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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Resumo: Os pré-socráticos

Prof. Amilcar Bernardi 

Umas das primeiras cidades gregas foram Mileto e Éfeso. Estas cidades tornaram-se centros econômicos e culturais, pois suas localizações eram propícias. Desenvolveu-se a navegação e o comércio. Evidente que isso fez com que travassem relações com diversos povos. As tradições dessas cidades foram enfraquecendo-se a medida que conheciam novas culturas e formas de pensamento.  A adoção de um regime monetário fortaleceu os que viviam do comércio e da navegação. A aristocracia (que era herdada pelos filhos) entra em decadência. A técnica floresce fazendo com que novos modelos explicativos da realidade tornem-se necessários.  A visão mítica enfraquece dando espaço para uma visão racional. É esse o momento perfeito para o surgimento da filosofia.  Acredita-se que o primeiro filósofo grego tenha sido Tales de Mileto.  Ele viveu entre o séc. VII e o séc. VI antes de Cristo.
Os gregos antigos tiveram uma característica especial desenvolvida no que se refere a forma de pensar o mundo. Desenvolveram apreço pelo conhecimento racional e teórico. Esse conhecimento, porém, vincula-se, integra-se à experiência sensível, pois queria apreender a realidade. Essa racionalidade desenvolveu-se rapidamente no período denominado pré-socrático (séc. VII-V a.C. desde Tales de Mileto até Sócrates).
 Os filósofos pré-socráticos tinham como preocupação entender o universo (cosmologia) e porque as coisas nascem e morrem, como acontece a mudança na natureza, sendo que esta continua imutável. Queriam encontrar um princípio único e fundamental, estável e eterno, que regulasse o vir a ser.
Os pré-socráticos voltaram sua preocupação para o estudo da physis ou natureza.  Por natureza, além do testemunho dos sentidos, entendiam o processo de nascer, se desenvolver e desaparecer das coisas. Podemos dizer que para esses pensadores a physis se relacionava com o que é fundamental se opondo ao que é acidental, temporário. A mudança assustava esses homens. A mudança era o instável, o não previsível. Para isso buscavam uma cosmologia (narrativa a respeito da origem, da natureza e dos princípios que ordenam o mundo ou o universo. Narrativa racional e sistemática) evitando a antiga cosmogonia (narrativa explicativa do mundo baseada nos mitos).
É importante salientar que não existem documentos completos sobre o que escreveram os pré-socráticos. Na verdade o que temos são fragmentos citados por outros autores da antiguidade. É como um quebra-cabeça. Temos que juntar citações em textos onde ocorreram referências a esses pensadores antigos. Esses fragmentos são chamados de doxografias (do grego doksa = aparência, opinião, juízo, glória) e grafé (= escrito, documento).

Doxografia: vem de doxógrafo.
Doxógrafo: Cada um dos compiladores gregos que coligiam extratos dos filósofos antigos.

Esse período compreende o pensamento de Tales de Mileto (623 – 546 aC) até Sócrates (468 –399 aC.). Estes filósofos queriam construir uma Cosmologia superando a cosmogonia.
Não vamos trabalhar todos estes pensadores. Escolhemos Anaximandro de Mileto, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia, Leucipo e Demócrito.


Anaximandro (610-547 aC)

Era geógrafo, matemático, astrônomo e político.  De sua vida quase nada chegou até nós.  Escreveu um livro: Sobre a natureza. Estudava a origem de todas as coisas.  Procurava a arché (princípio primordial-básico, principal, primeiro - de tudo). Ele observava os quatro elementos formadores do mundo material: a água, o ar, o fogo e a terra. Mas não acreditava ser possível eleger um elemento como principio de tudo. E também pensava que, uma coisa que possui propriedades determinadas, e só existe por causa delas, não pode ser origem e principio de tudo.  Então esse elemento – principio de tudo - deverá estar fora do mundo dos sentidos. Chama esse princípio Ápeiron – o indeterminado, infinito.  O apeíron seria o gerador de tudo. A gênese se dá pela separação dos contrários num movimento eterno. Na verdade o apeiron está animado por esse movimento eterno, movimento que separaria em pares opostos. O apeíron, por ser indeterminado, é eterno.  Haveria uma espécie de justiça entre os opostos: a primavera como a compensação entre os excessos do verão e do inverno.

Anaximandro, “que também viveu em Mileto. Ele achava que nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa e se dissolvem nesta alguma coisa que chamava de infinito. É difícil dizer o que ele entendia por infinito. Mas uma coisa é certa: (...) Anaximandro não imaginou uma substância determinada. Talvez ele quisesse dizer que aquilo a partir do qual tudo surge é algo completamente diferente do que é criado. E como tudo que é criado é também finito, o que está antes e depois deste finito tem de ser infinito. (...)” Gaarder, Joinstein. O MUNDO DE SOFIA: Romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das letras, 1995. pág. 45 e 46


Heráclito de Éfeso (+- 500 aC)

É um dos mais conhecidos pré-socráticos. É o filósofo do movimento eterno.  Heráclito é, provavelmente, o fundador do pensamento dialético. Era conhecido como “o obscuro”. Para ele tudo é movimento, mutação, transformação.  Tudo é um fluxo eterno cuja força motriz é a luta das forças contrárias: o bem e o mal, justiça/injustiça, ordem/caos...
Suas frases são eminentemente simbólicas, de difícil interpretação, pois optou pela mobilidade e transformação o que influiu na forma com que dizia suas ideias.  Usava como imagem de sua ideia o fogo. O fogo simboliza a realidade dinâmica do mundo.
O que existe é uma unidade, tudo é um, é um em movimento. O logos consiste na unidade profunda das oposições (unidade oculta). Sabia que somente a palavra (logos) penetra apreender a simultaneidade do múltiplo e do uno. Ele é a unidade nas mudanças e nas tensões eternas da realidade. 

Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida.

É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que as coisas são um.

Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sobre ti.


Parmênides de Eléia (+- 530 – 460 aC)

Escreveu um poema em versos chamado “Sobre a natureza”. Polemiza com Heráclito, é contra o mobilismo heraclítico. Ele dizia haver apenas dois caminhos para compreendermos a realidade: a filosofia e a crendice.  Claro que ele afirmava que Heráclito caminhava pelo caminho do senso comum, da aparência, ou seja, da crendice.  Parmênides não admitia o “não ser”. Tudo está cheio de ser.  Não pode haver contradição: o ser é eterno, único, imóvel e ilimitado (pleno).  Os sentidos são ilusórios quando mostram o movimento, e é no mundo dos sentidos que vivemos. Por isso Heráclito havia errado. Só existe o ser. Não é concebível o não ser. Devido a Parmênides hoje temos uma visão estática do mundo. A ciência quer descobrir o que ainda não sabe, mas que existe em algum lugar. A verdade está em algum lugar, basta ser descoberta.

 

          

          O Atomismo


Os atomistas tiveram seu início, segundo a tradição, com Leucipo. Demócrito seguiu os passos de Leucipo. Esses dois pensadores refletiram sobre o movimento. Pensaram que se o movimento existe, e o movimento “movimenta-se” na ausência de resistência, o vazio existe também. Ora, se não existisse o vazio, onde o movimento ocorreria?
Além disso, as concepções sobre número estava bem desenvolvida.  Cada número é uma unidade. Cada coisa que se via era uma unidade. A partir daí chegaram a conclusão que haveria unidades mínimas, que chamavam de átomo. Os átomos se moviam no vazio. Essas partículas eram invisíveis fisicamente.  Eles se moviam por si mesmos sendo diferentes apenas na forma e no tamanho. O movimento ocorria em todas as direções se chocando e podendo unirem-se de acordo com suas formas.

          

          

          Leucipo e Demócrito


Tudo leva a crer que Leucipo nasceu em Mileto e que foi o criador da teoria do átomo. A sua teoria tem como fundamento a pesquisa natural e racional. O interessante é que, para ele, tanto o átomo quanto o vazio eram igualmente importantes e necessários. Os átomos movimentando-se no vazio formam as coisas. O peso dos corpos é devido ao tamanho dos átomos e as suas combinações. Ou seja, os átomos tinham peso. Tanto o vazio quanto o número de átomos são infinitos. Assim como vemos um turbilhão, o vento movimentando-se e arrastando coisas, no vazio também ocorrem turbilhões onde os átomos são jogados uns contra os outros se agrupando e criando as coisas. Demócrito desenvolveu essa teoria tornando-a mais precisa. A separação acontece quando partículas mais fortes agita e dispersa outras. Os corpos surgem e desaparecem por causa da combinação e da separação dos corpos primários (os átomos). "Nada nasce do nada" (por isso os átomos são infinitos), escreve Demócrito, e tudo se encadeia, necessariamente; os corpos nascem de combinações de átomos e desaparecem pela separação dos átomos. A alma é feita de átomos e o conhecimento sensorial é devido à emissão, pelos objetos, de substâncias muito finas que agem sobre os sentidos. Os sentidos captam o impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma, e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Disto decorre que os objetos dos sentidos não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver, mas as "imagens" que os corpos estão constantemente emitindo. Por isso é impossível sabermos se o que vemos é de fato semelhante ao corpo do qual provém, pois os átomos emitidos estão sujeitos às distorções causadas pela interferência do ar.
Demócrito nasceu em Abdera. Foi discípulo de Leucipo.  Pela semelhança das ideias percebe-se que não podemos distinguir com suficiente segurança o que se deve a Demócrito e o que a Leucipo.  Demócrito foi um escritor muito produtivo. Provavelmente tenha escrito em torno de noventa obras. Demócrito também afirma o vazio e a existência dos átomos. Como essas partículas indivisíveis são de diversas formas elas se unem. Os átomos são indivisíveis Esses átomos seriam indivisíveis porque se pudessem ser divididos em partes menores, ou desintegrados, a natureza acabaria se diluindo completamente.


terça-feira, 27 de maio de 2014

SÓCRATES “Sei que nada sei”

Prof. Amilcar Bernardi

Para os Cristãos, Cristo é um divisor de águas. Existe a história antes de Cristo e a depois de Cristo. Para a filosofia ocidental, temos os pré-socráticos e os pós-socráticos. Também Sócrates é um divisor nas águas revoltas da história da filosofia.  Com esse pensador a preocupação grega passa a ser a ética e a política e não mais a natureza, como nos pré-socráticos.
Sócrates argumentava de maneira forte contra os que acreditavam saber algo. Acaba confrontando com o Estado, pois sua ironia colidia contra as práticas dos políticos da época. Acaba por ser condenado à morte. A acusação: desrespeitar os deuses e corromper a juventude. Na verdade o que havia contra Sócrates era seu cruel questionamento dos valores da época. Manda-lo à morte foi imortaliza-lo, pois seu desaparecimento naquelas circunstâncias marcou seus contemporâneos. Quando estava em frente aos 501 cidadãos do júri, ironiza os acusadores e pouco se defende. O júri então o condena a morrer bebendo cicuta.

Esse brilhante pensador optou por manter diálogos com as pessoas. Dialogava com qualquer um em qualquer lugar. O ponto alto desses diálogos era a refutação. As afirmações dos interlocutores eram desqualificadas por Sócrates. O Filósofo levava as pessoas a se contradizerem. A dificuldade está em que Sócrates não escreveu tais diálogos. Ele valorizava mais a fala viva do que a letra morta.  Seu principal discípulo, Platão, registrou seus ensinamentos. Isso trará outro problema: estamos estudando Sócrates ou Platão?
Platão nos mostra Sócrates nas praças de Atenas ironizando e questionando as pessoas. Esse questionamento era cruel, muitas vezes acontecia de forma grosseira.  Iniciava suas questões muitas vezes pela definição: “O que é isso que falas?” As idéias e as virtudes deveriam ser definidas com exatidão. Descobriu Sócrates que as pessoas não sabiam do que falavam! Ele faz uma espécie de análise de conceitos em seus diálogos.


Os sofistas também agiam semelhantemente ao Sócrates, porém, intencionavam diretamente preparar uma elite, futuros governantes. Para isso ensinavam de maneira enciclopédica e com ênfase na eloquência.


Sócrates nas suas indagações quer se afastar do senso comum e aproximar-se dos conceitos mais precisos e ricos. Podemos dizer que ele parte do que já sabemos (senso comum) para um conhecimento mais elaborado. Essa busca pelo conhecimento mais elaborado é pessoal, ninguém pode fazer pela pessoa. Por isso esse filósofo perguntava sempre, nunca respondia. A pessoa, através da própria reflexão, devia achar as respostas. Ele motivava o aprendiz com seus diálogos em praça pública.
A introspecção é característica da filosofia socrática. Exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo. – isto é, torna-te consciente da tua ignorância.
Sócrates não gostava que o chamassem de sofista. Mas é fato que tinha uma vida semelhante a eles. Não recebia dinheiro por seus ensinamentos, mas semelhantemente aos sofistas, falava nas praças públicas. Os jovens adoravam ouvi-lo. Ele queria falar sobre coisas práticas, não sobre metafísica. Assim falava sobre autoconhecimento (um dos pontos fundamentais da sua filosofia), política e ética.
Interessou-se sobre o conhecimento de si e dos homens.  Refletia sobre esse tema em público, isso fez com que surgissem muitos curiosos a sua volta, que acabaram tornando-se seus discípulos.  Acreditava que o conhecimento vem da discussão, ou seja, da partilha entre as pessoas que querem aprender e ensinar. O saber é construído em conjunto.
Sócrates interrogava as pessoas sobre o que elas acreditavam saber. O resultado era interessante. As pessoas desconheciam o que falavam! Então Sócrates percebe que a sabedoria começa pelo reconhecimento da própria ignorância.  Mesmo sendo esse processo muito doloroso. Quanto mais orgulhosa e preconceituosa for a pessoa, tanto mais difícil será a superação da ignorância. Para estas ele reservava a ironia e a refutação.  A ironia e a refutação levavam as pessoas a aceitarem e confessarem suas próprias contradições e ignorâncias. Só assim estavam livres para descobrirem coisas novas. Ajudava seus discípulos a conceberem suas próprias idéias.  A educação vem de dentro para fora da pessoa. É uma autoeducação que leva ao conhecimento de si mesmo através das discussões (diálogos). 
Não podemos confundir os diálogos com o cultivo da eloquência. Sócrates não queria levar as pessoas a se convencerem através de palavras bonitas, sonoras e atraentes. Utilizava-se da dialética. Buscava através de perguntas e respostas o esclarecimento do que é a vida virtuosa na pólis. Ele queria eliminar a ignorância das almas não confundi-las com sofismas.

O mundo humano

A filosofia de Sócrates volta-se para o mundo humano, psicológico, com finalidades práticas, morais. É cético com relação a metafísica. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. Vale dizer, o agir humano – bem como o conhecer humano – se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência.
A gnosiologia de Sócrates baseia-se nesses pontos fundamentais: ironia, refutação, introspecção, ignorância, indução, definição. Antes de tudo, temos que desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados, dos preconceitos, opiniões; é este o momento da ironia, isto é, da crítica. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro (a ciência) mediante a razão.  O mestre deve tirar a instrução da mente do discípulo. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro é, antes de tudo, a indução: isto é, remontar do particular ao universal, da opinião a ciência, da experiência ao conceito.

A ironia, a refutação e a maiêutica

Entre os gregos a ironia era considerada uma atitude do espírito detestável. Segundo Aristóteles, o irônico peca contra a veracidade porque, em seus discursos, se recusa a revelar as suas qualidades, oculta seu saber sob a capa de uma ignorância fingida e se protege atrás de um comportamento negativo. Os contemporâneos de Sócrates o condenaram por ela. A ironia e a refutação acabam, nas mãos de Sócrates, se tornando uma atitude pedagógica e filosófica.  Essa atitude tem a finalidade de pôr a descoberto a vaidade, de desmascarar a impostura e de seguir a verdade. Ao desprezar o que a sociedade preza, ameaça as opiniões correntes e os valores consagrados. Era, dessa forma, um cidadão crítico ao questionar o que se tinha como verdade.
Com suas perguntas Sócrates deixava embaraçado e perplexo aquele que está seguro de si mesmo. Conceitos até então estáveis são vistos como problemas. Atiçava a curiosidade e a reflexão. A sua arte educativa pode ser comparada com a de sua mãe, porque ele é como o médico que ajuda nos partos do espírito. Por causa deste aspecto o método de Sócrates é chamado de maiêutica.
Por razões de método (e não por incapacidade), seus diálogos levantavam uma questão, mas não davam a solução. Servem para pôr o interrogado no caminho da solução e para que ele mesmo a encontre.

Ensinamentos filosóficos:

 Sócrates não se interessa pelos princípios supremos do universo, mas pelo valor do conhecimento humano. Não questiona o cosmos, antes de tudo examinava se os homens haviam aprofundado suficientemente os conhecimentos humanos, para se ocuparem de tais assuntos.
Na psicologia, a doutrina socrática gira em torno da imortalidade da alma. Para ele a alma é superior ao corpo e encontra-se nele como numa prisão. A morte libera a alma desta prisão e lhe abre a porta de uma vida melhor. Deve-se cuidar da alma e não temer a morte.
Quanto ao conhecimento, faz uma distinção entre opinião e verdade. O conhecimento sensível por si só não pode fazer-nos conhecer a verdade, mas somente opiniões mais sólidas. O homem é dotado só de conhecimento sensitivo. Mas, além disso, existe outro conhecimento, o intelectual. Este vai além das aparências sensíveis, porque extrai das coisas a sua verdadeira natureza, formando na mente uma noção, um conceito, de valor universal.
Sócrates foi o primeiro filósofo que procurou determinar a natureza do conceito universal e que mostrou que ele é muito diferente da opinião. A opinião varia de individuo para individuo, ao passo que o conceito universal é necessariamente o mesmo para todos.
O procedimento para chegar a aquisição do conceito universal é o indutivo.

Indução: Raciocínio cujas premissas têm caráter menos geral que a conclusão.
        
Das definições de valor limitado passa-se para definições menos imprecisas até chegar-se à definição adequada. Quando Sócrates quer definir a justiça, por exemplo, pede aos interlocutores uma definição e demonstra que ela é insuficiente. Pede outra definição e faz o mesmo... até chegar a uma definição mais satisfatória.
Para Sócrates a moralidade identifica-se com o conhecimento: a sabedoria é virtude e a virtude identifica-se com a sabedoria. Se o homem peca, é por ignorância, porque não é admissível que, conhecendo o bem o mal, escolha o mal e não o bem. Os homens que fazem o mal ignoram o bem ou não sabem que o que escolheram é mau. Ele incita seus ouvintes a procurarem a verdade e a sabedoria, porque somente a verdade e a sabedoria tornam o homem livre e virtuoso.


sábado, 24 de maio de 2014

Revisão da aula de Filsofica. Senso comum e atitude científica

                                         O Senso comum:
Prof. Amilcar Bernardi



     
  “O homem é a medida de todas as coisas” já dizia Protágoras. Isso significa que nós damos sentido ao mundo. A realidade é compreendida à medida que damos sentido à ela. Esse sentido dá-se à media que explicamos o que nos rodeia. Somo seres que interpretam.  A natureza é o caos até que criamos teorias que dão ordem ao universo. O homem pré-histórico tudo temia, pois a não explicação das coisas o fazia gelar num planeta inóspito e assustador.
A explicação que tecemos na ação do dia a dia, é um tipo de conhecimento espontâneo, fruto das necessidades que nos assaltam a cada momento.  Este espontaneísmo baseia-se nos sentidos, na memória, no desejo que nos faz criativo e imaginativo, nas tradições e nas crenças. Podemos chamar esta forma de interpretação acrítica do mundo de senso comum. Com isso não queremos dizer que o senso comum é irracional, apenas que faz uso "descuidado" da razão.

Senso comum: podemos dizer que é um conjunto de opiniões e modos de sentir o mundo. É herdado através da tradição e relativo a uma determinada época, local ou grupo social. São opiniões acríticas e, não raro, indefensáveis. 

O conhecimento ordinário→ Trata-se do conhecimento ou da racionalidade que surge da necessidade de enfrentar fatos imediatos, da necessidade de resolver problemas propostos por interesses os mais variados, sem qualquer prévia discussão. Raras vezes este conhecimento se faz acompanhar de explanações que esclareçam os fatos. Quando as apresenta, o faz sem indicar testes críticos que provem seu valor de explanação. Claro é que o conhecimento ordinário pode conter elementos de ciência, de filosofia e de religião. (Zilles, urbano. Teoria do conhecimento.Porto Alegre: EDIPUCRS,1994. Pg. 156.)

O senso comum tem algumas características que lhe são próprias:

- São subjetivos, isto é, exprimem sentimentos e opiniões individuais e de grupos, variando de pessoa para pessoa, ou de um grupo para o outro dependendo das condições em que vivem. Por exemplo, se eu for um Hindu a vaca será sagrada para mim, mas se seu for dono de um frigorífico...
- São qualitativos, isto é, as coisas são julgadas por nós como grandes ou pequenas, doces ou salgadas, belas ou feias, úteis ou inúteis, e etc...
- São heterogêneos (composto de partes de diferente natureza), isto é, referem-se a fatos que julgamos diferentes porque os percebemos como diversos entre si. Por exemplo, um corpo que cai e uma pena que flutua são acontecimentos diferentes; sonhar com a água é diferente de sonhar com uma escada...
- São individualizadores por serem qualitativos e hetoregêneos, isto é, cada coisa ou cada fato nos aparece como um indivíduo ou como um ser autônomo: a seda é macia, a pedra é rugosa, o mel é doce, o fogo é quente, o mármore é frio...

Em decorrência das generalizações, tendem a estabelecer relações de causa e efeito entre as coisas e os fatos: onde há fumaça há fogo; quem tudo quer tudo perde; as posições dos astros determinam o destino das pessoas; menino de rua é delinquente...
As pessoas dominadas pelo senso comum não se surpreendem nem se admiram com a regularidade, constância, repetição e diferença das coisas. Preferem o extraordinário, maravilhoso, miraculoso. Por isso a moda está sempre inventando o “extraordinário”, o “nunca visto”...

A atitude científica:






A ciência é sempre desconfiada. Desconfia da veracidade de nossas certezas, de nossa adesão imediata às coisas, da ausência crítica e da nossa falta de curiosidade. Onde o senso comum vê fatos e acontecimentos, a ciência vê problemas e obstáculos que precisam ser explicados.
O procedimento científico clássico passa pelas seguintes etapas: surge um problema que se oferece como obstáculo aos desejos do homem, o cientista que quer controlar e solucionar esse problema elabora hipóteses, testa as hipóteses e tende a uma solução (nem sempre alcançada com êxito).  Assim inúmeras experiências se sucedem até que uma conclusão possa ser generalizada, ou seja, é considerada válida não só para aquela situação, mas para todas similares. Mesmo que o cientista esteja convicto da universalidade de suas conclusões elas serão julgadas em revistas especializadas e congressos (julgados por membros da comunidade científica). Podemos dizer que a objetividade é de extrema importância para a comunidade científica.  Essa objetividade é garantida por métodos rigorosos tanto na experiência do cientista quanto no julgamento das conclusões.

Objetivismo:       Doutrina que afirma existirem normas objetivas, de validade geral.  Qualquer doutrina ou modo de pensamento que atribui relevância ou exclusividade à observação dos aspectos objetivos daquilo que é estudado (como mensuração de propriedades quantitativas).

                        Características do acontecimento científico:

É objetivo, isto é, procura as estruturas universais e necessárias das coisas investigadas.
É quantitativo, isto é, busca medidas, padrões, critérios de comparação e de avaliação para coisas que parecem ser diferentes. Exemplo: as diferenças de intensidade de sons, explicados pelos comprimentos de ondas sonoras.
É homogêneo, isto é, busca as leis gerais de funcionamento dos fenômenos que são as mesmas para fatos que nos parecem diferentes. Exemplo: a lei universal da gravitação demonstra que a queda de uma pedra e a flutuação de uma pluma obedece à mesma lei de atração e repulsão no interior do campo gravitacional.
É diferenciador, pois não reúne nem generaliza por semelhanças aparentes, mas distingue os que parecem iguais, desde que obedeçam a estruturas diferentes. 
Só estabelece relações causais depois de investigar a natureza ou a estrutura do fato estudado e suas relações com outros semelhantes ou diferentes.  Exemplo: um corpo não cai porque é pesado, mas o peso de um corpo depende do campo de gravitação onde se encontra.
São três as exigências do ideal de cientificidade:
Que haja coerência (não haja contradições) entre os princípios que orientam a teoria.
Que os modelos dos objetos (ou estruturas dos fenômenos) sejam construídos com base na observação e na experimentação.

Que os resultados obtidos possam não só alterar os modelos construídos, mas também alterar os próprios princípios da teoria, corrigindo-a.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Revisão da aula de sociologia: Conceito de positivismo e a relação com o capitalismo

Um dos conceitos possíveis para a Sociologia:

É a ciência social que estuda as relações sociais, dando ênfase às interações das pessoas na vida em sociedade. Por isso preocupa-se com os jogos de poder, com os grupos sociais, as divisões sociais e a mobilidade/transformação social. Tanto a cooperação como os conflitos são preocupações da sociologia. O termo foi criado por Augusto Conte. Ele tinha a intenção de unificar várias áreas do conhecimento como a psicologia, a economia...








Sociologia e o capitalismo

O mundo moderno teve como fundamento o surgimento do capitalismo e da tecnologia. Com isso os centros urbanos inflaram alimentados pela industrialização, com isso agudizando os problemas urbanos.  O estado laico, industrializado (ou industrializando-se) e o iluminismo como inspiração intelectual, fomentaram também o individualismo.  A partir do século XVIII,com a consolidação do capitalismo, surgiu uma nova forma de viver em sociedade. Costumes e crenças tornaram-se antigos. A violência cresceu nos centros urbanos e surge o proletariado com a necessidade de emprego e de estudo. Por outro lado, a burguesia se transforma e se fortalece: de mercantil passa a industrial. As relações sociais são agora relações assalariadas, hierárquicas e marcadas pela propriedade (ou ausência dela). Como compreender essa mudança tão radical do feudalismo para a época industrial? A sociologia, uma nova ciência, surge. Ela ajuda a compreender o que a sociedade passava. Não só compreender, mas harmonizar as pessoas nesse contexto surpreendente, cheio de novidades e de terríveis conflitos sociais. Esclarecendo essa sociedade tentava a sociologia, através de explicações científicas, instrumentalizar intelectualmente as pessoas para solucionarem tais conflitos. Ela era uma ciência para lidar com o mundo moderno. Hoje a sociologia avançou como ciência e ampliou sua área de atuação.


Características do positivismo:           

- Abandono da busca pela explicação dos fenômenos transcendentes, como o problema da criação do homem;
- Subordinação da imaginação à observação;
- Valorização do ser humano, da paz e da concórdia universal;
- Opõe-se ao racionalismo e ao idealismo;
- não busca as causas dos fenômenos naturais e sim suas leis;
- limita-se o mais possível à experiência imediata;
- Há uma limitação filosófica;

 Tem como critérios de verdade: a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Revisão aula de Sociologia. Sociologia e senso comum

Sociologia de aquário
Prof. Amilcar Bernardi

Seria possível um peixinho falar de coisas totalmente diferentes das águas onde vive? Totalmente, é impossível! Nós humanos também não podemos falar muito diferente do meio onde vivemos. Nossa opinião está na “ponta da língua” e nadamos nas águas culturais onde nascemos e vivemos. Temos, portanto, representações das coisas que nos tocam os sentidos, o nosso afeto, enfim, a nossa capacidade de conhecer. Julgamos peixinhos que somos, as águas que nos envolvem, pelo fato que estamos envolvidos por elas. Porém, poucos refletem sobre as águas e tentam imaginar que existem outros aquários, outros peixes, outras representações possíveis. Quem não reflete apuradamente, utiliza-se do senso comum ao opinar sobre sua realidade, ou ainda, opina sobre a realidade dos outros sem sair da sua própria!
Imaginando um peixe sociólogo, ele teria que abandonar o senso comum das águas sem correntezas do seu mundinho, do seu espaço tão conhecido no aquário. Ao romper com as explicações do dia a dia, passaria ao conhecimento científico. Para ser um peixe sociólogo, ele teria que em primeiro lugar interrogar, formular perguntas sobre a realidade social dos “cardumes” para obter possíveis respostas.
Temos que testar nossas respostas porque, assim como os peixinhos que estão mergulhados na água, nós estamos mergulhados no mundo cultural cheio de preconceitos e opiniões não testadas.  Para o peixinho é difícil questionar a água e tentar falar como se estivesse “acima” da água para entendê-la! Para nós humanos, é difícil questionar a sociedade que nos absorve.
Deixando os peixes de lado, para sermos sociólogos, faremos interrogações pretendendo obter respostas bem estudadas, baseadas em conceitos específicos e em teorias com capacidade de fundamentar tais respostas. Para confirmar as hipóteses, escolheremos métodos e técnicas que testem e expliquem nossas próprias hipóteses!
Senso comum (Ainda brincando com a imagem dos peixes no aquário)
O peixinho no seu cardume entende todas as coisas do aquário através do saber social, construído pelo cardume, nas relações entre os peixes. As experiências que ele vive moldam suas opiniões. Os seres humanos que “nadam nas águas sociais” formam suas convicções através da cultura, hábitos, normas, moral, enfim, formam suas convicções através de todas as construções (intelectuais, sociais e de arquitetura) que criaram para viverem bem.  Para o senso comum não é necessário um parecer científico, nem que se comprove o que é dito, o que acreditamos.  É um bom material para o estudo sociológico, o senso comum.
(Imagem obtida no dia 16/05/ 2014 http://www.portaldaglobo.com/decoracao-de-aquario/)



Emergência da Sociologia (surgimento histórico) 1º ano
                                                                                                                  
Voamos escolher alguns elementos, dentre tantos, que consideramos essenciais para o entendimento dos motivos históricos que propiciaram o surgimento da sociologia.

Questão principal:   O amadurecimento do pensamento científico e do crescente  interesse pela vida material do homem.

Forças motrizes (no contexto das transformações iniciadas aproximadamente no século XVII):


-  Desenvolvimento do pensamento iluminista.
- Revolução Francesa (1789) e Independência Americana (1776): Esses eventos proporcionaram questionamentos sobre a liberdade humana, os direitos individuais e sobre a legitimidade dos movimentos sociais. Questão: Qual o tamanho do estado?
- Revolução industrial (mais ou menos em 1750).
- Queda gradual do feudalismo, ascensão do capitalismo.
-- Protestantismo e a possibilidade de lucro.
- Superprodução, guerra concorrencial e, por consequência, o mercado acaba nas mãos de monopólios e oligopólios.
- Exploração das colônias e a necessidade de novas colônias.
- Grande progresso tecnológico e científico de um lado, crescente pobreza e doenças do outro.
- Substituição de vários costumes por outros.
- Aumento de suicídios, da prostituição e da violência urbano.

- Mundo menor e mais integrado.

  

Revisão: O que é Filosofia.

Disciplina de Filosofia – 1º ano
Prof. Amilcar Campos Bernardi

O  que é filosofia?
Esta é uma questão muito difícil de responder. A filosofia é uma postura, não uma coisa palpável de fácil esclarecimento. Não podemos falar da filosofia, mas do filosofar. Por que do filosofar? Porque a pergunta sobre o que é a filosofia já é um problema filosófico; sendo assim, torna-se possível uma variedade de respostas.
Toda a pessoa que possui um ponto de vista; uma maneira de pensar e agir sabendo argumentar, está filosofando. Aquele que argumenta, filosofa. Quer dizer que todos filosofam? Sim. Sim, no sentido do senso comum, ou seja, todos têm uma filosofia de vida, uma maneira de ver o mundo e de explica-lo. E não, no sentido técnico, estrito do termo.
Tecnicamente filosofar é argumentar com intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade, no sentido de tentar compreender o mundo na sua totalidade. Para isso se utilizando da razão e da sabedoria. O filosofar das pessoas leigas no assunto, tende a argumentar para defender suas ideias e não para amplia-las. Dá para perceber a diferença?
Um filósofo e matemático no século VI ªC, Pitágoras, usou pela primeira vez a palavra filosofia (philos + Sophia), significando amor à sabedoria. Atentemos para a palavra amor. Significa que só faz filosofia quem ama o estudo, os porquês, quem ama saber sempre mais. Veja que quem ama tem o sentimento de dedicação. Filósofo é quem se dedica a sabedoria! E, com certeza, de forma prazerosa.

A filosofia é movimento. A mola do movimento é a dúvida, a pergunta.

 Por exemplo, podemos responder o que é a filosofia dizendo que ela é o amor a sabedoria, como já dissemos antes. Ora, mas o que é o amor? O que é sabedoria? Posso amar a sabedoria se não consigo saber o que é o amor? Vejam só: novamente nos movemos! Pois é, meus alunos, é isso que eu quis dizer com movimento através da dúvida e da pergunta. Vamos a outro exemplo? O médico trata a doença. O filósofo pergunta: o que é a doença? Ë a ausência da saúde? E se eu tenho um câncer nos meus genes que ainda não se manifestou? Tenho saúde, mas sou doente. Ou não?   Outro exemplo: o advogado interpreta a lei a favor do cliente. O filósofo pergunta - o que é lei? E mais: A boa lei pode ser interpretada ou a lei é má quando está sujeita a interpretações? A lei perfeita é aquela que não pode ser interpretada devido a sua natureza lógica e clara?
Também podemos dizer que a filosofia é o exercício da razão que eleva a pessoa acima das coisas evidentes, dos preconceitos e da pura opinião.
Porque nem todas as pessoas filosofam como faz o filósofo? Para que filosofemos é necessário uma atitude especial, o espanto. Espantar-se é olhar o óbvio e não vê-lo com tal, mas vê-lo como algo misterioso. É certo que tudo guarda mistérios. Por exemplo, olho um livro sobre a mesa. O livro é matéria. É algo “morto”. Ao observa-lo mais de perto, percebo que ele “fala”. Espanto-me. A matéria falou comigo através de sinais de tinta. As moléculas constituintes do papel e da tinta afetam meus olhos que também são constituídos de moléculas (orgânicas). Mas esse “afetar” produz pensamentos não materiais... como pode isso? Um mistério espantoso não?

E o que é o espanto? O espanto é exatamente aquilo que sentimos diante de algo que não nos parece por inteiro explicável. É o desejo de ir um pouco mais além na compreensão dos fenômenos que nos cercam. É pelo espanto que crescemos em conhecimento e é através dele que liberamos nossos canais de percepção, comunicação e compreensão de tudo que nos rodeia. 
Schirato, Maria Aparecida Rhein. Iniciação à filosofia: Viva a filosofia Viva; editora Moraes, São Paulo – SP; 1990. Pág. 23.

E as outras ciências não se espantam? Sim. Mas a filosofia responde de forma diferente a esse espanto.  O filósofo não fica preso à experiência, mas a transcende. Aprofunda-se para além do laboratório. Um bom exemplo é quando nos perguntamos: o que é a ciência?Qual o limite do conhecimento? Outra coisa interessante: o físico não pode perguntar-se sobre a física. Não pode perguntar: o que é a física? Se fizer isso está filosofando e não fazendo física. A filosofia é a única ciência que questiona a si mesma. Inclusive há muitos filosofando muito afirmando que a filosofia não existe.

Assim concebida, a filosofia não é bem um saber que possamos utilizar aqui ou ali. É, isto sim, um fazer (uma forma de pensar) que nos ajuda a escolher que saber podemos (para o bem ou para mal) utilizar, seja em que circunstância for. Se, ainda sim, você quiser pensar na filosofia como um instrumento, digamos que ela seria uma espécie de “desconfiômetro”, uma peça de nossa inteligência utilizada para não engolirmos a primeira certeza que nos oferecem como sendo uma verdade indiscutível. Serve, por exemplo, para nos estimular a suspeitar de que a importância de algo está em sua utilidade, e assim descobrirmos que é porque não é útil que a filosofia é importante . Abrahão Costa Andrade[1]

Descartes, um grande filósofo, dizia que só era verdadeiro o que era indubitável (sobre que não pode haver dúvida; o que é incontestável). O restante era pura dúvida. Caso tu tenhas incontáveis dúvidas, não encontrando muitas verdades por aí, tu estás no caminho de tornar-se um filósofo.


Mito
O mito não é um simples contar de coisas, um inventar sem sentido. Ele é uma narrativa. Historicamente, os Gregos o utilizavam na tentativa de explicar a realidade e os fenômenos da natureza. Afinal, não explicar as coisas é viver num mundo de medo e instável. Podemos dizer que é impossível não tentar explicar nosso entorno. O mito falava do mundo natural, das origens do homem, enfim, falava de tudo que não era compreendido pelos homens. Como a ciência não existia como a conhecemos hoje, o mito exercia seu papel de rotinização, de explicação dos fenômenos.  Estas falas sobre o mundo eram cheias de simbologia, eivadas de criaturas sobrenaturais e heróis.  Dessa forma o conhecimento acumulado era transmitido envolto por rituais, cerimônias e orações.
Portanto, não podemos confundir mito com religião ou com histórias. Ele é uma narrativa racional, diferente das demais narrativas, pois tem objetivo de explicar, ensinar, dizer “verdades”.



[1] Revista Discutindo Filosofia. Ano 1, número 1. Página 12

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Resenha: Jean Jaques Rousseau

 JEAN JACQUES ROUSSEAU

Prof. Amilcar Campos Bernardi


Rousseau nasceu em Genebra, a 28 de junho de 1712, morre em 02 de julho de 1778. É nascido em Genebra, mas na França é que produz suas grandes obras.  Tem em seus escritos um tema dominante: a relação entre a natureza e a sociedade, a moral fundada na liberdade, primazia dos sentimentos sobre a razão, a teoria da bondade natural do homem e a doutrina do contrato social. Foi um dos pensadores que mais se aproximou dos anseios populares, pois defendia a soberania do povo. Espantoso para a época foi Rousseau criticar o individualismo burguês antes da burguesia se consolidasse no poder. Influenciou e foi influenciado pelo iluminismo. A Revolução Francesa teve influência dos escritos de Rousseau.
Rousseau defende os valores oriundos da vida natural. O estado de natureza é a garantia de dois princípios inalienáveis: a liberdade e a igualdade; princípios esses violados com a formação da sociedade civil e a instituição da propriedade. Tal violação é descrita por Rousseau em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de 1754.  Ele vai dizer que a sociedade civilizada é vil, corrupta e avara.  Não critica toda a sociedade, mas aquela que acorrenta o homem. Acredita que a liberdade que o selvagem desfrutava (em seu estado de natureza) era o oposto dos liames sociais que hoje nos une (uma sociedade artificial). Os homens renunciaram a seu estado de natureza através de um pacto social. O pacto faz com que todos se submetam a uma vontade geral; cada pessoa deve obediência apenas ao Estado. Essa obediência só é livre enquanto o Estado representar a vontade geral. Somente o povo é fonte da legitimidade do Estado.  Ninguém está submetido à vontade individual, o cidadão vai obedecer somente às leis que, por sua vez, representam a vontade geral. A vontade geral não é a soma das vontades particulares. “Se, quando o povo suficientemente informado delibera, não tivessem os cidadãos nenhuma comunicação entre si, do grande número de pequenas diferenças resultaria sempre a vontade geral e a deliberação seria sempre boa”. Caso as pessoas se agrupassem em associações, haveria o risco de uma associação crescer tanto que sua vontade dominaria, tornando-se então uma vontade particular. 
A civilização é vista por Rousseau como a responsável pela degradação das exigências morais da natureza humana. Essa moral humana é substituída por uma cultura intelectual. Em seu estado de natureza o homem tem tudo. Tudo o que quer é a satisfação das suas necessidades básicas: alimento, algum conforto contra as intempéries e sexo. As paixões que o move são o querer, o desejar e o temer. A ignorância dos vícios e a tranqüilidade de seu coração são condições favoráveis para o surgimento da virtude. Já a uniformidade artificial de comportamento, imposta pela sociedade às pessoas, leva-os a ignorar os deveres humanos e as necessidades naturais. Assim como a polidez e as demais regras da etiqueta podem esconder o mais vil e impiedoso egoísmo, as ciências e as artes, com todo o seu brilho exterior, freqüentemente seriam somente máscaras da vaidade e do orgulho. É a civilização que provoca a desigualdade entre aos homens, portanto, a desigualdade não é algo natural. A vida do homem primitivo seria feliz porque ele sabe viver de acordo com suas necessidades inatas. As necessidades impostas pelo sentimento de autopreservação – que impele o selvagem a ações agressivas – são contrabalançadas pelo inato sentimento de piedade que o impede de fazer mal aos outros desnecessariamente. Evidente que Rousseau não quer o retorno do homem a sua vida nas florestas. O autor quer salientar apenas a sensibilidade perdida com o avanço da artificialidade da civilização.  São os excessos civilizatórios que são denunciados.
Assim como Hobbes e Locke, Rousseau procura resolver a questão da legitimidade do poder fundado no contrato social. No entanto, sua posição é, num aspecto, inovadora, na medida em que distingue os conceitos de soberano e governo, atribuindo ao povo a soberania inalienável. Ele cria a hipótese dos homens em estado de natureza, vivendo sadios, bons e felizes enquanto cuidam de sua apropria sobrevivência. Isso até o momento em que é criada a propriedade e uns passam a trabalhar para os outros, gerando escravidão e miséria. O bom selvagem é feliz até o momento em que é introduzida a desigualdade entre os homens, a diferenciação entre o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o senhor e o escravo e a predominância da lei do mais forte.
O homem natural é dotado de livre-arbítrio. A corrupção começa com o início das sociedades civilizadas.  A corrupção começa no momento em que surge a propriedade privada. Para Rousseau o bem máximo é a liberdade. Todos nascemos livres.  Na medida em que a ela renunciamos, renunciamos também a nossa humanidade. A liberdade é um imperativo.
Rousseau sempre pretendeu ressaltar a mais profunda humanidade do selvagem em relação ao homem civilizado.  Mas, embora privado no estado social de muitas vantagens da natureza, na sociedade o homem adquire outras: capacidade de desenvolver-se mais rapidamente, ampliação dos horizontes intelectuais, enobrecimento dos sentimentos e elevação total da alma. Se os abusos do estado social civilizado não o colocassem abaixo da vida primitiva, o homem deveria bendizer sem cessar o instante feliz que o arrancou para sempre da animalidade e fez de um ser estúpido e limitado uma criatura inteligente. O propósito de Rousseau é combater os abusos e não repudiar os mais altos valores humanos. Os abusos ocorrem no culto ao refinamento, das mentiras convencionais, da ostentação da inteligência e da cultura. O filósofo concebe dois tipos de desigualdades: uma natural ou física, fruto da natureza.  Essa desigualdade pode ser de robustez, saúde ou de qualidades do espírito. A outra desigualdade – moral ou política – vem pela convenção social e consentida pelos homens. Como não é possível modificar o que é de natureza, resta denunciar as desigualdades por convenção.  Rousseau faz essa denúncia no Discurso sobre a desigualdade. O “conserto” das discrepâncias da vida em sociedade ocorrerão num novo Contrato . Nesse contrato a liberdade deve ser garantida. A obediência ilegítima é aquela que tem como fundamento a força. Da força não podemos extrair moralidade, o poder físico por si só é irracional. A liberdade natural está sempre ameaçada pela força e pela dominação. Por esse motivo a liberdade natural é infensa à coerção. É necessária uma nova liberdade,  a liberdade civil.

O contrato social:

 Rousseau imagina a gênese das primeiras comunidades a reunião de pessoas para a realização de algum trabalho. Talvez alguma tarefa que fosse impossível de ser feita por um só.  Talvez a defesa contra algum animal. Essa união, tendo sucesso, proporcionou que se repetisse. Até que formou hábito. O grande problema é que o refino cultural provocou a desigualdade. Os mais hábeis ou fortes se sobressaíram dos demais. Então se criou a propriedade, a inveja, o orgulho e a falsidade. Rousseau tinha uma questão bastante crucial: o contrato deve garantir a segurança e o bem estar das pessoas mantendo-os livres. Para isso afirma que a soberania política deve manter-se no conjunto dos membros da comunidade. A vontade particular e individual diz respeito a interesses particulares. Estes interesses devem submeter-se ao interesse coletivo materializado no contrato social. O homem natural não tinha a consciência daquilo que possuía, nem tampouco do que possuía o semelhante. Isso parece fazer parte da idéia de que tudo era de todos. E, se tudo era de todos, o egoísmo, a vaidade e a ambição eram sentimentos inexistentes. Mas não é a propriedade em si o grande problema da civilização. A questão é a ambição em querer ficar acima dos outros. Assim os homens produzem não mais para suprir suas necessidades básicas, mas para lucrar à custa dos outros.
Diz Rousseau:
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembro-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo.
O único fundamento possível para a construção e a manutenção do poder político é o pacto social. Os contratos existentes são um falso contrato, coloca os homens sobre grilhões. Numa espécie de dever ser, um ideal, diz que o contrato social para ser legítimo, deve se originar do consentimento necessariamente unânime.  Cada associado se aliena totalmente, ou seja, abdica sem reserva de toso os seus direitos em favor da comunidade. Mas, como todos abdicam igualmente, na verdade cada um nada perde, pois este ato de associação produz, em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral e coletivo composto de tantos membros quantos são os votos da assembléia e que, por esse mesmo ato, ganha sua unidade, seu eu comum, sua vida e vontade. Ou seja, pelo pacto, abdicamos de nossa liberdade, mas sendo nós mesmos partes integrantes e ativas do todo social, ao obedecermos à lei, obedecemos a nós mesmos e, portanto, continuamos livres.  Assim o povo não perde a soberania, pois não é criado um Estado separado dele mesmo. O Estado é uma livre associação de pessoas reacionais. São elas que livremente resolvem criar uma sociedade contratual. Será um contrato que obriga a todos, mas também mantém a liberdade, pois foi legitimamente criado.
 O soberano é para Rousseau o corpo coletivo e expressa, através da lei, a vontade geral. A soberania é do povo, manifestada pelo legislativo, e é inalienável. A democracia rousseauísta considera que toda lei não ratificada pelo povo em pessoa é nula. O povo não está submetido ao governo. Ao contrário, não há um superior, já que os depositários do poder não são senhores do povo, mas seus oficiais, podendo ser eleitos ou destituídos conforme a conveniência. Os magistrados que constituem o governo estão subordinados ao poder de decisão do soberano e apenas executam as leis, devendo haver inclusive boa rotatividade na ocupação dos cargos. Encontramos aqui a democracia direta ou participativa, mantida por assembléias freqüentes de todos os cidadãos. Somente o povo é fonte legítima da soberania do Estado.
Enquanto soberano, o povo é ativo e considerado cidadão. Mas há também uma soberania passiva, assumida pelo povo enquanto súdito. Então o mesmo homem, enquanto faz a lei é um cidadão e, enquanto a ela obedece e se submete, é um súdito.
Importante lembrar que Rousseau trata a democracia de maneira diferente dos demais contratualistas. Ele exige a participação direta  do povo no ato legislativo. A forte crítica ao Estado representativo permite uma interpretação de Rousseau como um crítico do liberalismo, teoria emergente em sua época. A crítica refere-se ao Estado liberal, como uma instituição que surgiu para converter em direito o que os burgueses já possuíam enquanto força, através da instituição da propriedade privada.

A vontade geral:

Rousseau imagina os homens originariamente isolados em um estado de natureza. Daí surge historicamente o Estado como escravidão, depois o despertar-se e o chocar-se dos egoísmos particulares. Este Estado tirânico deverá ser substituído pelo Estado como liberdade, isto é, como expressão da vontade geral, dos interesses comuns, humanos, universais.  A fundamentação do Estado rousseauniano é a vontade geral, que surge do conflito entre as vontades particulares dos cidadãos. A tendência humana em defender os interesses privados acima da vontade coletiva, faz com que a assembléia, enquanto um processo de decisão, seja o espaço da destruição das vontades particulares em proveito do interesse comum. A vontade geral é diversa da vontade de todos, como valor qualitativo é diferente do valor quantitativo, como o povo é diverso da multidão. A soberania política não compete ao soberano, mas a vontade geral, ao povo. O governante não é o soberano, mas o representante da soberania popular. O soberano é o povo, entendido como vontade geral. Ela é uma força superior ao indivíduo. É uma obediência ao bem comum, portanto, é uma obediência livre, pois o individuo está abrangido pela vontade coletiva. Assim o individuo passa a pertencer a um corpo moral em obediência a uma lei que foi criada por ele mesmo. Assim agindo os homens se guardam dos vícios e o leva em direção a virtude, a bondade genuína que só existe na vontade geral. É papel da educação ensinar desde criança a vontade geral aos cidadãos.
Para que a vontade geral seja genuína, no pacto social, cada um dos indivíduos se entrega totalmente à comunidade. Como todos se entregam, cada um nada perde. Nas palavras de Rousseau: cada um dando-se a todos não se dá a ninguém. O individuo deu tudo que tinha, mas recebeu tudo o que os outros tinham. E assim que recebeu, devolveu. O que de fato ganhou foi a força de pertencer a um corpo político coeso e livre. A vida e a força desse corpo são a união de seus membros. Por conseqüência, as leis seguidas pelo povo são reflexo dessa vontade geral. E essa vontade que dá legitimidade a lei. Assim será garantida o respeito ao interesse público. Uma vez estabelecida a vontade geral, está estabelecido o verdadeiro Direito. A lei é o povo que faz, ao mesmo tempo em que o próprio povo lhe é submetido. O Direito deve ter como meta a utilidade pública e o bem-estar dos cidadãos. Isso difere da simples democracia, onde a lei vem da vontade da maioria.
Ensina o Filósofo no Contrato Social, livro II, cap. 7:
Aquele que ousa empreender a instituição de um povo deve se sentir com capacidade para, por assim dizer, mudar a natureza humana, transformar cada indivíduo, que por si mesmo é um todo completo e solitário, em parte de um todo maior, do qual de certo modo deste individuo recebe sua vida e seu ser; alterar a constituição do homem para fortificá-la; substituir a existência física e independente, que todos nós recebemos da natureza, por uma existência participativa e moral. Em uma palavra, é preciso que se destitua o homem de suas próprias forças para lhe dar outras, não próprias, das quais não possa fazer uso sem socorro alheio.

A vontade geral pode ser representada?

A vontade não pode ser representada. Não é possível a representação da vontade de um cidadão para o outro. A vontade só será geral se tiver a participação de todos os cidadãos.  A soberania só existe se for de todo um povo. Essa vontade declarada é um ato de soberania e faz lei.  O poder ser transmitido, porém, não a vontade. Nas palavras de Rousseu alienar significa dar ou vender. Nenhuma pessoa se dá ou se entrega gratuitamente.  Só um louco faria isso e loucura não constitui direito: Renunciar à liberdade  é renunciar à qualidade de homem.
O corpo político sé é sólido quando baseia-se na vontade geral. Então, todos os cidadãos do Estado devem estar presentes nas deliberações. Aqui Rousseau afirma algo semelhante a polis grega.  A ausência nas deliberações enfraqueceria o caráter da vontade geral. Segundo o filósofo o corpo político é composto de tantos membros como a assembléia de votantes, o qual recebe deste mesmo ato sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua vontade. Aqui todos precisam participar sob o princípio da igualdade. Isso é importante porque o interesse de um representante sempre é privado e não poderá expressar o que os outros têm a dizer. Quando as questões públicas deixam de ser as principais preocupações dos cidadãos, os interesses particulares se sobressaem arruinando o Estado.





Bibliografia:

Chalita, Gabriel.  Vivendo a Filosofia.São Paulo, editora Atual.2004.
Marcondes, Danilo. Iniciação à história da Filosofia: dos pré-socráticos a           Wittgenstein.   Rio de Janeiro, editora Jorge Zahar. 2004.
Padovani, Humberto. História da Filosofia São Paulo, editora Melhoramentos. 1967.
Rousseau, Jean-Jaques. Do contrato social e Ensaio Sobre a Origem das Línguas. Coleção Os pensadores, Volume 1. Editora Nova cultural, 1997.





 




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