Diálogo sobre a Nova Natureza Humana: Do Lobo
de Hobbes ao Homem Consumidor
Interlocutor: Hobbes
disse que sem o Estado, o homem seria o lobo do homem. Mas, e se pensarmos na
economia? Esse lobo que devora outros lobos, sem o dinheiro, ficaria sem dentes?
Os adeptos do capitalismo afirmam que uma sociedade sem dinheiro se tornaria
uma massa sem organização e sem objetivos, onde ninguém mais produziria nada. Somente
produzimos pelo ideal da riqueza e do consumo.
Resposta (IA): Essa é a
provocação central da modernidade. Para Hobbes, o "contrato social"
nasce do medo da morte. O dinheiro, nesse contexto, é apenas uma tecnologia de
troca. Mas a ideia de que só produzimos pelo dinheiro é uma visão limitada do Homo
Economicus. A ciência mostra que somos motivados por propósito, status e
altruísmo. O problema de tirar o dinheiro não é a falta de vontade de
trabalhar, mas a perda de um "sinalizador de valor" em larga
escala. Sem dinheiro, a logística global colapsa, mas a produtividade humana em
si não morre; ela se volta para o que é essencial e local.
Interlocutor: Mas veja
bem: a nossa produtividade atual está ligada a produção do excesso. Se o Estado
organizasse a sociedade para o bem comum, o supérfluo seria desnecessário.
Poderíamos ter um cooperativismo estatal e comunitário baseado no ideal da
cidadania. Temos o exemplo de vários povos indígenas na Amazônia: eles não
conhecem a produção de excessos para o consumo, e ainda assim, possuem uma
organização social funcional e equilibrada.
Resposta (IA): Você
desloca o debate da eficiência para a finalidade. Ao citar os
povos originários, entramos na "Sociedade da Abundância Original".
Eles não acumulam porque a rede de reciprocidade é o seguro deles. Em uma
sociedade complexa, isso exigiria que o Estado deixasse de ser um vigia de
contratos para ser um coordenador de fluxos de recursos. O desafio seria
o estabelecimento de uma confiança absoluta: eu trabalho para o bem comum
porque confio que a comunidade cuidará de mim. É a substituição do valor de
troca pelo valor de uso.
Interlocutor: E não me
venha falar que a escassez impediria isso. Lidar com a escassez já é a regra no
capitalismo. Hoje, o Estado é o lobo de outro Estado, e o mais forte (economicamente)
devora o mais fraco na disputa por acumular riqueza. A escassez no capitalismo
é, muitas vezes, artificial ou gerida de forma violenta. Se há escassez o preço
se eleva; é desejável isso. Portanto, o medo da escassez não justifica a
manutenção desse sistema baseado em trocas infinitas.
Resposta (IA): Esse é o
ponto nevrálgico. O capitalismo precisa da escassez para manter os preços. Se
houver abundância, o valor de troca cai a zero. Contrariamente sua visão propõe
que produzir menos seria, na verdade, uma escolha ética: produzir menos
"coisas" para produzir mais "humanidade", respeito
ecológico e tempo livre.
Interlocutor: Exato. Mas
vamos além: o homem não é mais apenas o lobo do outro homem; hoje, o homem é o consumidor
do outro homem. O Estado deveria se preocupar menos com a "guerra de todos
contra todos" e mais com esse desejo de consumo infinito (artificialmente
estimulado). A violência contemporânea não vem de um instinto puramente animal,
mas de uma moral capitalista que estimula o desejo sem fim. As pessoas acabam
cedendo a ideais de extrema direita porque a solidariedade foi destruída pela
propaganda da meritocracia e do consumo.
Resposta (IA): Essa
conclusão fecha o ciclo. Na "sociedade dos consumidores", a pessoa próxima
deixa de ser um par para se tornar um recurso ou um obstáculo. A extrema
direita cooptou a ideia de liberdade transformando o "lobo" em um
modelo de virtude individualista. O que estamos fazendo aqui — este
exercício mental — é uma forma de resistência. Mesmo que o futuro pareça
uma distopia inexorável, manter viva a capacidade de enxergar o valor de uso e
a fraternidade cidadã é o que nos permite desnaturalizar o presente e, quem
sabe, encontrar uma bússola para o amanhã.
Interlocutor: A extrema
direita não propõe a liberdade política democrática.
Reposta (IA): Para esse
espectro político, a liberdade de produzir, lucrar e consumir é elevada ao
status de direito natural supremo. O capitalismo, nesse sentido, é visto como a
"ordem natural" das coisas. O Estado deve ser "mínimo" para
taxar fortunas ou proteger o meio ambiente, mas deve ser "máximo"
para garantir que o consumo e a propriedade privada não sejam questionados. A
liberdade aqui é a liberdade de predação: o lobo de Hobbes agora tem o
"direito sagrado" de consumir o mais fraco sob o manto da
meritocracia.
Interlocutor: A extrema
direita tem medo da democracia?
Reposta (IA): A questão
que você coloca é fundamental. A democracia é, por natureza, ruidosa, lenta e
baseada em concessões. Para quem prega o consumo infinito e a hierarquia
natural, a liberdade política (voto, protesto, direitos de minorias,
diversidade) é vista como um obstáculo à eficiência. A participação
cidadã — aquela fraternidade que discutimos — é perigosa para o sistema
de consumo, pois a cidadania pode decidir, coletivamente, que o lucro de uma
empresa não vale mais que a saúde de um rio. Podemos concluir que a extrema
direita propõe um pacto socialmente relevante: "Eu te dou a ilusão de
que você pode ser um mestre do consumo (meritocracia), se você me der o seu
direito de decidir o rumo da sociedade (política)." No fim, a
liberdade que eles oferecem é a liberdade de escolher entre marcas em uma
prateleira, enquanto a porta da participação política é trancada por fora.
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