Prof. Amilcar Bernardi
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
A contra política e o vórtice do consumo infinito
Há
quem encontre vários motivos para evitar falar, entender, discutir e participar
da política. Mas, por qual motivo?
Política,
aqui entendida em sentido lato, ou seja, refiro-me a tudo que se relaciona com
a gestão racional das relações humanas dentro dos países e entre os países.
Portanto, falo dos governos, dos políticos e dos cidadãos que se envolvem, ou
são envolvidos, pelas ações estatais e jurídicas necessárias para regular a
vida em sociedade.
São
várias as justificativas para evitarmos a reflexão sobre o que chamamos de
política. Seja porque nos fizeram acreditar que todo o político age em proveito
próprio (e isso implicaria necessariamente em prejuízo alheio), seja por que há
grande possibilidade de provocar discussões acaloradas. Percebamos que há uma decisão
implícita: se eu não participo, aceito tacitamente que os “outros” devem se
preocupar com isso.
Entretanto,
há mais profundidade do que imaginamos nessa recusa em discutir/vivenciar a
gestão pública das coisas do Estado.
Vou
tentar desenvolver objetivamente os motivos de tal rejeição.
Há
quem não se preocupe com as mazelas públicas da gestão estatal sobre os
cidadãos. Muitos acreditam que são superiores às questões da pólis, pois estão
acima destas questões. Acreditam não fazer parte do “sistema” (algo sempre
indeterminado). São honestos demais, éticos demais para se imiscuírem com as
discussões tensas sobre os destinos da cidade. Entretanto, a questão é maia
complexa. Sigamos.
Em
qualquer situação, discutir a pólis é se expor. Desnudar-se nem sempre é uma
atitude preferível. Afinal, a depender do que somos “por dentro”, seria
terrível nos expormos ao público! Percebamos que não discutir política é,
portanto, uma decisão política. Decidimos em função do custo-benefício da
exposição do nosso pensar, não trazer ao espaço público nossas convicções.
Ainda
há muita coisa abaixo do que dissemos até agora. Vou trazer à discussão o que
acredito ser o real impedimento de inúmeras pessoas se exporem nas discussões
políticas.
Falar
da (e na) comunidade, falar da convivência entre muitos, necessariamente é
falar de autolimites (não podemos nos comportar de qualquer jeito em público).
Com certeza, ter consciência/experiência de viver entre muitos nos faz pensar
que nossas ações impactam os outros. Somos responsáveis por estes impactos. Então,
evitar a discussão de assuntos públicos polêmicos, afasta a nossa consciência
da nossa responsabilidade social. É fato que não temos liberdade plena quando
convivemos. Afinal, a liberdade plena só
seria possível na solidão de uma ilha inabitada. Mas aí há um problema fatal:
ninguém conseguiria viver por escolha própria os horrores da solidão absoluta.
Muitos,
para evitar ter consciência da responsabilidade e da ausência da liberdade
plena, fogem (ou tentam fugir) das questões políticas. Estes sentem como desagradável
falar das coisas públicas. O debate político obriga a pensar com a comunidade! Isso
os desagrada!
Mas,
o que colocar no lugar da consciência pública para dela fugir? O que é tão
sedutor e viciante, a ponto de fazer crer que é possível viver sem pensar
socialmente? Para aqueles que acreditam
que a política é uma ocupação vulgar, o que colocariam acima dela?
Enfim,
a minha hipótese: estas pessoas tem a fé e a esperança no consumo pleno e
conspícuo. Não apenas qualquer consumo, mas o consumo infinito e ostensivo.
Posso explicar!
Foquemos
no agora, no século XXI.
Só
sou pessoa porque consumo. Sou minhas vestimentas. Sou meu carro reluzente. Sou
minhas viagens. Sou a capacidade de satisfazer meus desejos consumeristas. Sou
o que ostento consumir. E quanto mais raro for o que possuo, mais especial eu
sou: eu mais sou! Quanto mais especial e raro eu sou, menos me preocupo com o
que é popular, social, fraterno, invisível, igual. Afinal, quanto mais eu
consumo, mais diferente eu sou dos que menos consomem (são menos).
Estas
pessoas contra a política, não conseguem valorizar positivamente o diálogo
sobre o que é público na pólis. Estão seduzidas por uma ilusão extremamente
prazerosa para uns e extremamente dolorosa para outros. É constitutivo do
prazer de uns ignorar a dor do outro. Falo da ilusão e da luta constante pelo
consumo infinito. Agem assim para esquecer que tudo é finito. A infinitude do
consumo se contrapõe a finitude de nossas vidas.
A
essência da luta pelo consumo pleno é a rejeição (recalcamento psicanalítico) da
angústia da finitude.
A
crença destas pessoas de que o desejo de consumir é universal, consome elas próprias!
Elas estão sendo consumidas pelo desejo viciante de consumir. E por que é
viciante? Porque o foco é o prazer de consumir, não a posse dos objetos
consumidos!
Se
o vício do consumo está presente, a discussão política está ausente, pois são
conceitos antagônicos: não podemos consumir pessoas!
Esta
aversão ao político faz com que estas pessoas não vejam o outro como cidadão. O
outro é algo a ser definido por outros elementos, que não os determinados pelas
relações cidadãs no Estado. Para estas pessoas, o consumo é a medida de ser no
mundo. Medida pela qual criamos uma hierarquia de ser. O tanto que eu sou
pessoa, é o mesmo tanto que sou capaz de consumir.
A
universalização do desejo de consumir (desejo este que vem antes do consumo)
passa a ser a regra que rege as relações que querem ser antipolíticas. Estas
pessoas creem que são melhores os que conseguem realizar esse desejo de forma
mais espalhafatosa (não basta a quantidade, é preciso a visibilidade). Por
consequência, a humildade, por esse critério, necessariamente é hipocrisia. Acreditam
que a humildade é evidente sinal de fracasso (pois gera constrangimento) ou de
artimanha para angariar melhores condições de consumo. Dizem estas pessoas
antipolíticas, que a humildade vem de alguém de má fé ou de um fracassado. Elas
acreditam que é evidente a necessidade de ostentar o poder de consumo.
O
fetiche consumerista está mais na ostentação do que na realidade. O esforço
deve ser invisível, mas o resultado dever ser maximamente visibilizado.
É
risível, mas muitas pessoas com poucos recursos para o consumo conspícuo,
ostentam nas redes sociais falsas imagens! Da foto do vinho nacional com cara
de francês, até a ostentação de roupas que falsamente parecem ser de marcas
famosas.
Ser
é parecer ser: esta é a máxima.
Então,
para que elas precisam do Estado, se odeiam a política e a discussão sobre a
sociedade? Elas acreditam que o Estado só existe para que possam consumir com
segurança. Só falam alguma coisa sobre o Estado quando ele falha em relação a
segurança do seu consumo conspícuo.
Evidentemente
que há paradoxos incontornáveis, caso estejam no nível da consciência.
Eis
três paroxismos:
-
Paradoxo: Quanto mais entendemos que o Estado existe para a liberdade do
consumo, também entendemos que não haverá segurança ambiental. Portanto, é uma
liberdade que nos limita (limita nossa qualidade de vida) - Liberar uma
instância limitando outra.
-
Paradoxo: Pedir a segurança Estatal para o consumo conspícuo e infinito, é
provocar a insegurança: cada vez menos consumidores entre cada vez mais
excluídos (vítimas do mesmo desejo universal de consumir infinitamente). O
desejo de segurança que gera insegurança.
-
Paradoxo: A exposição infinita do consumo infinito gera maior necessidade de
mais exposição, pois a exposição contínua gera o tédio. O tédio exige mais
exposição que gerará mais tédio.
Com
certeza há mais paradoxos. Consumo infinito, exposição infinita, tédio infinito
e paradoxos infinitos.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Capítulo que foi urgentemente acrescentado a obra “Pollyanna” da escritora Eleanor H. Porter.
Capítulo
que foi urgentemente acrescentado a obra “Pollyanna” da escritora Eleanor H. Porter.
Pollyanna
estranhou.
-
Ora, como não podem jogar agora o jogo do contente?
Ela
sabia que para muitos o jogo era bem difícil. Mas ela podia ensinar, ajudar aquele
povo que não sabia jogar. Ela, americana, aprendeu! Ela sabia, sempre há coisas
boas nas coisas ruins. É preciso aprender a encontrar. Há pessoas que, pelo jogo do contente, já conseguem rapidamente encontrar motivos para estarem contentes.
Ela
resolveu ajudar um pouco aquelas pessoas.
-
Ora, começou ela. Se o presidente foi sequestrado, ficou a vice-presidente.
Portanto, não foi tão ruim assim. Podia ser pior! Como junto com o presidente
foi sua esposa, que bom!, não sentirão saudades um do outro. Viu? - Questionou ela
- há sempre motivos para ficar contente.
Um
dos presentes questionou:
-
O direito internacional foi desrespeitado!
A
menina sorriu. Não ia abandonar aquele triste povo. Não era fácil para alguns
jogar o jogo do contente.
Pollyanna
pacientemente jogou sua cartada nesse jogo. Disse:
-
Vamos ficar alegres! Fiquemos contente, pois não foi uma guerra. Foi apenas um
sequestro pequenino. O sequestrado nem se machucou. Nos alegremos, pois os estrangeiros
foram gentis e não agrediram o sequestrado. E mais, a esposa foi junto, para a
alegria do casal. - Concluiu a mocinha graciosamente:
-
Viram, não é tão difícil encontrar motivos para ficar contente.
-
Pollyanna! - falou de
maneira exacerbada um dos presentes – Fomos traídos, pois alguém não acionou
nossas defesas antiaéreas!
A
jovem, que já sabia como era difícil jogar, insistiu.
-
Mas, meu amigo, não foi melhor assim? Sem resistência, poucos morreram! Então, os
traidores foram úteis para diminuir a mortalidade do ataque! Nem tudo é
totalmente mau.
Uma
senhora muito irritada, interrompeu a angélica jovem. Quase gritou:
-
Mocinha! Fomos invadidos. Nosso líder sequestrado. Nossa honra foi atingida
fortemente.
Pollyanna,
como era de seu feitio, sorriu. Pensou um pouco, pois não era fácil jogar com
pessoas tão pessimistas! Mas, assim que achou como continuar o jogo, disse:
-
Senhora! Fiquemos contentes! Lá no livro O Pequeno Principe, eu aprendi que “somos
responsáveis por aquilo que cativamos”. Ora, é só cativar o invasor que ele cuidará
de nós. Disse candidamente a moça.
Após
esta fala ela foi “embalada” em uma camisa de força e colocada em um avião americano.
Então ela fez seu último jogo:
-
Estou contente! Ainda bem que não fui agredida pelos presentes.
O planeta do general. O planetinha que o Pequeno Príncipe esqueceu de relatar. (Em homenagem aos que apoiam as intervenções imperialist@s na America Latina)
O
planeta do general. O planetinha que o Pequeno Príncipe esqueceu de relatar.
(Em
homenagem aos que apoiam as intervenções imperialistas)
O Pequeno Príncipe
chegou ao mais estranho dos planetinhas que já visitara. A aparência do planeta
era similar aos outros. Era pequeno. Bem pequeno. Bastava alguns passos para ir
de um lado ao outro deste pequeno orbe.
O
que o fazia tão estranho? A estranheza estava nos personagens que viviam nele.
A
pessoinha vestia-se como um militar. Usava um chapéu estranho. Usava também uma
farda azul. E botas. E bigodes. Tinha um ar sério. Sobre os ombros fixavam-se dragonas
amarelas. O estilo era bem pomposo.
Em
um primeiro momento, não dava para saber se era um maestro daquelas bandas coloridas
que andam pelas ruas nos dias festivos.
Também
poderia ser um militar. Olhando bem de perto, em função das medalhas, deveria
ser um militar importante.
Mas
o que deixava tudo bem estranho eram as formigas. Elas estavam em frente ao
pequeno militar. Estavam perfiladas. Parecia estarem à espera de ordens.
Atentas, pareciam viver para obedecer.
O
planetinha estava quase sem oxigênio, nem água. Afinal, já não existia nele
plantas, rios ou animais.
-
Olá senhor! O senhor é um militar?
-
Que susto pequeno viajante. Claro que sou um militar. Mais que isso: sou
General generalíssimo, comandante supremo de tudo que aqui existe.
-
Então, General, o senhor é muito importante!
-
Claro que sim! Veja o meu exército! Ele não é assustador?
-
Desculpa-me, General, só vejo pequenas formigas.
-
Tens problema de visão, meu caro visitante? Eis o meu exército. Não se engane!
Não são apenas formigas. São formigas militares, heroicas, fortes, destruidoras.
Sempre a espera de ordens. Sempre obedecem. Nunca questionam.
-
Que medo!
-
Melhor ter medo mesmo. – Confirma o sujeitinho fardado.
-
General, o senhor percebeu que seu mundo está acabando?
-
Sim, evidentemente. Afinal, sou um General generalíssimo. Já mandei o meu exército
fazer mais exercícios militares para enfrentar o inimigo.
-
Qual inimigo, senhor general?
-
Ora, bem se vê que és um civil, inapto para os grandes perigos. O inimigo, ora,
é a destruição do planeta. – O general estava feliz em ser superior ao visitante.
-
Entendo. Mas, o que exercícios militares podem ajudar nessa situação?
-
Ora, militares treinados lutam melhor contra o inimigo.
-
Sim. Mas e o planeta? Apesar dos exercícios militares, o planeta vai morrer.
-
Sim, sei disso. Então vou mandar meu exército de formigas construírem trincheiras.
-
Só isso?
-
O visitante acha pouco? Então vou mandar construir enormes formigueiros. Não
qualquer formigueiro, mas totalmente armado e a prova de bombas.
-
Quais bombas? - Pergunta o visitante ao General.
-
Não importa. Se tu falas em destruição do planeta, com certeza haverá bombas!
-
Mas senhor, o planeta está morrendo porque não tem ar, nem água.
-
Ora, jovem, vou mandar meu exército destruir aquela plantinha ali. – E os
insetos acabaram com a planta em um segundo. Eram bem treinados!
-
Porque o senhor fez isso? – Assustou-se o jovem visitante.
-
Ora, jovenzinho, para mostrar ao inimigo nosso poder! Os inimigos temerão nosso
poder. E os militares vivem disso: enormes demonstrações de poder destrutivo.
-
General, mas é o planeta que será destruído!
-
Obrigado por reconhecer isso, meu jovem!
-
Não entendi, senhor.
-
Ora, se os militares vivem para demonstrar seu poder de destruição, destruir o
planeta é a maior, e magnífica, e definitiva, e estrondosa manifestação deste
poder! Antes que tudo acabe...acabemos antes!!!!
Assustado
com tal brutalidade e espantosa ignorância, o jovem viajante continuou sua
viagem por outros mundos. Ainda deu tempo para ouvir o general gritar para seu exército
de insetos:
-
Destruam tudo o que poderem para demonstrar nosso poder. E destruam logo, antes
que este mundo acabe!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
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