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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Direito penal e as regras de convivência nas escolas






Pesquisei, de maneira muito breve, quase irresponsável, os sites de várias escolas particulares e públicas. Todas que pesquisei, ao se manifestarem sobre as regras de convivência dos alunos, concebiam apenas duas possibilidades para trabalharem a indisciplina: puniam (suspensão e expulsão) ou advertiam (numa espécie de prevenção, avisando do comportamento inapropriado). As regras de convivência apresentavam-se de maneira bem genérica. Genérica para atingir o maior número possível de alunos, tornando-se – as regras – onipresentes. Tais normas acabam por atingir o aluno mais frágil, os “pobres” de notas e os “desviantes" (raramente atingirá o aluno de boas notas (“rico” de notas), ordeiro e com uma família equilibrada, por exemplo). Assim como no direito penal, um grupo (no caso as equipes diretivas) estabelece regras e, por consequência as punições e advertências. As punições, que na lei penal tem seu ponto alto no afastamento da pessoa da sociedade, tem similaridade nas escolas, que também propõem afastamento/expulsão do aluno do espaço social da sala de aula. As advertências nada mais são que avisos sobre a possibilidade dessas mesmas expulsões! As escolas ensinam matemática, português, ciências, enfim, ensinam conteúdos, tendo muita dificuldade em ensinar o respeito à vida em comum. Tanto as regras de convivência escolar quanto o direito penal existem mais para o medo do que para educar cidadãos.


O direito penal cuida das normas jurídicas estabelecidas pelo Estado. Tem como finalidade proibir ou prevenir condutas consideradas ilícitas. Faz isso através das sanções penais. A mais pesada no nosso país é a privação da liberdade. Em contrapartida a prevenção, grosso modo, baseia-se na coação psicológica. Afinal, a possibilidade de ser apanhado pelo Estado é muito grande, então o medo nos põe nos trilhos. As sanções atingem primordialmente os pobres e os diferentes. As regras de convivência escolar fazem semelhante, punem os “pobres” de notas e os destoantes.



Com o amplo reconhecimento hoje dos direitos humanos, da dignidade das pessoas, do direito à liberdade, ao convívio familiar e à igualdade pelo fato de todos sermos humanos, há uma tendência a limitar o arbítrio dos “fazedores” das leis e (por consequência) limitar o apelo às punições (como primeira opção). As escolas também seguem o mesmo caminho, porém, de forma mais lenta. As regras disciplinares das escolas ainda apresentam soluções monocórdias para o problema do desvio dos padrões disciplinares: a exclusão ou a ameaça de exclusão da sala de aula (e exclusão da aprendizagem, portanto).  De maneira similar, quando o juiz determina a prisão de alguém – que não sabe viver em sociedade -, o priva dessa mesma vivência em sociedade.



Se a escola ensina a gente a ser gente, não pode ameaçar irrefletidamente os alunos, quando estes se equivocam no duro caminho de tornarem-se cidadãos. Assim como a Justiça restaurativa está possibilitando novos caminhos ao direito penal, nós educadores, temos que nos modernizar. Temos que encontrar caminhos menos violentos para ensinar as crianças e jovens a serem adultos políticos (que administram suas vidas na polis), ou seja, adultos não violentos e respeitadores dos direitos e deveres de ser gente em sociedade.

sábado, 30 de novembro de 2013

Hojeficação (o passado que se torna hoje)

Prof. Amilcar Bernardi

Hoje eu estava relendo uma poesia de Castro Alves, meu poeta predileto. A poesia era Navio Negreiro. Absorvido pela grandiloquência e pelas rimas altissonantes, parecia que um filme de um navio cheio de escravos sofrendo, passava nitidamente na minha mente. E percebam que nunca vi um escravo nem viajei em navios negreiros. Imaginem comigo esta cena:


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...


Numa dicotomia adolescente, quando li estes versos pela primeira vez, queria bater nas pessoas más e salvar as boas! Como se estivessem acontecendo aquelas coisas enquanto eu as lia! Mesmo hoje, ainda sinto como se os poemas estivessem sendo escritos agora. Imagino o trabalho escravo e o tráfico de seres humanos ainda hoje existentes. Quase grito: o poeta Castro Alves tinha/tem razão no seus versos de fogo! Então, percebo que o ontem e o hoje se confundem quando leio o passado no presente. O ontem é hoje. É isso que sinto.

Então o que significa o termo “distância”? Segundo o que eu senti ao ler a poesia passada/presente, distância não pode ser um intervalo de tempo ou um afastamento. Pelo menos não pode ser isso no sentido convencional, de uso diário. A escrita, notadamente a poesia e os romances, trazem o passado à atualidade espiritual/psicológica. “Hojeitifica” o ontem.

Quando reflito sobre a cibertecnologia, fica mais evidente ainda que não podemos afirmar que distante é o que está longe.  Isso porque, também não podemos facilmente definir “longe”. Quando vejo a expressão facial, quando sinto as palavras nos meus ouvidos, quando percebo pela linguagem corporal o que a pessoa está sentindo ao dizer o que diz, porém, está a milhares de quilômetros de mim, o que é então, o “longe”? Isso acontece na tela do meu computador quando minha webcam junto com auto-falantes, captura a pessoa que está no outro continente. Então, posso inclusive, intuir o que a pessoa sente ao se expressar! Se consigo uma empatia com a pessoa longe, ela está psicologicamente perto. Ler a pessoa longínqua como se estivesse ao meu lado, presentifica e atualiza a pessoa. Assim como um poema é sempre atual quando o leio e tenho sensibilidade para senti-lo, a comunicação on-line faz o mesmo.

Não vamos nos iludir que a pessoalidade dos contatos físicos será substituída. Não creio nem na possibilidade disso. O que me encanta são as possibilidades. Uma espécie de energia potencial está nos assombrando. Podemos muito e poderemos cada vez mais. Somos uma civilização potencial. Potencialmente melhores, potencialmente piores. O futuro próximo/longínquo dirá da nossa escolha.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Comentário sobre Capítulo 4 – Turistas e vagabundos (Globalização: as consequências humanas. Zygmund Bauman)

 Prof. Amilcar Bernardi


                                    Ao ler o capítulo intitulado "Turistas e vagabundos" não pude deixar de lembrar do filósofo Grego Clássico Heráclito. Ele dizia que tudo flui como flui um rio e só o que não muda é lei da mudança. Para ele o fogo simbolizava o movimento e a transformação.  Quero salientar os primeiros parágrafos deste capítulo, onde a necessidade de movimento no Sec.XXI é uma constante. Assim como Sartre dizia que o homem está condenado a ser livre, estamos condenados à volatilidade e a mudança. Os espaços e os tempos foram alargados de tal forma que muitas vezes acredito que finalmente conseguimos separar o corpo da alma! Meu corpo pode estar na cadeira, mas, através dos caminhos virtuais vou a onde quero.  Mais do que isso, somos impelidos a viajar. Os que estão fixados off line são discriminados como sujeitos que vivem “menos”, que tem menos experiências multinacionais e culturais. Parece que não se mover é morrer um pouco. Mas qual a fé que nos move para sempre? Foi inculcado em nós a fé no futuro e no longínquo: sempre amanhã e em algum lugar haverá o saciamento do nosso desejo. Assim como um burro que tem uma vara com uma maçã a sua frente, puxando a carroça a ele atrelada, buscando a fruta que nunca terá. As pessoas se movem buscando a saciedade (inalcançável). A função do muar é apenas caminhar hoje, carregar a carroça hoje na esperança do que nunca terá.
Manipular o desejo no espaço infinito do virtual é a descoberta fantástica do século XXI. Podemos comprar e estar em infinitos lugares (comprando) ao mesmo tempo. Meus desejos tornaram-se onipresentes e globalizados. Meu corpo nem tanto. Barreiras off line tendem a segurar-me onde estou. Mas meu desejo de consumo é liberado. Não importa quem produz ou como produz o que eu quero, o que importa é que posso querer o que eu quero de onde eu estiver. Na verdade, esse mundo que tudo tem em todos os lugares, não é para todos. Aqueles que não podem consumir, nada são nem nada merecem. Estes ficarão de corpo e alma sedimentados em seus lugares físicos. Estarão limitados pela geografia e pelas leis regionais. Imobilizados e pouco viventes. Zumbis off line com salários que não permitem o consumo e, portanto, estão alijados da vida plena pregada pelos idealizadores do consumismo absoluto.


domingo, 10 de novembro de 2013

Enterrar indiozinhos vivos e o encarceramento

Prof. Amilcar Bernardi

Enterrar indiozinhos vivos e o encarceramento
Segundo a revista Isto é (www.istoe.com.br/reportagens/1006_O+GAROTO+INDIO+QUE+FOI+ENTERRADO+VIVO) algumas tribos indígenas ainda enterram vivos seus filhos. Os fortes candidatos a esse fim terrível são os filhos de mães solteiras e os portadores de deficiências físicas ou mentais. Esta prática causa algum espanto nos seus moradores, mas não o suficiente para que seja abolida. A questão cultural é muito forte, a ponto da FUNAI ainda não ter conseguido impedir estes infanticídios.  Eu, como cidadão morador da cidade, cidadão altamente escolarizado, sinto-me mal ao saber desses fatos, porém, sinto-me assim porque vejo a situação culturalmente “de fora”, quase que vejo como se eu fosse um alienígena julgando outro mundo.
Seriam nossas prisões no século XXI uma cova social feita de concreto, para que possamos enterrar vivos nossos párias sociais? Se algum visitante espacial, visse nossas prisões não sentiria o mesmo horror quando nos deparamos com os indiozinhos enterrados vivos pelo seu próprio povo?
Ainda paira sobre as pessoas um sentimento de vingança. Sente-se um ímpeto de aumentar a rigidez das leis e ampliá-las, para que as mais diversas situações de conflito sejam previstas e reguladas pelo estado. Se por um lado, nas questões da liberdade econômica há um desejo de afastamento do estado (liberalismo), nas questões de segurança pessoal e patrimonial, o desejo contrário surge. Percebe-se uma aposta perigosa: o estado teria as condições materiais para encarcerar todos e também de alguma forma, seria capaz de fazer isso com justiça. Forçando um pouco minha imaginação, penso que seria o mesmo que imaginar que o chefe da comunidade indígena poderia enterrar confortavelmente o indiozinho e o faria com justiça. E não preciso forçar muito não, afinal, há o desejo da pena de morte e a redução da maioridade penal para os dezesseis anos. Logo teremos a pena de morte para adolescentes. 
Foucault no Resumo dos cursos do Collège de France, discorre sobre o desejo histórico de resolver o problema das pessoas que se diferenciam do sistema (ou afrontam o sistema), ou seja, como castigá-las. Evidentemente que com o tempo, passou-se a apostar nas prisões e não mais nos flagelos. Da tortura às prisões, parecia termos nos tornado mais “civilizados”. Mas, mesmo o encarceramento evoluiu. Hoje o cárcere não pode mais ser uma punição, mas sim, um local de ressocialização, uma espécie de escola de bons modos, de aculturamento e de estudos para quem, obviamente, queira estudar. Evidentemente que Foucault critica o “invento” do cárcere. Um dos argumentos desse pensador que é genial é o seguinte, se prendemos alguém porque ele lesou a sociedade rompendo o pacto social, a pena de encarceramento estaria “voltada para o exterior e para o futuro”, para impedir que o crime recomece. Portanto, e é aqui que acho que é fantástico o argumento, ao termos certeza que a pessoa fez seu último crime, porque encarcerá-lo se não prejudicará mais a sociedade? Se o crime é o último, não precisaremos prendê-lo, pois a prisão existe para prevenir crimes futuros e não para punir o que já aconteceu.
Foucault sabia que a ordem e a regularidade baseada na sociedade industrial e capitalista, faz parte do que fundamenta a origem do encarceramento. Punir e controlar são a gênese. Entretanto, penso, punir e encarcerar o corpo, que relação terá com a alma, com a (de)formação da pessoa que está à ferros submetida? Posso dizer que o que está escancarado hoje ainda é a vontade popular e governamental de produzir sujeitos dóceis, porém, o caminho escolhido já não é mais o ideal de ressocializar, mas atingir a docilidade pela punição, pela dor infligida aos corpos encarcerados (retrocesso histórico). A questão pedagógica da sociedade “civilizada” que deve ensinar aos “incivilizados”, já não é questão relevante. O desejo da pena de morte é a decretação da morte do ideal da ressocialização. Talvez a função de adestramento e docilização do individuo hoje esteja a cargo da escola. Caso esta falhe, talvez, já aos dezesseis anos (ou seja, aos falhantes no Ensino Médio) o cárcere ou a pena de morte seja a reprovação esperada e desejada pela maioria.
Parece-me que vivemos com a seguinte questão: assim como não é possível uma vida saudável fora da sociedade, de igual forma, viver em sociedade é um problema não menos complexo. A construção das instituições é inseparável da construção da vida entre muitos. O caráter normativo surge na mesma medida em que negociamos os limites da liberdade. Estas instituições mesmo que surgidas na sociedade e pela sociedade, são sentidas com algo externo, acima, pois reguladoras. Foucault as questiona, assim como outros assim o fizeram como Hobbes, Locke e Rousseau. O enfoque adotado por Foucault é novo, mas não as questões por ele apresentadas. Entendo que a questão viver entre muitos X liberdade individual é um problema insolúvel. Também posso afirmar que (em sequencia ao problema anterior) o dilema punir X educar é uma crise eterna da sociedade. Crise essa que parece, sempre, tender á dissolução dessa mesma sociedade.
Foucault sabia que desde sempre houve a tentativa de controlar os corpos. Talvez, por uma inércia no imaginário coletivo, essa tentativa de controle corporal, ainda persiste num atavismo inconsciente. Apesar dos avanços dos Direitos Humanos e dos acordos internacionais, no Brasil (não que seja menos no mundo), a mídia embala esse imaginário coletivo com cantigas de “Prende, prende e mais prisões sempre”. Não podemos diabolizar as mídias, afinal, elas em muito dizem o que as pessoas querem ouvir. O resultado disso é o encaixotamento de corpos em celas. Muitos corpos juntos, onde uns punem os outros se matando nas disputas de espaços físicos e de poder pelas facções.  A punição que o povo quer aí acontece de maneira “natural”, apenas pela ausência do estado nas cadeias.
Não menos importante, e para mim muito estranhável, é a tentativa de mensurar o dano da ação criminal através de uma medida temporal. Ou seja, um crime X tem como resposta X tempo de enclausuramento. O crime Y terá Y tempo de enclausuramento. No imaginário social, manter uma pessoa no inferno carcerário por mais tempo é justo, na medida em que sofrerá por mais tempo. Por isso, a ressocialização e uma filosofia de matiz pedagógica inexistem na prática. A lógica é: mais dor por mais tempo quanto mais dor causou o delinquente. Alem disso, mesmo que não haja prisão perpétua no nosso país, institui-se além da dor por muito tempo, a infinitização da dor de ter uma mácula para sempre. O ex-presidiário dificilmente será incorporado à sociedade. Uma espécie de ostracismo grego ampliado ao máximo na sociedade contemporânea.  A mácula é uma tentativa de “prisão perpétua intangível” onde os recém-libertos, estarão presos para sempre a um passado que nunca passa. Por consequência, grande parte desses segregados vão delinquir novamente fechando o ciclo voltando às masmorras.  Foucault sabia que “os jovens delinquentes aprendem rapidamente a serem tão hábeis quanto os habitantes antigos das celas em burlar a lei; as masmorras são escolas também”.
Seria enfadonho eu discorrer sobre o insucesso da política carcerária, do abandono dos prédios e dos presos, dos inocentes presos, enfim, falar das mazelas das penitenciárias é falar o óbvio. E o pior, quanto mais é falado sobre o insucesso do encarceramento, empodera-se por consequência os desejos da implantação da pena de morte. É discurso corrente que a violência contra o patrimônio e contra as pessoas é revoltante e injusto. Entretanto, resolver o problema social que gera a violência e o crime não é uma discussão diária, ao contrário, é uma exceção. Isso porque a solução é cara (ninguém quer pagar a conta), é complexa (ninguém tem tempo para pensar em crimes), é uma questão política, social e perigosa ao sistema capitalista.
Fica a questão: vamos resolver o problema e pagar o preço ou enterrar os presos vivos nas cadeias? Quem quer responder?





sábado, 2 de novembro de 2013

Resenha e reflexões sobre a Palestra Direito e cinema: um irresistível diálogo intemporal – FADISMA – Faculdade de Direito de Santa Maria

Prof. Amilcar Bernardi


No dia 22 de outubro assisti, entre outras apresentações, a discussão intitulada “Direito e cinema: um irresistível diálogo intemporal”, conduzido pela Professora Jânia Maria Lopes Saldanha. Nesse texto proponho-me a apresentar o que foi discutido - sob minha percepção. O filme usado como motivação é intitulado “Intocáveis”. A historia gira em torno de um aristocrata muito rico, paraplégico. Para auxilia-lo contrata um rapaz problemático e sem experiência. Ambos se afeiçoam e no convívio aprendem a compreenderem-se. Surge uma grande amizade. Inúmeros clichês sobre diferenças de classes sociais são escrachados e servem para uma reflexão. Motivados pela apresentação da sinopse do filme, a discussão teve início.
A vida que é apresentada no filme, marcada pela inconstância e surpresas, tão similar ao que acontece no nosso dia a dia, deixa claro que o direito, embasado num positivismo jurídico, nas salas de aula apresentado como algo estável, não cabe na geometria estranha das cidades, das pessoas que vivem e sobrevivem aos sobressaltos na realidade da vivência em sociedade. O diferente se atravessa no nosso desejo da estabilidade. O negro, o pobre, o rico e o deficiente, o policial e o assaltante nos lembram sempre que a normatividade, tão afeita a uma normalidade, é algo artificial, imperfeito e incompleto. O sonho de uma legislação perfeita que tudo regule e mantenha uma previsibilidade não é possível, afinal, a estabilidade perfeita é a morte, tão linear e previsível que não respira e é sempre igual a si mesma.
Cada pessoa é a materialização da complexidade. O filme deixou bem claro isso ao aproximar sujeitos tão diferentes. Foram forçados a aceitarem suas diferenças sem anulá-las, sem hierarquias de valores. Valores podem conviver e produzirem uma sinergia positiva, sem anulações. A lei, a norma, é o olhar dos juristas e dos legisladores sobre essa vida disforme, irregular, imprevisível. A utopia da linearidade é apenas isso, utopia. É provável que o direito não possa produzir normas humanizadas na realidade, pois ele, o direito, quer escrever certo, mas a realidade representa as linhas tortas. No filme “Os intocáveis”, os diferentes ficaram amigos e souberam conviver. Talvez a regulação da norma nunca possa abranger a realidade das ruas, mas poderá ser “amiga” dessas discrepâncias em relação a previsibilidade da norma. Fica claro que os casos jurídicos, reflexos da realidade tão exuberante, são sempre complexos (no sentido dado por Morin). Complexos e múltiplos como é complexo e múltiplo o ser humano.

O cinema ao retratar os fenômenos sociais e possibilidades científicas de um tempo, acabam por transcender os paradigmas dominantes para sua época. Ao cinéfilo fica a possibilidade de fazer a exegese dessa linguagem apresentada nas telas. Os filmes refletem e constroem noções de justiça e comportamentos. O cinema presta-se a uma análise. Ele pode produzir uma inquietação que levará o público atento á uma crítica da realidade. Portanto, a produção cinematográfica conduz as pessoas a tomarem uma posição, a terem opinião. Ao assistirmos um filme aproximamos a razão da emoção, humanizando a visão das pessoas tão afeitas a julgamentos apressados. Lançar o olhar jurídico sobre o cinema poderá estimular uma visão humanizada da ciência do Direito. O Direito não pode ser algo apenas técnico. A arte cinematográfica ajuda os operadores do Direito a compreender o papel social e político que suas ações possuem.  

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ser correto...

Prof Amilcar Bernardi

A vida me constituiu como um sujeito correto. Pouco mérito tenho por ser assim, pois não tive chance de ser diferente. É uma questão atávica: meu pai era alguém muito correto. Meu avô paterno era irredutivelmente correto. Meus tios são militares, todos. Meu irmão também é. Minha irmã é perfeita estudiosa. Atavismo bárbaro! Não tive chance alguma de ser diferente. Não pude ser indolente nos meus afazeres nem indulgente com quem arranhava a moral socialmente aceita. Esse parágrafo já depõe contra mim, pois alguns já estão imaginando-me um reacionário e moralista da estrema direita. É verdade que eu tinha tudo para ir por este caminho. Mas, o fato de estudar Filosofia mexeu com tudo que eu pensava. Mas, a retidão de caráter ficou firme. Espero que, ter um caráter reto num mundo onde tudo muda, não me prejudique. Ser retilíneo num contexto mutante é um perigo. Tomara que ninguém peça para eu definir o que é um caráter reto. Eu não sei. Apenas espero que seja um bom caráter. Somos esperança, sempre!
Não gosto de fazer o que eu considero errado. Amo fazer o que considero correto. Algo em mim estala quando percebo a má-fé, o desejo de enganar, de abusar de alguém. A hipocrisia me dá urticária. Pura verdade. Posso errar muito, mas não quero errar. Posso ser injusto, mas não o quero ser. Tudo que tenho de ruim é por ignorância, pois na clareza da minha alma não permito a maldade. Então, meus erros são culposos, nunca dolosos. Sinto-me melhor ao crer que sou do bem e que a maldade em mim é exceção. Como disse antes, essa vontade de fazer o certo veio junto com minha mamadeira, junto com as cantigas da minha mãe e do amparo do meu pai. O mérito é deles!
A vida de quem quer ser, ou ao menos dos que tentam ser corretos, não é fácil. Dirigir o carro na velocidade da placa de trânsito é perigoso. Os caminhões querem passar por cima. Outros motoristas ficam furiosos. Aí vem a viatura da polícia e passa acima da velocidade permitida. É um stress. Parar no sinal amarelo, nem pensar! Aí me matam. Como tendo a optar pelo certinho, sou chamado de otário. Já estou acostumado. Mas o pior é quando vejo alguém fazer o errado. Então o bicho pega.  Denuncio? Calo? Sou dedo duro ou omisso? Intervenho aconselhando e torno-me um “metido”? Então, acredito que é melhor eu nem ver para não ter que decidir.  Mas tenho olhos e vejo. Logo, decido. Decidir é envolver-se. Envolver-se é algo complexo onde o certo e o errado estão por debaixo da espessa neblina da opinião.
Opinar. Decidir. Posicionar. Ser humano. Coisas inseparáveis.

Gostaria de ter uma chácara cheia de árvores e plantas. Uma cascata de fundo. Um lugar frio. Cheio de bichos do mato. Gostaria de escrever minhas coisas de dentro da casa confortável vendo o ambiente externo por enorme janela. Pelo tempo que na chácara eu estiver, gostaria de deixar de ser gente. Ou seja, tiraria férias de decidir. Uma folga das questões éticas que me afligem. Não tendo gente para julgar, deixo de ser gente também, afinal, os outros é que me definem como gente através da linguagem. O mato e os bichos não falam a língua de gente. Então ficarei no silêncio sem optar, ou melhor, farei a opção de permanecer em silêncio. 


Imagem: da internet

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Descriminalizar ou não às drogas hoje ilícitas?


Prof. Amilcar Bernardi




Não está sendo proposta a liberalização do consumo e produção de narcóticos, mas a descriminalização e também limites. Um bom exemplo é, se descriminalizado, a manutenção da impossibilidade de consumir a droga no pátio de uma escola. Nos países onde as liberdades individuais são respeitadas, são valorizadas atitudes mais inteligentes do que a repressão simples, vertical, com encarceramento. A prevenção e a educação, sabe-se, são mais eficientes que o cárcere.

Ao encarcerar todos os traficantes e associados, não haveria cárceres suficientes. Da mesma maneira, hospitalizando todos os usuários, não haveria leitos disponíveis no SUS. Portanto, ser a favor ou contra a descriminalização é apenas a ponta do iceberg.  Fato é que as drogas viciantes apartam do convivo social as pessoas que delas não conseguem se livrar. Notadamente os pobres. Num país com tantos analfabetos funcionais, como educá-los para um consumo consciente? No Brasil com altos índices de desemprego, não há espaço para trabalhadores/estudantes com seu estado de consciência alterado. Outra questão: o uso recreativo de qualquer entorpecente, que bem trará à uma sociedade já viciada em álcool, por exemplo? Numa sociedade tão avessa aos limites éticos e legais, limitar a consciência com o uso de narcóticos, não causará mais violência a ponto de não encarcerarmos o usuário pelo consumo do entorpecente, mas na sequência do uso, encarcerá-lo por furto, roubo ou crime de trânsito?

Outro argumento é o aspecto econômico. Descriminalizar é lucrativo. Empreendedores em geral se interessariam pelo novo mercado e, em consequência, o estado faturaria dividendos com isso. Somos celeiros do mundo, é provável que o seríamos das drogas também. A hipocrisia desses argumentos é que os malefícios e a necessidade de tratamento dos viciados aumentariam geometricamente, assim como o álcool que cada vez mais é consumido gerando malefícios sociais e econômicos enormes. A defesa pelo aspecto econômico é sempre a defesa mais frágil, afinal, se pensarmos em lucro, muita coisa ruim será sempre plausível.

Nosso IDH demonstra nossa fragilidade para lidar com as questões sociais em geral.  Junto com a descriminalização das drogas deve acontecer uma política pública de saúde, de educação e de prevenção ao consumo de substâncias que entorpeçam ou façam mal à saúde.  Refletir a questão da droga através da lei econômica da oferta e da procura ou pelo direito ao livre arbítrio é uma falácia. Infelizmente, só a repressão ainda impõe algum limite.


Imagem: http://www.jornalcidade.net/rioclaro/seguranca/drogas/91524--Juristas-aprovam-proposta-para-descriminalizar-o-uso-de-drogas-/

terça-feira, 23 de julho de 2013

A terrível experiência na floresta


Prof. Amílcar Bernardi 


Achei que conhecia aquela floresta. Muitas vezes por ela andei e acreditava conhecê-la. Coisa de gente jovem e inexperiente, confesso. Porém, ficou a lição: nunca subestime os perigos da floresta. Sempre há surpresas e de cada canto algum animal pode saltar e ferir.

Naquela floresta de palavras, as árvores de sílabas eram altas, quase tapavam o sol. Era difícil guiar-se. Então eu me perdi.  Cachoeiras verbais, enormes, saciaram minha sede, mas o perigo de cair nelas, ser tragado e morrer sem saber nadar, era enorme.  Resolvi, para sair daquela selva perigosa, seguir as águas do rio. Pareceu-me mais fácil.  Mera ilusão! Concordâncias verbais nadavam perigosamente naquelas águas. Mesmo eu ficando nas margens, elas olhavam-me a espera da queda fatal. Era aterrador. Uivos das concordâncias nominais surgiam da selva densa. Fiquei terrificado. Se caísse nas águas sem saber nadar, seria devorado ou afogado. Se optasse por ficar às margens, poderia ser atacado a qualquer segundo, pois não conhecia bem essas concordâncias verbais. Como seriam? Talvez, pelo medo que sentia, fossem criaturas enormes a espera do meu erro. Fatalmente eu iria morrer nos dentes delas.

Já era tarde. Ia anoitecer. Então pensei em fazer uma fogueira para assustar as feras. Percebi que iria ficar a noite na floresta das palavras. Acalmei-me. Respirei fundo. Era só fazer fogo. As feras e insetos fogem do fogo.  Juntei galhos de dicionários já mortos pelo tempo ou derrubados por tempestades gramaticais.  Os ventos sempre derrubam das árvores dicionários, galhos que são úteis aos perdidos. Juntei vários deles e fiz uma estrutura para por fogo.   Após as chamas, fiquei mais aquecido. As trevas da noite estavam rapidamente tomando a floresta.  O medo era terrível. Eu ouvia as acentuações gráficas rastejarem pelo mato. Se fossem venenosos eu estava perdido! Era uma picada só e eu morreria sem ajuda. Tremi ao lembrar-me que nas selvas não existem gramáticos para salvar os incautos perdidos! Era meu fim, com certeza.

Ditongos voavam e picavam minha pele. Os hiatos eram os piores, pois eram maiores. Qual repelente seria forte o suficiente para afastá-los? Nenhum! Minha pele ardia, mas eu era jovem e podia suportar. Ao fundo da paisagem negra da noite, tritongos rugiam. Creio que caçavam a noite, nem sei. Eu sabia que, quando o dia amanhecesse, alguém viria salvar-me! Muitas pessoas sabiam que eu adorava perambular pela selva de palavras. Com certeza eu seria salvo!

O frio era muito intenso.  Ainda bem que eu havia juntado alguns morfemas gostosos, eram frutinhas de aparência horrorosa, mas após agente se acostumar, ficam aceitáveis ao paladar. Não podia negar que os morfemas são úteis nessa floresta terrível! Vejam bem, é bom ter cuidado. As desinências são frutinhas que podem provocar dor de barriga, e como todos sabem, na mata a desidratação pode ser fatal!  É preciso conhecer bem a floresta das palavras para sobreviver. Por isso que a maioria das pessoas não sobrevivem nela.

O sono era tão intenso que amontoei adjetivos para travesseiros. Pedaços de substantivos cobriam-me. Sem fome e um pouco aquecido, iria sobreviver ao medo e aos animais perigosos. Com muita sorte os advérbios fatais e preposições assassinas nem perceberiam que eu estava ali, indefeso. Eu sou um sujeito de sorte, sempre fui. Já tinha sobrevivido muitas vezes naquela floresta complexa e perigosa. Eu era forte, iria ficar vivo e contar para os outros minha experiência!

Acordei ouvindo gritos! Haviam me encontrado! Quanta alegria! Eram corajosos policiais da guarda sintática! Armados com períodos simples, estavam seguros contra os terrores da selva. Finalmente estava feliz. Finalmente sairia bem da minha aventura. Aprendi muito. Quando eu voltar, e sempre voltarei, estarei mais preparado. Nenhum adjunto adnominal ou complemento verbal fará com que eu desista da selva.

Ufa! Estou cansado.  Mas aguardem-me! Logo terei mais aventuras para contar.



Imagem:  http://florestacomagil.blogspot.com.br/

sábado, 6 de julho de 2013

Para refletir: Descrença absoluta

Prof. Amílcar Bernardi


A sociedade está carente de valores. Aqueles valores que agregam, que trazem confiança para as pessoas. Tirar vantagem sempre (que é um valor também) trás desvantagens sempre (perdoem o trocadilho). Quanto maior a vantagem que tenho sobre o outro, maior será a desconfiança que se estabelece. Sujeitos desconfiados são violentadores e violentados, pois foi retirados deles a capacidade de não temer o próximo.

 

O elogio desenfreado à racionalidade é preocupante. Penso que a confiança é algo irracional. Está mais próxima da fé na bondade do outro do que na capacidade de calcular o mal que o próximo pode nos causar. Penso que a racionalidade faz com que eu desconfie primeiro. Depois, como exceção à regra, eu estendo a mão solicitamente ao outro. A razão pondo o cálculo acima da crença (irrefletida) na bondade alheia, faz com que a confiança seja exceção e não a regra.

 

A desconfiança (racional, refletida) virou epidemia. O medo de ser lesado e o desejo de lesar esta desestruturando os vínculos sociais. O número de leis cresce enormemente e cada vez são mais duras. Como resultado, passam a ser uma arma nas mãos dos mais “espertos”. Estes “espertos” as usam em favor próprio. Corremos o risco de o emaranhado de leis causarem ainda mais desconfiança nos seus usuários. Os cidadãos temem a lei, pois ela pode voltar-se contra eles mesmos. Porém, ela logo vira poderoso gládio quando os favorecem. Nenhuma lei pode ser justa ou causar harmonia na sociedade, quando os valores estão adoentados. Todo o valor que diminui a qualidade de vida dos cidadãos é doente.

 

A descrença avança. A razão empobrecida pelo cálculo egoísta/hedonista avança. Quando falo em descrença e falta de fé, não necessariamente refiro-me a apelos religiosos. A falta de fé na capacidade do homem cidadão ser bom, mata a cidadania do homem. Podemos também afirmar o seguinte: a crença na mesquinhez absoluta do homem, causa a descrença absoluta na cidadania. Aquilo em que acreditamos ou que desacreditamos é que in/viabiliza a coesão social. Vejo que estamos cada vez menos coesos. Não penso que as cidades desaparecerão, que epidemias dizimarão milhões de pessoas. Apenas entendo que os laços que nos manterão nas cidades serão cada vez mais precários e penosos. Pertencer à sociedade será um ônus quase impossível de suportar.

 

Quando a ausência de fé no outro acontece, as sociedades buscam alternativas para sobreviverem na convivência. A fé no dinheiro e tudo que ele significa parece ser uma alternativa bem boa. Mas é apenas aparência. Nada pode comprar a confiança. A confiança é um valor não quantificável. Até podemos comprar segurança, mas nunca confiança. Com certeza quanto mais compro segurança, é porque mais desconfiado estou. Nada pode substituir a confiança no outro baseado nos valores do amor e do respeito. Digo isso porque sei disso. E sei porque sinto isso. Porque é um fato inquestionável. Sinto isso todos os dias; no supermercado, no estacionamento, nas aulas que dou. A confiança que tenho na absoluta maioria dos meus alunos, por exemplo, é em tudo diferente do salário que recebo.

 

Sei que inúmeras pessoas já atingiram a descrença absoluta, o desvalor absoluto. Porém estas nada mais podem contar para nós. Refiro-me aos suicidas. Eles são um bom exemplo para refletirmos sobre a desilusão absoluta. Fico também imaginando se a humanidade um dia chegará a esse nível, a descrença absoluta no outro. Aí sim, o mundo acabará e não será por um cataclismo planetário. Será um cataclismo na fé do homem no homem e, portanto, sua morte autoimposta e absurda.

 

 

 

 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Democracias adoentadas e por aí vai...



Democracias adoentadas têm sintomas característicos. Altos índices de corrupção e de analfabetismo, aparecimento de epidemias antigas, violência e por aí vai. Os sintomas são inúmeros. Porém quero falar, por enquanto, de um só.

Toda a democracia adoentada e ignorante produz muitas leis. Provoca uma complexificação legal que, por sua vez, estimula exceções, desvios, desentendimentos. Esta é uma situação bem clássica: não conseguindo educar o povo, o Estado regula-o em minúcias.

A democracia precisa, para existir em plenitude, da liberdade consciente. Toda a pessoa neste regime político é um cidadão livre e, em tese, está apto a portar-se bem por convicção. Quero dizer que o sentimento de liberdade, para o cidadão consciente, está vinculado inseparavelmente da responsabilidade. Em resumo: sou livre porque sou responsável. O governo (o espaço público) confia em mim (indivíduo) e eu confio nele. A democracia é uma relação de confiança mútua, sustentada pela ratificação desta relação pelo voto.

Quando a confiança e a esperança na coisa pública esmorecem, quando a ignorância assola, os sábios de plantão inauguram uma cascata de leis. Se fumar faz mal, proíba-se o hábito de fumar, se adolescentes matam, reduza-se a maioridade penal. Quando a violência assusta, construam-se presídios e se crianças reprovam muito, proiba-se a reprovação. A questão simplista é: regula, proíbe, multa e prende.

O curioso de tudo isto é que criando leis para tudo, criamos injustiças na mesma proporção, porque não há como promover justiça no emaranhado legal num contexto de pouca ética, de poucos juízes, de poucos recursos para a polícia e de muita impunidade. Então, o Estado erra muito e sofre com processos judiciais intermináveis. O Estado ao produzir tantos regramentos não os pode cumprir e fere direitos. A sociedade enreda-se e contrata advogados. Há uma fábrica de processos judiciais! E no final? Impunidade novamente.

A educação na república democrática é o seu verdadeiro sustentáculo. Povo deseducado acaba por ser regrado de perto. Mas é tão regrado que não consegue agir por confiança. Num círculo vicioso, os desconfiados querem mais leis... e por aí vai.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aprender, hesitação e inexatidão.


    
Prof. Amilcar Bernardi
      

       Alguém em pé ensinando. Exercícios. Alguém sentado aprendendo. Executando. Salas cheias de carteiras enfileiradas. Tudo isso cercado por silêncio. Silêncio somente interrompido pela mão discente levantada que pede atenção. Dúvida sussurrada ao mestre. Disciplina. Visão linear da aprendizagem.

            O quadro apresentado no parágrafo anterior é obviamente um estereótipo ultrapassado do que não pode ser.  Imagem essa tantas vezes execrada. Todo o educador sabe que a linearidade, a relação biunívoca causa - efeito na aprendizagem não é possível. Não há novidade em dizer que a petrificação das relações entre aprendizes e entre aprendizes e professores é contraproducente. Na verdade, qualquer petrificação é perniciosa. O ser humano aprende nas contradições e no dissenso.

Podemos extrair da obviedade do primeiro parágrafo algo interessante. Porque a escola não pode ser algo mecânico? Por que não podemos ensinar de maneira linear? 

       Porque a univocidade entre ordens e respostas, entre comandos e reações pressupõe, além da linearidade, a irreflexão. Afinal, refletir é hesitar. O que a linearidade não permite! Porém a hesitação é o exercício daquilo que nos faz humanos: a liberdade! Liberdade de interpretação, liberdade de reflexão e a liberdade de não fazer de forma idêntica ao ensinado!

       A falta de decisão momentânea que nos põe em crise, o titubear que nos obriga a construir respostas é mais que hesitação: é aprender a resolver problemas!  A imediaticidade da resposta empobrece nossas representações. A domesticação das ações responsivas reduz a necessidade de entender conceitos, impede a desaceleração do tempo mental e, portanto, a reflexão. É verdade que a não-hesitação maximiza resultados imediatos, impede o medo que é diluído na velocidade da resposta. Numa guerra e no chão da fábrica minimizar a reflexão produz lucro e exatidão. Na aprendizagem fazer o mesmo é imbecilizar o ser humano.

            A vida é complexa. As emoções são múltiplas e não sabem o que é exatidão. Nossos desejos se sobrepõem à razão nas escolhas que fazemos. A mente, essa desconhecida, nos garante a criatividade mantendo a imprevisibilidade. Graças a Deus não somos oniscientes.  Por isso que o primeiro parágrafo é tão óbvio e sem graça.
 
 
 
Imagem: captada da internet

      

domingo, 26 de maio de 2013

A minha história sobre o medo

Prof. Amilcar Bernardi

Estava com o Jornal de Domingo quando li o texto da escritora Martha Medeiros.  Em um determinado momento ela escreveu algo sobre a sua “própria história sobre o medo”.  Fiquei com essa frase na cabeça. Já não é a primeira vez que escrevo sobre o medo. Mas qual seria minha história sobre ele?
Eu tenho sim algo a falar sobre o medo. Por duas vezes fui demitido. Em ambas as vezes eu era bem jovem. Ambas foram traumáticas, porém, lembro-me mais da primeira vez que da segunda. Quando fiquei sem emprego, ainda morava com meus pais, mas isso não impediu que eu sentisse a realidade de ser expulso do mundo social. E isso dá muito medo.
Lembro bem de passar pelo supermercado e não sentir-me convidado a entrar. As lojas eram templos ao consumo onde eu não era desejado. Tudo se tornou para mim muito estranho. Desde o táxi que a lugar nenhum me levaria até as farmácias que me deixariam morrer sem remédios. Réprobo, não havia mais lugar para mim no mudo dos economicamente vivos. Havia uma maldição em mim.
Percebi sem precisar ser filósofo ou cientista social, a loucura que é ser reconhecido como vivo no mundo humano. Mundo tão antinatural quanto fatal. Senti na pele que tudo é inventado pelo homem: a rede bancária, a roupa, a cura, a doença, (des)emprego e a morte por exclusão. Senti fortemente que fora desse mundo humano, nada há. Fora dele o lugar é de mortos-vivos. Eu, renegado pela invenção humana chamada emprego e salário, estava num lugar que era lugar nenhum: o mundo dos que não poderem pagar para permanecer no fictício espaço social. Por isso virei zumbi, um caminhante sem lugar social para ficar. Eu podia existir, mas não podia conviver.
Nesse mundo ilusório, mas real porque pode matar, chamado sociedade, até meus amigos tinham dificuldade de continuarem meus amigos. Eles, assalariados e socialmente viventes, não sabiam como conviver comigo. Agora eu era um ente estranhável e de difícil acesso.  Os amigos tinham vergonha de oferecerem-se para pagar as coisas para mim, como o ingresso num simples cinema. E também sofriam porque não podiam convidar-me para nada sem ter que tudo pagar!  Banido da vida econômica eu também tinha vergonha de não poder participar do mundo produtivo/consumidor. Então me isolava no mundo zumbi dos desencaixados socialmente.
Isso sim me dá medo: existir como consciência e inexistir como pagador/consumidor da vida social fictícia. Eu podia existir onde não era necessário pagar para estar. Então eu descobri que não existem muitos lugares para os que não podem pagar para estar. Eu era jovem e a lição foi muito, muito dura. Aprendi, entre tantas coisas, que tudo que eu sabia: ler e escrever, falar bem, escrever poesias, amar e ser amado, dizer bom dia e obrigado, de nada valia. Lá no meu quarto eu olhava meus livros e isso doía muito. Li muito, sabia muito de coisas que valiam nada. Quero dizer, coisas que não valiam uma passagem de ônibus, um refrigerante, um cafezinho ou um almoço. Muita gente boa achava que eu valia menos porque não tinha salário. E ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas admiravam os que me negavam emprego.
Essa é a minha própria história sobre o medo. Medo que ainda me acompanha. Nunca mais quero viver o mundo zumbi dos que são enjeitados pelo mundo social inventado pelo homem. Essa esquizofrenia que é a vida paga, está tão enraizada que permite zumbis que caminham gemendo, socialmente semivivos.  
Eu fui um zumbi social. Só deixei de ser um quando fui (re)incorporado a esquizofrenia coletiva dos que podem pagar. Essa é minha história de terror. A história de um tempo em que eu era um ser vivo, mas não era reconhecido como gente, caminhando sozinho numa terra inóspita onde ninguém sabia o que fazer comigo. Eu era um zumbi cuja cura era a dignidade de um salário. Mas ninguém queria pagar por isso. Quem puder que conte medo maior que esse!



sábado, 25 de maio de 2013

Amor e alienação

 Prof. Amilcar Bernardi

 

Podemos dizer grosseiramente que a alienação, em Marx, acontece quando o trabalho humano produz coisas que são independentes e não pertencentes à pessoa que as produziu. Penso que, seguindo essa reflexão, alienar-se é viver produzindo coisas que não vão nos pertencer, ou seja, existimos para o outro (ou para as coisas) na esperança de ter a plena posse (das coisas ou das pessoas). Nas montadoras de veículos, monto o carro que não terei, estudo para o curso superior não pelo conhecimento em si, mas para o status[1] (que nunca será totalmente “meu”), vivo para o dinheiro (que nunca o possuirei na sua plenitude)... Assim, entendo que vivemos mais para fora de nós do que para o crescimento como pessoa única. Construir-me como alguém que está sempre fora de si é perigoso. Alienar-se, nesse sentido, é não ter empatia (caminho de ida e de volta; na alienação é só ida). O inverso, evidentemente, é também perigoso: viver para dentro, ensimesmado, imerso num egocentrismo. Aqui é interessante lembramos do “meio termo” aristotélico.

O que é o amor? Inúmeros poetas já o tentaram definir. O amor como o conhecemos é recente (sob o ponto de vista histórico). Ele é considerado um sentimento nobre que nos predispõe favoravelmente a outra pessoa, que nos faz desejar o bem dela, levando a uma situação de dedicação e, não raro, nos leva a devoção. Quando amamos, tendemos a esquecer de nós e a aproximarmo-nos do outro. Esse sentimento, esse esquecimento de si é culturalmente louvável e incentivado. Tanto as religiões quanto os poetas elogiam essa situação. Viver para o outro é amar. Podemos ir ao extremo de apaixonar-se. Então se agrava esse esvaziamento de si. A paixão é um sentimento exacerbado que se sobrepõe a razão. Quanto mais amo menos sou eu mesmo. Alienado, perco-me na busca da posse impossível do outro. Vivo para ou outro. Se guardo para mim grandes parcelas de eu mesmo, sinto como se não amasse o suficiente. O mesmo eu cobro da pessoa querida!

Podemos pensar: por que nos alienamos dessa forma? Na verdade, esquizofrênicos, buscamos o prazer narcíseo, egocêntricos e egoístas, buscamos no outro, na vida do outro, EU MESMO! Busco a MINHA satisfação, o Meu prazer, a MINHA alegria! Mesmo que para isso perca parcelas importantes da minha identidade e da minha liberdade! Vivo para o outro para ser EU MESMO feliz!!!!!!!!!!! Dialética estranha, porém, real e inevitável. Quantos morrem por seus amores! Preciso tanto do outro para ser EU que morro por isso! Portanto, amar é alienar-se. Quanto maior essa alienação, menos estou em mim para conhecer-me, para conscientizar-me de mim mesmo. Estranho, não? Viver para o outro (na esperança da posse plena) é uma tentativa de encontrar a mim mesmo!

 

 

 

 



[1] Status: lugar social ocupado pelo indivíduo no sistema de estratificação social.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Entre o analógico e o digital: falsa escolha



Prof. Amilcar Bernardi


Há bastante tempo escuto/leio a questão: velocidade analógica versus velocidade digital, professor que sabe pouco no mundo informacional do século XXI versus nativos digitais que sabem muito. São questões que se prestam a profundas discussões, porém, penso que partem de premissas que reputo como falsas, ou no mínimo, carentes de fundamento.
Caso façamos uma pesquisa sobre a idade dos que anunciam a dominância do mundo digital sobre o analógico na educação, são os nascidos na cultura pré-digital, ou ainda incipientemente digital, que apregoam as benesses das tecnologias cibernéticas. Talvez um ou outro pensador seja bem jovem, mas na grande maioria são pessoas culturalmente vinculadas a prevalência dos cadernos, dos quadros e dos gizes: na maioria migrantes digitais, portanto.  Digo isso porque quero salientar que, no caso da educação contemporânea, a ideia de tempos (tempo da máquina de escrever X tempo dos supercomputadores) é infundada.
Quando ensinamos sempre é “hoje”; afinal, somos filhos e contemporâneos do ontem. Contemporâneos porque os avós, os pais e os filhos estão assistindo ao espetáculo das aulas: hoje! Tem professor que é pai, que é avô e tem também, o professor muito jovem, recém-formado. Todos vinculados às salas de aula! Portanto, o ensinar/aprender de ontem e o de hoje não se excluem. Tenho certeza que saber a tabuada através do quadro de giz ou por um blog, só leva em consideração a importância de saber a tabuada. O aluno que se motiva através da escrita desta tabuada no caderno, é tão “normal” quanto o motivado pela lousa digital. A motivação depende pouco dos meios físicos ou tecnológicos, depende bem mais dos fatores humanos. Alguém motivado (internamente) tende a motivar outra pessoa. Com isso, obviamente, não estou negando as TICs; apenas relativizando as “odes” feitas para elas.
Eu era praticante de uma arte marcial. Eu tinha como estímulo o desejo de sucesso numa luta entre iguais. Nessa luta a criatividade, a previsão (antevisão) do golpe do adversário é fundamental. Mas como chegar a esse patamar? O foco. É necessário ajustar o foco no treinamento para ser “randômico” na luta. Na verdade, o foco, a multivisão e a criatividade são a mesma coisa para obter o sucesso na arte marcial. Porque disse isso? Porque acredito que o aprender escolar segue a mesma problemática: foco e criatividade irmanadas; inseparáveis. Então, tanto o acesso ao conhecimento focado e o acesso “randômico”, digital e multifocal a esse conhecimento são inseparáveis na arte de aprender a aprender. Caso o professor escolha apenas uma das opções, não obterá sucesso.
Aprendi no século passado que as aprendizagens (e as ensinagens por consequência) são múltiplas, infinitas até. Então, todas as formas de ensinagem ainda são válidas, sejam as virtuais, as analógicas ou as contadas pelo índio mais velho ao mais novo. E digo mais: todas as formas de ensinar/aprender acontecem em todas as aulas, em todos os tempos e em todas as disciplinas, independentemente se da parte do professor, se da parte do aluno, se no livro, se nos espaços cibernéticos.



Imagem: http://instinctalternative.blogspot.com.br/2010/07/projeto-ciberneticos-tron.html

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A rede não precisa de nós


 Prof. Amilcar Bernardi


Marx nos disse num dos livros do O Capital, que o homem, ao atuar sobre a natureza, ao modificá-la, ele modifica a sua própria natureza. Esta afirmação ficou buzinando na minha cabeça, como um mantra. Mesmo no século XXI, ela faz sentido.  Sabemos que nosso século é o tempo em que trabalhamos sobre(e com) a informação. Ela, a informação, está personificada no mundo virtual, o ciberespaço. E quanto mais fuçamos no virtual mais o virtual fuça em nós.  Viver interligado e refletir sobre a interligação muda nosso modo de ser, muda-nos culturalmente e ontologicamente.  Quanto mais vivemos, ou sobrevivemos, em rede, mais nos diferenciamos do que éramos há décadas atrás. Cedemos às investidas do on-line.
A realidade on-line tem vida própria. Cada indivíduo relaciona-se com o mundo das informações como se elas fossem um “outro”. Um lugar onde Eu, individuo, vou buscar coisas. Aventuro-me pessoalmente na cornucópia virtual e lá (não sei onde fica o lá) encontro tudo o que quero. Minha fé religiosa no” ciber”, faz com que  eu creia na infalibilidade da internet, ela tem sempre algo a dizer sobre alguma coisa. Eu, indivíduo, se morrer amanhã, não farei falta nos espaços on-line. Ele independe de mim. Ele é um ser onipresente e onisciente pronto para devorar-me se eu não o adorar, se eu não fizer cursos para entendê-lo, é esse deus que dirá do meu emprego e do meu futuro. Se eu não comer fatias dele diariamente, ele devora-me por inteiro matando-me. Eu nada sou individualmente na rede. Eu sou porque estou nela (se fico off-line, desapareço virtualmente).
Sem a humanidade a rede nada é. Porém, a rede sem alguns indivíduos continua sendo.  A inteligência virtual só precisa de mim para que eu reproduza seu poder. Porém, se eu não a reproduzir não farei falta. Isso porque desaparecerei e serei logo substituído por outro. Ela cresce exponencialmente enquanto os indivíduos, comparados a rede, são criaturas mortais que vivem para alimentá-la. Inclusive eu, neste momento, já sei que vou por na rede este texto, pois só assim ele existirá. Só assim sei que ao morrer meu Eu, continuarei vivo na rede. A imortalidade está fora de nós, fora dos espaços físicos, dos livros e das artes. Sem a rede estamos soltos sem comunicação possível.
Porque criamos o ciberespaço nós nos recriamos. Nossos neurônios sofrem mutações porque nossas crianças vivem em frente aos monitores. As crianças ganharam conhecimento e perderam habilidades motoras, obesas e de cabeças cheias de informações. A rede não se importa com isso. Ela é eterna e não espacial. Ela não precisa de mim ou de ti. Nós é que precisamos dela.


Imagem:http://www.rafaelnova.com/2011/09/rede-social.html


segunda-feira, 29 de abril de 2013

A escola baseia-se na mística e na confiança

Prof. Amilcar Bernardi

Quando os pais escolhem uma escola para seus filhos, na verdade depositam nela fé e esperança. Ambos os sentimentos são “sentidos” antes de frequentá-la. Quem escolhe, escolhe com um pé no presente e o outro no futuro. A escola que escolhemos hoje deve nos deixar seguros na sua estabilidade pedagógica, para que amanhã possamos manter nela nossos filhos. Esses sentimentos bastante irracionais como a fé e a esperança, podem ser resumidos na palavra: confiança.
Se não confiarmos, não poderemos escolher esta ou aquela instituição de ensino. Confiança tem a ver com a manutenção de uma conduta por um determinado tempo.  Uma escola que mude seu plano global, sua filosofia anualmente, com certeza será menos confiável. Da mesma forma, se o quadro de professores não se mantém, é uma preocupação importante. Em ambas as situações hipotéticas a desconfiança cresce. Um “tanto” de estabilidade e um “tanto” de rotina faz com que confiemos mais, ou no mínimo, faz com que nossas escolhas atuais possam se manter no tempo.
A tensão entre a permanência de um jeito de ser da escola e a velocidade das mudanças no sec. XXI, é uma questão chave. Como a escola se posiciona nessa tensão trará a (des)confiança. Se ela ficar petrificada, sem mudanças, morre inerte. Se mudar sem reflexão, rápida, perde credibilidade e... morre também. Escolas são ambientes que se justificam pela confiança, pois educar e confiar são um binômio inseparável.
Portanto, não creio nos que falam que todas escolas são lentas, ainda medievais porque não mudam no ritmo da modernidade. Penso que a velocidade da confiança não é a mesma velocidade da modernidade. Não podemos esquecer que estamos num tempo de inconstâncias, de medos e desconfianças. Caso a escola siga este mesmo ritmo, sofrerá dos mesmos males.
A racionalidade que acompanha a escolha por esta ou aquela escola é muito especial. Escolhemos por uma mística que exala da filosofia que sustenta a instituição escolar, que a faz única. Disse por duas vezes a palavra “mística”, porque ela sugere algo de mágico, misterioso. Ao escolher, antes de tudo acreditamos, mesmo que por caminhos mentais aparentemente racionais. Digo aparentemente porque passamos a confiar, a crer numa proposta e desacreditamos em outras tão racionais e lógicas quanto a por nós escolhida. Esse mistério que nos vincula a uma proposta educacional só se mantém enquanto nela tivermos confiança.
Não podemos igualar a velocidade das mudanças escolares às mudanças tecnológicas e às invencionices metodológicas. Muito da desconfiança que as pessoas nutrem umas pelas outras, tem relação com as mudanças aceleradas que nossa cultura sofre. As escolas não podem sofrer do mesmo mal. O mistério que nos mantém engajados a esta ou aquela instituição educacional é o cerne da educação escolar. A fé e a confiança tem seu tempo próprio. Acelerar é apostar no consumismo e na desconfiança que inspira tudo que é perecível, mutante e, portanto, irrelevante.



sábado, 30 de março de 2013

Saudades antecipadas

 Prof. Amilcar Bernardi

É uma relação de longa data. Sinto especial angústia porque não durará muito tempo. Muitos dizem que essa relação está fadada ao desaparecimento, apesar de ser uma relação já longeva. A tecnologia digital estaria tornando obsoleto o papel.
 Quando leio o jornal impresso, uma eletricidade quase sensual percorre meus dedos. Talvez porque quando eu era adolescente, quase criança ainda, adorava ler a biografia dos grandes poetas brasileiros, os clássicos, como Castro Alves, Fagundes varela, Cruz e Souza. Percebi que na época desses poetas, os jornais alimentavam a vida deles. Os impressos davam vida pública aos escritos deles. Eu então, inspirado por tais biografias, sonhava em ser como eles. Para isso desejava escrever para jornais, ter uma coluna opinativa.
Pois é, meu primeiro emprego foi num jornal de Santa Maria! Estudante ainda, eu era humilde vigia nesse jornal. Não estudava jornalismo, mas sim Filosofia. Meu lugar de trabalho era bem longe da redação! Mas logo comecei a escrever, por gentileza do jornalista responsável, pequenos artigos nos espaços destinados ao leitor. Como eu disse, é uma relação antiga.
Sinto um chamado forte, como se o jornal fosse um diário de adolescente onde eu tenho que escrever algo. Inúmeras vezes nem sei o que escrever, mas o chamado é o mesmo, forte, profundo, obscuro, visceral.  Invejo os escritos nas colunas opinativas. Alguns são de extrema qualidade.  Bicca Larré é um bom exemplo da qualidade a que me refiro.
Assim como um maestro conduz os violinistas da orquestra, observado em êxtase pela plateia; ao ler o jornal imagino-me escrevendo, regendo palavras para o deleite intelectual dos leitores. Acredito que o enlevo é o mesmo, o do maestro e o do escritor que imagino ser.
Sei que minha visão é romântica. Mas se não houvesse um romance nessa relação, ela não seria encantadora e, portanto, não seria merecedora das palavras que estou amorosamente materializando aqui.
Amo as folhas grandes do jornal. Amo seu cheiro específico. Amo seus acertos e deslizes. A história moderna só foi possível pelos jornais, pelos jornalistas e pelos escritores que despejaram tantas ideias nas pessoas através desse encantador meio de comunicação social. Tenho uma relação poética com o jornal, acho-o algo além de um informativo, é uma manifestação artística.
Escrevo agora imaginando que um dia a tecnologia digital substituirá o jornal de papel. Então, já declaro meu amor e saudades antecipadas.

sexta-feira, 29 de março de 2013



A realidade da separação corpo e mente

                                                                       Prof. Amilcar Bernardi

Quando penso em separação corpo/mente vem à minha cabeça Platão e Descartes. Tinham eles, e outros é claro, um ideal de separação onde a mente tinha evidente superioridade sobre o corpo. Cheguei a crer que essa separação estava sepultada pelos avanços da Psicologia e da Filosofia. Porém, essa dicotomia atingiu o ápice na proporção em que a tecnologia avançou e tornou possível na prática diária essa divisão corpo (pesado, fixado) e a alma (como conhecimento e informações voláteis e onipresentes).
É do senso comum que hoje o que “vale” é o conhecimento. Pessoas que sabem mais são mais, mesmo que seja pouco provável que saibamos identificar o “saber mais” do “saber menos”. Parece que pessoas mais espertas merecem o sucesso e as almas mais obtusas nada merecem, ou merecem bem menos.
As tecnologias favoreceram e realizam de fato a separação corpo/alma. Hoje, e cada vez mais, as mentes viajam volatizadas, descorporizadas pelo mundo virtual. Elas vão a qualquer parte do planeta, viajam por bibliotecas no mundo, sabem cada vez mais de mais coisas. E o corpo? Fica sentado e obeso em frente ao computador. Inclusive pessoas cada vez mais se apaixonam por outras pessoas virtuais, ou seja, se apaixonam por mentes que se projetam nas redes sociais. Quase que o físico, o corporal não importa mais. O mundo material é cada vez mais um empecilho para a realização da vida sem corpo, da vida virtual.
As discriminações tendem a ser mais pelo que as mentes possuem do que pelos corpos sarados. Corpos cada vez mais tendem a existir apenas para o prazer sexual, e as mentes espertas e perspicazes, tendem a ganhar maior valor social. Mesmos as diferenças sociais baseadas na riqueza, são valoradas diferentemente: riquezas obtidas por proezas da mente (inteligência e mesmo apenas malandragem) são mais consideradas que aquelas vindas do trabalho corporal e do suor. Convém lembrar que até as riquezas são virtuais: já não é mais possível materializar toda a riqueza planetária em notas de dólar. A riqueza só é possível dentro das máquinas virtualizantes nos bancos.
O mundo social está vivendo um momento interessante: cada vez mais investe no ideal de mentes inteligentes desligadas dos corpos. Mentes viajantes nos pelos espaços virtuais onipresentes e oniscientes. Os corpos sarados e lindos, cada vez mais são um produto para consumo rápido, como se fossem de pouco valor, um pequeno deleite entre uma conexão e outra.




Imagem: http://2pass.wordpress.com/2009/11/23/se-eu-fosse-virtual/