sábado, 20 de dezembro de 2025
domingo, 14 de dezembro de 2025
domingo, 7 de dezembro de 2025
domingo, 30 de novembro de 2025
sábado, 29 de novembro de 2025
Educação Antirracista e nossa (re)visão de mundo
O ser humano ele não “vê” o mundo.
Sempre há uma mediação anterior, pois somos simbólicos. Ver e interpretar são
inseparáveis. Quando nascemos, temos contato primeiro com a interpretação que
nossos pais e sociedade têm do mundo. Só depois o “vemos”. Em um primeiro
momento, o que cremos se sobrepõe ao experienciado. Depois, com as (com)vivências
(trocas de experiências) e com o conhecimento (escolar/científicos) passamos a
simbolizar/interpretar o mundo de forma mais consciente, responsável e
alicerçada na(s) ciência(s).
O racismo vive mais no mundo
intangível das concepções, nas formas de entender o mundo. As leis atacam preferencialmente
as formas materiais desta (des)valorização de determinadas cores de pele. A
educação formal tem que tratar do simbólico, das interpretações. Ensinar forma espíritos.
A escola trabalha não só elementos da cognição, mas também da metacognição (capacidade
de pensar o próprio pensamento).
Como vemos o que vemos: eis aí a
chave para eliminarmos os preconceitos, notadamente o racismo.
A lei 9394 no seu artigo 26-A, no parágrafo 2º no diz: “Os conteúdos referentes à
História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o
currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura
e História Brasileiras”. Percebamos que os conteúdos que seriam pelo senso
comum exclusivos da disciplina de História, agora sob o ponto de vista de uma
reconceituação do próprio ensino de História no contexto de uma exigência antirracista,
é compartilhado com as disciplinas de Educação Artística e de Literatura. Ora,
para reconfigurar (pre)conceitos, nada melhor do que a arte e a literatura. Estas
(com)vivem no aspecto simbólico das sociedades. Portanto, não basta saber a
História da África. Melhor para compreendê-la é cantá-la, desenhá-la, poetá-la e
escrever sobre ela. Os estudantes, desta forma em sala de aula, poderão rever,
repensar reconfigurar sua compreensão sobre o racismo (do outro e dele mesmo).
Para que seja possível uma recontextualização das (pré)concepções
sobre os negros, é importante na literatura apresentar escritores e escritoras
negras, como a filósofa Djamila Ribeiro ou escritores já conhecidos como
Machado de Assis; sem esquecer nosso presidente Nilo Peçanha. A lembrança de
Machado de Assis não precisa de justificação. Quanto a filósofa Djamila,
ela é ativista do movimento negro e seus escritos são de fácil acesso, estão
disponíveis nas redes sociais e no jornal Folha de São Paulo. Evidente que o viés adotado
pelo professor, não pode ser no sentido de mostrar exemplos de casos raros,
excepcionais. A intenção sempre é a expressão máxima do valor de todas as pessoas,
cuja pele é o que menos importa. O professor deve incentivar uma cultura que
saiba identificar a exclusão de toda a ideia, de todo o simbolismo que
ratifique não só racismo, mas também a opressão em relação as mulheres e às
minorias.
sábado, 22 de novembro de 2025
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Sou ou não um filósofo? (Texto bem antigo)
Estava num encontro de professores após uma breve fala com eles. No final, uma colega perguntou-me à queima roupa: Professor, o senhor é filósofo ou somente dá aulas? Fiquei sem resposta imediata. Preferi escrevê-la. Isso porque a pergunta deixou-me perplexo, pois é muito complexa. É maior do que eu posso responder.
Ao perguntar, a professora partiu do princípio a priori de
que sei o que (quem) sou. Confesso que estou longe de saber
definir-me. Passei a refletir sobre quem somos. A imagem que surgiu em minha
mente foi a de um ramalhete de várias flores coloridas. Sei que estou sendo poético,
mas não consigo evitar.
Eu acho que as pessoas são assim: buquês de flores. Quero
dizer que ninguém é isso ou aquilo, somos um conjunto de “issos” e “aquilos”:
como é um ramalhete de várias flores. Se separarmos todas as flores individualizando-as,
excluímos a ideia de ramalhete (uma composição de flores) e falamos de cada
flor (fragmentos do conjunto). Quero concluir que somos muitas coisas
(composição) e se separarmos cada uma (individualização) morreremos, pois somos
o conjunto e não os detalhes. Se algo é de nós retirado, perdemos nossa
humanidade complexa.
Quando penso o que sou, vejo um conjunto infinito de
contextos e relações. Não posso dizer que sou a flor do centro do ramalhete, ou
a mais bonita, ou ainda a que está mais à esquerda. Sou todas as flores que me
fazem.
A pergunta da professora sacudiu-me. Quero crer que ela
via em mim uma faceta do conjunto do que sou. Ao questionar-me, obrigava-me a
escolher alguma flor de mim e afirma-la como sendo o conjunto, o que sou. Para
aclarar mais: caso eu afirmasse que sou filósofo, eu teria escolhido as flores
da filosofia, ignorado as demais, e as escolhidas seriam apresentadas como um
cartão de identificação. Porém, como posso escolher o que apresentar de mim
para os outros? Se eu escolhesse um item do que sou, retiraria das demais
pessoas a liberdade (e a responsabilidade) de escolherem quais flores de mim
querem apreciar.
Afinal, sou ou não sou filósofo? Ora, como vou saber?
Essa resposta não pertence a mim. Pertence a quem escolhe do meu complexo ramalhete,
as flores que mais aprecia. Mesmo eu tendo todas as garantias institucionais
que estudei Filosofia, quem vai confirmar se sou (ou não) filósofo é quem lê o
que escrevo, quem ouve minha fala. É a minha história que decide. Melhor
dizendo, são as pessoas que decidem quem eu sou na História. Insisto que se sou
ou não filósofo, é uma pergunta cuja resposta não cabe a mim. Não tenho o poder
de decretar se sou ou não.
Quem pode dizer de uma pessoa que ela é essa flor ou
aquela, escolhendo no ramalhete as flores que mais chamou sua atenção? Dá para
perceber a responsabilidade disso, escolher o que a pessoa é?
Após estas reflexões, vou deixar a professora que me
questionou com a sua dúvida. Na verdade, vou dividir com ela a dúvida que
também tenho.
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