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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Pêsames...

Como se meu coração fosse apertado.
Como se meu corpo fosse muito pesado.
Pés lentos, na areia se arrastando.
Olhos jovens, mas que vão cegando...
Como enfraquecido estivador...
Como alguém que esvai-se em dor...
Corpo jovem, mas desgastado...
Belo, porém pela dor tão enfeiado!
Como um guerreiro já perdido...
Como um valente fatalmente ferido...
Andante sem rumo, sem norte...
Tão jovem e já dedicado à morte!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Anjo triste...

Prof. Amilcar Bernardi


Anjo triste, nebulosa,
triste aparição, chorosa...
Tão silenciosa,
tão mimosa
e soluçante...
Meiga amante,
brisa que amanhece...
É como diáfana prece
que sobe às alturas!
Alma de doçuras
chora rútilos cristais!
Os olhos siderais
são orbes castanhos...
São olhos tamanhos,
embelezam a menina!
Anjo triste que fascina,
anjo com corpo de fada!
Moça alada,
moça brumosa,
moça formosa!
Por luzes aclarada
em noite enluarada
que nunca ninguém viu...
O anjo que do céu caiu,
o anjo feito de infinito,
sumiu de repente!
O anjo transparente
daqui partiu...
Ela fugiu
meiga e nebulosa,
triste e chorosa
para sempre...





sábado, 17 de dezembro de 2011

Concursos de beleza? (postado novamente)

Prof. Amilcar Bernardi


Os racionalistas como Descartes defendiam a impropriedade do corpo e exaltavam a razão. As coisas do espírito (racionalidade) não se confundiam com as coisas corporais. O corpo (os sentidos) se engana a todo momento, portanto, não é confiável. Inclusive prejudica a racionalidade, diziam. Lembrem (como exemplo) que foram os cálculos matemáticos e a inventividade do espírito humano que nos garantiram saber o tamanho verdadeiro da lua! O olho não foi capaz disso.
Pensavam os racionalistas que cultuar o corpo como fonte do conhecimento e da humanidade do homem é errado. O cultivo do espírito (razão) é o que faz do homem o que ele é, o que o diferencia dos animais.
Claro que essas afirmações já estão desgastadas pelo tempo. Hoje sabemos que espírito sem corpo é fantasma e corpo sem espírito é zumbi. Quero dizer que a racionalidade acontece através do corpo (dos sentidos) e que corpo sem racionalidade não é um ser humano.
Agora pergunto: Quando colocamos a beleza (do corpo) como um valor fundamental, o que acontece?
Todos os que participam dos concursos de beleza vão dizer que essa pergunta não faz sentido. Dirão que a pessoa não é bonita porque tem um corpo bonito e sim porque tem simpatia, fala bem, tem expressão corporal e cênica. Enfim, outros atributos (além dos físicos) fazem aquela pessoa bonita! Ficam inclusive ofendidos e nos chamam de ignorantes se falarmos que, mesmo assim, o que vale mesmo é o corpo. Os adeptos dos concursos de beleza quando advogam que a beleza da alma se confunde com a beleza da plástica corporal, tentam se defender antecipadamente. Defendem-se dos que dizem que tais concursos são principalmente exposição de corpos. A necessidade desta defesa é compreensível porque é muito difícil defender de forma clara uma vitrine de corpos humanos. Então é imperioso encontrar algo mais do que a exposição de pele, cabelos e ossos para podermos validar moralmente um concurso de beleza.
Quando a bela criança de seis anos, Natália Stangherlin, ganha duas vezes concursos internacionais de beleza, podemos dizer que estamos incentivando nela aquilo que a faz humana? Quero dizer, estaríamos dizendo a esta criança linda que o principal na vida não é a plástica? Ou estaríamos dizendo, no sentido do primeiro parágrafo, que o corpo sem espírito (racionalidade) deve ser cultuado? Melhor ainda: uma criança indefesa, aos seis anos, exposta aos flashes, ao glamour, às viagens internacionais, conseguirá internalizar valores outros que não somente os da beleza física? Quais valores estariam sendo fixados na alma dessa criança, antes que ela tenha condições de refletir sobre os próprios valores?
Claro que os defensores dirão ao ler o parágrafo anterior: convém entender que a beleza corporal dura pouco tempo. Que antes da reflexão madura é imperioso curtir a juventude e a graça de ser bela.
A pressa justificaria a irreflexão. Afinal, ficamos feios muito cedo.
Arrisco-me muito ao escrever a minha opinião. Serei duramente criticado.
Entendo que as crianças não sabem o que é o belo. É a gente que ensina. Também não sabem o que é o bem. A gente ensina. A criança é linda porque é pura. È linda porque é boa. A criança não é linda porque é bela na plástica corporal. O corpo é um detalhe pequeno se pensarmos a beleza de ser criança.
Cabe saber se aos seis anos salientar a beleza plástica é algo bom. Gostaria de manter essa dúvida em minha alma até que provem em contrário, ou seja, que deixar a criança exposta ao olhar público, ávido por belezas passageiras e desejosos de corpos magníficos, faz bem. Se faz bem para o desenvolvimento das meninas e meninos como um todo! Insisto: como um todo. O desenvolvimento de uma faceta só empobrece.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Não tenho um Global Positioning System

Prof.Amilcar Bernardi


Não tenho um GPS (Global Positioning System - Sistema de Posicionamento Global) dentro de mim. Penso que algumas pessoas têm. Elas parecem estar bem posicionadas psicologicamente, sabem onde estão e para onde vão na vida.  Possuem um GPS existencial que não possuo.

Estas pessoas dão conselhos e orientam os transeuntes da vida. Sentem-se faróis para os navegantes existenciais. Não consigo ser assim. A coisa fica mais complicada quando estou no meio acadêmico. Entendo aqui academia no sentido lato, ou seja, refiro-me as instituições vocacionadas para o ensino.

No meio acadêmico há mais faróis que navegantes.  Eu gosto mais de navegar que sinalizar caminhos.  Nesses locais de iluminados sempre (sempre mesmo!) alguém me aborda perguntando sobre mestrados e doutorados.  “Qual tua linha de pesquisa?” questionam-me despudoradamente, algo como a fatalidade do “Decifra-me ou devoro-te”.

Como não tenho GPS, sou um tanto desorientado no mundo intelectual, fico bastante constrangido. Sou obrigado a responder que estudo de tudo um pouco. Sinto-me como um clínico geral numa conferência de especialistas.  Mas não posso fugir da minha verdade: eu estudo por que gosto de estudar. Claro, minha área é a educação! Voltando ao exemplo que dei, seria como um médico dizer que sua área de estudo é a saúde... muito amplo, não? Porém, estudo assim... amplitudes!

Cobram-me estudo linear (linha de pesquisa). Acabam indicando o professor fulano ou beltrano que trabalha com tema similar ao que abordo. Assim ficaria fácil encaixar-me em tal ou qual pesquisa, nesta ou naquela Instituição de Ensino. Causo espanto quando agradeço e digo timidamente que no momento não quero isso para mim. Então me abandonam como um sujeito incapaz de avançar pelos caminhos dos saberes. Estou em franca desvantagem porque eles nasceram com GPS. Eu não! Adoro ficar por aí aprendendo ao léu. Gosto de sentir-me livre fazendo o que mais gosto, escrever. É isso. Talvez um dia eu adquira o Global Positioning System existencial. Só então serei um acadêmico responsável, mais um faról a iluminar as trevas dos perdidos sem GPS.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Crítica à matéria do Fantástico

Prof. Amilcar Bernardi

Estamos enfrentando (e já faz um bom tempo) problemas na educação. Problemas óbvios como a estrutura física dos prédios e os baixos salários. Também é problemática a colisão entre os valores da sociedade com os valores das escolas. Acrescento a esses problemas, a autorização que muitos se dão de opinar sobre a educação. Criou-se o caos na cabeça das pessoas, pois os especialistas pouco são ouvidos e quando o são, a linguagem é muito complexa. Convém lembrar que a linguagem dos educadores é complexa como é a linguagem das demais ciências.  Todas as ciências têm dificuldade em simplificar para o leigo seus saberes. Com a educação não é diferente. Por isso os opinadores são mais ouvidos que os conhecedores do assunto.
Confesso não ter assistido os quadros anteriores do Fantástico, intitulados Conselho de Classe. Apenas o deste domingo assisti. O programa apresentou um professor dito modelo de sucesso. Nos comentários dos apresentadores haviam palavras como “infalível”, “pop star” e “eletrizar”.  As cenas mostravam um professor alegre e bom comunicador.  Todos os vieses apresentados sugeriam que aquele tipo (e existem infinitos tipos) de aula era o ideal. A insinuação era que um professor mais festivo, alegre, atualizado nos gostos adolescentes e bem humorado, é um educador necessariamente bem sucedido. Por consequência, afirmou-se subliminarmente que o aluno só aprende (ou aprende mais fácil) com professores que escolhem o fazer pedagógico apresentado pela emissora de TV.
Evidentemente que a matéria do Fantástico é extremamente simplória e é uma visão “da moda”.  Qualquer livreco que fale sobre as “10 maneiras de ser um professor de sucesso instantaneamente”, diria o que foi sugerido pela matéria.  Não senti-me bem ao ver aquelas cenas.  Não sou contra a alegria como veículo para a aprendizagem. O que quero dizer é que não existe um jeito de ensinar. Existem infinitos jeitos. Escolher um e mostrá-lo como exemplo, é minimizar a complexidade intrínseca ao manejo de turmas.
Assusta-me imaginar que (de imediato!) a matéria foi aceita pelo público. Num mundo atiçado pela velocidade e pela aversão ao que dá “trabalho”, entendo que a matéria não ajudará em nada os problemas que o país enfrenta nessa área tão vital para o futuro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Vida...


Amilcar Bernardi

A vida sempre brota.
Ela a morte derrota
porque a vida nunca morre.
A vida flui, por tudo escorre;
barragens não a contém.
A morte não vale vintém
pois a vida é forte correnteza.
Morte é feiúra, vida é beleza.
Quem morre, vive na gente.
A vida é forte corrente,
nos liga em fraternidade.
A morte é mediocridade
dos que não querem crer!
A vida sempre a verter
como nascente que brota.
Ela a morte sempre derrota
Porque a vida não morre.
Nunca!

domingo, 27 de novembro de 2011

Meu mundo pela janela...

Prof. Amilcar Bernardi 
Estou usando o mesmo título da crônica do escritor J. Bicca Larré, pubicado hoje no Jornal Diário de Santa Maria.  O escritor comenta suas percepções da vida, vista por sua janela.  Fiquei imaginando que todos temos nossas janelas para ver o mundo. Temos janelas reais, físicas, aquelas que têm persianas e vidraças. Também temos as “janelas dos nossos olhos”, ou seja, nossa inteligência está no cérebro/mente e as informações visuais que chegam até nossa consciência vêm pelos globos oculares. Nossas retinas são as vidraças, as pálpebras as cortinas. Estamos dentro de nós debruçados nas janelas oculares “vendo” o mundo, com certeza.
Cada um tem suas janelas. Os preconceitos são janelas antes dos olhos e dos ouvidos. Tem janelas grandes que deixam passar muita luz. Outras janelas são bem menores, menos arejadas. Tem vidros mais e menos limpos. Como a visão nada mais é que a captação da luz, tudo isso faz diferença quando pensamos o mundo. Não há contato direto com nosso exterior. Existem janelas. Elas são feitas em conjunto, ninguém consegue ser construtor único, autor exclusivo das janelas que nos prendem/libertam
Mas minha reflexão ao ler o texto do Jornalista Larré, foi além disso. Tem uma janelinha/janelão muito interessante. A janela do monitor do nosso computador. Ela abre-se para o mundo. Esta escancarada 24 horas por dia, sem cortinas ou limites. Então algo maravilhoso acontece. Quem olha através dela é obrigado a escolher o que quer ver. É tão grande a paisagem que podemos ver por essa janela, que é impossível ver tudo ao mesmo tempo. Então focamos. Olhamos pequenas coisas. Como são muitas coisas e só podemos ver aos poucos, escolhemos a velocidade. Olhamos aos poucos e rapidamente tudo o que podemos “ver”. Perdemos por consequência a profundidade. A janela do monitor oferece tanto que vemos cada vez menos. Melhor dizendo, vemos mais para ver menos. A quantidade matou a qualidade.
Lembrei que os filósofos clássicos tinham apenas as janelas dos olhos e alguns instrumentos de cálculo. “Viam” pouco e já tinham imensa dificuldade em interpretar o mundo.  Agora a coisa piorou, “vemos” muito mais e muito menos nos interessamos em refletir sobre o mundo. Tudo é tão rápido que filosofar tornou-se lento demais para o século XXI.






Desesperança...

Prof. Amilcar Bernardi


O povo sofre. Quedo-me em silêncio. Quase como aquele minuto de silêncio que fazemos em respeito a uma tragédia. Lembrei-me da expressão em latim luctu (tristeza); daí vem a palavra luto. Portanto, estou de luto. Magistrados e políticos promovem em nosso país a desconfiança! Incontáveis vezes os jovens perguntam: Em quem confiar? Acabrunhado, dói-me a angústia que essa pergunta revela. È um grito de dor, é a manifestação do abandono moral que as pessoas que regem o Estado nos deixaram. E o pior: titubeio quando quero responder a essa pergunta!

Órfãos de modelos, carentes de virtudes, enganados em seus sonhos, os jovens se rebelam sem saber bem o porquê e o como fazê-lo.  Sem exemplos confiáveis, lançam-se ao morticínio das drogas, aos prazeres fúteis e ao consumo predatório. Suicidas inconscientes, presos a um eterno presente, não sabem o passado, não refletem sobre o futuro. Vivem alucinados no hoje.

Quanto mais desesperança, mais será necessário o braço forte da lei para conter o povo.  Quanto mais abandono moral dos que deveriam ser exemplos, mais as leis vão regrar as ações das pessoas, pois todos serão lobos de todos. Quanto mais tememos o governo hipertrofiado e os vizinhos, as sanções da lei se ampliarão cada vez mais.  Então a loucura acontece e ninguém mais respeita a legalidade. O Estado e os impostos crescem desordenadamente. Na mesma medida dessa hipertrofia, cresce a impunidade. 

Urge procurar meios de retomar a confiança no outro. Urge termos bom conceito dos que nos cercam.  Somos de fato todos irmãos. O que nos separa é a desconfiança. É chegada a hora de confiar como regra geral.

Aforismo III

A sala de aula está lotada de fantasmas. Cada aluno e professor trás sua história, o contexto para seus personagens. O personagem é a fantasia do que foram e do que querem ser.  Os fantasmas que assombram as salas de aulas são as histórias de vida de cada um e de todos em conjunto.  Esses fantasmas não podem ser exorcizados, mas educados na fala e na compreensão. Bons fantasmas são bem vindos, fazem bem às pessoas. Maus fantasmas assustam e perturbam, porém, podem aprender a serem anjos.
“Angelical” é todo o sentimento que impele a pessoa a ser mais, a ter sucesso com o outro e consigo mesmo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Num tempo e noutro tempo...

 Amilcar Bernardi
Cabelo ao vento voando
Longo, leve, esvoaçando...

Vestido bem justo e delineado.
Ora é bom ora é um mau olhado!

Mãos gesticulando
O olhar... brilhando!

Sorrindo... lindo
Olhar maroto... fingindo!

Por um tempo... é singela.
Noutro tempo, mulher bela!

Linda de vestido branco, ao corpo colado!
O olhar num tempo é de anjo. Noutro tempo endiabrado!

domingo, 20 de novembro de 2011

Esperança natalina...

Amilcar Bernardi


Plantei estrelas na árvore de Natal.
Reguei tudo com esperança sem igual.
Fixei os anjos, em cima a dourada estrela.
Também fios prateados de extrema beleza.
Jesus menino embaixo dela dormindo.
Muitas luzinhas tudo colorindo.
Presépio, presentes, coloridas bolinhas.
Será que tu vens? Disseste que vinhas!
Te espero desde sempre, desde criança!
No teu lugar sempre mandas a esperança...
Por que tu nãos vens? Fico a procurar-te pelo céu...
Ah! Novamente deixarás a esperança Papai Noel!

Talvez...

Amilcar Bernardi 
Talvez como bruma
Ou como espuma
Em mar de sonho...
Na rima que componho
Talvez sejas a harmonia...
Quem sabe a sinfonia,
Talvez da harpa a leveza...
Quem sabe a sutil beleza
Do suspiro dos amantes...
Talvez as cores fulgurantes
Dos mágicos amanheceres...
Talvez de oníricos seres
Tu sejas a sutil alma...
Talvez a brisa que acalma
A pessoa que ama...
Quem sabe a chama
Que ilumina a vida...
Ou ainda da flor pendida
Sejas o último suspiro...
Talvez tua alma seja o papiro
Ancestral dos escritores...
Talvez teus doces esplendores
Sejam uma mágica tinta...
Talvez tua alma pinta
Todos os belos arrebóis...
Ou ainda sejas como sóis,
Astros que iluminam o universo...
Ou ainda, talvez sejas o verso
De um poeta triste na sua pequenez...
Ai Deus! Talvez... talvez... talvez...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Lembrando do carnaval que vem aí...

Prof. Amilcar Bernardi


Carnaval? Não, obrigado.



Tenho uma relação estranha com o Carnaval.  Olho as mais diversas manifestações de alegria neste período e elas não tocam-me a alma. Entendo até a relação atávica dos homens com a percussão, uma relação milenar junto aos atabaques, tambores e similares. Posso sentir meu coraçao pulsar mais forte quando o som ancestral da bateria choca-se contra meu peito. Uma sensação muito boa, porém... para por aí. Não sinto ímpetos de extrapolar minha rotina diária de felicidade. Não consigo aceitar o convite para assumir a postura carnavalesca de uma felicidade explosiva, não usual e abusiva em muitos casos.

Sendo eu medianamente informado, compreendo que a época carnavalesca sugere um tempo de descarga emocional coletiva, quase um gozo sexual. E essa descarga só é possivel na liberdade concedida pela sociedade (normamente tão opressora) neste período. Uma liberdade vigiada, porém, uma liberdade extra concedida num período curto a ser usufruido com sofreguidão. Meus olhos ficam extasiados por tanta beleza, mas, não consigo gostar deste convite ao delírio.  Sinto-me inclusive um estrangeiro no meu país. Vejo o encantamento coletivo com os festejos carnavalescos como um excesso doentio de uma felicidade temporária e falsa. O Carnaval é uma espécie de sursis social. Nossa verdadeira alegria acontece no ano inteiro, não em um período tão restrito e de excessão.

De fora do “espírito carnavalesco” posso observar que neste período as pulsões estão mais desimpedidas. Os desejos podem transparecer – e serem satisfeitos -  com maior facilidade. Claro, há inúmeras festas no mundo que permitem a mesma coisa. Não é um privilégio nosso. Há milhares de anos inúmeras festas pagãs tem o mesmo teor de liberalidade e beleza do carnaval brasileiro. Puxa, isso significa que eu não sentiría-me atraído por muitas festanças por aí! 

No país do futebol e do carnaval não jogo bola e não gostaria de participar do sambódromo.  Então sinto-me um estranho. Deveria gostar... mas não gosto. Eu entendo a importância e o que significa esta festa nacional. Compreendo mas não a sinto. Apenas a compreendo cerebralmente. Prefiro curtir as alegrias e possibilidades de ser feliz no meu dia a dia. Um evento só, mesmo que perdure por alguns dias, não pode satisfazer-me.

Caranaval? Não, obrigado.

A pessoa explica a si mesma. Aforismo II

A pessoa explica a si mesma. Contamos necessariamente nossa história.  A contamos para dar sentido à nossa vida. Explicamos para os outros e para nós mesmos. Explicar nossa vida também tem a função de nos perpetuar na memória coletiva. O que contamos é o que contarão de nós.
Não é decisivo sabermos se a história que a pessoa nos conta é verdadeira, factual. O que importa é que a história contada faz sentido para quem conta, ou, cria novo sentido. Sabemos que o presente contado muda o passado. O passado precisa estar sempre harmonizado com o presente. Nossa história de vida é um hibrido de fatos, cultura e desejo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O mundo: falante e falado (Aforismo I)


Prof. Amilcar Bernardi

Em primeiro lugar o indivíduo chega ao mundo, um mundo já existente para quem chega.  A linguagem já aguarda o nascente falando tudo. Tudo já está dito ou está sendo dito. Uma linguagem contraditória, ambígua, dialética. A relação da pessoa nascente como o que é dito é que constituirá sua mente.
A liberdade e a diversidade das pessoas estão nestas contradições e ambiguidades. A aprendizagem é determinante para a destreza com que a pessoa lida com esse mundo dito, expresso, compreendido e com a sua indeterminação. Indeterminado justamente porque é um mundo contado sob o ponto de vista dos que nele já vivem e interpretado pelo sujeito que ouve.
Educar é, portanto, apostar na ambiguidade/liberdade do sujeito/linguagem. Educar é deixar o aluno dizer, pois é dizendo/denunciando o mundo e a si mesmo, que ele se constitui como alguém que pode aprender de maneira saudável.

domingo, 13 de novembro de 2011

De alguma forma todos somos deficientes... e todos somos inclusos

                      
Prof. Amilcar Bernardi 

Para alguém ser inserido no mercado de trabalho, o ambiente escolar e o consequente aprendizado, são a condição sine qua non. O mesmo acontece no que se refere à inclusão do jovem na linguagem gramaticalmente correta. Idem na sua inclusão nas artes e nas grandes obras literárias. Privar alguém saudável do ambiente escolar é privar esta pessoa da vida em plenitude.  Quem não lê eficientemente é um deficiente para a leitura, quase um cego. Quem não domina a linguagem técnica do direito, é quase um deficiente auditivo num julgamento onde é réu. Não conviver e aprender na escola é um prejuízo enorme na vida do cidadão na polis. Se a escola não inclui as pessoas no mundo social e do conhecimento, não é uma escola. É outra coisa.

As crianças aprendem a dividir seus brinquedos com os coleguinhas. Desenvolvem a capacidade de negociar espaço nos recreios e nas brincadeiras coletivas. Descobrem qual a postura social adequada e a linguagem esperada no convívio. Junto com o aprender a comportar-se no ambiente público, vem a aprendizagem do Português, da Matemática e da Ciência.  Se uma criança ficar em casa com professores particulares, e com amplo acesso a materiais educativos, mesmo assim, sua aprendizagem global será diferente daquelas crianças incluídas na escola. Estar fora da comunidade aprendente cria algum tipo de deficiência, ou seja, a criança apresentará ausência de alguma coisa, uma incompletude. A escola é o lugar natural da superação de deficiências para todos.  Neste contexto, a inclusão legal dos deficientes físicos e/ou mentais na rede de ensino, apenas ratifica a universalidade do direito à matrícula na escola. 

A inclusão de qualquer pessoa na escola e o que a escola faz dela na cultura é de suma importância social.

Incluir na escola não significa apenas juntar pessoas numa sala de aula. É preciso profissionais especializados, estrutura adequada e um ambiente de aceitação. Incluir é dar tempo diferente aos diferentes. Incluir na escola é avaliar a aprendizagem, de acordo com as possibilidades individuais de aprender. Uma escola inclusiva não tem uma metodologia, têm várias. Muitas metodologias para as muitas diferenças que se apresentarão.

A lei diz que as classes especiais existirão concomitantemente às classes “convencionais”. O trânsito do aluno especial em ambas as classes está garantido. A diversidade ensinará tolerância e cooperação. Os alunos que aprendem com mais facilidade em alguns aspectos, perceberão que podem ajudar mais. Os alunos com dificuldades maiores, perceberão que podem trocar experiências únicas. Superar a deficiência visual para aprender os conteúdos escolares, é similar a superação do professor que tem que ensinar quem não vê, sem ter a experiência da cegueira.  O professor vai ter que reaprender seu ofício. Todos terão que aprender e todos terão que ensinar.

De alguma forma todos somos deficientes e precisamos ser incluídos. A escola é apenas mais um veículo de inclusão.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Filosofia

Prof. Amilcar Bernardi
  

Há séculos subsiste a idéia de que o filósofo é um sonhador que não vê a realidade sob seu nariz. Muitos de nós pensamos assim. Esse pensamento nos assalta porque o filósofo se ocupa também de coisas intangíveis, como conceitos e com as interpretações que os homens fazem das coisas. Questiona o filósofo: o que é o certo? Onde está a verdade? O que é a felicidade?
 O filósofo não tem como preocupação primeira a praticidade (mas não a exclui) de seus estudos. Esse pensar permite que o filósofo se preocupe tanto com as certezas e verdades quanto com as incertezas e as ignorâncias.  O filósofo sabe que a pergunta é mais importante que a resposta, porque a resposta imobiliza, a pergunta, ao contrário, energiza o intelecto.  Já outro filósofo, Marx, queria transformar o mundo. Ele optou pelo lado prático do filosofar. Isso significa que a idéia de que todo o filósofo é sonhador não é tão verdadeira assim.
Inúmeras vezes a questão filosófica é revolucionária e, pasmem!, mesmo sendo teórica! Nada mais transformador do que perguntar pelo sentido das coisas. Perguntar é interpretar, interpretar sugere novas questões. Novas questões revolucionam até a própria história de quem questiona. Agimos sempre e necessariamente através da interpretação que fazemos do mundo, por isso que a pergunta transforma mais que as respostas. O principal é: nunca deixar de refletir. Eis a missão do filósofo. É como no mito de sísifo.
        A Filosofia é essencialmente  pergunta, é reflexão. Ela é cem por cento ação, movimento. Por isso é tão difícil conceitua-la. Conceituar é imobilizar o movimento de que a Filosofia é feita. Mesmo a ciência exata, a cada resposta que encontra, a própria resposta sugere inúmeras questões filosóficas. A ciência para cada resposta encontra uma caixa de Pandora a ser exorcizada pela Filosofia. O limite da ciência está na recusa em filosofar.  Porém, se a ciência sublimar-se e questionar-se... ela será Filosofia e não mais ciência pura!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fusca ou Porsche?

Prof. Amilcar Bernardi

Velocidade. Ausência de linhas retas. Saltos, sustos, assombros. Frações múltiplas de variadas realidades. Vórtice. Assim é o mundo da informação virtual, ou melhor, do mundo midiático.  Textos e reflexões longas não despertam mais o interesse. Pelo menos um interesse prolongado. Pior ainda se a reflexão for trabalhosa. Nesse mundo amalucado, tudo está na distância de um clic.  Um clic, um pulo. O que retém nosso olhar é visto apenas por segundos.
O mundo virtual tem tudo. Tudo a qualquer tempo. E de forma resumida com linguagem simples. Muito simples.  O que é muito complexo não é preferido. Até é acessado, porém, por alguma imposição. Na velocidade dos dedos clicantes as mentes andam. Andam rápido. Bem rápido. Rapidez superficial. Rapidez horizontal.  A profundidade, a verticalidade tornou-se algo penoso demais.  Nossos cérebros estão adaptando-se a isso. Rapidamente, inclusive.
Numa estrada de alta velocidade, é a reflexão cuidadosa que a sinaliza e a constrói. Construir/planejar uma estrada para veículos que podem andar a 300Km/h leva tempo, muito tempo. Nesse caso, a lentidão é que garante a velocidade. O cálculo e a profundidade das reflexões é que permitem a segurança do carro veloz. Se todos fossem pilotos de corrida, substituindo os engenheiros e arquitetos, os acidentes seriam inevitáveis. Por analogia, eu diria que a escola pensa como engenheiros. O Google, como os pilotos.  Não podemos escolher um ou outro. Planejadores de pistas e pilotos são necessários, não se excluem.
O problema acontece quando pessoas simplistas, sem darem-se o tempo de entender a complexidade da escola hoje, afirmam que os professores e suas aulas devem acelerarem-se. Querem que os educadores se igualem as mídias. Isso não é possível. A mídia pode dar-se ao luxo de ser inconsequente, irresponsável até. Ela pode ser um bólido veloz. A escola não. É ela que tem que refletir e estimular a reflexão. E isso é feito no tempo da leitura, da socialização, do respeito às regras e do gosto pelo aprender. Que tempo é esse? Tempo de um Fusquinha ou de um Porsche? Não há resposta fácil. Depende do aluno, do contexto, dos valores, das vivências pessoais, do ritmo de cada um.
Penso que professor sempre será um “engenheiro”, que antes de andar na pista de alta velocidade, sabe pensá-la e entendê-la. O jovem quer ser piloto e acelerar. Não importa para ele as leis da Física ou de trânsito. Mas fato é o seguinte: é preciso que saibamos bem mais do que acelerar, mesmo que isso leve algum tempo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Coletes argumentativos

Prof. Amilcar Bernardi 
A argumentação é dependente do poder de abstração do ser humano. Também depende do vocabulário e da habilidade de saber trabalhar com a lógica.   A argumentação transcende o que julgamos ser o mais verdadeiro em nós: os sentidos! Argumentar torna relativo até o que meus olhos veem, o que minha pele sente. Sob este aspecto prepondera quem argumenta mais eficazmente. Portanto, ficam em segundo plano os cinco sentidos e todas as testemunhas oculares. A argumentação é como uma máscara bonita onde o que mais vale é a aparência e a coerência. Uma pessoa de má fé, porém boa argumentadora, pode fazer prevalecer sua idéia como se fosse a melhor possibilidade. Assim como uma boa idéia de um bom sujeito, pode ser preterida porque seus argumentos não foram convincentes. Nossa sociedade (política)  é baseada em argumentos. Entendo aqui argumentar no sentido lato, ou seja, o desenvolvimento de uma discussão baseada em argumentos e contrapontos.
Os milhares de anos necessários para que nos tornássemos civilizados, criaram roupas verbais, verdadeiros coletes argumentativos à prova de balas. A política partidária então é um carnaval de fantasias feitas de dicções e contradições! Ninguém mais pode, após o invento da fala, aparecer nu de argumentos. Nenhuma alma de sucesso aparecerá despida de sujeito, predicado e cópula.
Quando o sol esta muito forte, as roupas e todos os artifícios para o embelezamento perdem sentido e são jogados fora.  O calor insuportável faz com que apareçamos como realmente somos, as maquiagens borram, as roupas caem, pois se tornaram insuportáveis. Os argumentos são assim. Quando o calor da discussão atinge magnitude, aparece de maneira bem crua o que de fato queremos, pensamos e acreditamos.  Inúmeras vezes, sem as roupagens bonitas dos argumentos, as agruras de que também somos feitos transparecem. É o calor interno que pode prejudicar nossa carapaça verbal.
Amo os argumentadores. Gladiadores das discussões. Armados com os dardos gramaticais e com as setas do vocabulário. No mundo civilizado, mundo das informações abstratas e on-line, melhor guerreiro será aquele que esgrimir melhor os argumentos. O homem nu de argumentos é um guerreiro desarmado. Pobre criatura fadada à morte sem defesa alguma.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Alma de criança...

Amílcar Bernardi

Na alma o recreio

De crianças avoadas...

No olho o anseio

Das ventanias agitadas...

O rir é de criança,

O andar é de passarinho!

Anda como quem dança,

Parece só querer carinho...

Álacre como andorinha,

perigosa como sereia!

Meiga como criancinha,

Um jeito que nos enleia!

Alegre como bailarina,

Suave como rosa...

Como cascata cristalina,

Como névoa vaporosa!


domingo, 6 de novembro de 2011

Comunicação e pesca

Prof. Amilcar Bernardi

Comunicamo-nos quando emitimos/recebemos mensagens através de processos convencionados (linguagem: sinais, símbolos, pausas, enfim signos...). Como disse Aristóteles, somos animais políticos. Entendamos aqui política como habilidade adquirida no trato das relações humanas: civilidade, negociações, cortesia e astúcia.  Habilidades exclusivamente humanas por que dependentes da capacidade comunicação.

A comunicação só poderá acontecer num sistema estruturado, num contexto onde seu conjunto de elementos possua alguma relação, uma coordenação inteligível. Simplificando: as pessoas entendem-me quando falo porque mantenho-me dentro das regras de fala comuns a mim e a quem escuta-me. O que falo relaciona-se com a capacidade de entendimento do outro (ouvinte).  Portanto, o ouvinte/receptor não é passivo. Ele está escolhendo sentidos dentro de sua história pessoal. É a sua história que vai “pintar” na tela da mente as imagens e sentimentos relacionados com o que está sendo ouvido.

Fico então imaginando o trabalho do pescador. Vai até o rio em que haja peixes. Não qualquer peixe, mas aquele que deseja pescar. Não é qualquer rio, mas aquele que tenha o peixe que deseja. Encontrado o local adequado, escolhe o melhor caniço. “Melhor” significa o mais adaptado para o porte do peixe. E mais ainda: preocupa-se com o anzol compatível e a isca perfeita. É uma espécie de planejamento onde o determinante (o peixe) está fora do pescador, está invisível dentro da água. Aí que está a graça da pescaria, o investimento no desconhecido: sabemos que o peixe está lá, mas também sabemos que é possível voltarmos com as mãos vazias.

Comunicar-se é algo semelhante a pescaria.  O rio é a mente do outro. Sei que lá tem idéias, experiências, conhecimento, preconceitos, desejos...  E lá vou eu – o comunicante – prepotente, pensando que a pescaria será boa. Pretendo pescar representações na cabeça do outro. Representações que sejam aquelas que eu quero pescar/provocar nele. As que eu quero e não outras que o receptor tenha para me oferecer. Caso eu seja um pescador inexperiente, esquecerei de procurar o argumento-anzol adequado. Não serei escrupuloso ao oferecer a idéia-isca “perfeita”, muito menos escolherei a cabeça-rio que tenha o que preciso para inspirar representações específicas. Saio por aí jogando iscas e anzóis como um louco. Isso prova que não percebi que tão importante quanto meu desejo de seduzir/capturar/inspirar é o desejo do peixe, a realidade dele.

Comunicar é isto: uma arte arriscada onde tenho que quase adivinhar o que está abaixo das águas da aparência para preparar meus caniços, anzóis e iscas. Quanto mais hábil eu for em ver prever o que está abaixo da superfície, melhor pescador/comunicador serei.

sábado, 5 de novembro de 2011

Meio copo de água e a (in) disciplina na escola

Prof. Amilcar Bernardi

Em cima de uma mesa está um copo com água bem gelada. Para ser mais exato, meio copo de água gelada no verão bem quente.  Algumas pessoas ficarão felizes em ter meia porção de água numa temperatura tão alta. Outras tantas ficarão frustradas por terem apenas a metade de um copo de água.  Evidentemente todos estão vendo a mesma coisa. O que está variando é a relevância que dão às facetas, às parcelas da realidade que percebem. Nesse caso, ninguém está errado. Só podemos avaliar as consequências das escolhas que o observador fez ao perceber o fato indiscutível: há meia porção de água no copo e, portanto, ao mesmo tempo, não há água na outra porção.
Penso que a vida é isso, pontos de vista sobre fatos. Os fatos são indiscutíveis, mas minha leitura deles é outra coisa! Nossas opiniões sobre a escola não seguem princípio diferente disso.  
Uma possibilidade (uma porção do copo) é julgar que a disciplina é algo imposto, sempre imposto.  Nunca será algo justo (mas democrático) porque sempre haverá alguém esmagado pela regra determinada pela maioria. Para estes - a minoria - a norma sempre será externa, pois sempre irá contra seus desejos. Seguindo essa reflexão, a regra sempre é dual: de um lado alguém que ordena, de outro alguém que obedece. E toda a aquiescência é acrítica.  Esta forma de pensar não é totalmente desprezível. São apenas facetas de um fato: existem normas.
Por outro lado (outra porção do mesmo copo) é possível refletir diferente. Podemos entender a disciplina como uma sujeição das atividades instintivas às refletidas. Então as regras são (meus) limites impostos aos (meus) instintos. A reflexão limita nossos desejos.  As regras, sob este prisma, são o ordenamento do meu psiquismo de dentro para fora. Claro, ao mesmo tempo, sendo que a razão trabalha sob influência dos valores sociais – introjetados – também é um ordenamento de fora para dentro. Portanto, temos que ser sempre sujeitos críticos. Diante dessa dialética feita das regras que eu crio e das regras que criam para mim, eu faço-me.
A sala de aula é nosso “copo de água”.  Um tanto do tempo escolar é regrado. Outra porção é mais livre. Alguns/muitos intelectuais veem com maior relevância o lado cheio de disciplina, a porção irrespirável, locupletada de “nãos” e preenchida por ranços autoritários. Estes pensadores ainda enxergam o fazer medieval na escola atual. Não posso dizer que estão errados, porém, posso afirmar que estão vendo parte do copo e um copo é feito de suas partes, se tirar uma, não é mais copo.
Numa escola só há regras porque há (crescente) liberdade a ser regrada. Sem liberdade, não haveria porque tantos questionamentos sobre a (in) disciplina. Inclusive, muitas vezes a liberdade nas escolas beira a permissividade.  Qualquer pessoa pode ver nos corredores das escolas (como se fosse o sangue nas veias) crianças e jovens correndo, andando, falando, brincando, escorrendo escadas abaixo como cascatas, ou subindo as escadas como as águas carregadas pelas rodas d’água das fazendas. Estudantes fluem, escorrem e respingam em todos os lugares escolares... irreprimíveis.  Então as regras são como as normas de trânsito, existem para que o fluxo seja maior, mais rápido e mais seguro. Ninguém, no trânsito, deve morrer porque é livre para dirigir como quer. São portanto, regras que libertam.
Eu gostaria que esse texto servisse para reflexões.  Acredito que por ignorância algumas vezes, maldade muitas outras vezes, muitos afirmam que a disciplina na escola é isto ou aquilo. A disciplina às vezes é outra coisa, outras vezes ela é muitas coisas. Fica a reflexão: que porção do copo disciplina estamos privilegiando e qual estamos ignorando? 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A beleza indizível

Prof. Amílcar Bernardi


Desde cedo, muito jovem, ele percebeu a importância da palavra. Ele percebeu que todos falam, quase nascem falando. Porém, tornar a fala uma arte é para poucos. Sentia-se um ser especial porque não só tinha idéias... podia expressa-las através de sons articulados. Falar é uma promessa! Falar é prometer que o que falamos terá sentido para o ouvinte! Expressar é dar esperança de entendimento e fartura de idéias! Ele sabia que abrir a boca ou escrever é comprometer-se! É deixar o outro na expectativa!

Um dia na escola escreveu sua primeira redação. A professora exigente pediu título, coerência entre os parágrafos, uma introdução, um desenvolvimento e a bendita conclusão. Enquanto escrevia como a professora queria, ele pensava sobre o ato de escrever. Descobriu por si mesmo que grafar o pensamento era algo muito especial. Grafar no papel é descontextualizar/expatriar o pensamento da cabeça do autor. Depois, é jogar essas coisas na cabeça/contexto do outro!  Uma loucura! Um ato de fé! Quem escreve acredita fortemente na capacidade do leitor de entender o que foi escrito fora do contexto da cabeça do escritor!

Ficava pensando que adultos e professores falam, orientam, e palestram na esperança de serem entendidos. E quem os ouve acredita na promessa de a fala ter conteúdo inteligível. Quanta crença!

Atilado e mordaz, sabia que o feio pode ser dito de maneira bela. Também sabia que a coisa mais linda do mundo pode ficar feia na boca de um falante inexperiente! Aprendeu isso lendo poesias e romances. Então concluiu: o que nos faz diferentes dos animais é a capacidade de expressar! A capacidade de expressar nos faz diferente e inferiores aos animais, quando pessoas más expressam maldade. Podemos ser diferentes dos animais ficando além deles... e podemos nos diferenciar ficando aquém deles!

Falar, ele concluiu, é dar nome as coisas! As coisas só existem porque as nomeamos! Nomear é existir! Eu existo porque expresso, porque falo e dou nome ao mundo!!!!!!! Então, pensou o jovem, sou dono do mundo! Eu posso tudo ao poder falar/escrever tudo! Eu sou um deus, o deus da palavra! Como as demais pessoas não sabiam disso?  Qual Nietzsche sentia-se nas alturas!

Brincava com figuras de linguagem. Divertia-se com falácias e entrelinhas. Adorava duplos sentidos e as complexidades da fala. Assistir palestras era o máximo para ele. Não interessava o conteúdo, mas o jeito com que as palavras eram utilizadas pelo palestrante. Era divino experimentar a sensação de outra pessoa construir imagens mentais na sua mente. Rejubilava-se ao perceber que nunca era um ouvinte passivo. Pensava: “Minha história de vida é a tinta com que o palestrante pinta idéias na minha cabeça!”

Como Platão, chegou a acreditar que havia um mundo perfeito. Porém acrescentava: destinado aos falantes/escreventes! Um mundo magnífico para poucos. Só os letrados, os que sabiam usar com maestria as palavras teriam contato com esse mundo maravilhoso. No seu quarto era um deus. Escrevia como um louco, lia como um viciado!

Mas ele não podia competir com o verbo divino. Deus era o falante perfeito. E Ele quis falar da beleza através de uma moça. Materializou a beleza nas formas de uma mulher linda. Não podemos competir com o nosso criador! Não havia como dizer/escrever/expressar aquela beleza! Ela era o indizível. Quando o moço escritor a viu... caiu por terra! Como dizer o indizível? Era bela demais.

Então ele olhou-se no espelho. Não era bonito nem forte. Era frágil e magro. Tez pálida e olheiras profundas! Sentiu-se horrível. Ele era dizível, pronunciável e... feio. Ela era a beleza revelada por Platão... ele era a cópia na terra... algo imperfeito e grotesco! Mas como um ateniense que, mesmo intelectual, ia à guerra e morria com honra, foi a luta. Com as armas que tinha, enlouquecido, apresentou-se a ela, a bela. Com o escudo da retórica, com a lança da grandiloqüência e apoiado pelos dardos dos versos que compunha, tentou vence-la de imediato. Guerra inglória! Ela riu. Achou graça daquela investida louca! O rapaz magro, feio e sem graça era valente, mas não tinha chance alguma. Ela sentia-se a deusa da beleza. Sabia do seu poder de sedução. Ao mover-se a moça bela, o sol a seguia. Os girassóis a seguiam e desprezavam o astro rei. Ele tentou de todas as formas. Quanto mais se machucava nas investidas insanas, mais elaborava seus escritos e suas artimanhas nas letras.  Tudo foi em vão. Ela foi embora. Adolescentes não tem moradia fixa. São como aves e sonhos. Frágeis e instáveis. Ele ficou. Ela foi embora para sempre.

Anos depois na Academia Brasileira de Letras, ainda lembrava dela. Ao receber o prêmio Nobel, ainda lembrava dela. Ao escrever seu último poema, ainda lembrava dela.

Eis o paradoxo: Ele lembrava dela. Ela não lembrava dele.

                          O mundo lembra dele. O mundo nunca soube dela.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Poema do querer-te...

Amilcar Bernardi
Eu te quero com tua alma de passarinho
Para que meu corpo possa ser teu ninho...

Eu quero que não vás embora.
Quero ser canteiro e tu rosa.

Quero ainda mais a ti para mais ainda te querer.
Quero que sejas rima para eu poemas escrever.

Quero a ti doce mulher feita de raios de sol.
Quero-te porque fazes de mim um girassol.

Quero-te porque és bela mulher de alma bela.
Quero que tu sejas tinta para que eu seja aquarela.

Quero que tu sejas para mim estrelas e luar
para que na noite do  meu olho tu possas brilhar!

Eu muito te quero e muito mais vou te querer
para que eu possa mais e mais poemas escrever!



domingo, 30 de outubro de 2011

Política: espelho de Sísifo.

Prof. Amilcar Bernardi

Na historia infantil clássica, a rainha tresloucada pergunta ao espelho: há alguém mais bonita do que eu no reino?  O espelho como todos sabem, não responde como a toda poderosa e bela rainha queria.  Enraivecida, manda matar a bela mocinha. O espelho tem dessas coisas. Nem sempre mostra o que queremos ver. Então somos tomados por emoções incontroláveis.
A política é nosso espelho. O que acontece espelha quem somos. Podemos até não gostarmos, afinal, nessa área, a verdade sempre dói.  Porém, não podemos mandar matar ninguém nem destruir o que não gostamos na imagem apresentada. Fica só a angústia e a tristeza com o que vemos de nos mesmos. Como no mito de Sísifo (Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo), de tempos em tempos somos chamados a reconstruir nossa imagem, mas o resultado é sempre o mesmo.
O fundo mais profundo que poderíamos descer aconteceu. Olhamos o espelho da política e nos vemos Tiririca! Palhaços, ignorantes e maliciosos. É esta a imagem que está nos incomodando. Os espelhos não mentem. Apenas refletem o que se posta à frente deles. Não podemos quebrar o espelho nem podemos negar o que nele se reflete. É a nossa maldição de sujeitos civilizados e construtores da cidadania.
A política é nosso espelho de Sisifo, sempre mostrando que tudo se repete e reflete!  Esperando-nos nas eleições seguintes estão milhares de Titiricas. O triste espelho da política nos mostrará novamente nossas escolhas a modo titiriquês. 

sábado, 29 de outubro de 2011

O amaldiçoado...

Tristemente ferido:
Flecha mágica e treda!
O peito fraco, ferido,
Vitimado por maldição negra!!!

Veneno na rápida seta
Pelos deuses lançada!
Ah! Desgraça! Ela acerta
A alma já dilacerada!

Com a chaga aberta
Aceita a terrível sina!
Agora com sangue assina
O terrível nome: poeta!

Louco, quer apenas poesia;
Doente quer apenas sonhar!
Dizem: “è loucura tua fantasia!”
“Morra se queres poetar!!!”

Doente d’alma definha pelas ruas,
Louco esta sempre a escrever...
Na sarjeta padece, fica a morrer:
Não vê o coveiro, sonha com mulheres nuas!!!