sexta-feira, 28 de agosto de 2020
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
A tirania da maioria: um perigo
Historicamente inúmeros intelectuais contra
a democracia argumentaram e, muitos ainda hoje, apontam para o perigo sempre presente
de os governos democráticos decaírem para a tirania da maioria. A questão
numérica é exata: há sempre minorias e maiorias.
A igualdade numérica (empate) entre as
pessoas que disputam algo no grupo nada decide, ao contrário, divide-o. A
sociedade dividida está sujeita a crises de violência. Só o que decide (e
pacifica) é a desigualdade (numérica). A única paridade (paridade de armas, poderia
dizer) ocorre nas regras do jogo. São elas que dão iguais limites aos
postulantes na assembleia.
A democracia é uma assembleia regrada que
tende a evitar empates numéricos.
A maioria popular quer governar através
do seu representante. Levam para os cargos eletivos políticos evidentemente
vinculados aos seus desejos. Podendo até ser algoz de si mesma. Esta maioria pode
ser opressora e cruel exigindo do eleito coisas antidemocráticas. As massas que
apoiam o fascismo é uma prova disto.
A população não é a priori uma massa
fácil de manobrar. Mas, a história fartamente demonstra que é possível eu e você,
nós o povo, sermos manipulados. Apesar de geralmente não sermos inocentes desta
manipulação.
O grupo elite que é o dono real do poder
político, ama a democracia sob o ponto de vista da lógica matemática de fazer/criar
maioria. E ama por que pode/sabe manipular.
Este grupo poderoso não pensa no
resultado político das suas ações a longo prazo. Pensa apenas em como ganhar o
jogo da maioria dentro das regras (se possível) e no menor tempo possível (no
tempo do lucro). A intenção é agir de forma a ampliar o retorno favorável para
si com o mínimo de esforço que for possível. É um jogo onde o convencimento é
uma ferramenta. Lançado o jogo pela criação de uma maioria, a fraternidade e a
confiança não são possíveis entre os contendores.
A questão nada ética é: como maximizar
os resultados? O jogo é pesado e o empate é o mesmo que perder. Só haverá
consenso ou acordo para que um lado tenha maioria. Manipula-se o adversário e as pessoas. Lembrando
que a melhor manipulação é aquela que mais cria adversários, oponentes,
inimigos. Evita-se assim qualquer confiança entre os jogadores.
Nesta disputa necessariamente ocorrerá um
efeito colateral. Ao manipular a população, esta vai agir de acordo com esta
manipulação por muito tempo. Uma espécie de inércia a fará andar na mesma direção
da manipulação. Como um imenso trem, cheio de vagões, que quando precisar parar
rapidamente não conseguirá.
É a força cinética se deslocando. Quanto
maior o peso (ideológico), maior a inércia.
Os argumentos fascistas ganham a maioria
e a convencem do fascismo. Então, torna-se fascista. O risco é grande.
Os poderosos, aqueles que realmente
comandam a política, como numa maldição, terão que também conviver neste ambiente
fascista. O que não é bom nem para estes poderosos.
O mal de hoje se estenderá no tempo.
É como envenenar o rio com agrotóxico
hoje e depois, ao navegar nele para pescas futuras, não querer sofrer as
consequências da sua insensatez anterior. O navegante agora deverá agir de
acordo com as exigências das águas contaminadas. Não tem escolha.
A democracia, como soberania popular, é
frágil em sua manutenção. Principalmente onde o desconhecimento político é
moeda corrente, onde o desemprego aprisiona o pensamento, onde a mídia dita
modas. A democracia pode se tornar uma demagogia fascista de extrema direita.
Mas o ganhador deste jogo sofrerá as consequências das suas táticas
empregadas.
A energia cinética extremista imposta ao
povo não há de se dissipar facilmente. Extremistas gerarão mais extremistas.
Funcionários públicos, militares, juízes, promotores e professores: sempre
haverá alguém nestes espaços representando os extremismos. É o efeito colateral do jogo jogado desta
forma.
Claro que isto não invalida a
democracia, mas acresce sérios cuidados com o cultivo das consciências para a importância
vital da reflexão sobre a política.
A democracia não é algo que se
estabelece sem esforços, muito menos sem preocupações com a sua manutenção. Mantê-la
saudável exige muito esforço.
Meu desejo com este escrito é alertar
para a necessidade de melhorar a capacidade de discriminação do povo, de dar
mais informações de qualidade, de apontar para a potencialização da reflexão.
domingo, 23 de agosto de 2020
A espiritualidade, a crendice e a religião
O tema religião é bem complexo. De certa forma, é mexer em
um vespeiro. Assim como quando o assunto é a política, os espíritos se inflamam.
Com certeza, aproximei intencionalmente
religião e política. Religiões e políticas se imiscuem com as paixões
humanas, suas crenças e esperanças.
Desde que a
humanidade nos seus primórdios teve consciência de si mesma, percebeu-se diferente
das demais coisas do mundo. Percebeu que a sua existência é temporária. Entendeu
a sua própria morte. A consciência destas
realidades fez nascer a espiritualidade, a esperança e as crenças.
Acredito que foi um choque quando percebemos que íamos necessariamente
morrer e que as coisas aconteciam indiferentes aos nossos desejos. A consciência humana surgiu destas
impotências: a nossa morte, nossa extrema fragilidade e insignificância. A espiritualidade
acredito que tenha surgido quando percebemos que estamos no mundo e não somos o
mundo. Não nos confundimos com a materialidade. Possuímos algo a mais. Podemos
criar, pensar, planejar e transformar o mundo. Parece tranquilo que, por
consequência, tenhamos algo que é imaterial, diferente das coisas do mundo
terreno. A espiritualidade vem do fato que podemos ver o mundo de uma distância
diferente das demais criaturas.
Se além disto vem de Deus, deuses ou Orixás deixo em
aberto.
Percebamos que sem a percepção que vamos morrer em
determinado tempo, sem que possamos idealizar nosso fim, sem que comuniquemos esta
experiência a alguém e, principalmente, se não nos percebêssemos diferentes das
demais coisas, não seria possível a espiritualidade.
Entretanto, vivemos totalmente submersos no mundo humano,
cultural e instrumental. Tudo é tornado ferramenta para obtermos algo e assim
nos comportamos como regra. São raras as exceções em que nos relacionamos sem
este aspecto instrumental. Como exemplo de exceção temos a arte. O enlevo artístico é um valor em si mesmo. Mas, somos homo faber como regra. A espiritualidade
é uma experiência que, excepcionalmente, quer transcender isso: a nossa
vocação em manipular tudo para obter algo.
A cultura, a política, a ciência e a economia são a água do
nosso aquário. No qual somos os peixinhos. A espiritualidade
(que é diferente da água) para se relacionar com os peixinhos, tem que conviver
com a água. E se molha. Não sai ilesa. Não há como pular a materialidade para
irmos diretos ao transcendental. Por
isto surgem as superstições e as religiões. Elas inexoravelmente se misturam ao
meio material, a água. Esta se interpõe e dificulta a expressão da espiritualidade.
A superstição é um subproduto dela. É crendice. Extingue a
razão. Ou uma ou outra (fé X ciência).
Então vem o medo e a ameaça. Criam-se
rituais estranhos. A superstição passa a
ser um instrumento a serviço de algo ou de alguém. Se queres uma graça faça isto ou aquilo. O supersticioso
mata a sua espiritualidade ao acreditar que seus rituais tem repercussão no
espiritual. Creem que manipulam o invisível, que terão um lugar especial em
algum lugar. A superstição se torna meio para um fim, normalmente a dominação
de grandes grupos de pessoas incautas.
A religião também é a expressão materializada da
espiritualidade. Geralmente mais complexa que a superstição, mas sofre dos
mesmos males. Tem normas de conduta específicas, rituais específicos, punições
(aqui ou lá) e hierarquia. O fiel crê no messias “X” e pronto Não raro, entre religiões,
há o ódio e a perseguição. Em cada religião há seus preconceitos, seus estigmas
e a imposição de seus dogmas. Aqui vemos, novamente, a espiritualidade rebaixada
a instrumento para algo. As religiões
são logo cooptadas por facções, políticos e empreendimentos econômicos.
A espiritualidade é livre e é comum a todos. Espiritualidade
como valorização do espirito (humano para uns, transcendental para outros)
sobre a matéria. Mas sempre passará pelas águas da materialidade. A espiritualidade
pura é uma utopia. O que há de real é as
pessoas refletindo sobre o aspecto imaterial que envolve tudo. A imaterialidade
está em todo o lugar. Nas obras de arte é a beleza. Nos comportamentos é o
respeito à dignidade humana. No sexo, o carinho, o afeto e talvez o amor. Nos
nascimentos é a experiência da maternidade. Mesmo na guerra, percebemos a
abnegação dos socorristas e daqueles que sem pensar em si salvam alguém da morte.
A espiritualidade está em tudo. Mas, ao
mesmo tempo, ao passar pelas águas do aquário existencial e material, perdem
sua visibilidade e logo tende a ser instrumentalizada.
Muitos entendem a espiritualidade como coisa divina. Outros
tantos entendem como expressão da humanidade do humano (mesmo que não acreditem
num mundo após a morte). Tanto faz. A espiritualidade existe sim. Do poeta aos
profissionais da saúde que morrem ao salvar vidas na pandemia. Está aí o
sintoma que prova a existência de algo diferente da matéria, que nos move e nos
anima.
Diferentemente, a religião e a crendice são instrumentos a
serviço de alguém ou de um grupo. Por isto aproximo a religião da política.
Todos os dias vemos exemplos no nosso país de intolerância e indução ao voto.
Vemos o pecado e o diabo exaltados como coisas cotidianas. A irracionalidade
vista como um bem valioso. A ciência vista como um mal. Vemos a extrema direita
sendo extremamente cristã. O diabo está a solta ameaçando a todos os infiéis (a
gosto de cada religião).
Percebamos que as religiões assim como as crendices não só se
imiscuíram com as águas da cultura e da política, mas nelas se afundaram.
Que a espiritualidade triunfe nos afastando da tendência de
tudo virar instrumento para um fim. Tudo, inclusive as pessoas. E qual a finalidade
universal que as elites querem nos impor? Que tudo é para o consumo, para a produção,
para a transformação da natureza e, ao final, para termos lucro. Simples assim.
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