Bom dia meu amigo abstrato!
Ainda bem que moras comigo dentro
da minha mente. Sem ti a solidão dentro de mim seria insuportável. Mas te cobro
aluguel. Deves ouvir-me sempre que eu tiver algo a dizer. Creio que seja um
preço suportável para ti.
Minha pequenez me assombra...
assim como me assombra a mania de grandeza das pessoas. Mas, o que mais me
assusta: elas não se assombram com a enormidade de seus próprios egos.
Creio que tomar-se de assombro só
é possível aos pequenos! Os que se acham grandes não tem espaços vazios para se
moverem, para se assombrarem. Estão repletos e imóveis por dentro.
Há aquela moça de classe média
que ostenta uma vida de gente rica. Ao menos, ostenta o que ela acredita ser os
diferenciais sociais de quem é rico. A aposta desta moça é na aparência, nos
estereótipos. Essa moça acredita que seu direito de desejar ser o que nunca
será (pelo menos o que dizem as estatísticas) é um direito inquestionável e
absoluto. Ela quer ser ou aparentar ser de uma classe social que não a quer.
Essa moça acha sua vida real um
desvalor. Um desvalor que ela quer evitar a todo custo. Melhor dizendo, a todo
o custo que seu cartão de crédito permitir. Ela sonha no boleto, no crédito. Ela
não sabe que seus bisavôs e bisavós depositavam seus sonhos na poupança.
Deixavam seu dinheirinho lá no banco. Recebiam juros do banco por isso. Com o
tempo, com o dinheirinho juntado, compravam o que podiam comprar. Conseguiam
reprimir o desejo até terem o dinheiro para satisfazê-lo. Essa moça não! Ela
compra primeiro, endivida-se primeiro, ostenta imediatamente e gasta sua vida
para pagar os juros do cartão de crédito.
Como dizia a minha avó: “Cada louco com a sua mania”!
A moça sequer percebe que manter
a ilusão para todos de que é de uma classe social que não pertence a ela, é
coisa cara e trabalhosa! Não vale a pena!
Eu que sou pequeno assombro-me
com o tamanho desta insensatez. Não consigo entender. Essa moça parte do
princípio de que consegue enganar a todos seus amigos e amigas que vivem da
mesma forma que ela. É como dois mágicos que usam os mesmos truques, acharem
que se enganam mutuamente usando a mesma ilusão!
Há também aquele moço que tem fé
no seu líder fascista. O líder promete violência, armas e desentendimentos. O
líder é contra os pobres (para o azar da moça dos parágrafos anteriores!). O
líder é racista, homofóbico e aporofóbico. Mas o moço também sonha ser
diferente, especial e superior. Parecido com o sonho da moça.
Então, exulta ao ouvir seu líder.
Afinal, o moço pobre não se vê como pobre. Também imagina que nunca será vítima
da violência proposta pelo líder. Pelo contrário, aliando-se a violência acredita
que terá seu diferencial de classe: pertencerá à classe dos poderosos, dos
fortes, dos “não-pobres”.
Não pobre: categoria dos que não podem ser ricos, mas que negam ilusoriamente
sua pobreza.
O moço exulta ao ouvir seu líder.
Sente-se exaltado, acima dos demais. Sente-se mais viril, mais forte, mais
esperto (não mais inteligente!) e diferente das massas tão iguais entre si. O
moço sonha ser tão violento quando seu líder, quer ser um odiador. Este será
seu diferencial em relação aos demais pobres e frágeis! Afinal, seu sonho mesmo
é ser diferente dos seus iguais!
Como entender esse fenômeno? O
rapaz quer se aproximar do mal para ser diferente! Quer se aproximar da
violência que pode abater ele mesmo e seus familiares. Ele se esforça
diuturnamente para não ver que é igual a todos aqueles que são alvo do
fascismo. Ele quer ser flecha, mas é alvo!
Há também aqueles e aquelas que
internalizam o jeito de ser da moça e do moço! Ostentam e odeiam!
Confesso meu amigo imaginário:
sou pequeno demais para entender esse grande enigma.
Mas não é só coisa de moços e
moças. Conheço uma senhora idosa que diz com fervor: “Aquela gente toda é
vagabunda”. A idosa senhora, tão frágil e de aparência tão inocente, se refere
aos moradores de rua. A idosa cristã, que logo será entrevistada pessoalmente
por Jesus no céu, gasta seus últimos anos de vida julgando as pessoas pobres.
Ela diz: “Há trabalho para todos. Só não trabalha quem não quer”.
Pois é, como entender este
fenômeno? Mesmo com tão pouco tempo de vida, a senhora gasta esse tempo para
odiar. Talvez pelo hábito de uma vida inteira buscando ser rica e ser diferente
dos demais seus iguais. Uma vida inteira tentando ostentar diferenciais! É como
se ela dissesse o tempo todo: Não sou pobre, não sou igual, não sou qualquer
uma! Uma vida inteira negando e negando-se!
Como entender? Confesso minha
pequenez!
Inúmeras pessoas que conheci se
acham grandes demais. Tão grandes em seus egos que não cabem na realidade de
suas vidas. Então, desesperam-se. Juntam-se aos seus semelhantes, aqueles com
egos tão inflados quanto os seus. Querem ter seguidores. Como se fosse uma
espécie de nova religião. Afinal, para se manter nesse grupo é preciso crer,
ter fé nas próprias grandezas e evitar a todo o custo a criticidade. Afinal, só
ateus e comunistas são críticos.
Estes moços, moças e idosos tem
um ego tão grande que precisam de casas grandes, carros grandes, dívidas
grandes e grandes limites nos seus cartões de crédito. E sempre precisam de
mais alguma coisa. Gastam a vida buscando o que ainda não tem: outra casa,
outro carro, outras dívidas, outros limites nos cartões de crédito.
Novamente recorro à minha sábia
avó: Cada louco com sua mania. Eu acredito que as pessoas são livres para
gastarem suas vidas no que quiserem e como quiserem. Mas não entendo porque precisam arrastar os
outros nesse vórtice de preconceito, desprezo e violência. Esses malucos para
sustentarem seu parecer ser rico e
seu parecer ser forte, insistem em
esmagar as pessoas.
Sou pequeno demais para entender
tal patologia.
Meu amigo virtual e mental,
confesso para ti: pequeno como eu sou, posso contentar-me com meu pequeno
apartamento, meus livros e meus amores. Não preciso de mais nada. Entendo meus
limites. Meus limites me permitem caber exatamente na realidade em que vivo. E
se quero crescer mais e ampliar meus limites, leio mais livros, amo mais, faço
mais amigos. Meus limites não são fatais nem precisam prejudicar ninguém. São
incentivo. E quando eu “crescer” vou tentar ajudar tantos outros que, como eu,
são pequenos e querem ampliar seus limites.

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