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domingo, 19 de junho de 2016

É possível o sexo amoral?

Prof. Amilcar Bernardi



É de conhecimento comum que a expressão tabu significa impedimento, proibição. Não só as religiões criam tabus, mas a política também. Portanto, não é o tabu apenas coisa de religiosos.  Toda a cultura produz seus impedimentos, produz moralmente o que deve ser reprovado. O tabu é, portanto, as convenções, as invenções que muitos cultuam. A vergonha que sentimos quando falamos ou fazemos em público o que não pode ser dito ou feito, é a materialização de um impedimento.

Diferentemente do tabu, no extremo oposto, temos a amoralidade. Esse adjetivo refere-se a pessoa que é desprovida de sentido moral. Seria uma pessoa que é indiferente ao sentido moral dado pelo grupo às coisas. A pessoa amoral sente-se e age como se fosse externa ao mundo da moral. Situação esta que penso ser impossível. Já vi muito jovem afirmando ser bom ser amoral, portanto, fazendo uma afirmação no âmbito da moralidade.

Uma adolescente contou-me que perdera a virgindade com o namorado.  Contou com tranquilidade. Fato muito positivo para a saúde mental dela. Afinal falar sobre essa experiência deve ser algo tranquilo. Mas, diferente de fazer sexo (copular), fazer amor não é natural, nem tranquilo, pois é um momento afetivo construído pela sociedade. Animais fazem sexo. Pessoas fazem amor porque estão envoltas em permissões e proibições sociais. Não creio que possamos fazer apenas sexo biológico, como os animais fazem. Não podemos mais sermos animais apenas.

A jovem adolescente queria dizer-me por jeitos e falas que ela poderia transar de jeito que quisesse, com quem quisesse e onde quisesse. De certa forma, queria impedir-me de julgá-la. Estava armada psicologicamente para dizer-me: Tu és moralista, um adulto cheio de tabus. Eu não tenho tabus, eu sou jovem e meu direito ao sexo é ilimitado. Confesso que não opinei. Creio que até a frustrei porque não disse nada. Não era o momento. A menina não queria ouvir, queria falar.

Fiquei divagando o seguinte. Ela apresentava-se a mim como uma pessoa pretendente à amoralidade. Sua atitude arrogante até, queria dizer para mim que o fato de transar era tão natural que não se encaixava em questões morais. Estava fora do âmbito dos julgamentos sociais. Então refleti: é possível uma transa amoral? Transas amorais, seriam interessantes para a sociedade? Os tabus, são sempre ruins?

Eu já tinha dado uma pista antes nesse texto. Reafirmo, a amoralidade é impossível. Julgamos sim, sempre. Inclusive, a moça confidente, sem querer, dizia-me que era moralmente bom ser amoral! Ela julgava que julgá-la era coisa ruim, indesejável.  Entendia que uma sociedade melhor seria aquela que permitisse relacionamentos livres. Ora, era mostrava-se uma jovem que fazia julgamentos morais. Até porque, ao contar-me de forma desafiadora, mostrava que tinha necessidade de aceitação. Animais são amorais, não precisam da aceitação desse tipo, aceitação social. Nós somos sujeitos morais por excelência, inclusive porque somos animais simbólicos e políticos.

Transas amorais são impossíveis. E se fossem possíveis, não seria bom para nossa saúde mental.  Precisamos valorar as cosias que fazemos. Transar de forma que tenha um valor positivo para nós é ótimo. Não sei se para o animal amoral, transar é ótimo: creio que os animais transam de forma eficiente e prazerosa. Só isso. E mais, um prazer limitado pois nada simbólico; apenas um prazer neurológico, espasmódico, visceral. Penso que os seres humanos devem ser mais que isso.

Tabu pode significar algo sagrado. Também pode significar algo proibido, portanto, misterioso. Indo por aí, acredito que os tabus não são ruins, porque são inevitáveis.  No sentido de sagrado, ou seja, algo digno de veneração, as interdições são fantásticas! Venerar uma relação humana e afetiva impedindo várias coisas que perturbem essa relação, é importante. Impedir excessos e faltas numa relação num contexto moral de uma sociedade, é respeitar o outro e a própria sociedade. No sentido de algo misterioso, também o tabu é muito interessante. Os afetos e sentimentos humanos são um mistério insondável. Impedir algumas coisas e liberar outras num momento histórico é fundamental para o respeito entre as pessoas. Impedir/liberar é um respeito muito especial às pessoas e aos seus tempos/vivências pessoais.

Essa jovem iniciante nos mistérios das relações humanas mais íntimas, precisa aceitar coisas e negar outras. Ela precisa para ser feliz evitar a busca pela amoralidade e enfrentar os (seus) limites morais. Não só os limites morais! Há muita coisa não limitada pela nossa moralidade que deveria ser! Essa jovem deve aprender a conhecer-se e a conhecer seu contexto social/moral/ético. Somente depois de uma reflexão amorosa/afetiva e moral deverá decidir seus caminhos. Na vida tudo tem consequências morais. Não há amoralidade possível.

Gostaria de dizer a ela que eu a respeito. Independentemente do que ela pensa ou faz. Também gostaria de dizer que fazer sexo é quase nada em comparação com os sentimentos que isso envolve. Ser gente, ser gente livre é muito mais que o contato físico livre. E se essa moça não envolveu sentimentos e conteúdos morais no seu agir sexual, o sexo não valeu nada. Afinal, o corpo sem a mente é apenas um bichinho como qualquer outro.