se com falácias e entrelinhas. Adorava duplos sentidos e as complexidades da fala. Assistir palestras era o máximo para ele. Não interessava o conteúdo, mas o jeito com que as palavras eram utilizadas pelo palestrante. Era divino experimentar a sensação de outra pessoa construir imagens mentais na sua mente. Rejubilava-se ao perceber que nunca era um ouvinte passivo. Pensava: “Minha história de vida é a tinta com que o palestrante pinta idéias na minha cabeça!”
Como Platão, chegou a acreditar que havia um mundo perfeito. Porém acrescentava: destinado aos falantes/escreventes! Um mundo magnífico para poucos. Só os letrados, os que sabiam usar com maestria as palavras teriam contato com esse mundo maravilhoso. No seu quarto era um deus. Escrevia como um louco, lia como um viciado!
Mas ele não podia competir com o verbo divino. Deus era o falante perfeito. E Ele quis falar da beleza através de uma moça. Materializou a beleza nas formas de uma mulher linda. Não podemos competir com o nosso criador! Não havia como dizer/escrever/expressar aquela beleza! Ela era o indizível. Quando o moço escritor a viu... caiu por terra! Como dizer o indizível? Era bela demais.
Então ele olhou-se no espelho. Não era bonito nem forte. Era frágil e magro. Tez pálida e olheiras profundas! Sentiu-se horrível. Ele era dizível, pronunciável e... feio. Ela era a beleza revelada por Platão... ele era a cópia na terra... algo imperfeito e grotesco! Mas como um ateniense que, mesmo intelectual, ia à guerra e morria com honra, foi a luta. Com as armas que tinha, enlouquecido, apresentou-se a ela, a bela. Com o escudo da retórica, com a lança da grandiloqüência e apoiado pelos dardos dos versos que compunha, tentou vence-la de imediato. Guerra inglória! Ela riu. Achou graça daquela investida louca! O rapaz magro, feio e sem graça era valente, mas não tinha chance alguma. Ela sentia-se a deusa da beleza. Sabia do seu poder de sedução. Ao mover-se a moça bela, o sol a seguia. Os girassóis a seguiam e desprezavam o astro rei. Ele tentou de todas as formas. Quanto mais se machucava nas investidas insanas, mais elaborava seus escritos e suas artimanhas nas letras.  Tudo foi em vão. Ela foi embora. Adolescentes não tem moradia fixa. São como aves e sonhos. Frágeis e instáveis. Ele ficou. Ela foi embora para sempre.
Anos depois na Academia Brasileira de Letras, ainda lembrava dela. Ao receber o prêmio Nobel, ainda lembrava dela. Ao escrever seu último poema, ainda lembrava dela.
Eis o paradoxo: Ele lembrava dela. Ela não lembrava dele.
                          O mundo lembra dele. O mundo nunca soube dela.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A fortaleza....


Amilcar Bernardi




De cinza o céu se veste,
um raio nos espaços investe
como se tudo fosse destruir!

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!

O mundo treme – vai acabar?
A doce criança tem medo!
A noite cai bem mais cedo:
o dia fugiu assustado!
O vento  - apressado –
passa tudo querendo levar...

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!

Então a natureza se esconde
- o temporal não está longe!
A tempestade vai tudo derrubar?

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!


Acreditem! Naquela
Casinha tão bela
a tempestade não assusta!
A bela casinha é tão robusta
que fraca fica a tempestade!

Adverte a quente claridade
que vem da crepitante lareira,
que a procela é infantil brincadeira
que a casinha linda não pode assustar!

A casa é ninho que não vai cair,
é montanha que não vai alagar!

Acontece que as tempestades possantes
são apenas doce garoa para os amantes
da tão bela casinha!
O amante diz: “Veja que chuvinha!”
Ela responde: “Vem amor, deixa a tempestade sozinha!”

sábado, 8 de dezembro de 2012

Eu sou liberdade!


Prof. Amilcar Bernardi



Sou mais que só meus ossos e pele...
Sou mais o vento que o barco impele
que o próprio barco que n’água flutua...
Sou mais a alma da bela mulher nua
que seu corpo só para deleite...
Minha aparência é apenas um enfeite
que minha alma forte e livre carrega!
Sou livre! Minha alma todo limite nega...
Eu nego meus limites e não tenho nenhuma  idade...
Eu sou alma, eu sou gente, eu sou só liberdade!





Imagem:http://muletascorderosa.blogspot.com.br

domingo, 25 de novembro de 2012

Desistir...

AmilcarBernardi


“Desista” – fica repetindo!
Pelos caminhos desistindo
vai o descanso procurando...
Maltrapilho vai andando
sempre mais longe indo...
Pelos caminhos desistindo
sem ter para onde ir...
“Desista!” fica a repetir
a cada passo que avança!
A desistência é sua prece e triste mantra...

Preconceitos...


Prof.Amilcar Bernardi



Presos por grades, convenções e casas...
Também presos por corpos sem asas!
Aprisionados por ruas, bairros e favelas...
Tantas grades que já não vivemos sem elas!
Previsível, regularizado e já civilizado...
Portões, muros... pelos outros já bloqueado!
Todos presos ao passado, o futuro na prisão fenece...
Preso ao hoje que se repete, o amanhã não acontece!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Eu gostaria de um livrinho...

Amilcar Bernardi
 

 

De um livro bem simples eu gostaria...

Na minha cabeça é que eu o pintaria...

Um livrinho desmaiado, um desenho sem cor...

A palavra flor em preto, mas na imaginação o seu  odor...

Eu gostaria de um livrinho bem pequeno, sem imagem.

Na letra preta: o herói descrito. Na imaginação: a sua coragem!

É suficiente um livrinho pequeno, grosseiro e de papel reciclado...

Um livro não precisa ter asas para quem já tem o espírito alado!!!!!

Livro no computador... não, não quero tecnologia tão avançada...

Eu gostaria de um livrinho pobrinho que deixe minha alma maravilhada!!!!
 
 
 
Imagem:http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=4653

 

 

sábado, 10 de novembro de 2012

A escola do futuro tem que ser justificada eticamente


Prof. Amilcar Bernardi
 

As forças sociais que produzem uma guerra, por exemplo, só são explicadas eficientemente após a guerra. Antes dos eventos tais forças são inexplicáveis e imprevisíveis.  Se fosse possível plenamente entendê-las antes, grandes impérios talvez não ruíssem. Creio que o antagonismo indivíduo (egoísmo) X Coletividade (altruísmo) é o que move as pessoas, as sociedades. Quanto mais o indivíduo tem esperança que a vida em sociedade é melhor que o individualismo, mais dócil ele será aos limites que a ele é imposto pelos demais. Se a desesperança cresce, decresce a civilidade. Esse antagonismo e essa esperança criam colisões e coesões entre si imprevisíveis. São forças tão colossais que tornam impossível a exata previsão do futuro das relações humanas. Imprevisibilidade, já mencionada no início do parágrafo, semelhante ao que acontece nas grandes guerras e quedas de impérios.

Quando vejo intelectuais prevendo com certeza a escola do futuro olhando para trás, ou olhando o que está passando pelos seus olhos agora, sorrio incrédulo. Isso me faz lembrar a recente comprovação da partícula de Bóson (Partícula elementar que representa a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.). Partícula que abre um mundo tão amplo para a ciência, que não é possível prever as consequências dessa comprovação. Faço uma relação com a escola. Uma instituição criada ontem (sob o ponto de vista da história da humanidade) e já tem milhares de teóricos predizendo seu destino! Como se o futuro da escola fosse algo menos complexo que a previsão do que acontecerá após a confirmação da existência da partícula de Bóson!

Respeitando a complexidade dessa instituição, a escola, digo que estamos num vácuo ético em relação ao futuro dela. Já foi dito muito sobre o que a escola não deve ser observando sua história. Já foi dito muito sobre o que a escola deve ser, aí sem olhar sua história, buscando uma utopia que não se encaixa na nossa sociedade. Uma sociedade que muda impelida pela ciência, que muda impelida pela tecnologia, que avança vencendo barreiras culturais e que ao mesmo tempo quer ser bairrista, quer validar sua cultura em detrimento das outras, que quer lucro sem se importar com o país vizinho. Onde o ideal de escola se encaixa nisso? Sinto dizer: não se encaixa ou quando se encaixa, temos vergonha dos resultados desse encaixe. Digo vergonha porque a instituição de ensino encaixada, forma inúmeros profissionais mesquinhos, egoístas, que vivem com valores antissociais até. Igual a sociedade que a sustenta.

O vácuo ético se apresenta quando queremos ver a escola do futuro como uma escola que moralmente seja justificável. Então surgem as questões: Por quais valores queremos que a escola do futuro se paute? Ou não queremos saber disso? Escola para quê? Para quem? Uma escola regida sob o ponto de vista do capitalismo poderá um dia ser justa? Um lugar onde se aprende pelo amor ao aprender é possível num ambiente competitivo e de poucos empregos? É possível o amor ao próximo num ambiente de ensino excludente, onde, na melhor das hipóteses, vence quem sabe mais ficando para trás quem sabe menos? É possível uma escola num ambiente de desesperança na própria permanência do homem na terra? Teremos a coragem (e honestidade) de dizer que queremos sim uma escola excludente que prepare nossos filhos (e não o dos outros) para o sucesso? Teremos a força moral de afirmar uma escola no futuro que prepare uns para bons empregos, outros para empregos ruins e outros tantos para o desemprego? Criticar é fácil, desestimular os educadores é fácil, justificar o futuro escolar moralmente é difícil e para poucos.

O vácuo está aí no futuro ético da escola, tanto quanto na incerteza do que faremos com a confirmação da partícula de Bóson. Não sabemos o que fazer eticamente porque não damos conta moralmente nem da escola que temos hoje. Não sabemos dizer claramente o que queremos dela. Num futuro incerto onde não sabemos o que vai acontecer, pois tudo muda, alguns intelectuais querem colocar (prever) uma escola fora de contexto. Na verdade sempre estaremos fora de contexto quando falamos de futuro, pois não há como prever o que acontecerá moralmente.  Alguns pensadores querem explicar uma futura derrocada da educação antes que tal derrocada aconteça. Nada aprenderam com a história do mundo, uma história que explica os fatos somente após acontecerem. Não temos que explicar uma escola que ainda não nasceu. Temos que afirmar corajosamente (e fora do contexto futuro) como a queremos, que valores queremos que a norteie e lutar por isso.  Será como um filho. Uma criança sempre é imprevisível e inexplicável. Porém, os pais amorosos e esperançosos antes de tudo, que não tiverem elencado valores plausíveis que o formarão, com certeza, terão um grande problema nas mãos. Projetar moralmente e responsavelmente um filho, mesmo que tudo dê errado, deixa os pais com a consciência tranquila. Isso porque tudo tentaram e projetaram moralmente na esperança de um adulto eticamente melhor. Façamos isso com as escolas do futuro.
 
 
 
 

 

 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Tudo e nada


Tudo se complica

se a tristeza se estica

mais um tanto na alma...

 

Tudo  é  mais cinza

quando a lágrima respinga

nas últimas alegrias...

 

Tudo é mais dolorido

quando na alma o colorido

ficou em preto e branco...

 

Tudo não vale mais nada

Quando a alma já tão acanhada

tem vergonha de sorrir...
 
 


Imagem:http://dark-joana.blogspot.com.br/2011/07/perdida-na-tristeza.html

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Descontentamento...

Amilcar Bernardi
 

Tempos atrás pensei que eu era regato em bela floresta.

Dei-me conta que estava em lúgubre lugar onde só o mal resta.

 

Noutro dia pensei que eu era puro e feliz.

Mas vi que estava entre fantasmas e zumbis!

 

Noutro tempo achei que eu era como os passarinhos.

Dei-me conta que eu era flor entre terríveis espinhos!

 

Noutro dia eu imaginei ser um amanhecer cheio de sol.

Dei-me conta que eu sou fim do dia, um triste arrebol!

 

Tempos atrás pensei que havia vida e viço.

Hoje percebo que em nada mais acredito!
 
 
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Encontro espiritual


Amilcar Bernardi


 

Jogo-me sem corpo, só alma e poesia.
Busco-te sem corpo, no espaço e na tecnologia.
Almas apenas em espaços sem fim...
Quero conectar-te ao sair de mim...
Voo só alma, a alma volatiza.
minha alma te tecla: é poetisa!
Corpo sentado, a alma viajando...
Corpo calado, a alma teclando...
Encontro espiritual dos viajantes dos espaços!
Meu corpo sozinho, minha alma em teus braços!
 
 
 
 
 
Imagem: http://eletronicos.hsw.uol.com.br/realidade-virtual.htm

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

As escolas devem dizer o que querem e o que são claramente.


Prof. Amilcar Bernardi 

Prevejo que logo, muito logo mesmo, a escola será a única instituição a estimular o pensar ético. Afinal, as religiões estão sendo minimizadas, excluídas dos espaços públicos. As famílias cada vez mais não dão conta delas mesmas nos conflitos morais que as consomem. Os partidos políticos estão agindo em proveito próprio. Os cidadãos mais antigos, os avós, que antes falavam para seus netos do certo e do errado moral, hoje ainda trabalham para sustentarem-se e, não raro, sustentarem seus filhos adultos. Então a educação escolar está assumindo o papel de ensinar as crianças a pensar nos outros e num futuro moralmente bom para todos. É visível que a sociedade cada vez mais esta abandonando os espaços cedidos para que o certo e o errado sejam contados para as crianças e, por outro lado, entregam aos professores a formação moral e cidadã das crianças.

A escola pública não tem partido político, nem segue religiões. Seus professores devem respeitar as diferenças e a pluralidade cultural. Não devem posicionarem-se cada vez mais  em questões de escolhas subjetivas. Afinal, a escola pública tem que aceitar igualmente todos os posicionamentos que não firam a lei. Convém salientar que ensinar as ciências e as letras não é suficiente para educarmos moralmente. Como então educar nesse sentido as crianças e jovens iniciando suas consciências na reflexão ética? Como trabalhar o certo e o errado moral num espaço onde se deve evitar tal discussão?  Como posicionar-se enquanto educador, se sempre a posição adotada vai afrontar alguma outra que tem igual permissão política de conviver? E se todas as posições são cabíveis, como o educador poderá ensinar/ensaiar a escolha moral? Como posicionar-se como modelo moral se a visibilidade da escolha do educador está prejudicada por um ideal estatal/social de tudo ser aceitável, desde que seja legal?  É bem mais fácil no ambiente escolar público evitar inúmeros posicionamentos, notadamente os polêmicos. Por consequência, o espaço da escola pública é preferivelmente a opinião incontroversa ou cientificamente confirmada? Se a resposta for afirmativa, quanto empobrecimento da reflexão sobre o moralmente controverso! A escola pública já não pode sonhar em ser a ágora grega.

Apesar das dificuldades apontadas nos parágrafos anteriores, há a necessidade da experiência da discussão moral (e posteriormente ética) sobre o mundo. Não uma discussão cidadã/política apenas, mas refiro-me a discussão sobre o certo e o errado moral. Toda criança e jovem precisam dessa experiência. Penso que as escolas confessionais tornaram-se a melhor opção para tal discussão. Afirmo isso porque estas escolas têm bastante definidas suas opções. Exercendo a liberdade de escolha, os responsáveis pela educação moral da criança e do jovem, poderão optar por esta ou aquela escola confessional. Isso sem dúvida sobre o que acredita a instituição escolhida. A criança e o jovem poderão adultecer dentro de um espaço pedagógico anteriormente conhecido.

As escolas confessionais, ou qualquer outra escola não religiosa que se permita dizer o que professa de forma clara e inequívoca, tem a vantagem de ser criticada, amada ou excluída pelo que é, pela sua coerência moral. Penso que melhor é pertencer a uma escola religiosa que respeita minhas críticas (respeitosas também) do que pertencer a instituições que tenham dificuldade de dizer quem são além do pensar científico, cidadão e político. Prefiro um lugar que diga antes de eu entrar que é a favor ou contra o aborto (por exemplo). Pior para a formação das consciências é deixá-las em lugares ambíguos onde tanto faz ser a favor ou contra, “antes pelo contrário”.
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Prisioneiro

Amilcar Bernardi


Enjaulado em meu próprio corpo
sou navio preso ao corpóreo porto...
Preso dentro de músculos, ossos e pele
Não posso ir ao vento que me impele...
Não posso sair de mim e navegar!
Não posso de mim me desapegar!
Navegante preso que entre grades tanto padece...
Tenho a alma pálida: sem sol e enjaulada fenece!
Alma que entre as grades dos olhos a vida espia...
Alma que tantas vezes foge pelas frestas da poesia!
 
 
 

 

sábado, 13 de outubro de 2012

As normas disciplinares e a moral escolar

Prof. amilcar Bernardi 
Tradicionalmente o certo e o errado dentro das instituições escolares são vistos como nas antigas cidades gregas.  Nelas, os cidadãos pensavam as necessidades de suas cidades, e não refletiam sobre as outras ou sobre o reflexo de suas escolhas sobre a natureza. O cidadão era aquele que vivia e pensava na sua cidade. Hoje quando há conflito no colégio, o contexto também não é levado em consideração.
É uma miopia pensarmos apenas numa moral escolar interna. Isso não é possível. Expulsar um aluno, similar ao o ostracismo grego, pode ser uma ação boa para a unidade escolar e má para o contexto social. Por outro lado, criticar as escolas ou dar atribuições que não são exequíveis para ela, pode parecer ser bom para a sociedade, mas é péssimo para os colégios. Na relação sociedade/ escola, com certeza o que é ruim para um é ruim para ambos!
As questões disciplinares não podem ser vistas como algo que diga apenas respeito aos sistemas de ensino. Diz respeito a todos. Cada pai que, quando em conflito com a norma disciplinar da escola, advoga em proveito próprio (do seu filho) está cometendo um equívoco contra a sociedade. Por outro lado, o egoísmo do pai é reflexo de como ele aprendeu a sobreviver nessa mesma sociedade. Portanto, as normas de conduta escolares são algo sério, que devem ser respeitadas tanto dentro quanto fora dos muros das instituições de ensino. Da mesma forma que, as equipes que pensam as normas disciplinares, precisam saber que são reflexo de um contexto social e nele provocam efeitos.
A sociedade precisa fazer uma reflexão ética sobre as escolas. O que queremos mesmo delas? A serviço de quais valores elas estão?  Ao querermos escolas laicas, neutras e sem preconceitos, quais valores são possíveis? Quando valorizamos a competição e a vantagem em tudo, quais regras de conduta podemos afirmar nas escolas? Ao desqualificarmos o estudo tradicional e ao criticarmos diariamente professores e instituições educacionais, o que queremos dizer com isso? Não são os colégios que estão em crise, é a visão ética do mundo que está.
Não dá para fazer crítica a um ou outro aspecto do fazer prático desta ou daquela escola. O que temos que saber é o que queremos eticamente delas todas. Ao abandonarmos os valores tradicionais, ao abandonarmos a política partidária, ao optarmos pelo capitalismo e pela liberdade de opinião e de fazeres; o que queremos que a escola ensine no âmbito ético? Afinal, é impossível ensinar conteúdos específicos sem imiscuí-los com uma crença moral. O professor, o diretor, enfim, as pessoas são gente; não são assépticas!
Caso a sociedade não repense uma ética para a educação e a afirme, cada educador (e cada instituição) estará liberado para agir de acordo com sua visão moral particular. Então a crítica ao fazer da escola será impossível, pois nela toda a ação moral estará justificada pela liberdade de opinião.
Preciso fazer uma exceção às escolas confessionais. As instituições verdadeiramente religiosas, dizem claramente seus valores. Afirmam como vão valorar os conteúdos acadêmicos e o que vão ensinar além dos currículos para as crianças e jovens. Quem matricula seus filhos nelas, sabe o que esperar e o reflexo que isso terá nas normas disciplinares.
As regras disciplinares serão sempre algo para a reflexão escolar. Porém, temos que decidir o que queremos ensinar (eticamente) em nossas escolas. Afinal, ao discutir exclusivamente o caso do meu filho ou da minha escola, estou sendo egoísta e alunocêntrico. Sabendo que cada vez mais as instituições de ensino serão as responsáveis pela educação moral, temos que pensar no contexto social e no papel que este ensinar tem nos dias de hoje.


Imagem obtida na internet





terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aberta a temporada de caça



Prof. Amilcar Bernardi


Há milhares de anos atrás os homens, ou pré-homens, caçavam nas planícies ou florestas. Tinham os instintos à flor da pele no que se refere a captura e ao extermino de criaturas. O principal motivo: alimentação e sobrevivência. Evidentemente as qualidades exigidas para tal atividade eram mais a (crescente) astúcia e menos a velocidade, a boa visão e a força muscular. Os animais eram vencidos pelo conjunto destas habilidades. Os bichos podiam ter velocidade e força, mas perdiam em astúcia desequilibrando a luta pela vida.

Hoje já não temos florestas nem grandes planícies desabitadas com caça abundante. Sequer precisamos caçar. Já não há tantos animais que se escondem nas vegetações, que desaparecem nas imensidões naturais. Hoje a caça é de homens por homens. As florestas com grandes árvores e precipícios foram substituídas pela floresta de concreto e seus viadutos. Pelas entranhas das cidades homens rastejam para assaltar e matar. Outros homens se escondem em bandos para caçar os que rastejam.

Antes os animais não eram rastreados como indivíduos. Eram caçados simplesmente porque eram animais e podiam ser comidos. Não importava mais nada, sequer a raça. A caça era democrática e livre. Antes qualquer homem podia caçar qualquer animal que pudesse matar. Os bichos caçados pouco revidavam. Não eram inteligentes, morriam às dezenas.

Hoje homens caçam homens. Mas não há mais democracia na caça. Só pessoas especiais autorizadas pelo Estado podem caçar homens. Os caçadores oficiais possuem alta tecnologia para rastrear presas específicas. Armas possantes e eficazes. A caça não é livre. A tecnologia precisa identificar antes a caça. Saber quem é, onde se esconde, quem são seus pais e quais as pessoas que andam com ele. Já não é possível caçar qualquer um. Os homens do Estado podem caçar apenas alguns. Inclusive capturam os homens que, sem autorização, caçam outros homens para roubar ou apenas para matar. O ladrão que caça pessoas às escuras, escondido e rastejante, será caçado pelos caçadores autorizados. 

Na pré-história matar era corriqueiro. Ninguém era caçado porque matou alguém ou algum animal. Ninguém saia apenas para passear. Afinal, todos representavam algum perigo e sofriam alguma ameaça. As saídas eram para prover alimentos. A caça não era predatória. Matava-se para comer ou para se defender (ou defender seu território mínimo).

Hoje alguns homens passeiam apenas para pegar sol. Outros saem para trabalhar. Fazem de conta que não há uma caçada acontecendo. A caça é predatória. Hoje homens caçam homens não mais para comer ou para defender território. Caçam sem razão, por ganância, porque a lei manda ou porque é divertido. A temporada de caça de homens por homens há séculos está aberta. Caça-se com tiros, com pauladas, com facadas, com poder, com valores morais excludentes, pela fome e miséria. Hoje sobreviver é mais por sorte e menos por juízo.
 
 
 
Imagem da internet

 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Elogio ao medo

Prof. Amilcar Bernardi


Ao  imaginar como seria a humanidade sem medo, veio à minha mente o filme Wall-E. O filme é uma animação feita em 2008, da Pixar Animation.  Em determinado momento da animação, surge uma nave espacial nos moldes da arca de Noé, onde os humanos vivem há séculos. Se movimentam através de cadeiras de rodas (na verdade sem rodas, porque flutuam). Robos servem às pessoas que não precisam sequer levantarem-se para se alimentarem. Não há medo, pois tudo é programado, previsível e limpo. Esta animação mostra como resultado disso sujeitos obesos, com a vontade enfraquecida e hipomuscalares.

O medo é um estado emocional de alerta, é a consciência de perigo imediato ou não, real ou imaginário. Presumo que em excesso é contraproducente e estressante; negativo, portanto, para a saúde. E na situação do filme Wall-E, como seria? Na hipótese da ausência total do medo, o que seria de nós? O que nos estimularia? Ou melhor, existe estímulo maior à ação do que o medo? Não creio. Alguns pensarão que o amor é um forte impulso à ação. Eu digo que a tensão do medo de perder esse amor é o que nos move, o que faz de cada dia de convivio uma conquista nova da pessoa amada.

Quando falo do medo, evidentemente não estou referindo-me ao terror, a paralização oriunda da cosnciência da morte violenta e iminente, por exemplo. Estou falando do estado de alerta, da forte espectaviva do inesperado.

Quando imagino uma situação paradisíaca, sem estímulo forte como o medo, vem a minha mente uma não ação, um não tentar. Sem o estado de alerta não há desejo de busca. Não refiro-me, deixo claro, ao sentimento de covardia, que em tudo difere do medo. A covardia é uma fraqueza, uma desistência de uma luta. O covarde não tem confiança em si mesmo. Este sentimento vil nos fazendo pensar unicamente  na dor, não nos deixa realizar, nos faz fugir do sofrimento sem esperança alguma. Este sentimento pusilânime não é medo, é paralização, é imobilidade, é desesperança.

Quando separo o medo da covardia, torno inseparável o medo da valentia. Só os valentes tem medo. Os covardes tem paralizia e terror. O covarde é imediatamente um desesperançado, um desistente imediato. O sujeito pusilânime coloca seu prazer e sua incolumidade acima de tudo e de todos. Este sujeito desprezível viveria bem na nave do Wall-E. Seria um obeso desistente de todo o movimento, um sujeito que aspira só o prazer de ser servido sem a dor de correr atrás dos seus desejos. O covarde é um hipotônico.

Eu sinto-me valente  justamente porque tenho muitos medos. São tantos que nem sei contá-los. Porém, não sucumbo, não desespero nem desisto imediatamente. Eu amo e temo perder o que amo, então amo muito mais. Temo não ser mais útil no que faço, então estudo sempre mais e procuro utilidade. Sou corajoso por que sei que felizmente não há paraíso por aqui. Sou corajoso porque supero cada temor que assalta-me para encontrar outros e superá-los novamente. A vida é isso: superação dos medos.
 
 
 
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Repentina dor


Amilcar Bernardi
 

Repentinamente envelheço.

Eu era dia. Agora anoiteço.

Eu era jovem hoje ao acordar.

Agora sou velho de triste olhar.

Nessa manhã eu jovem amanheci.

Porém repentinamente envelheci.

Tão jovem fui nesse amanhecer.

Tão rápido foi meu envelhecer!

Levantei cheio de amanheceres.

Entardeci cheio de anoiteceres!

Amanheci feliz como criança.

Entardeci moribundo e sem esperança!
 
 
 

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Amplitudes virtuais (Para a moça das redes sociais)


 Prof Amilcar Bernardi
Por ti eu viajo sem rumo nos oceanos virtuais...
Navego a tua procura nas amplitudes sem cais
 
No meu frágil navio de teclados
Navego livre ouvindo teus chamados...
 
As redes sociais amplos e estranhos mares são...
Nesses infindáveis oceanos navego sem chão!
 
Tu és a digital sereia que faz-me soçobrar
Tu és o vento virtual que faz-me navegar...
 
Construo nosso mágico mundo pela janela do monitor
No virtual mar - sou capitão; no virtual céu - sou condor!