Prof. Amilcar Bernardi
sábado, 4 de abril de 2026
domingo, 29 de março de 2026
Veleiros, óculos e ideologias...
Vamos imaginar a seguinte situação. Você é o capitão de um veleiro bem leve, frágil e veloz. Você aprendeu deste sempre que é preciso avaliar as ondas e os ventos para manter-se deslizando sobre as águas. Ir diretamente contra as ondas ou contra os ventos é improdutivo. É preciso habilidade. Compartilhar as velas com os ventos ora se contrapondo, ora indo a favor das ondas: é o melhor negócio. Este conjunto de micro decisões, quando se harmonizam, faz com que a leve nau vá na direção idealizada (Idealizado: projeto romantizado no pensamento).
Entretanto,
não é suficiente. O mais importante é para onde, como e porque vamos partir.
Sem estas perguntas, nem dá para sair do porto!
E se o
gênio maligno do Descartes sussurrasse o destino errado ou o porquê errado de
ir? E mais, e se a demoníaca criatura disse que o “certo” é o “errado” e
vice-versa? De que adiantaria ao magistral capitão bem gerir as águas e os
ventos navegando velozmente? Pobre capitão, não vê o que deveria ver e vê o que
dizem para ele ver! Naufrágios a frente!
As
ideologias são esse gênio maligno? A culpa é do capitão? Depende! Vamos
calmamente analisar.
Quero
dizer que somos na complexidade da vida como capitães navegando na realidade.
Veja, a realidade é tão complexa que não
conseguimos compreendê-la sozinhos. Desde pequenos nossa família, o pastor, o
professor, o advogado, o tio do Zap e o governo nos dizem como devemos
organizar, entender, priorizar, identificar o que devemos ser, desejar e escolher
entre tantas escolhas que o mundo físico e social nos oferece.
Somos
obrigados também a navegar sobre os mais diversos entendimentos. Somos capitães
num mar de entendimentos e escolhas.
Mas, caro
capitão, qual escolha, qual destino ou caminho é mais verdadeiro ou melhor do
que o outro? Bem, a priori não sabemos. É preciso decidir, estudar, dialogar,
trocar compreensões. Ou apenas ter fé
em nós mesmos (racionalmente a pior opção!)
Quero
dizer que damos sentidos ao mundo para sobre ele navegarmos. O nome disso é
ideologia.
Pois é,
ideologia é isso: como tudo é complexo demais, criamos destinos e sentidos para
podermos navegar na vida. Essas criações são coletivas, sociais, familiares e
culturais. Não é possível dizer se são corretas ou erradas. O que é possível
dizer é que algumas construções de sentido levam a sociedade ao sofrimento. Já
outras, não. E tudo não ocorre ao acaso. Como eu disse, é uma construção.
Não
existe neutralidade. Não nos iludamos.
Somos
orientados por ideologias. Navegar sem uma pré-compreensão e sentido já
escolhido é impossível. Antes de uma viagem sempre nos perguntamos: para onde?
Quando? Como? Quem vai comigo e quem não vai? E geralmente muita gente não vai.
Excluídos.
Joguemos
ao mar quem não cabe na nossa nau veloz! E jogamos muita gente!
A
ideologia é isso. Responde estas questões antes de agirmos na vida real.
Há
respostas que acabam com a pergunta. Melhor dizendo, há questões que, se
respondidas, derrubam a explicação vigente. Então tudo se transforma. Ou muita
coisa se transforma. Aprendemos. A ideologia se qualifica. Ou dá lugar para
outra, mais adequada aos avanços sociais, políticos, científicos,
econômicos...´
É verdade
que há perguntas que ficam escondidas. Ninguém fala delas. Sim, o amor à
manutenção do status quo impede a pergunta. Afinal, a pergunta transforma quem
pergunta. Então surge os conservadores. Eles impedem as perguntas para
conservar as cosias. Os conservadores devem ter muitos armários mofados cheios
de coisas guardadas nas suas embarcações. Coisas que, se vierem à luz, apodrecem
na hora!
As ideologias mudam as pessoas que mudam o mundo.
Em tempo:
ideologias são mais que apenas ideias.
Sartre
poria mais uma pimentinha nessa questão. Quando fazemos estas perguntas
essenciais para as viagens, somos responsáveis até por quem escolhemos para
perguntar!
Exemplo.
Pergunto a um extremista de direita se devo ou não apoiar a escala 5X1 para os
trabalhadores. Ora, escolhendo para quem perguntar, já escolho a resposta! A
decisão ideológica veio antes da pergunta.
A ideologia é o conjunto de concepções e representações que orientam nossa prática. Ela existia antes de nós. Mas nós a incorporamos. Ou rejeitamos em partes. Ou ainda mesclamos várias inovando. E somos responsáveis por isso. Somos sempre coautores das ideologias. Ela não vem do nada. Vem das relações sociais, econômicas, religiosas e políticas. Tem causas materiais. E, portanto, efeitos materiais também.
Outra
imagem que gosto de usar é a seguinte. Uma pessoa usando um par de óculos de
grau. A armação possui um dispositivo que torna possível ajustar as lentes para
ver melhor. À medida da necessidade, a pessoa gira o pequeno botãozinho na armação.
A lente se move ou é superposta por outra conseguindo novos focos. A única
coisa que não é possível é ver sem os óculos. Pois bem, as ideologias são
óculos. À medida que você se torna mais experiente, estudioso e hábil em fazer
críticas, a(s) ideologia(s) evoluem em você. Ficar com a mesma disposição das
lentes para todas as situações fará mal à sua visão.
Claro, há
aqueles que amam mais a posição das lentes do que a realidade. Talvez porque
tenham vantagens nisso. Há capitães que amam mais o trajeto retilíneo da viagem,
que recalcular o contato com as ondas e os ventos. Aí vai afundar ou afundar
alguém (ou ambos!).
Não há
certo ou errado. Há decisões melhores e piores para todos os envolvidos. E como
a terra é uma só, todos somos envolvidos. Melhor é o que é melhor para todos,
sempre.
Estou
expressando minha ideologia? Sim, faço parte dos que acreditam que melhor é o
que é bom para todos. Bato de frente com os que se consorciam ideologicamente
na competição pelo consumo predatório de tudo. Predatórios até de gente!
Quem não
reflete sobre suas convicções achando-se neutro, está a serviço de quem
refletiu e está consciente de que você não está. Os poderosos só são poderosos
enquanto encontram quem acredita no poder deles.
Como sermos sinceros se somos ideológicos?
Isso me
lembra a expressão grega parresia. Sócrates era assim. A parresia é a coragem
de dizer o que pensamos mesmo quando em perigo. Por exemplo: criticar o chefe
na presença dele. Ou dizer que erramos na frende dele. Parresia é dizer em
público o que pensamos. Haja coragem!
Então,
dizer o que acreditamos o tempo todo e para todos, verdadeiramente, nos expõe.
E expostos, sujeitos a críticas, estamos sempre nos avaliando e percebendo
novas e melhores possibilidades de estar no mundo com os outros. Isso é ótimo: correção das lentes dos óculos!
Somos
sujeitos ideológicos. O juiz é. O médico é. O professor é. O pastor é. Todos
somos.
Isso me
lembra o conceito de má fé em Sartre. Ou seja, não mintamos para nós mesmos. Aceitemos
que seguimos ideologias e somos responsáveis por isso. Ah! E que somos sempre
exemplos para alguém. Nossos exemplos fazem seguidores. Simples assim.
Somos
capitães que usam óculos. Portanto, sejamos mais críticos e dialógicos. Disso
depende nossas decisões. Juntos somos capitães de um planeta que depende de nós
para existir.
domingo, 22 de março de 2026
sábado, 14 de março de 2026
domingo, 8 de março de 2026
domingo, 1 de março de 2026
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Eu pergunto e a IA responde. A IA sabe das coisas!!!!!!
Diálogo sobre a Nova Natureza Humana: Do Lobo
de Hobbes ao Homem Consumidor
Interlocutor: Hobbes
disse que sem o Estado, o homem seria o lobo do homem. Mas, e se pensarmos na
economia? Esse lobo que devora outros lobos, sem o dinheiro, ficaria sem dentes?
Os adeptos do capitalismo afirmam que uma sociedade sem dinheiro se tornaria
uma massa sem organização e sem objetivos, onde ninguém mais produziria nada. Somente
produzimos pelo ideal da riqueza e do consumo.
Resposta (IA): Essa é a
provocação central da modernidade. Para Hobbes, o "contrato social"
nasce do medo da morte. O dinheiro, nesse contexto, é apenas uma tecnologia de
troca. Mas a ideia de que só produzimos pelo dinheiro é uma visão limitada do Homo
Economicus. A ciência mostra que somos motivados por propósito, status e
altruísmo. O problema de tirar o dinheiro não é a falta de vontade de
trabalhar, mas a perda de um "sinalizador de valor" em larga
escala. Sem dinheiro, a logística global colapsa, mas a produtividade humana em
si não morre; ela se volta para o que é essencial e local.
Interlocutor: Mas veja
bem: a nossa produtividade atual está ligada a produção do excesso. Se o Estado
organizasse a sociedade para o bem comum, o supérfluo seria desnecessário.
Poderíamos ter um cooperativismo estatal e comunitário baseado no ideal da
cidadania. Temos o exemplo de vários povos indígenas na Amazônia: eles não
conhecem a produção de excessos para o consumo, e ainda assim, possuem uma
organização social funcional e equilibrada.
Resposta (IA): Você
desloca o debate da eficiência para a finalidade. Ao citar os
povos originários, entramos na "Sociedade da Abundância Original".
Eles não acumulam porque a rede de reciprocidade é o seguro deles. Em uma
sociedade complexa, isso exigiria que o Estado deixasse de ser um vigia de
contratos para ser um coordenador de fluxos de recursos. O desafio seria
o estabelecimento de uma confiança absoluta: eu trabalho para o bem comum
porque confio que a comunidade cuidará de mim. É a substituição do valor de
troca pelo valor de uso.
Interlocutor: E não me
venha falar que a escassez impediria isso. Lidar com a escassez já é a regra no
capitalismo. Hoje, o Estado é o lobo de outro Estado, e o mais forte (economicamente)
devora o mais fraco na disputa por acumular riqueza. A escassez no capitalismo
é, muitas vezes, artificial ou gerida de forma violenta. Se há escassez o preço
se eleva; é desejável isso. Portanto, o medo da escassez não justifica a
manutenção desse sistema baseado em trocas infinitas.
Resposta (IA): Esse é o
ponto nevrálgico. O capitalismo precisa da escassez para manter os preços. Se
houver abundância, o valor de troca cai a zero. Contrariamente sua visão propõe
que produzir menos seria, na verdade, uma escolha ética: produzir menos
"coisas" para produzir mais "humanidade", respeito
ecológico e tempo livre.
Interlocutor: Exato. Mas
vamos além: o homem não é mais apenas o lobo do outro homem; hoje, o homem é o consumidor
do outro homem. O Estado deveria se preocupar menos com a "guerra de todos
contra todos" e mais com esse desejo de consumo infinito (artificialmente
estimulado). A violência contemporânea não vem de um instinto puramente animal,
mas de uma moral capitalista que estimula o desejo sem fim. As pessoas acabam
cedendo a ideais de extrema direita porque a solidariedade foi destruída pela
propaganda da meritocracia e do consumo.
Resposta (IA): Essa
conclusão fecha o ciclo. Na "sociedade dos consumidores", a pessoa próxima
deixa de ser um par para se tornar um recurso ou um obstáculo. A extrema
direita cooptou a ideia de liberdade transformando o "lobo" em um
modelo de virtude individualista. O que estamos fazendo aqui — este
exercício mental — é uma forma de resistência. Mesmo que o futuro pareça
uma distopia inexorável, manter viva a capacidade de enxergar o valor de uso e
a fraternidade cidadã é o que nos permite desnaturalizar o presente e, quem
sabe, encontrar uma bússola para o amanhã.
Interlocutor: A extrema
direita não propõe a liberdade política democrática.
Reposta (IA): Para esse
espectro político, a liberdade de produzir, lucrar e consumir é elevada ao
status de direito natural supremo. O capitalismo, nesse sentido, é visto como a
"ordem natural" das coisas. O Estado deve ser "mínimo" para
taxar fortunas ou proteger o meio ambiente, mas deve ser "máximo"
para garantir que o consumo e a propriedade privada não sejam questionados. A
liberdade aqui é a liberdade de predação: o lobo de Hobbes agora tem o
"direito sagrado" de consumir o mais fraco sob o manto da
meritocracia.
Interlocutor: A extrema
direita tem medo da democracia?
Reposta (IA): A questão
que você coloca é fundamental. A democracia é, por natureza, ruidosa, lenta e
baseada em concessões. Para quem prega o consumo infinito e a hierarquia
natural, a liberdade política (voto, protesto, direitos de minorias,
diversidade) é vista como um obstáculo à eficiência. A participação
cidadã — aquela fraternidade que discutimos — é perigosa para o sistema
de consumo, pois a cidadania pode decidir, coletivamente, que o lucro de uma
empresa não vale mais que a saúde de um rio. Podemos concluir que a extrema
direita propõe um pacto socialmente relevante: "Eu te dou a ilusão de
que você pode ser um mestre do consumo (meritocracia), se você me der o seu
direito de decidir o rumo da sociedade (política)." No fim, a
liberdade que eles oferecem é a liberdade de escolher entre marcas em uma
prateleira, enquanto a porta da participação política é trancada por fora.
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Nascido em 1900, em Frankfurt, Alemanha, Erich Fromm estudou psicologia e sociologia. Doutorou-se em Filosofia em Munique e recebeu sól...
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