Quero
falar da indisciplina escolar. Porém, vou tentar sair do senso comum. Qualquer
um é capaz de lamentar a existência de sujeitos que não se submetem aos
comandos do professor. Qualquer um pode escolher a seu gosto o “culpado” disso.
Uns condenam a família, outros o professor, outros tantos culpam o estudante. Afinal,
culpar é melhor e mais fácil que entender. Entender dá mais trabalho. Inclusive,
é perigoso descobrir que fazemos parte do problema!
Preciso
dizer que a maioria dos estudantes não escolhe indisciplinar. Indisciplinar não é como escolher
comer o lanche X ou o Y. Indisciplinar na escola é uma escolha difícil para o
indisciplinado. Percebam que o preço da indisciplina é muito alto. Chega a ser
uma ingenuidade acreditar que esta escolha é banal, fácil e sempre prazerosa.
Ora,
indisciplinar tem como consequência imediata a repreensão em sala de aula. Logo
vem as notas baixas e os pais são chamados à escola. Mas ainda é pior. Mesmo
que os pais protejam seus filhos, a sociedade não. Afinal, as seleções para
empregos, os concursos públicos não "perdoam". Os melhores empregos e os cursos acadêmicos mais procurados, continuam
a serem admirados e sendo sinais distintivos dos melhores sobre os não são tão
bons.
Portanto,
o indisciplinado será provavelmente um discriminado. Se isso é justo ou não,
fica para o julgamento pessoal do leitor deste artigo.
Não dá
para romantizar a indisciplina. Ela cobra seu preço. E cobra caro. Às vezes as
consequências acompanham uma vida inteira. Portanto, ser indisciplinado não é
coisa fácil: é de alto risco! Acredito até que não é uma escolha. E não é porque
os envolvidos não são livres para decidir. Já foi decido por outros no lugar deles. Inúmeras vezes
nem têm consciência do preço que estão pagando, ou vão pagar, pela indisciplina.
Explicarei.
Para
refletir sobre este tema, não vou priorizar os neurodivergentes, pois quero
discutir a questão numa visão mais ampla, ou seja, sob os aspectos
sociológicos, políticos e culturais.
Sou
leitor do Zygmunt Bauman. Em um de seus livros ele fala da sociedade a crédito.
Ele fala do tempo em que as pessoas acreditavam na poupança feita no banco. Nossos (bisa)avós viveram em um período em
que os bancos ofereciam dinheiro para guardar nosso dinheiro. Ou seja, uma
conta poupança rendia juros ao poupador. Então, as crianças eram estimuladas a
guardar o dinheirinho para depois comprar o que queriam. A lógica: suspenção da satisfação do desejo - deixar o
dinheiro no banco - ganhar dinheiro com os juros (o banco pagava para ficar
com o dinheiro) e, depois, só depois, a
satisfação do desejo (a compra de algo tão querido). Hoje, esta lógica
inverteu-se. Satisfazemos o desejo
comprando o que queremos - devemos para o cartão de crédito - pagamos juros para o cartão e nos tornamos tão satisfeitos
quanto endividados. Por que lembrei disso?
Nossas
crianças e jovens já nasceram no tempo do consumo. No tempo do pagamento em dobro
pelo consumido (o preço + os juros do cartão) e da satisfação imediata de um desejo. Hoje
nós temos dificuldade em administrar os riscos desta lógica. Vivemos
endividados e na iminência de perder o crédito. Tudo nos induz a satisfação
imediata, ao não planejamento e a (caríssima!) renegociação de nossas dividas.
Uma loucura!
Na música
Pais e Filhos da banda Legião Urbana tem um verso que diz:
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse o amanhã
Porque se você parar para pensar
Na verdade não há.
Tudo nos
leva a modificar essa letra para:
É preciso consumir o que queremos
Como se não houvesse o amanhã
Porque se você parar para pensar
Na verdade não há.
Vivemos e
somos ensinados a viver regidos pelo princípio do prazer. Lembrando Freud, este princípio da psique é uma
força primitiva, inata e irracional. Ela reside no Id. Esse princípio exige de
nós satisfação imediata. Não calcula consequências.
Em tempo:
a indisciplina é a satisfação imediata que não calcula consequências.
A
propaganda, as lojas e os bancos trabalham bem com este princípio. Com ele se
aliam nos impondo o consumo “como se não houvesse amanhã”. Se o amanhã (ainda) não
há, o consumo é hoje, para hoje. E as crianças e os jovens? Para estes, esta
lógica se impõe. Sentir e pensar o mundo desta forma é viver para rejeitar a
frustração (a frustração da espera).
Acontece
que a escola e o aprender são similares a poupança. Já a indisciplina é similar
ao endividamento do cartão de crédito. Aprender exige tempo. Aprender exige
aceitar as frustrações temporárias. Cada dia de “lentidão” (aprender é algo
lento) é uma poupança que rende juros compostos (para o futuro).
Como
ensinar que essa poupança só premia os mais “lentos”, atentos e afeitos às
frustrações temporárias?
A escola (o
óbvio precisa ser dito!) é em primeiro lugar um lugar para aprender. Aprender é
uma questão bem mais profunda do que apenas aceitar a disciplina. A disciplina,
na escola, não é moralizante. É mais um habituar-se, um organizar-se para poder
dedicar-se mais à aprendizagem.
Aprender
é uma poupança. Indisciplinar é viver a crédito. E viver a crédito é gozar hoje.
Mas o preço é não ganhar “juros cognitivos” para o futuro.
Vou
arriscar um conceito de disciplina sob este viés:
Disciplina é a capacidade cognitiva (duramente)
adquirida pelo estudante do hábito de (bem) administrar seu tempo, para crescentes
lucros cognitivos futuros. É a capacidade de driblar o princípio do prazer
imediatista e irracional, para poder investir calmamente em um capital
cognitivo crescente. O estudante é o seu próprio investidor.
A questão
é que tudo vai a favor do consumo, do gozo e da irreflexão. Da propaganda aos
pais. Do empregador ao empregado. Todos querem tudo aqui e agora! Pobres
crianças e jovens tão endividados com a indisciplina que comprometem a
aprendizagem atual e futura. Portanto, indisciplinar é uma questão econômica, ideológica
e política.
O professor
está em franca desvantagem. Há uma assimetria entre o mestre (lento e
persistente) e o sistema capitalista (imediatista e consumista).
A escola,
portanto, não lida com a disciplina por uma questão moral. A escola sabe, e
quer ensinar ao estudante, que é preciso aprender a suportar frustrações hoje
para lucros intelectuais futuros. A disciplina é o instrumento para a emancipação/libertação
do princípio do prazer imediato. É a constante busca pela autonomia e pela
liberdade do jovem de escolher desacelerar para estudar, ler, interpretar o
mundo (no sentido dado por Paulo Freire). E para quê? Para novamente (mais)
estudar, (mais) ler e (mais) interpretar.
Espero
ter conseguido me fazer entender. A disciplina não é para moralizar nem é para
ganhar dinheiro, nem é um exercício de poder. Ela uma poupança que recebe juros
cognitivos em progressão geométrica.

