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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Eu não vejo mais as pessoas...

Prof. Amílcar Bernardi

 
Eu não vejo mais as pessoas.

Eu vejo outdoors e leds.

Impedido estou de ver gente.

Já não vejo a moça feia; só a bela.

A feiura não existe para mim, preso estou ao belo.

Eu não vejo pessoas, eu as digito no facebook.

Não vou aos trabalhosos e reais motéis.

Vou aos monitores e teclados. Não manipulo gente.

Impedido estou de ficar com gente; gente é difícil.

Eu estou preso às facilidades dos espaços virtuais.

Eu não vejo muitas coisas para poder ver poucas coisas.

Eu estou preso às vitrinas e aos reality shows.

Eu não vejo mais pessoas de pele e osso.

Estou preso num mundo onde tudo é mostrado.

Tudo é tão mostrado que vejo tão pouco.

Eu não vejo mais pessoas.

Eu vejo outdoors e leds.

Impedido estou de ver gente.

 

 

 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Ofendo a vós!


Prof. Amílcar Bernardi

 

Deuses: eu ofendo a vós!

Ingratos! Não ouvem a voz

Do valente e audaz bardo!

Frente a vós não me acovardo!

Ofendo-vos com o dedo em riste!

Quero a eternidade e não meu fim triste!

Eternidades pede o vulcão do meu peito!

Para sempre! Não morrer é meu pleito!

Ofendo quem não me quer para sempre!

Deuses: quero ser eternamente vivente!

Meu grito é vulcânico!

Meu ofender é titânico!

Bardo para sempre! Eterna voz!

Deuses: Eu ofendo a vós!

Vossas raivas: Que me importa?

Quero-me vivo, minha palavra nunca morta!

Não sou para dias... sou para gerações!

Não sou para ventania... sou para furacões!

Deuses sei que me mandam o tempo,

Sei que a velhice vem no suave vento...

Sim eu sei que morro querendo viver!

Deuses! Tenho muita vida para uma vida só!

Deuses! Fizeram-me luz, porque me querem pó?

Deuses! Criaram-me cheio de infinitudes,

Criaram-me todo cheio de luz e virtudes...

Porque ceifar quem foi feito para futuros?

Porque matar quem vive em versos puros?

Deuses que me criaram: vós viveis para criar!

Porque ó deuses, esmeram-se em me matar?

Morro, mas que não calem minha ardente voz!

Morro, mas morro aos gritos ofendendo a vós!

 

Eu sou mar...

Prof. Amílcar Bernardi 


As pessoas navegam no meu mar.

Na superfície.

As pessoas não me entendem.

Na profundidade.

As pessoas interpretam minhas ondas.

Na superfície.

As pessoas não vão às fossas abissais da minha alma.

Na profundidade.

As pessoas que navegam no meu mar

são superfície.

Só as pessoas que amo se aventuram em mim,

são profundidade.

Eu sou assim, dou-me na superfície.

Mas amo nas fossas abissais da profundidade.

Eu sou raso para muitos.

Eu sou profundo para poucos.

 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Desescrito para a morte


Não vem dizer-me que és ponto final.

Não mereces mais que inconclusas reticências...

Arrogante: não grita que és final de frase.

Impetuosa: não afirma que és exclamação!

Pensas que és ideia fechada, final de argumento.

Não te reconheço mais que parágrafo inconcluso...

Não vem bradar impropérios de verdade única.

Nada mais és que uma faceta de verdades múltiplas!

Tu és apenas um parágrafo confuso de uma redação extensa.

Não! Não queiras tu assombrar-me com teu pretenso ponto final.

No livro da vida, nada mais és que uma vírgula ou mera reticência.

Tu não és escritora nem és criadora de grandes textos.

Tu nada és. Nada comunicas. A vida sim escreve e poetiza parágrafos.

Morte, tu és um erro gramatical. Uma inconcordância. Um erro sintático.

 

 Prof. Amílcar Bernardi

 

Tempo

 
 
Tem tempo para tudo.
Tem tempo para nada.
Tem tempo para fazer tudo.
Tem tempo para fazer nada.
Entre o nada e o tudo há um tempo.
Entre o nada e o tudo tem o tempo de reflexão.
O relógio tem seu tempo.
A vida tem seu tempo.
Tem também o meu tempo.
Tu tens também o teu tempo.
Tempo é coisa que quase todo mundo tem.
Tem muito gente que já não tem tempo não...
Tem gente que muita coisa tem...
Tem tudo que se pode ter...
Menos tempo, isso já não tem mais...
Teve muito tempo para fazer tudo.
Não teve tempo para fazer nada.
Esses –desavisados - já perderam todo o tempo que tinham!
 
Prof. Amílcar Bernardi
 
 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Democracias adoentadas e por aí vai...

Prof. Amilcar Bernardi
 

Democracias adoentadas têm sintomas característicos. Altos índices de corrupção e de analfabetismo, aparecimento de epidemias antigas, violência e por aí vai. Os sintomas são inúmeros. Porém quero falar, por enquanto, de um só.

Toda a democracia adoentada e ignorante produz muitas leis. Provoca uma complexificação legal que, por sua vez, estimula exceções, desvios, desentendimentos. Esta é uma situação bem clássica: não conseguindo educar o povo, o Estado regula-o em minúcias.

A democracia precisa, para existir em plenitude, da liberdade consciente. Toda a pessoa neste regime político é um cidadão livre e, em tese, está apto a portar-se bem por convicção. Quero dizer que o sentimento de liberdade, para o cidadão consciente, está vinculado inseparavelmente da responsabilidade. Em resumo: sou livre porque sou responsável. O governo (o espaço público) confia em mim (indivíduo) e eu confio nele. A democracia é uma relação de confiança mútua, sustentada pela ratificação desta relação pelo voto.

Quando a confiança e a esperança na coisa pública esmorecem, quando a ignorância assola, os sábios de plantão inauguram uma cascata de leis. Se fumar faz mal, proíba-se o hábito de fumar, se adolescentes matam, reduza-se a maioridade penal. Quando a violência assusta, construam-se presídios e se crianças reprovam muito, proiba-se a reprovação. A questão simplista é: regula, proíbe, multa e prende.

O curioso de tudo isto é que criando leis para tudo, criamos injustiças na mesma proporção, porque não há como promover justiça no emaranhado legal num contexto de pouca ética, de poucos juízes, de poucos recursos para a polícia e de muita impunidade. Então, o Estado erra muito e sofre com processos judiciais intermináveis. O Estado ao produzir tantos regramentos não os pode cumprir e fere direitos. A sociedade enreda-se e contrata advogados. Há uma fábrica de processos judiciais! E no final? Impunidade novamente.

A educação na república democrática é o seu verdadeiro sustentáculo. Povo deseducado acaba por ser regrado de perto. Mas é tão regrado que não consegue agir por confiança. Num círculo vicioso, os desconfiados querem mais leis... e por aí vai.

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Passeatas...


 

Temível enchente

de muita gente...

Não há comporta

nem algema importa

pra tanta gente assim...

Gentes torrenciais,sem fim,

desaguam, fluem, forte corrente!

Temível essa enchente

feita de grito e tanta gente

que tantas coisas vai afogar!

Enchente de gente, águas torrenciais

nas ruas, nas casas, em nossos quintais!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aprender, hesitação e inexatidão.


    
Prof. Amilcar Bernardi
      

       Alguém em pé ensinando. Exercícios. Alguém sentado aprendendo. Executando. Salas cheias de carteiras enfileiradas. Tudo isso cercado por silêncio. Silêncio somente interrompido pela mão discente levantada que pede atenção. Dúvida sussurrada ao mestre. Disciplina. Visão linear da aprendizagem.

            O quadro apresentado no parágrafo anterior é obviamente um estereótipo ultrapassado do que não pode ser.  Imagem essa tantas vezes execrada. Todo o educador sabe que a linearidade, a relação biunívoca causa - efeito na aprendizagem não é possível. Não há novidade em dizer que a petrificação das relações entre aprendizes e entre aprendizes e professores é contraproducente. Na verdade, qualquer petrificação é perniciosa. O ser humano aprende nas contradições e no dissenso.

Podemos extrair da obviedade do primeiro parágrafo algo interessante. Porque a escola não pode ser algo mecânico? Por que não podemos ensinar de maneira linear? 

       Porque a univocidade entre ordens e respostas, entre comandos e reações pressupõe, além da linearidade, a irreflexão. Afinal, refletir é hesitar. O que a linearidade não permite! Porém a hesitação é o exercício daquilo que nos faz humanos: a liberdade! Liberdade de interpretação, liberdade de reflexão e a liberdade de não fazer de forma idêntica ao ensinado!

       A falta de decisão momentânea que nos põe em crise, o titubear que nos obriga a construir respostas é mais que hesitação: é aprender a resolver problemas!  A imediaticidade da resposta empobrece nossas representações. A domesticação das ações responsivas reduz a necessidade de entender conceitos, impede a desaceleração do tempo mental e, portanto, a reflexão. É verdade que a não-hesitação maximiza resultados imediatos, impede o medo que é diluído na velocidade da resposta. Numa guerra e no chão da fábrica minimizar a reflexão produz lucro e exatidão. Na aprendizagem fazer o mesmo é imbecilizar o ser humano.

            A vida é complexa. As emoções são múltiplas e não sabem o que é exatidão. Nossos desejos se sobrepõem à razão nas escolhas que fazemos. A mente, essa desconhecida, nos garante a criatividade mantendo a imprevisibilidade. Graças a Deus não somos oniscientes.  Por isso que o primeiro parágrafo é tão óbvio e sem graça.
 
 
 
Imagem: captada da internet

      

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Paradoxo do eu hoje...


 Prof. Amilcar Bernardi


Eu não estou aqui.

Também não estou lá.

Apenas não estou hoje.

Talvez amanhã esteja...

Ou talvez esteja ontem.

Hoje não estou.

Hoje não estarei.

Hoje não estive.

Eu estou no passado.

Eu estou no futuro.

Hoje eu não me encontro.

Meu corpo está aqui e agora.

Mas minha alma estava aqui ou estará aqui...

Você hoje não me encontra.

Eu também não me encontro.

Eu estou ali na frente... ou ali atrás...

Hoje nunca importou nem importará...  

Hoje eu nunca estive e não estarei para sempre!

 

sábado, 8 de junho de 2013

Oração



Que tua boca seja manancial de água boa
que rega a flor, que alimenta a límpida lagoa...
Que cada palavra tua seja pura cascata
entre flores, passarinhos e verde mata ....
Que cada fala tua seja gota de coisa boa,
que cada palavra tua seja pura e doce garoa...
Que o teu sorrir venha com alegres elogios,
que tua fala seja como correnteza de saudáveis rios...
Que tu sejas sagrado, raro e puro manancial
das mais belas palavras isentas de todo o  mal...
Que tuas frases sejam córregos de águas potáveis,
que tua alma seja  o odor puro das flores mais agradáveis...

Enfim

Que tu sejas grande manancial de palavras belas cheias de sutileza,
que tua alma seja o que dever ser: do bem e do belo forte correnteza!
  



Imagem:http://heraldocosta.blogspot.com.br/2011/05/serie-armadura-do-cristao-estudo-8.html

Bruxa verbal

Como bruxa que maldições murmura
como louco que vive em vil usura
o ouro do elogio tu poupas...
Tu, como as bruxas mais loucas,
quando falas teu falar é irado,
quando tu olhas teu olhar é  um mal olhado!
Quando tu falas, tu vociferas,
Quando tu ris, é um rosnar de feras!
Como bruxa repetes mantras de mal dizeres
e se algo tu fazes é um mal fazeres!
Teus rituais são tristes e secretas conversas
com verbais maldades tu as almas penetras...
Ah! Bruxa de rituais estranhos e de mal entendidos,
bruxa que vive dos espíritos fracos e sofridos:
Imolada serás no altar dos amores e da boa fé...
Tu cairás, pois só quem ama pode viver em pé!