Há
quem encontre vários motivos para evitar falar, entender, discutir e participar
da política. Mas, por qual motivo?
Política,
aqui entendida em sentido lato, ou seja, refiro-me a tudo que se relaciona com
a gestão racional das relações humanas dentro dos países e entre os países.
Portanto, falo dos governos, dos políticos e dos cidadãos que se envolvem, ou
são envolvidos, pelas ações estatais e jurídicas necessárias para regular a
vida em sociedade.
São
várias as justificativas para evitarmos a reflexão sobre o que chamamos de
política. Seja porque nos fizeram acreditar que todo o político age em proveito
próprio (e isso implicaria necessariamente em prejuízo alheio), seja por que há
grande possibilidade de provocar discussões acaloradas. Percebamos que há uma decisão
implícita: se eu não participo, aceito tacitamente que os “outros” devem se
preocupar com isso.
Entretanto,
há mais profundidade do que imaginamos nessa recusa em discutir/vivenciar a
gestão pública das coisas do Estado.
Vou
tentar desenvolver objetivamente os motivos de tal rejeição.
Há
quem não se preocupe com as mazelas públicas da gestão estatal sobre os
cidadãos. Muitos acreditam que são superiores às questões da pólis, pois estão
acima destas questões. Acreditam não fazer parte do “sistema” (algo sempre
indeterminado). São honestos demais, éticos demais para se imiscuírem com as
discussões tensas sobre os destinos da cidade. Entretanto, a questão é maia
complexa. Sigamos.
Em
qualquer situação, discutir a pólis é se expor. Desnudar-se nem sempre é uma
atitude preferível. Afinal, a depender do que somos “por dentro”, seria
terrível nos expormos ao público! Percebamos que não discutir política é,
portanto, uma decisão política. Decidimos em função do custo-benefício da
exposição do nosso pensar, não trazer ao espaço público nossas convicções.
Ainda
há muita coisa abaixo do que dissemos até agora. Vou trazer à discussão o que
acredito ser o real impedimento de inúmeras pessoas se exporem nas discussões
políticas.
Falar
da (e na) comunidade, falar da convivência entre muitos, necessariamente é
falar de autolimites (não podemos nos comportar de qualquer jeito em público).
Com certeza, ter consciência/experiência de viver entre muitos nos faz pensar
que nossas ações impactam os outros. Somos responsáveis por estes impactos. Então,
evitar a discussão de assuntos públicos polêmicos, afasta a nossa consciência
da nossa responsabilidade social. É fato que não temos liberdade plena quando
convivemos. Afinal, a liberdade plena só
seria possível na solidão de uma ilha inabitada. Mas aí há um problema fatal:
ninguém conseguiria viver por escolha própria os horrores da solidão absoluta.
Muitos,
para evitar ter consciência da responsabilidade e da ausência da liberdade
plena, fogem (ou tentam fugir) das questões políticas. Estes sentem como desagradável
falar das coisas públicas. O debate político obriga a pensar com a comunidade! Isso
os desagrada!
Mas,
o que colocar no lugar da consciência pública para dela fugir? O que é tão
sedutor e viciante, a ponto de fazer crer que é possível viver sem pensar
socialmente? Para aqueles que acreditam
que a política é uma ocupação vulgar, o que colocariam acima dela?
Enfim,
a minha hipótese: estas pessoas tem a fé e a esperança no consumo pleno e
conspícuo. Não apenas qualquer consumo, mas o consumo infinito e ostensivo.
Posso explicar!
Foquemos
no agora, no século XXI.
Só
sou pessoa porque consumo. Sou minhas vestimentas. Sou meu carro reluzente. Sou
minhas viagens. Sou a capacidade de satisfazer meus desejos consumeristas. Sou
o que ostento consumir. E quanto mais raro for o que possuo, mais especial eu
sou: eu mais sou! Quanto mais especial e raro eu sou, menos me preocupo com o
que é popular, social, fraterno, invisível, igual. Afinal, quanto mais eu
consumo, mais diferente eu sou dos que menos consomem (são menos).
Estas
pessoas contra a política, não conseguem valorizar positivamente o diálogo
sobre o que é público na pólis. Estão seduzidas por uma ilusão extremamente
prazerosa para uns e extremamente dolorosa para outros. É constitutivo do
prazer de uns ignorar a dor do outro. Falo da ilusão e da luta constante pelo
consumo infinito. Agem assim para esquecer que tudo é finito. A infinitude do
consumo se contrapõe a finitude de nossas vidas.
A
essência da luta pelo consumo pleno é a rejeição (recalcamento psicanalítico) da
angústia da finitude.
A
crença destas pessoas de que o desejo de consumir é universal, consome elas próprias!
Elas estão sendo consumidas pelo desejo viciante de consumir. E por que é
viciante? Porque o foco é o prazer de consumir, não a posse dos objetos
consumidos!
Se
o vício do consumo está presente, a discussão política está ausente, pois são
conceitos antagônicos: não podemos consumir pessoas!
Esta
aversão ao político faz com que estas pessoas não vejam o outro como cidadão. O
outro é algo a ser definido por outros elementos, que não os determinados pelas
relações cidadãs no Estado. Para estas pessoas, o consumo é a medida de ser no
mundo. Medida pela qual criamos uma hierarquia de ser. O tanto que eu sou
pessoa, é o mesmo tanto que sou capaz de consumir.
A
universalização do desejo de consumir (desejo este que vem antes do consumo)
passa a ser a regra que rege as relações que querem ser antipolíticas. Estas
pessoas creem que são melhores os que conseguem realizar esse desejo de forma
mais espalhafatosa (não basta a quantidade, é preciso a visibilidade). Por
consequência, a humildade, por esse critério, necessariamente é hipocrisia. Acreditam
que a humildade é evidente sinal de fracasso (pois gera constrangimento) ou de
artimanha para angariar melhores condições de consumo. Dizem estas pessoas
antipolíticas, que a humildade vem de alguém de má fé ou de um fracassado. Elas
acreditam que é evidente a necessidade de ostentar o poder de consumo.
O
fetiche consumerista está mais na ostentação do que na realidade. O esforço
deve ser invisível, mas o resultado dever ser maximamente visibilizado.
É
risível, mas muitas pessoas com poucos recursos para o consumo conspícuo,
ostentam nas redes sociais falsas imagens! Da foto do vinho nacional com cara
de francês, até a ostentação de roupas que falsamente parecem ser de marcas
famosas.
Ser
é parecer ser: esta é a máxima.
Então,
para que elas precisam do Estado, se odeiam a política e a discussão sobre a
sociedade? Elas acreditam que o Estado só existe para que possam consumir com
segurança. Só falam alguma coisa sobre o Estado quando ele falha em relação a
segurança do seu consumo conspícuo.
Evidentemente
que há paradoxos incontornáveis, caso estejam no nível da consciência.
Eis
três paroxismos:
-
Paradoxo: Quanto mais entendemos que o Estado existe para a liberdade do
consumo, também entendemos que não haverá segurança ambiental. Portanto, é uma
liberdade que nos limita (limita nossa qualidade de vida) - Liberar uma
instância limitando outra.
-
Paradoxo: Pedir a segurança Estatal para o consumo conspícuo e infinito, é
provocar a insegurança: cada vez menos consumidores entre cada vez mais
excluídos (vítimas do mesmo desejo universal de consumir infinitamente). O
desejo de segurança que gera insegurança.
-
Paradoxo: A exposição infinita do consumo infinito gera maior necessidade de
mais exposição, pois a exposição contínua gera o tédio. O tédio exige mais
exposição que gerará mais tédio.
Com
certeza há mais paradoxos. Consumo infinito, exposição infinita, tédio infinito
e paradoxos infinitos.



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