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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Einstein e Heráclito não podem ser professores hoje.

Prof. Amilcar Bernardi

Os entendidos em educação há bastante tempo estão alertando os educadores que tudo está em mudança. Afirmam que a ciência cada vez mais produz cataclismos no nosso jeito de ver o mundo. Einsten “deu nos dedos” do Newton dizendo que tudo é relativo. A velocidade da máquina de escrever é impensável para as pessoas do século XXI, assim como o pensar religioso monolítico dos tempos medievais, desapareceu sob o ponto de vista das inúmeras religiões de hoje. Os tempos hodiernos estão mais para Heráclito, que partia do princípio de que tudo é movimento, e que nada pode permanecer estático, do que para os dogmas inquestionáveis.

Nesse contexto heraclítico os valores são questionáveis e mutáveis, as leis oscilam entre abrandamentos e recrudescimentos, as famílias são agrupamentos de pessoaas sem conceito definitivo, a política um jogo onde a única coisa que não se questiona é o desejo de poder. Nas escolas o termo “ensinar” sugere tempos passados. Hoje o professor é um mediador , um incentivador do aprender. A própria palavra aprender, sofre também desgaste, pois hoje aprender significa tanta coisa que as definições são múltiplas.  “Acreditar” não é mais possível, pois acreditar em que, se rapidamente o que era possível de fé já mudou?

Os jeitos de fazer educação estão  lançados nos ares seguindo dois princípios; o do Einsten (tudo é relativo) e o do Heráclito (tudo muda, menos a lei que diz que tudo muda). Também eu, motivado por estes princípios, não posso dizer que o pensamento contemporâneo está errado ou é ruim, nem que é bom ou que é melhor. Sem padrões não posso opniar, ou opino temporariamente. Nunca Sartre esteve tão certo quanto agora, quando afirmou na sua juventude que somos totalmente livres. Claro que sujeitos totalmente livres, na mesma proporção, são totalmente responsáveis pelo que escolhem, pois não sofrem limite algum ao optar.

Já que tudo muda, escrevo este texto ouvindo meu coração. Espero que também ele não mude até eu terminar este escrito/desabafo. Meu argumento “cardíaco” baseia-se nas angústias do meu dia a dia como educador. Meu intelecto maravilha-se com a liberdade nunca antes sentida. Rejubila-se com as teorias libertárias sobre o mundo da informação  cambiante, dos espaços fluidos e das relatividades morais. Porém a dor “cardíaca” surge no dia a dia, quando o professor é conclamado a renegar tal mobilidade. Tudo é real e estático demais quando o educador é chamado a responsabilidade pelo seu fazer em sala de aula, responsabilidade irrecusável e intransferível.

Fico imaginando onde está a  mudança e a fluidez contemporânea, quando o professor tem que responder as seguintes e complexas questões: o aluno reprovou ou não? Jorginho colou ou não? Quando Pedrinho caiu, tu estavas com ele ou não? Meu filho aprendeu ou não a tabuada? Bater porque foi agredido antes, é certo ou errado? O Onofre rodou ou não nos exames da OAB? Mário morreu na mesa de cirurgia, o médico aprendeu ou não a técnica? Fulano matou aula, a escola sabia ou não? Se sabia, foi incompetente? Se não sabia, foi omissa? Os cadernos de chamada foram entregues ou não nas datas determinadas? E por aí vai.

Penso que Einstein e Heráclito não podem lecionar. Na escola nada é relativo, tudo é “sim” ou “não”. E se assim não for, quem - de fato - vai ensinar que nem tudo é relativo?


Um comentário:

  1. Caro Prof. Bernardi.

    Não tenho nenhuma angústia existencial como professor. Afinal eu sempre entreguei as fichas de chamada, devidamente preenchidas, ao fim de cada aula.
    Atenciosamente,
    Claudio

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