quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
As dificuldades sobre o socialismo – John Stuart Mill (1806 – 1873)
Pretendo fazer uma resenha crítica da parte
intitulada As dificuldades do socialismo,
da obra Capítulos sobre o socialismo,
de autoria do John Stuart Mill. Como metodologia, vou atentar primeiro para os
fatos negativos em relação ao socialismo/comunismo. Logo após, apresentarei os
contrapontos. Tentarei dispor as posições de Mill de forma a equilibra-las
neste texto, como numa balança: desfavoráveis de um lado, favoráveis de outro. Tendo
o mesmo “peso”, se anulam. A balança imaginária ficará equilibrada. Farei
observações na tentativa de ampliar a compreensão, sem interferir no equilíbrio
proposto.
John Stuart Mill viveu num tempo de agitação de
ideias em relação a economia e ao “tamanho” do Estado. Podemos compreendê-lo
como um liberal, favorável a uma economia de mercado. Entretanto, percebia a
situação desfavorável em que viviam os trabalhadores. Compreendeu que havia um
problema na distribuição do capital. No capitalismo, a distribuição das suas
benesses não ocorria de uma forma justa. Mas não aceitava as ideias
revolucionários dos comunistas, pois o perigo da violência e do caos superava
as expectativas de sucesso a curto prazo. Desejava uma economia socializada e
solidária a ser construída com o passar do tempo sem a necessidade da eliminação
do mercado.
Primeiro prato da
balança.
Seja socialismo ou comunismo, há uma
dificuldade importante: sua implantação. Esta dificuldade está vinculada ao
costume das pessoas em relação a propriedade. Ninguém quererá facilmente,
deixar o que é seu em nome de uma ideia, de uma proposta que ainda não existe
de fato, que sequer foi testada. Portanto, tanto pior será a reação quanto mais
rápida for a implantação. O pior cenário é a implantação por uma revolução. Uma revolução levará a utilização da
violência. Passar da propriedade privada dos meios de produção à propriedade
coletiva, pode ser algo traumático. Segundo John Stuart Mill: “A primeira (forma de socialismo a ser
implantada lentamente) tem também a vantagem de poder ser implantada
progressivamente e demonstrar as suas habilidades mediante experimentação. Pode
ser experimentada inicialmente numa população selecionada e estendida a outras
na medida em que o permitam sua educação e sua cultura. (...) (01)
Não menos importante, é a dificuldade em
encontrar, num ambiente comunista ou socialista, indivíduos dispostos a gerir
os negócios. Afinal, o dirigente assumiria enorme responsabilidade, entretanto,
teria uma remuneração por seus esforços muito similar ou igual aos demais
trabalhadores. A moralidade atual, embasada na competição e no mérito, impede
que os mais qualificados se apresentem como voluntários para a gerência das
associações coletivas. A gratificação de ganho maior para maior
responsabilidade, produtividade ou qualificação está ausente no socialismo. Os
interesses pessoais não estariam contemplados e, portanto, não haveria
motivação suficiente para maior empenho individual. A educação familiar,
escolar ou social (capitalistas) não são favoráveis ao desenvolvimento de
valores altruístas.
Mesmo que alguém se proponha a gerenciar a
produção num espaço socialista, seria bastante difícil tomar as decisões. Estas
ocorreriam de forma lenta e sofrível. O poder desta pessoa estaria limitado à
votação da decisão por uma assembleia de pessoas de poderes iguais. Buscar o
consenso entre pessoas em pé de igualdade, é muito difícil. Requer tempo,
paciência e experiência. Afirma Mill: “(...).
Evidentemente, sua autoridade seria resultado de eleição pela comunidade, pela
qual sua função pode a qualquer momento ser retirada deles; o que tornaria
necessária para eles, mesmo que não determinado pela constituição da
comunidade, a obtenção de consenso geral dessa comunidade antes de proceder a qualquer
alteração do modo estabelecido de conduzir o empreendimento. A dificuldade de
persuadir um corpo numeroso a mudar o modo costumeiro de trabalhar, mudança que
frequentemente perturba bastante, e o fato de o risco ser muito mais claro em
suas mentes do que as vantagens, ensejariam uma grande tendência a manter as coisas
como sempre foram. ” (02). São tantas as dificuldades que seria muito mais
vantajoso ao trabalhador, rejeitar as posições de comando. As administrações
privadas têm, nesse sentido, muito mais facilidades e vantagens sobre as
administrações coletivas.
O fato de cada trabalhar ganhar o mesmo ou ter contraprestação
similar aos demais, não é algo justo e causará bastante desconforto. Pessoas
mais fortes receberão o mesmo quinhão que os mais fracos (que produziram menos).
O mesmo acontecerá com o profissional mais qualificado e o menos qualificado. A
igualdade não é menos complexa. Numa comunidade, exigir trabalhos iguais para
trabalhadores desiguais é problema sério. Segundo o autor: (...) Mas, além disso, ainda é um padrão muito
imperfeito de justiça exigir a mesma quantidade de trabalho de todos. As
pessoas têm capacidades desiguais para o trabalho, tanto mentais como físicos,
e o que pode ser tarefa leve para um é uma carga insuportável para o outro.
(...) (03). Sabendo desta dificuldade, os egoístas e preguiçosos, tenderão
a tirar proveito disso; trabalhando menos que os outros na esperança de sua
retribuição ser igual.
Fica evidente que, para uma convivência
saudável na coletividade, é exigido alto grau de consciência da importância dos
valores morais que permitam o agir em prol do grupo. A educação assume,
portanto, um papel de relevância nesse sentido. O problema está na questão de
como serão ensinados os filhos, pois é uma questão muito valorizada pelos pais.
Caso alguns destes não desejem o tipo de educação oferecido pela comunidade,
não terão outra escolha. Não é fácil aceitar a maioria quando somos
discordantes dela. O problema da liberdade individual não fica resolvido. Nas
palavras de Mill: “Está aqui uma das mais
frutíferas causas de discórdia em qualquer associação. Todos que tivessem
opinião ou preferência formada com relação à educação que desejariam para seus
próprios filhos, teriam de se valer de sua chance de obtê-la com base na
influência que pudessem exercer sobre a decisão conjunta da comunidade” (4). Usar
de influência nada mais é que uma corrupção do ideal socialista. Seria uma
forma de prevalecer o interesse privado sobre o coletivo, além de corromper a
autoridade encarregada.
A preocupação em agir de acordo com os
interesses coletivos, não é algo que possa ser aceito facilmente. Ora, a
liberdade privada e os interesses familiares são invadidos pelos interesses da
coletividade. Não será possível mais agir como indivíduo. As ações pessoais
serão limitadas pelas ações permitidas pela maioria. A renúncia pessoal em nome
do social é um problema enorme, um empecilho que não pode ser menosprezado. É o
predomínio da autoridade pública em detrimento da consciência individual. Literalmente,
o autor afirma: (...). Em todas as
sociedades, o constrangimento da individualidade pela maioria já é um mal
grande e crescente; ele seria ainda maior sob o comunismo, a menos que ofereça
aos indivíduos o poder de estabelecer limites a ele pela opção de pertencer a
uma comunidade de pessoas com mentalidade semelhante à sua. ” (05)
Até este momento, mostramos apenas o prato da
balança em relação ao aspecto negativo do socialismo ou do comunismo; apontados
pelo filósofo Mill. Agora, vamos trabalhar o outro prato da balança. Acrescentando
os aspectos positivos, pretendemos igualar os “pesos” de ambos os lados,
equilibrando a balança. Continuaremos utilizando, por óbvio, o mesmo autor na mesma obra.
Segundo prato da
balança
Mill afirma que a implantação abrupta do
comunismo acarretará o fracasso da tentativa. Entretanto, será possível tal
implantação se ela fosse cautelosa. No socialismo, através de experiências sucessivas
em pequenas escalas, a população perceberá a viabilidade e as vantagens de tal
sistema. Também, os gestores das associações e cooperativas, com seus erros e
acertos, aprenderão a melhor forma de trazer à realidade as ideias socialistas.
Portanto, é inegável que a implantação do modelo socialista é viável e
vantajosa, mas não pode se realizar rapidamente sob pena de haver caos e
derramamento de sangue. A progressiva democratização da gestão dos meios de
produção, irá desenvolver a consciência dos trabalhadores. O desenvolvimento de
uma consciência social, de uma visão coletiva, é fundamental, e isso não
acontece de forma rápida. É preciso boa caminhada para aprender a viver a
liberdade socialista, principalmente para pessoas acostumadas à sujeição
oriunda da competição capitalista.
No ambiente atual da competição e dos ganhos
individuais, o trabalhador só se esforça e se qualifica na medida e proporção
das vantagens pessoais que percebe. A esperança de mais ganhos e ascensão
profissional é impulso muito forte para a produção crescente deste trabalhador.
Mas, há outros valores possíveis, como a honra ou a percepção que o trabalho de
cada um é bom para a comunidade, que os frutos do trabalho são para si, mas
também para os demais. Tais valores, são em muito superiores aos interesses egoístas.
Há motivos eticamente superiores ao ganho individual. A educação habitual não
enfoca os valores mais elevados. Uma mudança educacional é muito importante. É
imperioso dar mais importância aos interesses coletivos, ao que é bom para a
comunidade. Aos poucos, lentamente, é possível ensinar que o trabalho coletivo
é muito mais importante e produtivo que o trabalho somente para crescimento
individual. Quando trabalhamos para a melhoria das condições de todos, e
inclusive para nós próprios, o impulso pessoal será muito mais efetivo. Fica
claro que, assim motivado, o trabalhador assumirá qualquer das funções nas
cooperativas, até as de gerência. E isso por motivos mais nobres que os ganhos
pessoais. Nessas cooperativas, os proletários têm voz e se submetem, por
consequência, às suas próprias determinações (a hierarquia é abrandada). O
ambiente é democrático e produtivo. De certa forma, todos comandam e são
comandados.
A democracia na gerência das cooperativas e
associações, tem seu preço. As decisões precisam ser deliberadas e votadas, o
que as torna mais complexas. Mas, não necessariamente a complexidade é ruim.
Percebamos que numa cooperativa socialista, todos os membros estão motivados
por uma moral coletiva, e todos entendem do trabalho. Portanto, colocarão na
gerência o melhor deles. Seus votos serão de qualidade nas decisões, pois todos
são especialistas no assunto, e têm a convicção que são bem gerenciados, afinal,
estes especialistas escolheram a sua gerência. Diz Mill: “Contra isso (a dificuldade das votações), deve se colocar que a escolha
feita por pessoas que têm interesse direto no sucesso do empreendimento,
conhecimento prático e oportunidade de julgamento pode-se supor que em média
resulte em gerentes mais capazes do que os azares do nascimento que hoje
determinam quem será o proprietário do capital” (...) (06). Outro fator
para querer ser gestor, será o desprazer de não sê-lo e ser comandado por
alguém menos preparado. E mais: “mas, em
compensação, deve-se afirmar que sob o comunismo o sentimento geral da
comunidade, composta de companheiros sob cujos olhos cada pessoa trabalha,
seria certamente favorável ao trabalho bom e duro, e desfavorável à preguiça,
ao descaso e ao desperdício” (07) Esse espaço cooperativo levará às pessoas
a encontrarem a liberdade e a independência, isso de forma responsável em
relação aos companheiros; sem violência ou coação. Isto é o mais perto que
podemos chegar de uma justiça social.
Pessoas diferentes recebendo igual
contraprestação à sua dedicação. Pessoas fracas sendo exigidas como se fossem
fortes. Essas questões dadas ao bom gestor, são logo equacionadas. Caso mantenhamos
nossa atual mentalidade, ou seja, sermos propensos a trabalharmos somente em
proveito próprio, o ideal de uma justiça distributiva na cooperativa
socialista, é inviável. Mas, nas palavras de Mill: “Estes inconvenientes pouco seriam sentidos, pelo menos durante algum tempo,
em comunidades compostas de pessoas escolhidas, sinceramente desejosas do
sucesso da empresa; mas planos para a regeneração da sociedade têm de
considerar os seres humanos médios, e não apenas aqueles, mas o grande resíduo
das pessoas muito abaixo da média em virtudes pessoais e sociais”. (08) A
medida que os trabalhadores forem exercitando um alto padrão ético e
intelectual, possíveis injustiças serão minimizadas. O fato de não existir uma
justiça cem por cento eficaz, não inviabiliza a visão socialista. Também
importa salientar, que a todos pertencem os meios de produção e a divisão do
trabalho. Que o produto deste trabalho, será um ato público conforme regras
anteriormente estabelecidas (e aceitas) pela comunidade. Algum desequilíbrio
será resolvido ou mantido pela própria comunidade.
Mill salienta, sempre que possível, a
importância da experiência de uma ética social, ou seja, dos valores sociais. A
educação é um dos principais instrumentos. Mas, quem decide quais valores a
serem ensinados? E os discordantes? Uma dica já foi dada no parágrafo anterior.
As regras são discutias e previamente elencadas. Cada pessoa falará livremente
de suas discordâncias. Portanto, cidadãos iguais discorreriam sobre seus ideais.
Mesmo sendo impossível a unanimidade, o consenso (mesmo não absoluto) traria a
concórdia e aceitação crítica. O diálogo livre entre iguais, convence da
importância de um acordo a ser seguido. Em uma comunidade bem constituída,
todos são ganhadores com o sucesso das outras pessoas; o mesmo vale para a
discussão sobre a educação.
A prevalência do social sobre o individual, de
fato, interfere nas vidas privadas. Então é possível dizer que o espaço
individual se dissolve no coletivo? Evidentemente que não. Mill é um filósofo
muito preocupado com a liberdade. A consciência individual aparece e brilha nas
discussões sobre o espaço público e no espaço público. O sujeito crítico,
livre, num ambiente de iguais, portanto, democrático, expõe sua visão
particular e a submete às demais visões. Cada indivíduo não se deixa invadir,
mas se convence do que é melhor para todos. Aceita livremente o que foi
decidido, pois sabe que ninguém tem má fé e todos querem o bem da comunidade. Mill
reconhece que, no socialismo ou no comunismo, não há uma concórdia celestial e
plena. A realidade é sempre perturbada, pois as individualidades não se perdem.
Evidentemente que estas discórdias não são as mesmas das sociedades
capitalistas. Elas continuam a existir; mesmo que sejam em função da reputação,
reconhecimento ou poder pessoal. Nunca deixaremos de ser humanos e, por
consequência, sujeitos conflitantes. É saudável que haja posições conflitantes,
pois, o conflito é da natureza da democracia, mas principalmente, da natureza
humana. As pessoas nunca deixarão de pensarem por elas mesmas.
01) Capítulos sobre o socialismo. John Stuart
Mill. 1ª edição, São Paulo, Editora Fundação
Abramo. 2001. Página 91
02) Idem. Página 96.
03) Idem. Página 100
04) Idem. Página 102
05) Idem. Página 103.
06) Idem. Página 96
07) Idem. Página 98.
08) Idem. Página 101
sábado, 27 de janeiro de 2018
Funk: o fetichismo incentivado
"Certo grau de fetichismo, portanto, está habitualmente presente no
amor normal, especialmente naqueles seus estágios em que o objetivo sexual
normal parece inatingível ou sua consumação é impedida". Freud
- Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.
Podemos dizer que o fetiche é algo que é
colocado no lugar do objeto “natural” de desejo sexual. Algo, uma parcela do
que vê, faz com que a pessoa se sinta excitada. Pode ser um objeto, como um
sapato feminino de saltos altos, ou pode ser parte do corpo de uma pessoa (o
tórax malhado, por exemplo). Depreende-se que todos nós somos um tanto
fetichistas. Ninguém escolhe seu fetiche, pois sua origem é inconsciente. Sem
problemas!
O fetiche não é nem bom nem mau. Só será
um mau quando causar infelicidade, dor psíquica ou sofrimento. Fora disso,
apenas podemos dizer que é um fato da sexualidade humana, portanto,
algo amoral (atentem para o “a” antes da “moral”. Não é um “i”.)
Mas, passa a ter um componente
preocupante quando um fetiche é conscientemente incentivado. Quando as mídias
intencionalmente treinam o olhar e o desejo para fragmentar a pessoa. Uma
mulher (ou homem) é sensual no seu contexto. O olho, o braço, a perna, a
cintura, tomados por si só, nada significam. A sensualidade não está aqui ou
ali. Está no conjunto. O homem ou a mulher, são sensuais no seu todo corporal.
Quando as músicas e as coreografias
ensaiadas, notadamente no funk, celebram e focalizam a bunda feminina, têm a
intenção de criar um fetiche.
Olha a explosão
Quando ela bate com a
bunda no chão
Quando ela mexe com a
bunda no chão
Quando ela joga com a
bunda no chão
Quando ela sarra e o
bumbum no chão chão
(Olha a explosão – Mc
Kevinho)
|
Fico impressionado com as celeumas
artificiais incentivadas. Percebo isso quando é dito que a artista
tal é corajosa porque mostra a bunda com celulite, e isso repercute! Mesmo sem
ter relevância alguma. Pior fica quando alguém defende que a mulher
tem o direito de mostrar o que quiser e, na sequência, defende o empoderamento
feminino ao mostrar a bunda. A defesa do direito de “mostrar o quiser” e da
tese do “empoderamento”, só se torna visível (relevante) quando a bunda é
focada. As bundas portam uma mulher!
Então as clínicas vendem tratamentos para
as bundas (não para as mulheres). As músicas se submetem a terem letras que
valorizem o culto às bundas. As cantoras passam a terem bundas magníficas.
Bundas vendem bem. E como tudo que vende, o mercado tende a empurrar o consumo,
manter o desejo, estimular a procura. Se a bunda tiver uma boa voz e talento,
melhor, mas não necessariamente.
A questão não é a bunda em especial, mas
o fetiche que é imposto. A questão não é a mulher de nádegas lindas. Não! A
questão é a intenção de fixar a sexualidade num ponto do corpo feminino. O
problema é sobrepor a parte ao todo. Quero dizer, a sensualidade está no
conjunto da mulher! Ela toda é sensual, não pode ser fragmentada. Impor, vender
e comprar um fetiche conscientemente, merece ser questionado.
Para que não aja dúvidas quanto a
intenção de ensinar o fetiche bunda, as letras medíocres das músicas indicam
para onde deve o olhar se fixar. As letras dizem o que (no corpo) valorar
sexualmente. O olhar tem que ser direcionado. Sem esquecer as expressões
faciais do cantor. Geralmente, expressam direção, fixação e desejo sexual
(nunca amoroso). As bailarinas e as cantoras movimentam seus quadris, sempre
num sentido vertical (sobe e desce) rítmico, oscilante. Sempre mais do mesmo.
E quando os (as) compradores (as) de
glúteos (os consumidores de músicas e de fetiches impostos) se cansam, vem algo
novo, sempre mais provocativo. Vale tudo para manter a fixação.
As gravadoras e as indústrias de
cervejas, agradecem.
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Escola, informação e ensinar política.
As informações estão nos ares cibernéticos e midiáticos. Na ponta dos dedos ao teclar, e na retina ao
ver e ler o mundo, está tudo o que a humanidade pode informar. Está ao alcance
dos sentidos e quase de graça. Dá uma
enorme vontade de dizer que só não aprende quem não quer.
Os alunos são surfistas nas águas das informações. Pegam suas pranchas
“internéticas” e surfam nas melhores ondas, é claro. Escolhem aquelas que darão
mais emoções. Vão até aquelas que os estimulem a mais surfar. Ondas chatas,
pequenas, previsíveis e ritmadas não são as preferidas. Não importa a qualidade
do conteúdo, mas a força da onda!

Sabemos que ensinar não pode ser apenas entrar em contato com as ondas
de informações. Isso porque, como já foi dito, elas estão em todos os lugares
soltas, jogadas, sem nexo; um perigo! O que se exige é que as instituições
escolares ensinem aos jovens a serem críticos, estudiosos, que tenham
sociabilidade, que aceitem as diferenças, que sejam pessoas que saibam dialogar,
que saibam posicionarem-se, que sejam polidos e que sejam bons cidadãos.
Por isso, as
escolas estão sendo chamadas a ensinar os jovens a serem políticos, e não
surfadores de informações midiáticas. Claro que me refiro ao termo política da Grécia clássica, ou seja, a
arte de encontrar o bem nos procedimentos relativos a cidade. Para isso, os
sofistas ensinavam a retórica (argumentar bem) e os filósofos falavam da ética
(vida justa entre muitos). Segundo os
clássicos, ser um sujeito político é saber viver bem na cidade, é aceitar os
limites da lei e da ordem estabelecida pela maioria. Para que seja possível
encontrar um sentido para o jovem crescer em sociedade, num oceano caótico de
informações a ele disponível, é necessário que os educadores incentivem
reflexões políticas, éticas. Afinal, as informações estando liberadas em grande
quantidade, tornou-se de suma importância saber o que fazer com elas para o bem
de todos.
Caso minhas
reflexões sejam verdadeiras, é preciso que todos percebam isso claramente, sem
hipocrisias. Digamos aos educadores: ensinem
mais a discernir o bem coletivo e menos os conteúdos desconectados da vida em
sociedade.
Então, assumamos
os riscos disso e pronto. O que não pode acontecer é pedir cada vez mais que os
professores deem informações aos alunos (competir com a internet?). Nem é
possível acrescentar mais responsabilidades às instituições escolares já
assoberbadas. A sociedade não pode pedir o que desvirtua a principal finalidade
das escolas, que é aprendizagem de uma vida ética através dos conhecimentos
acumulados.
Surfar pelas
informações está cada vez mais fácil. Mas, ser ético e viver de uma maneira
politicamente saudável, está cada vez mais complicado.
sábado, 20 de janeiro de 2018
Eu fiz minha escolha pelo estudo.
Quando
eu entrei no curso de Filosofia na Universidade Federal de Santa Maria, meu tio
professor, disse-me: Filosofia? Acreditas
que estás na Europa? Com isso, ele quis que eu compreendesse que cursos
superiores são feitos para ganhar dinheiro. Por consequência, cursos não
rentáveis devem ser evitados. Essa lógica monetarista é nefasta.
Se
uma nação capitalista não oferecesse todos cursos superiores que não dão
dinheiro, seria o fim dessa nação. Cada
um dos leitores pode imaginar vários cursos superiores que não são bem
remunerados, e os excluam das academias. Com certeza seria um caos. Mas quem se
importaria?
Por
outro lado, se a questão é a remuneração, nem sempre estudar formalmente é um
bom negócio. Muitos aprendem profissões de seus pais. Depois abrem um negócio e
“enricam”. Há inúmeros outros que com inteligência, inventam algo e pronto,
enriquecem. Outros tantos, ficam famosos e ricos por mil outras formas. Para
estes, ter estudado seria um mau negócio.
As
nações que se regem pelo capitalismo, têm esse fetiche. Só entendem as atividades
humanas que podem produzir o lucro. Portanto, todas as atividades são apenas um
meio para um fim: o dinheiro. A loucura é tanta que para os que já nascem
ricos, estudar é um problema. Afinal, eles já têm a finalidade do estudo, que é
o dinheiro. Então, estudar para quê?
Lembrei-me
que os animais são criaturas satisfeitas. Isso porque nascem tendo o que
precisam. Não estudam. No máximo aprendem a caçar brincando com os animais mais
velhos. Precisam de pouco. Precisam do que seus corpos necessitam e que sintam
prazer sensorial (não possuem o prazer estético). Satisfeitos seus corpos,
brincam, acasalam e dormem. Isso é assim porque eles não têm alma. Ao menos
alma humana.
O
problema está para os humanos, quando eles agem como se não tivessem alma. Como
se tivessem apenas corpos animais. Então, sendo só corpos, fazem somente o que
seus corpos pedem. Ou seja, só o que dá prazer. Dinheiro dá prazer, logo,
corpos se viciam em dinheiro. Sem dinheiro, os corpos teriam que caçar seus
prazeres. Iria ser bem sinistra esta situação!
Mas,
felizmente, não somos apenas corpos. Temos consciência. Alguns (como eu) chamam
de alma. A educação não é pensada para prazeres corporais. Ela é pensada para o
prazer das consciências. Estas, quanto mais estudam, mais conscientes são.
Criam mais vida estudando outras vidas conscientes. Nossas almas se alimentam de
outras almas ao estuda-las e compreendê-las. Nossos corpos superdesenvolvidos
não podem fazer isso.
A
educação é espiritual. Ela trata exatamente daquilo que nos difere dos animais:
nossa consciência. Qualificar nossas consciências é tarefa que toda a
humanidade deveria se preocupar. Nem é tão caro assim. Mas, as nações
capitalistas são fetichistas. As atividades que fazemos são meios para um fim,
lembram? O dinheiro. Qualificar nossas almas não dá dinheiro. Portanto, por que
qualificá-las, perguntará o capitalista. Qualificar os corpos e seus desejos é
muito mais lucrativo. Mais corpos desejantes, menos almas educadas! Eis a
ciência do lucro!
Por
isso vivemos numa espécie de zoológico humano. Para cada prazer caro jogado nas
nossas jaulas existenciais, mais pulamos felizes.
Até
hoje estudo Filosofia. Não moro na Europa, nem estudo para ganhar dinheiro.
Estudo porque tenho alma e a qualifico sempre que posso. Ganho pouco e pouco dou
lucro para minha nação capitalista. Mas sou feliz porque faço parte de um
exército de pessoas pouco remuneradas, mas que estudam para melhorar o mundo.
Mesmo que melhorar o mundo não dê lucro. Mesmo que destruí-lo seja lucrativo. Eu fiz minha escolha pelo estudo, pela
educação. E tu?
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
Elementos de Kant
Kant no final do século XVIII, opôs-se a moral do coração de Rousseau.
Kant afirma o papel da razão na ética.
Diz que por natureza somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos
e ávidos de prazeres que nunca nos saciam. É justamente por isso que precisamos
do dever para nos tornarmos seres
morais. O dever kantiano é uma imposição
da razão prática. A razão prática não contempla uma causalidade externa
necessária – como as leis da física -, mas cria sua apropria realidade, na qual
se exerce. Trabalha com o reino humano da práxis, no qual as ações são
realizadas racionalmente não por necessidade causal, mas por finalidade e
liberdade.
Podemos perguntar: se somos racionais e livres, por que os valores
morais não são espontâneos em nós, mas precisam assumir a forma de dever?
Responde Kant: porque não somos seres morais apenas. Também somos
seres naturais, submetidos à causalidade necessária da natureza. Nosso corpo e
nossa psique são feitos de apetites e impulsos. A natureza nos impele a agir
por interesse. Esta é a forma natural do egoísmo. A razão prática deverá dobrar
nossa parte natural. Ela nos obrigará a passar das motivações do interesse ao
dever.
Para Kant a natureza a ser conhecia tem, digamos
didaticamente, duas características: existe e possui organização própria e pode
ser “organizada” por quem a conhece. A
segunda característica diz respeito a nós, que a conhecemos. Nós só podemos
conhecer a natureza através de uma janela. Essa janela tem como “altura” o
espaço, como “largura” o tempo. Claro, os termos altura e largura, inventei
para dar uma noção mais clara do que Kant disse.
Vamos tornar mais complexo isso? Podemos chamar a janela de “a priori”
(pois molda a matéria que vamos perceber). A natureza, que vemos através da
janela, podemos chamá-la de a posteriori.
O conhecimento a priori não depende da observação (existe antes dela), é
uma atividade que acontece antes da observação e de forma espontânea. Essa
atividade dá forma a experiência. O conhecimento deve ser independente da
experiência, pois foi “peneirado pela reflexão”.
Ex.: A pedra cai de fato (experiência). A capacidade que eu tenho de
entender isso e que, portanto, torna esse fato uma lei universal é a priori.
Genericamente:
A priori: diz-se de conhecimento
que é condição de possibilidade de experiência, e que independe dela quanto à
sua própria origem.
A posteriori: diz-se de
conhecimento, afirmação, verdade, etc., provenientes da experiência, ou que
dela dependem.
Kant afirma que não podemos conhecer o que não passa pelo conhecimento
sensível. Ou seja, podemos conhecer o que podemos ver pela janela que é a
priori (lembra?). Sobre o que não é
visto através dessa janela nada é possível dizer. Isso complica a afirmação que
Deus existe. Kant não era ateu, apenas estava consciente dessa
dificuldade. Sem poder provar a
existência de Deus, elaborou uma moral alicerçada na autonomia da razão
humana. Ou seja, a moral deve ser
elaborada pela razão humana.
Ora, se a razão é um atributo a priori (inerente ao ser humano), então
uma moral nela fundada seria universal. Essa autonomia é "a saída do homem de sua menoridade".
Como somos por natureza, segundo o autor em estudo, egoístas, ambiciosos,
destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e
pelos quais matamos, mentimos, roubamos, precisamos do dever para nos tornarmos
seres morais. Assim a razão prática faz a si mesma aquilo que ela própria
criou: o dever. Esse dever não é uma imposição externa, é a expressão da lei
moral em nós. Por
isso somos autônomos, porque é a razão que nos impõe, mas a razão é algo
intrinsecamente humano. Nunca poderá ser uma imposição externa.
Para tornarmos essa
questão mais didática, vamos ao seguinte exemplo. Todos nós mentimos algumas
vezes. Pequenas mentiras (ou não). Dificilmente conseguiríamos nos mantermos
cem por cento livres de alguma inverdade. Mas, caso fôssemos convocados a
ensinar a turma da quarta série a mentir, não conseguiríamos. Aquelas carinhas
atentas nos fariam tremer. Algo nos impediria. Pelo menos em nossa alma ficaria
muito claro que estaríamos fazendo algo errado ao ensina-las a mentir. Kant
chamaria de um senso moral. Esse senso moral, que para vence-lo precisamos
fazer algum esforço, é denominado de imperativo categórico. Esse termo foi
criado por Kant em 1785. Para entendermos melhor o que quer dizer
imperativo, podemos aproxima-lo – arriscando deturpa-lo - da idéia de
Mandamento (no sentido dado na Bíblia).
Esse imperativo é assim chamado por que é incondicional, existe e
pronto, esta lá a comandar. Esse imperativo é incondicional e absoluto. Essa lei ocorre antes que a experiência tome
dela consciência, portanto, ela é a priori. Mesmo que cumprir essa lei traga
para mim desvantagens, sei que devo cumpri-la. Sei que devo cumpri-la mesmo
quando não a cumpro. Não devemos fazer o bem pensando em algum retorno para nós
mesmos. A ação será moral se agirmos somente em nome do imperativo. Agimos por causa da lei moral. O prazer pode
até acompanhar o ato moral, mas nunca o motivo desse ato. A boa vontade é a
manifestação da razão, por isso seguimos o dever pelo dever mesmo.
É importante
entendermos esse imperativo categórico. Como Deus está fora da “janela” do
entendimento, devemos nos guiar na boa ação, ou seja, no imperativo
incondicional. Ë a própria razão que as dita.
Imperativo categórico: Age de
tal forma que o princípio moral (máxima) de tua ação possa tornar-se uma lei
universal.
É possível dizer que Kant divide a ética possui duas partes. A parte a
priori: esta é não empírica, ou seja, é
pura. Também afirma a existência da parte empírica, ou seja, o
que baseia-se nos preceitos ensejados pela experiência. Esta última parte seria
a aplicação correta dos princípios a priori. Temos inclinações (vícios) que
devem ser superados para sermos virtuosos. A força para a superação vem dos
estudos metafísicos. O homem sabe quando transgride “a lei”. O imperativo se
auto impõe porque os homens podem transgredir as leis morais, mas sabem que não
devem. Essa auto-imposição garante a liberdade do homem. O imperativo é aceito
e seguido em função de uma vontade interna (que pode ser negada quando seguimos
nossas inclinações). O que é contrário a lei (racional) deve ser combatido. A
virtude deve ser cultivada. Como somos livres, devemos exercitar nossas forças
internas para seguirmos os ditames da razão.
Percebamos que Kant
não diz o que devemos fazer, ou seja, o conteúdo da lei. Ele apenas nos fala da
lei que deve ser seguida sempre e de forma absoluta. Aplicar a norma nos faz
agirmos corretamente. Ele afirma que sabemos com antecedência o que está certo
e o que não está. Esse saber brota, salta de dentro de nós. “A capacidade de distinguir entre o certo e o
errado é tão inata quanto todas as outras propriedades da razão. Todas as
pessoas entendem os acontecimentos do mundo como causados por alguma coisa e
todos têm também acesso a mesma lei moral universal. Esta lei moral tem a mesma
e absoluta validade das leis do mundo físico. Ela é tão basilar para nossa vida
moral quanto é fundamental para a nossa razão o fato de que tudo possui uma
causa, ou de que sete mais cincos são doze”.(Gaarder, Jostein. O mundo de
Sofia: um romance da história da filosofia. São Paulo, Companhia das letras,
1995. Pg 356).
Existem dois tipos
de imperativos. O categórico e o hipotético. O hipotético acontece na prática
para alcançar algum objetivo. Exemplo: Ajudo a comunidade para ser eleito
governador. Já o categórico difere porque, nesse caso, a ação é boa em si
mesma, não é um meio para atingirmos outra coisa. Exemplo: ajudo uma pessoa
porque devo ajuda-la, sem nada querer em troca. Ajo apenas pelo dever de agir. Essa
ação praticada por ela mesma é chamada por Kant de boa vontade. Através dessa boa vontade escolhemos somente aquilo que a razão, independentemente das paixões (desejos),
reconhece como bom.
O dever kantiano não é um catálogo de virtudes, uma lista de faça
isso, não faça aquilo. O dever é uma forma
que deve valer para toda e qualquer ação moral. Essa forma é imperativa, não
admite “se...então”ou qualquer condição. Não pode ser condicional.
Fórmula geral do imperativo categórico: Age em conformidade apenas com a
máxima que possas querer que se torne uma lei universal.
Desta fórmula geral Kant deduz as três máximas
morais que exprimem a incondicionalidade dos atos realizados pelo dever ↓
╠ Age como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade
em lei universal da natureza.
╠ Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como
na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca como meio.
╠ Age como se a máxima de tua
ação devesse servir de lei universal para todos os seres racionais.
Máxima: Princípio básico e
indiscutível de ciência ou arte; axioma.
Essas máximas deixam clara a interiorização do
dever, pois nasce da razão e da vontade legisladora universal do agente moral.
Para refletir
sábado, 25 de novembro de 2017
A República Democrática das laranjeiras
Na
República Democrática das Laranjeiras, havia laranjas demais. Tanto os espaços
públicos quanto os quintais estavam abarrotados de laranjeiras. A fruta estava
por todo lugar devido a excessiva abundância. Portanto, esta fruta não tinha
valor algum no mercado. A lei da República Democrática das laranjeiras sequer
mencionava a fruta em suas normas, no seu código civil ou penal. Os cidadãos
não se preocupavam com esse produto, pois não tinha nenhum valor, não era passível
de furto nem, nunca, sugeriria um latrocínio! Quem praticaria um crime para ter
o que havia para todos?
Certo
dia as laranjeiras começaram a morrer. Alguma praga as atingia. Como havia em
abundância, não houve maiores preocupações. Com o tempo, elas passaram a
rarear. Sobraram apenas algumas árvores que produziam essas frutas. Dez
famílias ainda as possuíam em seus quintais.
Passados
vários meses, aconteceu o impensável! Uma dessas famílias teve seu pátio
invadido e algumas frutas furtadas. Caso raro! Por que teria acontecido isso?
As dez famílias se reuniram para discutir o caso. Perceberam que no país, só
havia dez famílias proprietárias das únicas laranjeiras da nação! Perceberam
sua importância: únicas proprietárias! Aumentaram seus muros. Contrataram
seguranças e passaram a vender as laranjas. As vendiam abertas, sem as sementes!
Queriam continuar os únicos proprietários. Enriqueceram.
As
dez famílias ricas compraram seus deputados e senadores. Estes, criaram leis. As
novas leis criaram novos tipos de crime: furtos de laranjas, roubo de laranjas
simples e qualificado. Também não esqueceram de criar o latrocínio por laranjas!
No início, as penas eram dentro da média de outros crimes similares. Com a
crescente importância das laranjas, a coisa piorou. Roubo de laranjas qualificado
e latrocínio por laranjas, tornaram-se crimes hediondos. Prisão em regime
fechado em sua totalidade. Havia estudos até de pena de morte.
A
República democrática das Laranjeiras, tornou-se altamente violenta. Antes destas
leis não havia quase crimes. Agora
crimes é o que mais há. Ao criarem os tipos penais já citados, por consequência,
criaram os respectivos criminosos!
Consumir
laranjas tão desejáveis e raras, só com o porte da nota fiscal! As dez famílias,
hoje donas da República, eram muito exigentes. Cobravam a lei a risca! Queres laranja?
Compra! Faça por merecer! Trabalha, economiza, faça empréstimo!
A
violência não parava de crescer. As dez famílias abastadas começaram a doar
equipamentos e armas para a polícia. Esta, imensamente grata, cuidava de forma especial
os laranjais destas famílias. Os políticos financiados por elas, aumentavam
salários e verbas para as forças de repressão. O presidente da República Democrática das
Laranjeiras, tinha muito suco de laranja em sua mesa. Era, inclusive, parente
das abastadas famílias.
Os
cidadãos desta nação se revoltaram. Ora, quando tinham laranjas demais, eram
muito mais felizes. Agora, são espoliados para poderem usufruir das frutas que
eram de todos! Como foi possível ficar para dez famílias, o que era de todas as
famílias? As ruas estavam tensas, murmúrios e sussurros falavam em greves e
levantes.
Laranjas para todos! Que todos tenham o
direito fundamental de ter ao menos um pé de laranja em cada quintal! Para cada
boca, uma laranja!
As
dez famílias estavam desconfortáveis. Os revoltosos não se calavam. Dia e noite
a mesma ladainha! Para cada boca uma
laranja!
Então
as famílias abastadas falam com o comandante da polícia.
Depois
desta conversa, o comandante dá um golpe de estado e se torna o
presidente/comandante da nação. As laranjas são salvas nos quintais das dez famílias.
Os presídios lotam.
As
pessoas voltam para suas casas sem laranjas. Agora também é crime hediondo o
tráfico de sementes de laranjeiras. Laranjas não são para todos, só para os que
se esforçam e podem pagar.
Alguns
cidadãos revolucionários, extremamente perigosos e procurados pela polícia da
República, tiveram uma ideia radical. Traficaram sementes de laranjas de países
distantes. Nas madrugadas frias da República, começaram a plantá-las nos
quintais abandonados. Também nas margens dos riachos em lugares de difícil
acesso. Nas matas, nos morros, nas casas abandonadas! Onde houvesse terra,
estava sendo plantadas laranjeiras.
Intelectuais
das universidades, revolucionários e corajosos, ensinavam como plantar estas
sementes, como cuidá-las. Pessoas desconhecidas cuidavam os lugares de plantio.
Sociedades secretas faziam proliferar a campanha do plantio criminoso de
laranjeiras. Quando alguns destes eram presos, outros tantos continuavam o trabalho.
O tráfico de sementes se tornou epidêmico e ninguém mais pode controlar.
As
dez famílias perderam o poder. O governo caiu. As laranjas hoje são comuns. Todos podem
tê-las e não valem mais nada. Há jurisprudência farta que afirma que as leis
sobre as laranjas já não têm sentido. Não existem mais furtos e roubos de
laranjas na República Democrática das Laranjeiras.
Mas
dizem que estão tentando destruir os abacates! E que quando estes forem
raros... tudo de novo!
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