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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Descriminalizar ou não às drogas hoje ilícitas?


Prof. Amilcar Bernardi




Não está sendo proposta a liberalização do consumo e produção de narcóticos, mas a descriminalização e também limites. Um bom exemplo é, se descriminalizado, a manutenção da impossibilidade de consumir a droga no pátio de uma escola. Nos países onde as liberdades individuais são respeitadas, são valorizadas atitudes mais inteligentes do que a repressão simples, vertical, com encarceramento. A prevenção e a educação, sabe-se, são mais eficientes que o cárcere.

Ao encarcerar todos os traficantes e associados, não haveria cárceres suficientes. Da mesma maneira, hospitalizando todos os usuários, não haveria leitos disponíveis no SUS. Portanto, ser a favor ou contra a descriminalização é apenas a ponta do iceberg.  Fato é que as drogas viciantes apartam do convivo social as pessoas que delas não conseguem se livrar. Notadamente os pobres. Num país com tantos analfabetos funcionais, como educá-los para um consumo consciente? No Brasil com altos índices de desemprego, não há espaço para trabalhadores/estudantes com seu estado de consciência alterado. Outra questão: o uso recreativo de qualquer entorpecente, que bem trará à uma sociedade já viciada em álcool, por exemplo? Numa sociedade tão avessa aos limites éticos e legais, limitar a consciência com o uso de narcóticos, não causará mais violência a ponto de não encarcerarmos o usuário pelo consumo do entorpecente, mas na sequência do uso, encarcerá-lo por furto, roubo ou crime de trânsito?

Outro argumento é o aspecto econômico. Descriminalizar é lucrativo. Empreendedores em geral se interessariam pelo novo mercado e, em consequência, o estado faturaria dividendos com isso. Somos celeiros do mundo, é provável que o seríamos das drogas também. A hipocrisia desses argumentos é que os malefícios e a necessidade de tratamento dos viciados aumentariam geometricamente, assim como o álcool que cada vez mais é consumido gerando malefícios sociais e econômicos enormes. A defesa pelo aspecto econômico é sempre a defesa mais frágil, afinal, se pensarmos em lucro, muita coisa ruim será sempre plausível.

Nosso IDH demonstra nossa fragilidade para lidar com as questões sociais em geral.  Junto com a descriminalização das drogas deve acontecer uma política pública de saúde, de educação e de prevenção ao consumo de substâncias que entorpeçam ou façam mal à saúde.  Refletir a questão da droga através da lei econômica da oferta e da procura ou pelo direito ao livre arbítrio é uma falácia. Infelizmente, só a repressão ainda impõe algum limite.


Imagem: http://www.jornalcidade.net/rioclaro/seguranca/drogas/91524--Juristas-aprovam-proposta-para-descriminalizar-o-uso-de-drogas-/

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pessoas poço. Pessoas rio.


 
Prof. Amílcar Bernardi 

Tem pessoas com alma de poço.

São escuras. Úmidas. Escorregadias.

Não conhecem o sol. Só sombras.

O olhar é de poço. Ideais cavernosos.

A voz voa como morcegos. Sugam.

Pessoas com alma de poço tem musgo.

Não tomam sol. Afogam quem cai.

Pessoalmente não gosto de poços.

Prefiro rios. Tem peixes. Tem brilho.

Prefiro pessoas com alma de rio.

Refulgem. Brilham. Saciam. Tem correnteza.

Pessoas que são grandes rios são navegáveis.

Eu navego feliz nas pessoas de alma de rio.

Já as pessoas poço, fujo. Tenho medo de nelas cair.

 

 

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

História maluca do ônibus maluco...


 

Muito estranha a história tamanha que aconteceu. Uma coisa maluca contada por um cara biruta. A coisa era muito rara, um ônibus com asa!!!!!! Tinha duas asas enormes com barulho de canhão. Se o ônibus de asas acelerava muito, provocava furacão!!!!!  Os vidros eram coloridos e o motor provocava zumbidos. Dizem que o motor era feito de abelhas e as janelas, quando voava perto do sol, ficavam vermelhas.  O resto do ônibus era da cor violeta e as grandes asas eram de borboleta. Ele dormia de noite e viajava de dia. Andava devagar se estava triste, mas corria para brincar com a ventania. As rodas eram de girassóis e os faróis eram de vaga-lumes.  Era muito bonito, de grande beleza. A menina chamada Cesa amava o ônibus maluco de maluquice sem fim! A outra menina se chamava Prin. Ambas as meninas viajam sempre nele.  A Prin e a Cesa contaram que dentro do ônibus tinha gato, galinha e pato. O pato tinha quatro filhas, quatro patas. Lá tinha também um cavalo. Era amigo do pato porque o cavalo tinha também quatro patas. Maluco não?

Cabia todo mundo no ônibus amalucado. Só não cabia mau olhado.  Bom olhado tinha bastante lá dentro. A Menina Prin e a Cesa adoravam passear no veículo que sabia voar. No ônibus não tinha ferrugem e os bancos eram de nuvem.  A direção era bem leve e a buzina era de leão: roaaarrrr!!!!!!!!!!! Era buzinar e um susto levar!!!!!!! Era lindo ver o ônibus, não tinha preço para vendê-lo. Tinha também um príncipe desencantado. O cara era um trapo, tinha cara de sapo! O príncipe sapo saltava o tempo todo. Era preciso dar um beijo para ele voltar ao normal, mas como pegar aquele maluco se ele se pendurava no castiçal? Ops! Tinha castiçal esse ônibus anormal? Claro que tinha! A Prin e a Cesa descobriram o seguinte: o príncipe sapo num pular sem fim, era muito feliz assim! Não precisava beijar a bochecha dele, afinal, ele não queria mudar!!!!!!!!!!! Coisa bem maluca essa história.  Uma coisa é bem certa nessa conversa: quem não a entender nem acreditar não pode entrar nessa viagem estranha. Só passeia quem acredita.  A Prin e a Cesa não têm tempo para perder, o tempo passa rápido demais e sonhos é preciso ter!

Da janela abanam a Prin junto com a Cesa. Já estão indo com o motor zumbindo cheio de abelha, com sua janela vermelha, lataria violeta com asas de borboleta, rosas de girassóis e faróis de vaga-lumes. Vamos nessa também?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Zéfiro...


Zéfiro conspirou,

Então minh’alma delirou

Teu mar singrando...

Hoje estou amando,

Por ti siderado,

Por ti assombrado,

Arrisco naufrágios...

Teus bons presságios

Não posso resistir...

Velas ao alto! Partir!

Nos meus desejos navegar,

Pronto para tudo, para amar!

Sereia, Iara,

Anjo, Lua clara,

Guia-me para ti...

Ah! Me perdi!

Zéfiro jogou-me em teus braços,

Mas não os encontrei!

Deus! Nesses olhos raros naufraguei,

Morri nos arrecifes de teus seios...

Afogado nos meus anseios,

Não te encontrei.

Perdido rezei

Para que fosses minha!

Plebeu sem rainha,

Solitário e visionário,

Desejoso do teu corpo.

Sem luz nem porto,

Continuo triste a navegar

Na limpidez do teu olhar...
 
 
 
 
Imagem:  William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Flora_And_Zephyr_(1875)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Desentendimentos...


Prof. Amílcar Bernardi
 
Nunca pude te compreender.

A complexidade era maior que nos dois.

Duas vidas complexas e paralelas.

Vias paralelas nunca se encontram.

Questão de geometria: não se encontram.

Éramos tão iguais, tão iguais, mesmos defeitos.

Porém, defeitos não se comunicam, se somam.

Éramos defeituosos, não nos compreendemos.

Tantas qualidades também! Tantas nós tínhamos!

Tantas qualidades – tantas! - com tanta arrogância.

Arrogâncias são altivas demais para se entenderem.

Nunca pude te entender. Então Deus quebrou tua gaiola.

Pássaro livre não toca mais o chão, toca nuvens.

Eu fiquei no chão. Chão e céu não se entendem.

Ficou para mim estranha herança: a incompreensão.

Um dia terei asas também e sairei da gaiola e vou para o céu.

Eu tenho que te entender. Eu vou te entender.

Eu vou te entender com a linguagem dos anjos.

Um dia eu vou morrer para conversar vivamente contigo.

Aguarda pai a nossa conversa. Não seremos mais paralelos.

Aguarda meu pai que eu já vou aí. Aguarda.

Seremos finalmente caminhos convergentes.