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sábado, 6 de julho de 2013

Para refletir: Descrença absoluta

Prof. Amílcar Bernardi


A sociedade está carente de valores. Aqueles valores que agregam, que trazem confiança para as pessoas. Tirar vantagem sempre (que é um valor também) trás desvantagens sempre (perdoem o trocadilho). Quanto maior a vantagem que tenho sobre o outro, maior será a desconfiança que se estabelece. Sujeitos desconfiados são violentadores e violentados, pois foi retirados deles a capacidade de não temer o próximo.

 

O elogio desenfreado à racionalidade é preocupante. Penso que a confiança é algo irracional. Está mais próxima da fé na bondade do outro do que na capacidade de calcular o mal que o próximo pode nos causar. Penso que a racionalidade faz com que eu desconfie primeiro. Depois, como exceção à regra, eu estendo a mão solicitamente ao outro. A razão pondo o cálculo acima da crença (irrefletida) na bondade alheia, faz com que a confiança seja exceção e não a regra.

 

A desconfiança (racional, refletida) virou epidemia. O medo de ser lesado e o desejo de lesar esta desestruturando os vínculos sociais. O número de leis cresce enormemente e cada vez são mais duras. Como resultado, passam a ser uma arma nas mãos dos mais “espertos”. Estes “espertos” as usam em favor próprio. Corremos o risco de o emaranhado de leis causarem ainda mais desconfiança nos seus usuários. Os cidadãos temem a lei, pois ela pode voltar-se contra eles mesmos. Porém, ela logo vira poderoso gládio quando os favorecem. Nenhuma lei pode ser justa ou causar harmonia na sociedade, quando os valores estão adoentados. Todo o valor que diminui a qualidade de vida dos cidadãos é doente.

 

A descrença avança. A razão empobrecida pelo cálculo egoísta/hedonista avança. Quando falo em descrença e falta de fé, não necessariamente refiro-me a apelos religiosos. A falta de fé na capacidade do homem cidadão ser bom, mata a cidadania do homem. Podemos também afirmar o seguinte: a crença na mesquinhez absoluta do homem, causa a descrença absoluta na cidadania. Aquilo em que acreditamos ou que desacreditamos é que in/viabiliza a coesão social. Vejo que estamos cada vez menos coesos. Não penso que as cidades desaparecerão, que epidemias dizimarão milhões de pessoas. Apenas entendo que os laços que nos manterão nas cidades serão cada vez mais precários e penosos. Pertencer à sociedade será um ônus quase impossível de suportar.

 

Quando a ausência de fé no outro acontece, as sociedades buscam alternativas para sobreviverem na convivência. A fé no dinheiro e tudo que ele significa parece ser uma alternativa bem boa. Mas é apenas aparência. Nada pode comprar a confiança. A confiança é um valor não quantificável. Até podemos comprar segurança, mas nunca confiança. Com certeza quanto mais compro segurança, é porque mais desconfiado estou. Nada pode substituir a confiança no outro baseado nos valores do amor e do respeito. Digo isso porque sei disso. E sei porque sinto isso. Porque é um fato inquestionável. Sinto isso todos os dias; no supermercado, no estacionamento, nas aulas que dou. A confiança que tenho na absoluta maioria dos meus alunos, por exemplo, é em tudo diferente do salário que recebo.

 

Sei que inúmeras pessoas já atingiram a descrença absoluta, o desvalor absoluto. Porém estas nada mais podem contar para nós. Refiro-me aos suicidas. Eles são um bom exemplo para refletirmos sobre a desilusão absoluta. Fico também imaginando se a humanidade um dia chegará a esse nível, a descrença absoluta no outro. Aí sim, o mundo acabará e não será por um cataclismo planetário. Será um cataclismo na fé do homem no homem e, portanto, sua morte autoimposta e absurda.

 

 

 

 

3 comentários:

  1. "A mesma praça O mesmo banco As mesmas flores O mesmo jardim Tudo é igual Mas estou triste Porque não tenho Você perto de mim". Os lindos versos de Carlos Imperial, grande sucesso na voz de Ronnie Von, prenunciavam que "A Praça", um dia, estaria vazia de pessoas e seus bons valores? De amores? Vazia de confiança e respeito; de amabilidade e generosidade? Mestre Amílcar também sinto, no meu cotidiano, tudo o que tão bem descreveu, mas reajo, semeio, porque o desprezo e a indiferença não podem vencer. O senhor bem sabe que "o homem é um ser gregário". Os bancos esperam por pessoas que neles possam sentar, dialogar e até discordar, mas sem a violência gerar. Acredite: não estamos sós na difícil empreitada de reviver a civilidade e o apoio mútuo. Há muitos corações quietos, tristinhos, tristonhos, à espera de uma fresta de luz para se manifestarem. Insistamos no bem como meta de vida, acreditando "nas flores vencendo o canhão". Querem-nos descrentes, apáticos, robóticos, antipáticos e fóbicos? Solilóquios, pensemos em voz alta!

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  2. Cara Fabiana! Que lindo comentário! Teu otimismo é contagiante. Parabéns, precisamos de mais pessoas com teu jeito de pensar. Abraços e mais abraços!

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  3. Caro mestre, muito obrigada! Não é fácil nadar contra a maré, porque as condições externas são adversas, mas é preciso trilhar o caminho que nos conduza à edificação do SER HUMANO. Não temos outra saída, a não ser perseverar! Há dias em que eu também canso, mas lembro de meus antepassados, bons exemplos, e novamente me fortaleço!

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