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sábado, 12 de setembro de 2015

Jogos de linguagem em Wittgenstein


Jogos de linguagem em Wittgenstein[1]


Neste estudo falaremos apenas da segunda fase de Wittgenstein, pois entendemos como mais relevante para o ensino médio as questões apresentadas nas investigações filosóficas.  Nesta fase passou a afirmar que é impossível uma redução legítima entre um conceito lógico (da linguagem) e um conceito empírico (realidade). Em outras palavras, a linguagem não é a captura conceitual da realidade, isto é, não é a reprodução do objeto, mas sim uma atividade, um jogo. E os jogos de linguagem adquirem seu significado no uso social, nos diferentes modos de ser e de viver no qual a linguagem está inserida. Estes jogos, portanto, são produzidos socialmente e não individualmente. “A linguagem é como uma caixa de ferramentas”.  Ela não é falsa ou verdadeira, mas se sabemos ou não a usar.  A tarefa da filosofia é usar adequadamente a linguagem, sabendo dos seus limites e calando-se diante do que não pode ser falado.
Na a obra Investigações Filosóficas o filósofo fala em semelhanças entre jogos de linguagem. Esse pensar dá mais vitalidade a linguagem, pois exercitamos tais jogos na vida cotidiana adaptados a cada circunstância: trabalho, lazer, disputas filosóficas e etc. O que há em cada situação é apenas uma “semelhança” de família. Assim pensando Wittgenstein, nas investigações, conclui que o sentido da palavra é o seu uso e o papel da filosofia é esclarecer o uso de cada uma das palavras em cada jogo de linguagem. 
A linguagem para este filósofo é baseada no habitual, no cotidiano.    Wittgenstein diz que há várias maneiras de representar os fatos, existem muitas linguagens semelhantes a jogos governados por regras próprias, inerentes a um dado contexto, cada jogo. Pertence a uma certa forma de vida onde tira seu sentido. Esse sentido se dá no uso que se faz da linguagem. Uso contido no cotidiano, nos modos comuns de falar ou nas linguagens específicas de artesãos e dos técnicos, e que não necessita de esclarecimentos. O fim de um determinado jogo é definido pela forma de vida em que se insere esse jogo. O proferimento humano é responsável por um padrão de correção. Tal padrão é um artefato humano. Isso não quer dizer que um indivíduo pode decidir por si mesmo o que é certo e o que é errado na arte da comunicação. Estamos vinculados à concepção que fazemos de nós mesmos como seres que observam um mundo independente e nele agem.  Se nos opomos a verdades que nos parecem necessárias, tal se dá apenas porque fomos nós que criamos as regras que as fazem ser assim; e   também podemos abrir mão daquilo que criamos.
Fica mais evidente a existência de jogos quando ensinamos uma criança. Dizemos, “Isto é um giz”.  Ela entende. Mas de repente ela nos pergunta, “O que é isto? Como mostrar a palavra isto? Patenteia-se que o significado de isto ou ali se aprende no seu uso mesmo e não tanto no aprender do uso. As palavras só se tornam claras no seu uso comum num determinado jogo de linguagem. A palavra explica-se no contexto em que for usada. Representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida. Essa referência à vida nos faz lembrar movimento, associações e variações. Assim é nossa linguagem.
As palavras explicitam-se quando nos inteiramos do jogo em que elas fazem parte. A frase do chefe ao funcionário: “Tu podes fazer isso para mim? ” Para o funcionário significará, apesar de ser uma pergunta, uma ordem na práxis da linguagem do escritório. Mas esse mesmo funcionário, ouvindo a mesma frase, mas proferida por um amigo, a entenderá de forma diferente. Uma expressão dita a um estranho, por exemplo, “Ë legal! ”, será ambígua. Poderá significar um fato juridicamente válido ou uma gíria com sentido bem diverso. Para reduzir a ambiguidade, torna-se necessário que convivam algum tempo no mesmo jogo.
Fica então evidente, que simplesmente denominar não faz uma linguagem. Quando apontamos à uma criança muito nova uma mulher e dizemos ”mãe”, a criança entenderá imediatamente que todos têm mãe? Que nem todas as moças são mães?  Que a mesma mulher que é mãe, também é tia, irmã, esposa, empregada? E quando ouvir a expressão “mãe pátria? ” Entenderá ela que a palavra mãe ocupa vários “lugares” nos vários jogos de linguagem?
A linguagem funciona em seu uso. Não nos cabe indagar sobre os significados das palavras, mas sobre suas funções práticas. Essas funções se exercem na vida. Isoladas de todos os contextos, a expressão não deve ser transformada em objeto de ponderações profundas sobre sua essência. Devemos considerar toas as espécies de contexto em que ela pode aparecer, só assim a elucidaremos.
Segundo o autor a linguagem engendra, ela mesma, suas superstições. A filosofia tem como tarefa esclarecer e neutralizar os efeitos enfeitiçadores da linguagem. O problema encontra-se no ímpeto em perguntar sobre a essência da linguagem. Devemos voltar nossa atenção a estudos sobre o funcionamento da linguagem.  Os usos múltiplos e variados, constituem múltiplas linguagens. Ela é um conjunto de jogos. Esses jogos são como ferramentas usadas para esclarecer o que queremos expressar. 





[1] Bibliografia:
Abbagnano, Nicola. A sabedoria da filosofia, Rio de Janeiro, Vozes, 1989.
Cotrim, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. 15a edição. São Paulo. Editora Saraiva. 2000.
Doria, Francisco Antônio. Marcus vida e obra, Rio de Janeiro, José Álvaro editor, 1969.
Stegmüler, Wolfgang. A filosofia contemporânea, 6a edição, São Paulo, USP, 1977.
Wittgenstein, Ludwig. Investigações Filosóficas, 3a edição. São Paulo. Abril Cultural, 1984.

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