Vamos imaginar a seguinte situação. Você é o capitão de um veleiro bem leve, frágil e veloz. Você aprendeu deste sempre que é preciso avaliar as ondas e os ventos para manter-se deslizando sobre as águas. Ir diretamente contra as ondas ou contra os ventos é improdutivo. É preciso habilidade. Compartilhar as velas com os ventos ora se contrapondo, ora indo a favor das ondas: é o melhor negócio. Este conjunto de micro decisões, quando se harmonizam, faz com que a leve nau vá na direção idealizada (Idealizado: projeto romantizado no pensamento).
Entretanto,
não é suficiente. O mais importante é para onde, como e porque vamos partir.
Sem estas perguntas, nem dá para sair do porto!
E se o
gênio maligno do Descartes sussurrasse o destino errado ou o porquê errado de
ir? E mais, e se a demoníaca criatura disse que o “certo” é o “errado” e
vice-versa? De que adiantaria ao magistral capitão bem gerir as águas e os
ventos navegando velozmente? Pobre capitão, não vê o que deveria ver e vê o que
dizem para ele ver! Naufrágios a frente!
As
ideologias são esse gênio maligno? A culpa é do capitão? Depende! Vamos
calmamente analisar.
Quero
dizer que somos na complexidade da vida como capitães navegando na realidade.
Veja, a realidade é tão complexa que não
conseguimos compreendê-la sozinhos. Desde pequenos nossa família, o pastor, o
professor, o advogado, o tio do Zap e o governo nos dizem como devemos
organizar, entender, priorizar, identificar o que devemos ser, desejar e escolher
entre tantas escolhas que o mundo físico e social nos oferece.
Somos
obrigados também a navegar sobre os mais diversos entendimentos. Somos capitães
num mar de entendimentos e escolhas.
Mas, caro
capitão, qual escolha, qual destino ou caminho é mais verdadeiro ou melhor do
que o outro? Bem, a priori não sabemos. É preciso decidir, estudar, dialogar,
trocar compreensões. Ou apenas ter fé
em nós mesmos (racionalmente a pior opção!)
Quero
dizer que damos sentidos ao mundo para sobre ele navegarmos. O nome disso é
ideologia.
Pois é,
ideologia é isso: como tudo é complexo demais, criamos destinos e sentidos para
podermos navegar na vida. Essas criações são coletivas, sociais, familiares e
culturais. Não é possível dizer se são corretas ou erradas. O que é possível
dizer é que algumas construções de sentido levam a sociedade ao sofrimento. Já
outras, não. E tudo não ocorre ao acaso. Como eu disse, é uma construção.
Não
existe neutralidade. Não nos iludamos.
Somos
orientados por ideologias. Navegar sem uma pré-compreensão e sentido já
escolhido é impossível. Antes de uma viagem sempre nos perguntamos: para onde?
Quando? Como? Quem vai comigo e quem não vai? E geralmente muita gente não vai.
Excluídos.
Joguemos
ao mar quem não cabe na nossa nau veloz! E jogamos muita gente!
A
ideologia é isso. Responde estas questões antes de agirmos na vida real.
Há
respostas que acabam com a pergunta. Melhor dizendo, há questões que, se
respondidas, derrubam a explicação vigente. Então tudo se transforma. Ou muita
coisa se transforma. Aprendemos. A ideologia se qualifica. Ou dá lugar para
outra, mais adequada aos avanços sociais, políticos, científicos,
econômicos...´
É verdade
que há perguntas que ficam escondidas. Ninguém fala delas. Sim, o amor à
manutenção do status quo impede a pergunta. Afinal, a pergunta transforma quem
pergunta. Então surge os conservadores. Eles impedem as perguntas para
conservar as cosias. Os conservadores devem ter muitos armários mofados cheios
de coisas guardadas nas suas embarcações. Coisas que, se vierem à luz, apodrecem
na hora!
As ideologias mudam as pessoas que mudam o mundo.
Em tempo:
ideologias são mais que apenas ideias.
Sartre
poria mais uma pimentinha nessa questão. Quando fazemos estas perguntas
essenciais para as viagens, somos responsáveis até por quem escolhemos para
perguntar!
Exemplo.
Pergunto a um extremista de direita se devo ou não apoiar a escala 5X1 para os
trabalhadores. Ora, escolhendo para quem perguntar, já escolho a resposta! A
decisão ideológica veio antes da pergunta.
A ideologia é o conjunto de concepções e representações que orientam nossa prática. Ela existia antes de nós. Mas nós a incorporamos. Ou rejeitamos em partes. Ou ainda mesclamos várias inovando. E somos responsáveis por isso. Somos sempre coautores das ideologias. Ela não vem do nada. Vem das relações sociais, econômicas, religiosas e políticas. Tem causas materiais. E, portanto, efeitos materiais também.
Outra
imagem que gosto de usar é a seguinte. Uma pessoa usando um par de óculos de
grau. A armação possui um dispositivo que torna possível ajustar as lentes para
ver melhor. À medida da necessidade, a pessoa gira o pequeno botãozinho na armação.
A lente se move ou é superposta por outra conseguindo novos focos. A única
coisa que não é possível é ver sem os óculos. Pois bem, as ideologias são
óculos. À medida que você se torna mais experiente, estudioso e hábil em fazer
críticas, a(s) ideologia(s) evoluem em você. Ficar com a mesma disposição das
lentes para todas as situações fará mal à sua visão.
Claro, há
aqueles que amam mais a posição das lentes do que a realidade. Talvez porque
tenham vantagens nisso. Há capitães que amam mais o trajeto retilíneo da viagem,
que recalcular o contato com as ondas e os ventos. Aí vai afundar ou afundar
alguém (ou ambos!).
Não há
certo ou errado. Há decisões melhores e piores para todos os envolvidos. E como
a terra é uma só, todos somos envolvidos. Melhor é o que é melhor para todos,
sempre.
Estou
expressando minha ideologia? Sim, faço parte dos que acreditam que melhor é o
que é bom para todos. Bato de frente com os que se consorciam ideologicamente
na competição pelo consumo predatório de tudo. Predatórios até de gente!
Quem não
reflete sobre suas convicções achando-se neutro, está a serviço de quem
refletiu e está consciente de que você não está. Os poderosos só são poderosos
enquanto encontram quem acredita no poder deles.
Como sermos sinceros se somos ideológicos?
Isso me
lembra a expressão grega parresia. Sócrates era assim. A parresia é a coragem
de dizer o que pensamos mesmo quando em perigo. Por exemplo: criticar o chefe
na presença dele. Ou dizer que erramos na frende dele. Parresia é dizer em
público o que pensamos. Haja coragem!
Então,
dizer o que acreditamos o tempo todo e para todos, verdadeiramente, nos expõe.
E expostos, sujeitos a críticas, estamos sempre nos avaliando e percebendo
novas e melhores possibilidades de estar no mundo com os outros. Isso é ótimo: correção das lentes dos óculos!
Somos
sujeitos ideológicos. O juiz é. O médico é. O professor é. O pastor é. Todos
somos.
Isso me
lembra o conceito de má fé em Sartre. Ou seja, não mintamos para nós mesmos. Aceitemos
que seguimos ideologias e somos responsáveis por isso. Ah! E que somos sempre
exemplos para alguém. Nossos exemplos fazem seguidores. Simples assim.
Somos
capitães que usam óculos. Portanto, sejamos mais críticos e dialógicos. Disso
depende nossas decisões. Juntos somos capitães de um planeta que depende de nós
para existir.


Nenhum comentário:
Postar um comentário