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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Meu corpo é envelope...

Prof. Amilcar Bernardi

Meu corpo é um envelope.
Um envelope envelhecido.
Feito de papel pardo.
Meu corpo é um envelope.
Não tem destinatário,
não é subscritado.
Envelope sem destino certo
muito menos com destino errado.
Carrega dentro um papel fino e delicado.
Uma carta escrita à mão, às antigas.
Dentro uma carta cheirosa e bela.
Uma carta de poemas e suspiros.
Suspiros gramaticais, enleios verbais.
Meu corpo é um envelope pobre.
Meu corpo é um envelope feio, amarelecido.
Meu corpo contém preciosa carta para leitores de cartas.
Envelopes são feitos para mãos de toques fáceis e descuidados.
Cartas são feitas para olhares, entendimentos e emoções.
Eu sou carta, eu sou papel branco, eu sou verbo.
Meu corpo é envelope que me carrega e guarda-me.
Minha alma é delicada carta alva e poética.
Carta imaculada com letras douradas.
Leitores de envelopes não podem lê-la.
Destinatários de envelopes não podem recebê-la.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Psiquiatra e capitão...


Prof. Amilcar Bernardi

Preciso de um psiquiatra que me oriente
nas minhas oceânicas águas mentais...
Preciso de um psiquiatra que crie navios químicos
que não soçobrem nas ondas que me assolam...
É urgente navegar a mim pelas ondas que cortam
a minha mente em temíveis maremotos ...
Preciso de uma receita médica tal
que haja como uma carta marítima...
Procuro quem possa dar-me uma química
que seja como um sextante que possa
corrigir meus caminhos nos meus mares mentais...
Preciso de alguém que já tenha experiência como
capitão em mares cerebrais tão revoltos como os meus...
Preciso de um psiquiatra – experiente capitão em tais mares –
que possa salvar-me urgentemente de mim mesmo,
que possa salvar-me do meu iminente naufrágio em mim...




Eu sou porque tu és.


(À  Caren...)

E se tua alma fluida sente-se água e jorra
é porque pressentes que a minha tem sede...
E quando a minha alma torna-se florida e tem néctar
é porque a tua tornou-se alada e quer ser beija-flor...
E quando teu corpo é triste como solitária choupana
e os vidros das janelas dos teus olhos se embaçam...
Minha alma torna-se sol, brilho, luz, calor e vento:
minha alma então é verão porque em ti é inverno!
Quando tu te sentes música, alma feita de doces acordes inaudíveis
eu tornou-me plena audição, suave tímpano sensível aos teus harpejos...
E quando eu deliro poemas sem rima sem que haja como escrevê-los
tu te tornas delicado papel feito de atenções e registros indeléveis...
Sendo dois, somos sempre um. Mesmo sendo diferentes, somos únicos.

Eu sou assim porque tu és. Tu és assim porque eu sou...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Para um dissoluta...


Para uma dissoluta...

 

Numa noite pagã

A belíssima cortesã

Desceu do seu tétrico altar...

E na orgia - a bela - a rir e a cantar

Entregava seu adorável corpo...

Como fantástico navio sem porto

Vagava entre luzes de mar em mar...

Mulher sem dono, linda medusa a vagar!

Perdido quem dorme no teu quente abraço!

Desgraçado quem descansa no teu lúgubre regaço!

Amável cortesã, encantadora e doce vampira...

Suga as tristezas, entre prazeres contra o casto conspira!!!!!!

Encantadoramente entrega-se a todos e a nenhum...

Ao luxo dos prazeres mais loucos ela se rende...

Devassa! Por enormes quantias caramente se vende!

Dissoluta! Amorável!Crudelíssima conduta!

Mesquinha! Adorável! Bela prostituta!

Monstro! Fada! Sem um remorso sequer!

Encantadora! O mal e o encanto em bela mulher!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Direito penal e as regras de convivência nas escolas






Pesquisei, de maneira muito breve, quase irresponsável, os sites de várias escolas particulares e públicas. Todas que pesquisei, ao se manifestarem sobre as regras de convivência dos alunos, concebiam apenas duas possibilidades para trabalharem a indisciplina: puniam (suspensão e expulsão) ou advertiam (numa espécie de prevenção, avisando do comportamento inapropriado). As regras de convivência apresentavam-se de maneira bem genérica. Genérica para atingir o maior número possível de alunos, tornando-se – as regras – onipresentes. Tais normas acabam por atingir o aluno mais frágil, os “pobres” de notas e os “desviantes" (raramente atingirá o aluno de boas notas (“rico” de notas), ordeiro e com uma família equilibrada, por exemplo). Assim como no direito penal, um grupo (no caso as equipes diretivas) estabelece regras e, por consequência as punições e advertências. As punições, que na lei penal tem seu ponto alto no afastamento da pessoa da sociedade, tem similaridade nas escolas, que também propõem afastamento/expulsão do aluno do espaço social da sala de aula. As advertências nada mais são que avisos sobre a possibilidade dessas mesmas expulsões! As escolas ensinam matemática, português, ciências, enfim, ensinam conteúdos, tendo muita dificuldade em ensinar o respeito à vida em comum. Tanto as regras de convivência escolar quanto o direito penal existem mais para o medo do que para educar cidadãos.


O direito penal cuida das normas jurídicas estabelecidas pelo Estado. Tem como finalidade proibir ou prevenir condutas consideradas ilícitas. Faz isso através das sanções penais. A mais pesada no nosso país é a privação da liberdade. Em contrapartida a prevenção, grosso modo, baseia-se na coação psicológica. Afinal, a possibilidade de ser apanhado pelo Estado é muito grande, então o medo nos põe nos trilhos. As sanções atingem primordialmente os pobres e os diferentes. As regras de convivência escolar fazem semelhante, punem os “pobres” de notas e os destoantes.



Com o amplo reconhecimento hoje dos direitos humanos, da dignidade das pessoas, do direito à liberdade, ao convívio familiar e à igualdade pelo fato de todos sermos humanos, há uma tendência a limitar o arbítrio dos “fazedores” das leis e (por consequência) limitar o apelo às punições (como primeira opção). As escolas também seguem o mesmo caminho, porém, de forma mais lenta. As regras disciplinares das escolas ainda apresentam soluções monocórdias para o problema do desvio dos padrões disciplinares: a exclusão ou a ameaça de exclusão da sala de aula (e exclusão da aprendizagem, portanto).  De maneira similar, quando o juiz determina a prisão de alguém – que não sabe viver em sociedade -, o priva dessa mesma vivência em sociedade.



Se a escola ensina a gente a ser gente, não pode ameaçar irrefletidamente os alunos, quando estes se equivocam no duro caminho de tornarem-se cidadãos. Assim como a Justiça restaurativa está possibilitando novos caminhos ao direito penal, nós educadores, temos que nos modernizar. Temos que encontrar caminhos menos violentos para ensinar as crianças e jovens a serem adultos políticos (que administram suas vidas na polis), ou seja, adultos não violentos e respeitadores dos direitos e deveres de ser gente em sociedade.

sábado, 30 de novembro de 2013

Hojeficação (o passado que se torna hoje)

Prof. Amilcar Bernardi

Hoje eu estava relendo uma poesia de Castro Alves, meu poeta predileto. A poesia era Navio Negreiro. Absorvido pela grandiloquência e pelas rimas altissonantes, parecia que um filme de um navio cheio de escravos sofrendo, passava nitidamente na minha mente. E percebam que nunca vi um escravo nem viajei em navios negreiros. Imaginem comigo esta cena:


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...


Numa dicotomia adolescente, quando li estes versos pela primeira vez, queria bater nas pessoas más e salvar as boas! Como se estivessem acontecendo aquelas coisas enquanto eu as lia! Mesmo hoje, ainda sinto como se os poemas estivessem sendo escritos agora. Imagino o trabalho escravo e o tráfico de seres humanos ainda hoje existentes. Quase grito: o poeta Castro Alves tinha/tem razão no seus versos de fogo! Então, percebo que o ontem e o hoje se confundem quando leio o passado no presente. O ontem é hoje. É isso que sinto.

Então o que significa o termo “distância”? Segundo o que eu senti ao ler a poesia passada/presente, distância não pode ser um intervalo de tempo ou um afastamento. Pelo menos não pode ser isso no sentido convencional, de uso diário. A escrita, notadamente a poesia e os romances, trazem o passado à atualidade espiritual/psicológica. “Hojeitifica” o ontem.

Quando reflito sobre a cibertecnologia, fica mais evidente ainda que não podemos afirmar que distante é o que está longe.  Isso porque, também não podemos facilmente definir “longe”. Quando vejo a expressão facial, quando sinto as palavras nos meus ouvidos, quando percebo pela linguagem corporal o que a pessoa está sentindo ao dizer o que diz, porém, está a milhares de quilômetros de mim, o que é então, o “longe”? Isso acontece na tela do meu computador quando minha webcam junto com auto-falantes, captura a pessoa que está no outro continente. Então, posso inclusive, intuir o que a pessoa sente ao se expressar! Se consigo uma empatia com a pessoa longe, ela está psicologicamente perto. Ler a pessoa longínqua como se estivesse ao meu lado, presentifica e atualiza a pessoa. Assim como um poema é sempre atual quando o leio e tenho sensibilidade para senti-lo, a comunicação on-line faz o mesmo.

Não vamos nos iludir que a pessoalidade dos contatos físicos será substituída. Não creio nem na possibilidade disso. O que me encanta são as possibilidades. Uma espécie de energia potencial está nos assombrando. Podemos muito e poderemos cada vez mais. Somos uma civilização potencial. Potencialmente melhores, potencialmente piores. O futuro próximo/longínquo dirá da nossa escolha.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Comentário sobre Capítulo 4 – Turistas e vagabundos (Globalização: as consequências humanas. Zygmund Bauman)

 Prof. Amilcar Bernardi


                                    Ao ler o capítulo intitulado "Turistas e vagabundos" não pude deixar de lembrar do filósofo Grego Clássico Heráclito. Ele dizia que tudo flui como flui um rio e só o que não muda é lei da mudança. Para ele o fogo simbolizava o movimento e a transformação.  Quero salientar os primeiros parágrafos deste capítulo, onde a necessidade de movimento no Sec.XXI é uma constante. Assim como Sartre dizia que o homem está condenado a ser livre, estamos condenados à volatilidade e a mudança. Os espaços e os tempos foram alargados de tal forma que muitas vezes acredito que finalmente conseguimos separar o corpo da alma! Meu corpo pode estar na cadeira, mas, através dos caminhos virtuais vou a onde quero.  Mais do que isso, somos impelidos a viajar. Os que estão fixados off line são discriminados como sujeitos que vivem “menos”, que tem menos experiências multinacionais e culturais. Parece que não se mover é morrer um pouco. Mas qual a fé que nos move para sempre? Foi inculcado em nós a fé no futuro e no longínquo: sempre amanhã e em algum lugar haverá o saciamento do nosso desejo. Assim como um burro que tem uma vara com uma maçã a sua frente, puxando a carroça a ele atrelada, buscando a fruta que nunca terá. As pessoas se movem buscando a saciedade (inalcançável). A função do muar é apenas caminhar hoje, carregar a carroça hoje na esperança do que nunca terá.
Manipular o desejo no espaço infinito do virtual é a descoberta fantástica do século XXI. Podemos comprar e estar em infinitos lugares (comprando) ao mesmo tempo. Meus desejos tornaram-se onipresentes e globalizados. Meu corpo nem tanto. Barreiras off line tendem a segurar-me onde estou. Mas meu desejo de consumo é liberado. Não importa quem produz ou como produz o que eu quero, o que importa é que posso querer o que eu quero de onde eu estiver. Na verdade, esse mundo que tudo tem em todos os lugares, não é para todos. Aqueles que não podem consumir, nada são nem nada merecem. Estes ficarão de corpo e alma sedimentados em seus lugares físicos. Estarão limitados pela geografia e pelas leis regionais. Imobilizados e pouco viventes. Zumbis off line com salários que não permitem o consumo e, portanto, estão alijados da vida plena pregada pelos idealizadores do consumismo absoluto.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Gladiador


Gladiador

 

Sinto-me um gladiador com forte armadura.

Pesado gládio na mão ameaçando sempre.

Minha armadura é feita de verbo e exclamações.

Meu gládio potente são ideias pesadas e perigosas.

O escudo brilhante é feito de história.

Minhas botas são feitas de geografia.

Meu capacete é feito do metal sociologia.

Nos olhos a proteção forte da filosofia.

Cada adaga minha é um verbete de dicionário.

Adagas ferem e sangram incompetências.

Sou um gladiador pouco valente, mas bem armado.

Minha forte armadura e minhas armas potentes assustam.

As pessoas assustadas não querem contato. Têm medo das armas.

Armas que ferem os aloucados opinadores e maledicentes.

Gladiadores lutam sempre. Cada luta é de vida ou de morte.

Eu sou um gladiador sempre. Cada luta minha é de vida ou de vida.

Quero lutas e mais lutas. Quero brandir minhas armas fortemente.

Quero decepar ignorâncias. Torturar ignomínias. Golpear arrogâncias.

Gladiador e Dom Quixote. Procuro aventuras e vitórias verbais.

Que venham e me enfrentem. Para cada ignorante tenho um golpe certeiro.

 

domingo, 10 de novembro de 2013

Enterrar indiozinhos vivos e o encarceramento

Prof. Amilcar Bernardi

Enterrar indiozinhos vivos e o encarceramento
Segundo a revista Isto é (www.istoe.com.br/reportagens/1006_O+GAROTO+INDIO+QUE+FOI+ENTERRADO+VIVO) algumas tribos indígenas ainda enterram vivos seus filhos. Os fortes candidatos a esse fim terrível são os filhos de mães solteiras e os portadores de deficiências físicas ou mentais. Esta prática causa algum espanto nos seus moradores, mas não o suficiente para que seja abolida. A questão cultural é muito forte, a ponto da FUNAI ainda não ter conseguido impedir estes infanticídios.  Eu, como cidadão morador da cidade, cidadão altamente escolarizado, sinto-me mal ao saber desses fatos, porém, sinto-me assim porque vejo a situação culturalmente “de fora”, quase que vejo como se eu fosse um alienígena julgando outro mundo.
Seriam nossas prisões no século XXI uma cova social feita de concreto, para que possamos enterrar vivos nossos párias sociais? Se algum visitante espacial, visse nossas prisões não sentiria o mesmo horror quando nos deparamos com os indiozinhos enterrados vivos pelo seu próprio povo?
Ainda paira sobre as pessoas um sentimento de vingança. Sente-se um ímpeto de aumentar a rigidez das leis e ampliá-las, para que as mais diversas situações de conflito sejam previstas e reguladas pelo estado. Se por um lado, nas questões da liberdade econômica há um desejo de afastamento do estado (liberalismo), nas questões de segurança pessoal e patrimonial, o desejo contrário surge. Percebe-se uma aposta perigosa: o estado teria as condições materiais para encarcerar todos e também de alguma forma, seria capaz de fazer isso com justiça. Forçando um pouco minha imaginação, penso que seria o mesmo que imaginar que o chefe da comunidade indígena poderia enterrar confortavelmente o indiozinho e o faria com justiça. E não preciso forçar muito não, afinal, há o desejo da pena de morte e a redução da maioridade penal para os dezesseis. Logo teremos a pena de morte para adolescentes. Nesse caso, ao menos os enterraríamos já mortos.
Foucault no Resumo dos cursos do Collège de France, discorre sobre o desejo histórico de resolver o problema das pessoas que se diferenciam do sistema (ou afrontam o sistema), ou seja, como castigá-las. Evidentemente que com o tempo, passou-se a apostar nas prisões e não mais nos flagelos. Da tortura às prisões, parecia termos nos tornado mais “civilizados”. Mas, mesmo o encarceramento evoluiu. Hoje o cárcere não pode mais ser uma punição, mas sim, um local de ressocialização, uma espécie de escola de bons modos, de aculturamento e de estudos para quem, obviamente, queira estudar. Evidentemente que Foucault critica o “invento” do cárcere. Um dos argumentos desse pensador que é genial é o seguinte, se prendemos alguém porque ele lesou a sociedade rompendo o pacto social, a pena de encarceramento estaria “voltada para o exterior e para o futuro”, para impedir que o crime recomece. Portanto, e é aqui que acho que é fantástico o argumento, ao termos certeza que a pessoa fez seu último crime, porque encarcerá-lo se não prejudicará mais a sociedade? Se o crime é o último, não precisaremos prendê-lo, pois a prisão existe para prevenir crimes futuros e não para punir o que já aconteceu.
Foucault sabia que a ordem e a regularidade baseada na sociedade industrial e capitalista, faz parte do que fundamenta a origem do encarceramento. Punir e controlar são a gênese. Entretanto, penso, punir e encarcerar o corpo, que relação terá com a alma, com a (de)formação da pessoa que está à ferros submetida? Posso dizer que o que está escancarado hoje ainda é a vontade popular e governamental de produzir sujeitos dóceis, porém, o caminho escolhido já não é mais o ideal de ressocializar, mas atingir a docilidade pela punição, pela dor infligida aos corpos encarcerados (retrocesso histórico). A questão pedagógica da sociedade “civilizada” que deve ensinar aos “incivilizados”, já não é questão relevante. O desejo da pena de morte é a decretação da morte do ideal da ressocialização. Talvez a função de adestramento e docilização do individuo hoje esteja a cargo da escola. Caso essa falhe, talvez, já aos dezesseis anos (ou seja, aos falhantes no Ensino Médio) o cárcere ou a pena de morte seja a reprovação esperada e desejada pela maioria.
Parece-me que vivemos com a seguinte questão: assim como não é possível uma vida saudável fora da sociedade, de igual forma, viver em sociedade é um problema não menos complexo. A construção das instituições é inseparável da construção da vida entre muitos. O caráter normativo surge na mesma medida em que negociamos os limites da liberdade. Estas instituições mesmo que surgidas na sociedade e pela sociedade, são sentidas com algo externo, acima, pois reguladoras. Foucault as questiona, assim como outros assim o fizeram como Hobbes, Locke e Rousseau. O enfoque adotado por Foucault é novo, mas não as questões por ele apresentadas. Entendo que a questão viver entre muitos X liberdade individual é um problema insolúvel. Também posso afirmar que (em sequencia ao problema anterior) o dilema punir X educar é uma crise eterna da sociedade. Crise essa que parece, sempre, tender á dissolução dessa mesma sociedade.
Foucault sabia que desde sempre houve a tentativa de controlar os corpos. Talvez, por uma inércia no imaginário coletivo, essa tentativa de controle corporal, ainda persiste num atavismo inconsciente. Apesar dos avanços dos Direitos Humanos e dos acordos internacionais, no Brasil (não que seja menos no mundo), a mídia embala esse imaginário coletivo com cantigas de “Prende, prende e mais prisões sempre”. Não podemos diabolizar as mídias, afinal, elas em muito dizem o que as pessoas querem ouvir. O resultado disso é o encaixotamento de corpos em celas. Muitos corpos juntos, onde uns punem os outros se matando nas disputas de espaços físicos e de poder pelas facções.  A punição que o povo quer aí acontece de maneira “natural”, apenas pela ausência do estado nas cadeias.
Não menos importante, e para mim muito estranhável, é a tentativa de mensurar o dano da ação criminal através de uma medida temporal. Ou seja, um crime X tem como resposta X tempo de enclausuramento. O crime Y terá Y tempo de enclausuramento. No imaginário social, manter uma pessoa no inferno carcerário por mais tempo é justo, na medida em que sofrerá por mais tempo. Por isso, a ressocialização e uma filosofia de matiz pedagógica inexistem na prática. A lógica é: mais dor por mais tempo quanto mais dor causou o delinquente. Alem disso, mesmo que não haja prisão perpétua no nosso país, institui-se além da dor por muito tempo, a infinitização da dor de ter uma mácula para sempre. O ex-presidiário dificilmente será incorporado à sociedade. Uma espécie de ostracismo grego ampliado ao máximo na sociedade contemporânea.  A mácula é uma tentativa de “prisão perpétua intangível” onde os recém-libertos, estarão presos para sempre a um passado que nunca passa. Por consequência, grande parte desses segregados vão delinquir novamente fechando o ciclo voltando às masmorras.  Foucault sabia que “os jovens delinquentes aprendem rapidamente a serem tão hábeis quanto os habitantes antigos das celas em burlar a lei; as masmorras são escolas também”.
Seria enfadonho eu discorrer sobre o insucesso da política carcerária, do abandono dos prédios e dos presos, dos inocentes presos, enfim, falar das mazelas das penitenciárias é falar o óbvio. E o pior, quanto mais é falado sobre o insucesso do encarceramento, empodera-se por consequência os desejos da implantação da pena de morte. É discurso corrente que a violência contra o patrimônio e contra as pessoas é revoltante e injusto. Entretanto, resolver o problema social que gera a violência e o crime não é uma discussão diária, ao contrário, é uma exceção. Isso porque a solução é cara (ninguém quer pagar a conta), é complexa (ninguém tem tempo para pensar em crimes), é uma questão política, social e perigosa ao sistema capitalista.
Fica a questão: vamos resolver o problema e pagar o preço ou enterrar os presos vivos nas cadeias? Quem quer responder?





sábado, 2 de novembro de 2013

Resenha e reflexões sobre a Palestra Direito e cinema: um irresistível diálogo intemporal – FADISMA – Faculdade de Direito de Santa Maria

Prof. Amilcar Bernardi


No dia 22 de outubro assisti, entre outras apresentações, a discussão intitulada “Direito e cinema: um irresistível diálogo intemporal”, conduzido pela Professora Jânia Maria Lopes Saldanha. Nesse texto proponho-me a apresentar o que foi discutido - sob minha percepção. O filme usado como motivação é intitulado “Intocáveis”. A historia gira em torno de um aristocrata muito rico, paraplégico. Para auxilia-lo contrata um rapaz problemático e sem experiência. Ambos se afeiçoam e no convívio aprendem a compreenderem-se. Surge uma grande amizade. Inúmeros clichês sobre diferenças de classes sociais são escrachados e servem para uma reflexão. Motivados pela apresentação da sinopse do filme, a discussão teve início.
A vida que é apresentada no filme, marcada pela inconstância e surpresas, tão similar ao que acontece no nosso dia a dia, deixa claro que o direito, embasado num positivismo jurídico, nas salas de aula apresentado como algo estável, não cabe na geometria estranha das cidades, das pessoas que vivem e sobrevivem aos sobressaltos na realidade da vivência em sociedade. O diferente se atravessa no nosso desejo da estabilidade. O negro, o pobre, o rico e o deficiente, o policial e o assaltante nos lembram sempre que a normatividade, tão afeita a uma normalidade, é algo artificial, imperfeito e incompleto. O sonho de uma legislação perfeita que tudo regule e mantenha uma previsibilidade não é possível, afinal, a estabilidade perfeita é a morte, tão linear e previsível que não respira e é sempre igual a si mesma.
Cada pessoa é a materialização da complexidade. O filme deixou bem claro isso ao aproximar sujeitos tão diferentes. Foram forçados a aceitarem suas diferenças sem anulá-las, sem hierarquias de valores. Valores podem conviver e produzirem uma sinergia positiva, sem anulações. A lei, a norma, é o olhar dos juristas e dos legisladores sobre essa vida disforme, irregular, imprevisível. A utopia da linearidade é apenas isso, utopia. É provável que o direito não possa produzir normas humanizadas na realidade, pois ele, o direito, quer escrever certo, mas a realidade representa as linhas tortas. No filme “Os intocáveis”, os diferentes ficaram amigos e souberam conviver. Talvez a regulação da norma nunca possa abranger a realidade das ruas, mas poderá ser “amiga” dessas discrepâncias em relação a previsibilidade da norma. Fica claro que os casos jurídicos, reflexos da realidade tão exuberante, são sempre complexos (no sentido dado por Morin). Complexos e múltiplos como é complexo e múltiplo o ser humano.

O cinema ao retratar os fenômenos sociais e possibilidades científicas de um tempo, acabam por transcender os paradigmas dominantes para sua época. Ao cinéfilo fica a possibilidade de fazer a exegese dessa linguagem apresentada nas telas. Os filmes refletem e constroem noções de justiça e comportamentos. O cinema presta-se a uma análise. Ele pode produzir uma inquietação que levará o público atento á uma crítica da realidade. Portanto, a produção cinematográfica conduz as pessoas a tomarem uma posição, a terem opinião. Ao assistirmos um filme aproximamos a razão da emoção, humanizando a visão das pessoas tão afeitas a julgamentos apressados. Lançar o olhar jurídico sobre o cinema poderá estimular uma visão humanizada da ciência do Direito. O Direito não pode ser algo apenas técnico. A arte cinematográfica ajuda os operadores do Direito a compreender o papel social e político que suas ações possuem.  

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Estátua de mulher...


Tu te colocas no pedestal dos teus saltos altos.
Estátua que és te sobressais assim.
Escultural, esculpida em detalhes.
Olhos liquefeitos, feitos de lava ardente.
Não desces dos saltos. Não sais do pedestal.
Seios perfeitos,  lascivos, de lupanares.
Cabelos feitos de cachoeiras ondulantes.
Luas na pele. Pele branca de nuvem.
Aroma floral. Mãos de beija flores.
Pernas colossais, ebúrneas. Pernas de estátua.
Pedestal cativo, sobre saltos altos. Saltos de arranha céus.
Inatingível escultura de inatingível artista.
Assim tu és, estátua bela de beleza sem igual.
Porém, nós admiramos estatuas e pedestais. Não os amamos.
Assim tu és: linda e admirável criatura sem amor.
Amor não usa saltos altos nem é perfeito.
Amor é retocável e próximo. Te admiro e não te amo.
Pobre de ti. És feita para fotos e para museus da fama.
Pobre de ti rica obra de arte. És para tão poucos que és de ninguém.





Imagem: http://br.freepik.com/fotos-gratis/estatua-de-mulher_360625.htm


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ser correto...

Prof Amilcar Bernardi

A vida me constituiu como um sujeito correto. Pouco mérito tenho por ser assim, pois não tive chance de ser diferente. É uma questão atávica: meu pai era alguém muito correto. Meu avô paterno era irredutivelmente correto. Meus tios são militares, todos. Meu irmão também é. Minha irmã é perfeita estudiosa. Atavismo bárbaro! Não tive chance alguma de ser diferente. Não pude ser indolente nos meus afazeres nem indulgente com quem arranhava a moral socialmente aceita. Esse parágrafo já depõe contra mim, pois alguns já estão imaginando-me um reacionário e moralista da estrema direita. É verdade que eu tinha tudo para ir por este caminho. Mas, o fato de estudar Filosofia mexeu com tudo que eu pensava. Mas, a retidão de caráter ficou firme. Espero que ter um caráter reto num mundo onde tudo muda não me prejudique. Ser retilíneo num contexto mutante é um perigo. Tomara que ninguém peça para eu definir o que é um caráter reto. Eu não sei. Apenas espero que seja um bom caráter. Somos esperança, sempre!
Não gosto de fazer o que eu considero errado. Amo fazer o que considero correto. Algo em mim estala quando percebo a má fé, o desejo de enganar, de abusar de alguém. A hipocrisia me dá urticária. Pura verdade. Posso errar muito, mas não quero errar. Posso ser injusto, mas não quero ser. Tudo que tenho de ruim é por ignorância, pois na clareza da minha alma não permito a maldade. Então, meus erros são culposos, nunca dolosos. Sinto-me melhor ao crer que sou do bem e que a maldade em mim é exceção. Como disse antes, essa vontade de fazer o certo veio junto com minha mamadeira, junto com as cantigas da minha mãe e do amparo do meu pai. O mérito é deles!
A vida de quem quer ser, ou ao menos dos que tentam ser corretos, não é fácil. Dirigir o carro na velocidade da placa de trânsito é perigoso. Os caminhões querem passar por cima. Outros motoristas ficam furiosos. Aí vem a viatura da polícia e passa acima da velocidade permitida. É um stress. Parar no sinal amarelo, nem pensar! Aí me matam. Como tendo a optar pelo certinho, sou chamado de otário. Já estou acostumado. Mas o pior é quando vejo alguém fazer o errado. Então o bicho pega.  Denuncio? Calo? Sou dedo duro ou omisso? Intervenho aconselhando e torno-me um “metido”? Então, acredito que é melhor eu nem ver para não ter que decidir.  Mas tenho olhos e vejo. Logo, decido. Decidir é envolver-se. Envolver-se é algo complexo onde o certo e o errado estão por debaixo da espessa neblina da opinião.
Opinar. Decidir. Posicionar. Ser humano. Coisas inseparáveis.

Gostaria de ter uma chácara cheia de árvores e plantas. Uma cascata de fundo. Um lugar frio. Cheio de bichos do mato. Gostaria de escrever minhas coisas de dentro da casa confortável vendo o ambiente externo por enorme janela. Pelo tempo que na chácara eu estiver, gostaria de deixar de ser gente. Ou seja, tiraria férias de decidir. Uma folga das questões éticas que me afligem. Não tendo gente para julgar, deixo de ser gente também, afinal, os outros é que me definem como gente através da linguagem. O mato e os bichos não falam a língua de gente. Então ficarei no silêncio sem optar, ou melhor, farei a opção de permanecer em silêncio. 


Imagem: da internet

sábado, 19 de outubro de 2013

Infinitudes

 
Eu acredito no infinito.
Eu experencio o infinito.
Em mim tenho o infinito.
Um infinito fático, palpável.
Quem dera todos soubessem!
Eu tenho um vórtice sem fim.
Eu tenho depósitos sem fim.
Eu tenho conexões sem fim.
Chego a pensar que não terei fim!
Eu posso aprender para sempre!
Não posso contabilizar-me.
Em mim tenho constelações,
buracos negros, galáxias, infinitos.
Eu sou infinito, inquantificável, inacabável.
Sei disso porque aprendo e nunca aprendo o suficiente.
Não sou fim. Leio para ler mais. Sei para saber mais.
Amo para amar mais. Sou para ser mais.
Desejo para ter mais desejos. Sonho para mais sonhar.
Eu sou maior que eu mesmo. Eu sou mais, sempre mais.
Meu corpo é pequeno demais, contém galáxias e sóis.
Eu sou universos. Eu sou grande.Eu sou infinito.


domingo, 13 de outubro de 2013

Lembrar...


Lembrar...


Digo sol...

e lembro dia

Digo noite...

e lembro estrelas

Digo lendas do mar...

e lembro de sereias

Digo letras...

e lembro poemas

Digo lindeza...

e lembro mulheres

Digo amor...

e Lembro de filho

Digo muitas coisas

para lembrar de tantas coisas!

Eis aqui uma lição:

Diga, diga sempre coisas

para não esquecer nunca...

Esquecer é calar,

gente que cala esquece.

Esquece do que a faz ser  gente.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Descriminalizar ou não às drogas hoje ilícitas?


Prof. Amilcar Bernardi




Não está sendo proposta a liberalização do consumo e produção de narcóticos, mas a descriminalização e também limites. Um bom exemplo é, se descriminalizado, a manutenção da impossibilidade de consumir a droga no pátio de uma escola. Nos países onde as liberdades individuais são respeitadas, são valorizadas atitudes mais inteligentes do que a repressão simples, vertical, com encarceramento. A prevenção e a educação, sabe-se, são mais eficientes que o cárcere.

Ao encarcerar todos os traficantes e associados, não haveria cárceres suficientes. Da mesma maneira, hospitalizando todos os usuários, não haveria leitos disponíveis no SUS. Portanto, ser a favor ou contra a descriminalização é apenas a ponta do iceberg.  Fato é que as drogas viciantes apartam do convivo social as pessoas que delas não conseguem se livrar. Notadamente os pobres. Num país com tantos analfabetos funcionais, como educá-los para um consumo consciente? No Brasil com altos índices de desemprego, não há espaço para trabalhadores/estudantes com seu estado de consciência alterado. Outra questão: o uso recreativo de qualquer entorpecente, que bem trará à uma sociedade já viciada em álcool, por exemplo? Numa sociedade tão avessa aos limites éticos e legais, limitar a consciência com o uso de narcóticos, não causará mais violência a ponto de não encarcerarmos o usuário pelo consumo do entorpecente, mas na sequência do uso, encarcerá-lo por furto, roubo ou crime de trânsito?

Outro argumento é o aspecto econômico. Descriminalizar é lucrativo. Empreendedores em geral se interessariam pelo novo mercado e, em consequência, o estado faturaria dividendos com isso. Somos celeiros do mundo, é provável que o seríamos das drogas também. A hipocrisia desses argumentos é que os malefícios e a necessidade de tratamento dos viciados aumentariam geometricamente, assim como o álcool que cada vez mais é consumido gerando malefícios sociais e econômicos enormes. A defesa pelo aspecto econômico é sempre a defesa mais frágil, afinal, se pensarmos em lucro, muita coisa ruim será sempre plausível.

Nosso IDH demonstra nossa fragilidade para lidar com as questões sociais em geral.  Junto com a descriminalização das drogas deve acontecer uma política pública de saúde, de educação e de prevenção ao consumo de substâncias que entorpeçam ou façam mal à saúde.  Refletir a questão da droga através da lei econômica da oferta e da procura ou pelo direito ao livre arbítrio é uma falácia. Infelizmente, só a repressão ainda impõe algum limite.


Imagem: http://www.jornalcidade.net/rioclaro/seguranca/drogas/91524--Juristas-aprovam-proposta-para-descriminalizar-o-uso-de-drogas-/

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pessoas poço. Pessoas rio.


 
Prof. Amílcar Bernardi 

Tem pessoas com alma de poço.

São escuras. Úmidas. Escorregadias.

Não conhecem o sol. Só sombras.

O olhar é de poço. Ideais cavernosos.

A voz voa como morcegos. Sugam.

Pessoas com alma de poço tem musgo.

Não tomam sol. Afogam quem cai.

Pessoalmente não gosto de poços.

Prefiro rios. Tem peixes. Tem brilho.

Prefiro pessoas com alma de rio.

Refulgem. Brilham. Saciam. Tem correnteza.

Pessoas que são grandes rios são navegáveis.

Eu navego feliz nas pessoas de alma de rio.

Já as pessoas poço, fujo. Tenho medo de nelas cair.

 

 

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

História maluca do ônibus maluco...



Muito estranha a história tamanha que aconteceu. Uma coisa maluca contada por um cara biruta. A coisa era muito rara, um ônibus com asa!!!!!! Tinha duas asas enormes com barulho de canhão. Se o ônibus de asas acelerava muito, provocava furacão!!!!!  Os vidros eram coloridos e o motor provocava zumbidos. Dizem que o motor era feito de abelhas e as janelas, quando voava perto do sol, ficavam vermelhas.  O resto do ônibus era da cor violeta e as grandes asas eram de borboleta. Ele dormia de noite e viajava de dia. Andava devagar se estava triste, mas corria para brincar com a ventania. As rodas eram de girassóis e os faróis eram de vaga-lumes.  Era muito bonito, de grande beleza. A menina chamada Cesa amava o ônibus maluco de maluquice sem fim! A outra menina se chamava Prin. Ambas as meninas viajam sempre nele.  A Prin e a Cesa contaram que dentro do ônibus tinha gato, galinha e pato. O pato tinha quatro filhas, quatro patas. Lá tinha também um cavalo. Era amigo do pato porque o cavalo tinha também quatro patas. Maluco não?

Cabia todo mundo no ônibus amalucado. Só não cabia mau olhado.  Bom olhado tinha bastante lá dentro. A Menina Prin e a Cesa adoravam passear no veículo que sabia voar. No ônibus não tinha ferrugem e os bancos eram de nuvem.  A direção era bem leve e a buzina era de leão: roaaarrrr!!!!!!!!!!! Era buzinar e um susto levar!!!!!!! Era lindo ver o ônibus, não tinha preço para vendê-lo. Tinha também um príncipe desencantado. O cara era um trapo, tinha cara de sapo! O príncipe sapo saltava o tempo todo. Era preciso dar um beijo para ele voltar ao normal, mas como pegar aquele maluco se ele se pendurava no castiçal? Ops! Tinha castiçal esse ônibus anormal? Claro que tinha! A Prin e a Cesa descobriram o seguinte: o príncipe sapo num pular sem fim, era muito feliz assim! Não precisava beijar a bochecha dele, afinal, ele não queria mudar!!!!!!!!!!! Coisa bem maluca essa história.  Uma coisa é bem certa nessa conversa: quem não a entender nem acreditar não pode entrar nessa viagem estranha. Só passeia quem acredita.  A Prin e a Cesa não têm tempo para perder, o tempo passa rápido demais e sonhos é preciso ter!

Da janela abanam a Prin junto com a Cesa. Já estão indo com o motor zumbindo cheio de abelha, com sua janela vermelha, lataria violeta com asas de borboleta, rodas de girassóis e faróis de vaga-lumes. Vamos nessa também?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Zéfiro...


Zéfiro conspirou,

Então minh’alma delirou

Teu mar singrando...

Hoje estou amando,

Por ti siderado,

Por ti assombrado,

Arrisco naufrágios...

Teus bons presságios

Não posso resistir...

Velas ao alto! Partir!

Nos meus desejos navegar,

Pronto para tudo, para amar!

Sereia, Iara,

Anjo, Lua clara,

Guia-me para ti...

Ah! Me perdi!

Zéfiro jogou-me em teus braços,

Mas não os encontrei!

Deus! Nesses olhos raros naufraguei,

Morri nos arrecifes de teus seios...

Afogado nos meus anseios,

Não te encontrei.

Perdido rezei

Para que fosses minha!

Plebeu sem rainha,

Solitário e visionário,

Desejoso do teu corpo.

Sem luz nem porto,

Continuo triste a navegar

Na limpidez do teu olhar...
 
 
 
 
Imagem:  William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Flora_And_Zephyr_(1875)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Desentendimentos...


Prof. Amílcar Bernardi
 
Nunca pude te compreender.

A complexidade era maior que nos dois.

Duas vidas complexas e paralelas.

Vias paralelas nunca se encontram.

Questão de geometria: não se encontram.

Éramos tão iguais, tão iguais, mesmos defeitos.

Porém, defeitos não se comunicam, se somam.

Éramos defeituosos, não nos compreendemos.

Tantas qualidades também! Tantas nós tínhamos!

Tantas qualidades – tantas! - com tanta arrogância.

Arrogâncias são altivas demais para se entenderem.

Nunca pude te entender. Então Deus quebrou tua gaiola.

Pássaro livre não toca mais o chão, toca nuvens.

Eu fiquei no chão. Chão e céu não se entendem.

Ficou para mim estranha herança: a incompreensão.

Um dia terei asas também e sairei da gaiola e vou para o céu.

Eu tenho que te entender. Eu vou te entender.

Eu vou te entender com a linguagem dos anjos.

Um dia eu vou morrer para conversar vivamente contigo.

Aguarda pai a nossa conversa. Não seremos mais paralelos.

Aguarda meu pai que eu já vou aí. Aguarda.

Seremos finalmente caminhos convergentes.