domingo, 12 de julho de 2026

Cartas ao meu amigo imaginário. Da coletânea: Solilóquio de um desempregado

 


Bom dia meu amigo abstrato!

Ainda bem que moras comigo dentro da minha mente. Sem ti a solidão dentro de mim seria insuportável. Mas te cobro aluguel. Deves ouvir-me sempre que eu tiver algo a dizer. Creio que seja um preço suportável para ti.

Minha pequenez me assombra... assim como me assombra a mania de grandeza das pessoas. Mas, o que mais me assusta: elas não se assombram com a enormidade de seus próprios egos.

Creio que tomar-se de assombro só é possível aos pequenos! Os que se acham grandes não tem espaços vazios para se moverem, para se assombrarem. Estão repletos e imóveis por dentro.

Há aquela moça de classe média que ostenta uma vida de gente rica. Ao menos, ostenta o que ela acredita ser os diferenciais sociais de quem é rico. A aposta desta moça é na aparência, nos estereótipos. Essa moça acredita que seu direito de desejar ser o que nunca será (pelo menos o que dizem as estatísticas) é um direito inquestionável e absoluto. Ela quer ser ou aparentar ser de uma classe social que não a quer.

Essa moça acha sua vida real um desvalor. Um desvalor que ela quer evitar a todo custo. Melhor dizendo, a todo o custo que seu cartão de crédito permitir. Ela sonha no boleto, no crédito. Ela não sabe que seus bisavôs e bisavós depositavam seus sonhos na poupança. Deixavam seu dinheirinho lá no banco. Recebiam juros do banco por isso. Com o tempo, com o dinheirinho juntado, compravam o que podiam comprar. Conseguiam reprimir o desejo até terem o dinheiro para satisfazê-lo. Essa moça não! Ela compra primeiro, endivida-se primeiro, ostenta imediatamente e gasta sua vida para pagar os juros do cartão de crédito.  Como dizia a minha avó: “Cada louco com a sua mania”!

A moça sequer percebe que manter a ilusão para todos de que é de uma classe social que não pertence a ela, é coisa cara e trabalhosa! Não vale a pena!

Eu que sou pequeno assombro-me com o tamanho desta insensatez. Não consigo entender. Essa moça parte do princípio de que consegue enganar a todos seus amigos e amigas que vivem da mesma forma que ela. É como dois mágicos que usam os mesmos truques, acharem que se enganam mutuamente usando a mesma ilusão!

Há também aquele moço que tem fé no seu líder fascista. O líder promete violência, armas e desentendimentos. O líder é contra os pobres (para o azar da moça dos parágrafos anteriores!). O líder é racista, homofóbico e aporofóbico. Mas o moço também sonha ser diferente, especial e superior. Parecido com o sonho da moça.

Então, exulta ao ouvir seu líder. Afinal, o moço pobre não se vê como pobre. Também imagina que nunca será vítima da violência proposta pelo líder. Pelo contrário, aliando-se a violência acredita que terá seu diferencial de classe: pertencerá à classe dos poderosos, dos fortes, dos “não-pobres”. 

Não pobre: categoria dos que não podem ser ricos, mas que negam ilusoriamente sua pobreza.

O moço exulta ao ouvir seu líder. Sente-se exaltado, acima dos demais. Sente-se mais viril, mais forte, mais esperto (não mais inteligente!) e diferente das massas tão iguais entre si. O moço sonha ser tão violento quando seu líder, quer ser um odiador. Este será seu diferencial em relação aos demais pobres e frágeis! Afinal, seu sonho mesmo é ser diferente dos seus iguais!

Como entender esse fenômeno? O rapaz quer se aproximar do mal para ser diferente! Quer se aproximar da violência que pode abater ele mesmo e seus familiares. Ele se esforça diuturnamente para não ver que é igual a todos aqueles que são alvo do fascismo. Ele quer ser flecha, mas é alvo!

Há também aqueles e aquelas que internalizam o jeito de ser da moça e do moço! Ostentam e odeiam!

Confesso meu amigo imaginário: sou pequeno demais para entender esse grande enigma.

Mas não é só coisa de moços e moças. Conheço uma senhora idosa que diz com fervor: “Aquela gente toda é vagabunda”. A idosa senhora, tão frágil e de aparência tão inocente, se refere aos moradores de rua. A idosa cristã, que logo será entrevistada pessoalmente por Jesus no céu, gasta seus últimos anos de vida julgando as pessoas pobres. Ela diz: “Há trabalho para todos. Só não trabalha quem não quer”.

Pois é, como entender este fenômeno? Mesmo com tão pouco tempo de vida, a senhora gasta esse tempo para odiar. Talvez pelo hábito de uma vida inteira buscando ser rica e ser diferente dos demais seus iguais. Uma vida inteira tentando ostentar diferenciais! É como se ela dissesse o tempo todo: Não sou pobre, não sou igual, não sou qualquer uma! Uma vida inteira negando e negando-se!

Como entender? Confesso minha pequenez!

Inúmeras pessoas que conheci se acham grandes demais. Tão grandes em seus egos que não cabem na realidade de suas vidas. Então, desesperam-se. Juntam-se aos seus semelhantes, aqueles com egos tão inflados quanto os seus. Querem ter seguidores. Como se fosse uma espécie de nova religião. Afinal, para se manter nesse grupo é preciso crer, ter fé nas próprias grandezas e evitar a todo o custo a criticidade. Afinal, só ateus e comunistas são críticos.

Estes moços, moças e idosos tem um ego tão grande que precisam de casas grandes, carros grandes, dívidas grandes e grandes limites nos seus cartões de crédito. E sempre precisam de mais alguma coisa. Gastam a vida buscando o que ainda não tem: outra casa, outro carro, outras dívidas, outros limites nos cartões de crédito.

Novamente recorro à minha sábia avó: Cada louco com sua mania. Eu acredito que as pessoas são livres para gastarem suas vidas no que quiserem e como quiserem.  Mas não entendo porque precisam arrastar os outros nesse vórtice de preconceito, desprezo e violência. Esses malucos para sustentarem seu parecer ser rico e seu parecer ser forte, insistem em esmagar as pessoas.

Sou pequeno demais para entender tal patologia.

Meu amigo virtual e mental, confesso para ti: pequeno como eu sou, posso contentar-me com meu pequeno apartamento, meus livros e meus amores. Não preciso de mais nada. Entendo meus limites. Meus limites me permitem caber exatamente na realidade em que vivo. E se quero crescer mais e ampliar meus limites, leio mais livros, amo mais, faço mais amigos. Meus limites não são fatais nem precisam prejudicar ninguém. São incentivo. E quando eu “crescer” vou tentar ajudar tantos outros que, como eu, são pequenos e querem ampliar seus limites.

 


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