quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A contra política e o vórtice do consumo infinito

 


Há quem encontre vários motivos para evitar falar, entender, discutir e participar da política. Mas, por qual motivo?

 

Política, aqui entendida em sentido lato, ou seja, refiro-me a tudo que se relaciona com a gestão racional das relações humanas dentro dos países e entre os países. Portanto, falo dos governos, dos políticos e dos cidadãos que se envolvem, ou são envolvidos, pelas ações estatais e jurídicas necessárias para regular a vida em sociedade.

 

São várias as justificativas para evitarmos a reflexão sobre o que chamamos de política. Seja porque nos fizeram acreditar que todo o político age em proveito próprio (e isso implicaria necessariamente em prejuízo alheio), seja por que há grande possibilidade de provocar discussões acaloradas. Percebamos que há uma decisão implícita: se eu não participo, aceito tacitamente que os “outros” devem se preocupar com isso.

 

Entretanto, há mais profundidade do que imaginamos nessa recusa em discutir/vivenciar a gestão pública das coisas do Estado.

 

Vou tentar desenvolver objetivamente os motivos de tal rejeição.

 

Há quem não se preocupe com as mazelas públicas da gestão estatal sobre os cidadãos. Muitos acreditam que são superiores às questões da pólis, pois estão acima destas questões. Acreditam não fazer parte do “sistema” (algo sempre indeterminado). São honestos demais, éticos demais para se imiscuírem com as discussões tensas sobre os destinos da cidade. Entretanto, a questão é maia complexa. Sigamos.

 

Em qualquer situação, discutir a pólis é se expor. Desnudar-se nem sempre é uma atitude preferível. Afinal, a depender do que somos “por dentro”, seria terrível nos expormos ao público! Percebamos que não discutir política é, portanto, uma decisão política. Decidimos em função do custo-benefício da exposição do nosso pensar, não trazer ao espaço público nossas convicções.

 

Ainda há muita coisa abaixo do que dissemos até agora. Vou trazer à discussão o que acredito ser o real impedimento de inúmeras pessoas se exporem nas discussões políticas.

 

Falar da (e na) comunidade, falar da convivência entre muitos, necessariamente é falar de autolimites (não podemos nos comportar de qualquer jeito em público). Com certeza, ter consciência/experiência de viver entre muitos nos faz pensar que nossas ações impactam os outros. Somos responsáveis por estes impactos. Então, evitar a discussão de assuntos públicos polêmicos, afasta a nossa consciência da nossa responsabilidade social. É fato que não temos liberdade plena quando convivemos.  Afinal, a liberdade plena só seria possível na solidão de uma ilha inabitada. Mas aí há um problema fatal: ninguém conseguiria viver por escolha própria os horrores da solidão absoluta.

 

Muitos, para evitar ter consciência da responsabilidade e da ausência da liberdade plena, fogem (ou tentam fugir) das questões políticas. Estes sentem como desagradável falar das coisas públicas. O debate político obriga a pensar com a comunidade! Isso os desagrada!

 

Mas, o que colocar no lugar da consciência pública para dela fugir? O que é tão sedutor e viciante, a ponto de fazer crer que é possível viver sem pensar socialmente?  Para aqueles que acreditam que a política é uma ocupação vulgar, o que colocariam acima dela?

 

Enfim, a minha hipótese: estas pessoas tem a fé e a esperança no consumo pleno e conspícuo. Não apenas qualquer consumo, mas o consumo infinito e ostensivo. Posso explicar!

 


Foquemos no agora, no século XXI.

 

Só sou pessoa porque consumo. Sou minhas vestimentas. Sou meu carro reluzente. Sou minhas viagens. Sou a capacidade de satisfazer meus desejos consumeristas. Sou o que ostento consumir. E quanto mais raro for o que possuo, mais especial eu sou: eu mais sou! Quanto mais especial e raro eu sou, menos me preocupo com o que é popular, social, fraterno, invisível, igual. Afinal, quanto mais eu consumo, mais diferente eu sou dos que menos consomem (são menos).

 

Estas pessoas contra a política, não conseguem valorizar positivamente o diálogo sobre o que é público na pólis. Estão seduzidas por uma ilusão extremamente prazerosa para uns e extremamente dolorosa para outros. É constitutivo do prazer de uns ignorar a dor do outro. Falo da ilusão e da luta constante pelo consumo infinito. Agem assim para esquecer que tudo é finito. A infinitude do consumo se contrapõe a finitude de nossas vidas.

 

A essência da luta pelo consumo pleno é a rejeição (recalcamento psicanalítico) da angústia da finitude.

 

A crença destas pessoas de que o desejo de consumir é universal, consome elas próprias! Elas estão sendo consumidas pelo desejo viciante de consumir. E por que é viciante? Porque o foco é o prazer de consumir, não a posse dos objetos consumidos!

 

Se o vício do consumo está presente, a discussão política está ausente, pois são conceitos antagônicos: não podemos consumir pessoas!

 

Esta aversão ao político faz com que estas pessoas não vejam o outro como cidadão. O outro é algo a ser definido por outros elementos, que não os determinados pelas relações cidadãs no Estado. Para estas pessoas, o consumo é a medida de ser no mundo. Medida pela qual criamos uma hierarquia de ser. O tanto que eu sou pessoa, é o mesmo tanto que sou capaz de consumir.

 

A universalização do desejo de consumir (desejo este que vem antes do consumo) passa a ser a regra que rege as relações que querem ser antipolíticas. Estas pessoas creem que são melhores os que conseguem realizar esse desejo de forma mais espalhafatosa (não basta a quantidade, é preciso a visibilidade). Por consequência, a humildade, por esse critério, necessariamente é hipocrisia. Acreditam que a humildade é evidente sinal de fracasso (pois gera constrangimento) ou de artimanha para angariar melhores condições de consumo. Dizem estas pessoas antipolíticas, que a humildade vem de alguém de má fé ou de um fracassado. Elas acreditam que é evidente a necessidade de ostentar o poder de consumo.

 

O fetiche consumerista está mais na ostentação do que na realidade. O esforço deve ser invisível, mas o resultado dever ser maximamente visibilizado.

 

É risível, mas muitas pessoas com poucos recursos para o consumo conspícuo, ostentam nas redes sociais falsas imagens! Da foto do vinho nacional com cara de francês, até a ostentação de roupas que falsamente parecem ser de marcas famosas.

 

Ser é parecer ser: esta é a máxima.

 


Então, para que elas precisam do Estado, se odeiam a política e a discussão sobre a sociedade? Elas acreditam que o Estado só existe para que possam consumir com segurança. Só falam alguma coisa sobre o Estado quando ele falha em relação a segurança do seu consumo conspícuo.

 

Evidentemente que há paradoxos incontornáveis, caso estejam no nível da consciência.

 

Eis três paroxismos:

 

- Paradoxo: Quanto mais entendemos que o Estado existe para a liberdade do consumo, também entendemos que não haverá segurança ambiental. Portanto, é uma liberdade que nos limita (limita nossa qualidade de vida) - Liberar uma instância limitando outra.

- Paradoxo: Pedir a segurança Estatal para o consumo conspícuo e infinito, é provocar a insegurança: cada vez menos consumidores entre cada vez mais excluídos (vítimas do mesmo desejo universal de consumir infinitamente). O desejo de segurança que gera insegurança.

- Paradoxo: A exposição infinita do consumo infinito gera maior necessidade de mais exposição, pois a exposição contínua gera o tédio. O tédio exige mais exposição que gerará mais tédio.

 

Com certeza há mais paradoxos. Consumo infinito, exposição infinita, tédio infinito e paradoxos infinitos.

 

 

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