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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Democracias adoentadas e por aí vai...



Democracias adoentadas têm sintomas característicos. Altos índices de corrupção e de analfabetismo, aparecimento de epidemias antigas, violência e por aí vai. Os sintomas são inúmeros. Porém quero falar, por enquanto, de um só.

Toda a democracia adoentada e ignorante produz muitas leis. Provoca uma complexificação legal que, por sua vez, estimula exceções, desvios, desentendimentos. Esta é uma situação bem clássica: não conseguindo educar o povo, o Estado regula-o em minúcias.

A democracia precisa, para existir em plenitude, da liberdade consciente. Toda a pessoa neste regime político é um cidadão livre e, em tese, está apto a portar-se bem por convicção. Quero dizer que o sentimento de liberdade, para o cidadão consciente, está vinculado inseparavelmente da responsabilidade. Em resumo: sou livre porque sou responsável. O governo (o espaço público) confia em mim (indivíduo) e eu confio nele. A democracia é uma relação de confiança mútua, sustentada pela ratificação desta relação pelo voto.

Quando a confiança e a esperança na coisa pública esmorecem, quando a ignorância assola, os sábios de plantão inauguram uma cascata de leis. Se fumar faz mal, proíba-se o hábito de fumar, se adolescentes matam, reduza-se a maioridade penal. Quando a violência assusta, construam-se presídios e se crianças reprovam muito, proiba-se a reprovação. A questão simplista é: regula, proíbe, multa e prende.

O curioso de tudo isto é que criando leis para tudo, criamos injustiças na mesma proporção, porque não há como promover justiça no emaranhado legal num contexto de pouca ética, de poucos juízes, de poucos recursos para a polícia e de muita impunidade. Então, o Estado erra muito e sofre com processos judiciais intermináveis. O Estado ao produzir tantos regramentos não os pode cumprir e fere direitos. A sociedade enreda-se e contrata advogados. Há uma fábrica de processos judiciais! E no final? Impunidade novamente.

A educação na república democrática é o seu verdadeiro sustentáculo. Povo deseducado acaba por ser regrado de perto. Mas é tão regrado que não consegue agir por confiança. Num círculo vicioso, os desconfiados querem mais leis... e por aí vai.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aprender, hesitação e inexatidão.


    
Prof. Amilcar Bernardi
      

       Alguém em pé ensinando. Exercícios. Alguém sentado aprendendo. Executando. Salas cheias de carteiras enfileiradas. Tudo isso cercado por silêncio. Silêncio somente interrompido pela mão discente levantada que pede atenção. Dúvida sussurrada ao mestre. Disciplina. Visão linear da aprendizagem.

            O quadro apresentado no parágrafo anterior é obviamente um estereótipo ultrapassado do que não pode ser.  Imagem essa tantas vezes execrada. Todo o educador sabe que a linearidade, a relação biunívoca causa - efeito na aprendizagem não é possível. Não há novidade em dizer que a petrificação das relações entre aprendizes e entre aprendizes e professores é contraproducente. Na verdade, qualquer petrificação é perniciosa. O ser humano aprende nas contradições e no dissenso.

Podemos extrair da obviedade do primeiro parágrafo algo interessante. Porque a escola não pode ser algo mecânico? Por que não podemos ensinar de maneira linear? 

       Porque a univocidade entre ordens e respostas, entre comandos e reações pressupõe, além da linearidade, a irreflexão. Afinal, refletir é hesitar. O que a linearidade não permite! Porém a hesitação é o exercício daquilo que nos faz humanos: a liberdade! Liberdade de interpretação, liberdade de reflexão e a liberdade de não fazer de forma idêntica ao ensinado!

       A falta de decisão momentânea que nos põe em crise, o titubear que nos obriga a construir respostas é mais que hesitação: é aprender a resolver problemas!  A imediaticidade da resposta empobrece nossas representações. A domesticação das ações responsivas reduz a necessidade de entender conceitos, impede a desaceleração do tempo mental e, portanto, a reflexão. É verdade que a não-hesitação maximiza resultados imediatos, impede o medo que é diluído na velocidade da resposta. Numa guerra e no chão da fábrica minimizar a reflexão produz lucro e exatidão. Na aprendizagem fazer o mesmo é imbecilizar o ser humano.

            A vida é complexa. As emoções são múltiplas e não sabem o que é exatidão. Nossos desejos se sobrepõem à razão nas escolhas que fazemos. A mente, essa desconhecida, nos garante a criatividade mantendo a imprevisibilidade. Graças a Deus não somos oniscientes.  Por isso que o primeiro parágrafo é tão óbvio e sem graça.
 
 
 
Imagem: captada da internet