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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Tudo para voce

 Amilcar Bernardi




Fluidez de rápida cascata

Voos de ágil nefelibata


Cor em abundância


Flores e sua fragrância





Infinito de lindas constelações


Troar muito forte de canhões


Pássaros, horizontes e céu


Calor, luzes e força de fogaréu





Meus poemas são verbos em cascatas


Meus versos soam como chibatas


Minhas palavras são como luzes de estrelas


Tudo é para você na esperança que queira vê-las!

sábado, 28 de abril de 2012

Trabalho, vida e legítima defesa

                      Amilcar Bernardi



Há uma distinção um tanto óbvia, entre trabalho e emprego. Quando falamos em trabalho, incluímos todas as atividades humanas que pretendam transformar a natureza. É o esforço proposital que tem como meio as capacidades físicas ou intelectuais da pessoa. Por outro lado quando falamos em emprego, o sentido é mais restrito. A pessoa está empregada quando está a serviço de outro. Tradicionalmente e de forma dicotômica, esta distinção baseia-se no fato de que alguém tem os meios de produção e outros são um meio de produção.

A ideia de emprego é historicamente posterior à capacidade humana de trabalho. Os séculos de convivência entre trabalho e emprego quase que fundiram os dois conceitos. Essa amálgama conceitual “normalizou” e normatizou a convivência entre ambos. Porém, a coisa foi além a ponto de alguém que trabalha, mas não tem emprego, ser visto como uma exceção tornando-se uma figura no mínimo estranhável. Esquece-se que raramente alguém é desempregado por desejo próprio, como opção consciente de vida.  A questão complica-se ainda mais: com o avanço civilizatório, o vinculo empregatício tornou-se obrigatório para a manutenção da vida de um número crescente de pessoas.  Poucos (em relação à absoluta maioria) conseguem sobreviver sem emprego, apenas de seu próprio trabalho. Artesãos, costureiras, intelectuais, escritores e etc. cada vez menos sobrevivem sem algum tipo de vínculo remuneratório.

Quem não tem dinheiro morre ou tende a morrer. Quem não tem emprego não tem (ou tende a não ter) dinheiro em quantidade suficiente para viver. Seguindo esta lógica capitalista, como a grande maioria da população não consegue sobreviver com seu trabalho próprio e precisa vincular-se aos empregadores, então a vida é para poucos. Os discursos tentam dourar esta pílula indigesta. Penso que todas as questões que envolvem a vida humana são de primeira importância.

É legitima defesa reagir a alguém que nos ameasse de morte, quando o Estado está ausente ou impedido de nos defender. Quando a sociedade, sob a égide do Estado, não emprega seus cidadãos, ou seja, limita (ou elimina) sua qualidade de vida, esta mesma sociedade ameaça de morte uma quantidade incrível de pessoas. Portanto, toda a reação delas a isso é (ou tende a ser) legítima defesa.

domingo, 22 de abril de 2012

A Filosofia e a qualidade de vida

Prof. Amilcar Bernardi



Quando vamos à academia de musculação malhar, não importa com o que vamos nos exercitar. Importante é a própria atividade muscular, sua qualidade e eficácia. Os aparelhos são apenas meios.

Manter a capacidade de aprender e refletir é algo semelhante. O que mais importa é a atividade intelectual que os diversos saberes impõe à mente. Claro que, no sentido moral, é fundamental o conteúdo do que aprendemos. Mas para o desenvolvimento da reflexão, o que é fundamental é a atividade intelectual (ela é a finalidade).

Por esse viés podemos responder a questão: por que ensinar Filosofia nas escolas? Devemos ensinar porque o filosofar é uma excelente atividade para desenvolver a capacidade de aprender. A Filosofia passa a ser nas escolas, um meio (e não um fim em si mesmo) para o desenvolvimento intelectual.

Outro aspecto importante: o estudo das correntes filosóficas tem como efeito prático o disciplinamento dos desejos juvenis. Estudar os grandes pensadores que tanto falam sobre a virtude, a razão, a política e sobre os motivos das ações humanas, leva o aprendiz a melhor gerenciar seu querer.

Pensar é um refletir sobre ideias. A Filosofia alimenta as ideias para um pensamento mais qualificado. O saber filosófico retira o aluno do centro do seu mundinho. Ela o faz imergir no contexto, na realidade. O adolescente entra em contato com outras verdades tão possíveis quanto as suas e, não raro, mais coerentes e complexas.

Ensinar Filosofia é reconhecer que a vida é um problema sem solução, portanto, é a complexidade da vida que fascina. Filosofar é reconhecer que viver (bem viver) é pensar (bem pensar). O jovem precisa saber que sua qualidade de vida é dependente da reflexão sobre o que aprendeu, ou melhor, da sua capacidade (sempre ampliada) de refletir.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Texto para uma aula no E. Fundamental

A lição da bruxinha.


Quando Marquinhos acordou estava sentindo-se diferente. Não dava para dizer exatamente o que estava acontecendo. Estava um pouco mais pesado. A fome parecia ser mais fome que o normal. A sede também.  A vontade de brincar estava multiplicada por dez. A desvontade de estudar estava a mil! O desejo de comer doces e tudo que era gostoso maltratavam sua barriga! Queria muito muitíssimo brincar o tempo todo! Queria saltar da cama logo, não escovar os dentes ou pentear-se. Desejava apenas correr, dar cambalhotas. Mas o pior não era essas vontades. O pior mesmo é que, naquela manhã, não conseguia controlar-se! Uma força muito estranha, de lá de dentro do seu corpo, o fez desobedecer a mãe e correr logo para a rua brincar. Lembrou que tinha prova na segunda feira, mas não conseguia impedir a si mesmo de saltar, dar cambalhotas, gritar, rir com os amigos pela vizinhança!
Sabia o Marquinhos, que alguma coisa não ia bem nele, afinal, sempre foi mal criado e mimado, mas nunca ficou sem cumprir regras por tanto tempo. E mais, não estava cumprindo nenhuma regra! Não conseguia conter-se!  Estava feliz, irresponsavelmente feliz, mas percebia que não ia dar certo tal procedimento.  Porém, como conter-se? Estava fazendo tudo o que queria e que era prazeroso, imediatamente prazeroso.
No fim da manhã já não conseguia pensar direito. Não conseguia pensar além de minutos a frente. Difícil explicar... não conseguia mais perceber com clareza o futuro, o que ia acontecer as duas da tarde, por exemplo.  Estava preso no desejo presente! Não dava para pensar na prova de amanhã, só existia o prazer de brincar agora.  Isso era muito estranho até para ele que não gostava de estudar nem de tomar banho! Estava até sentindo medo da força estranha que vinha de dentro dele. Sentia-se um pouco bicho. Queria só fazer coisas gostosas que não precisava pensar. Estaria emburrecendo? Seria alguma doença?
No final do dia estava de barriga cheia. Doía. O corpo estava todo arranhado e roxo das travessuras. Brigou com vários amigos, a tapa! Havia perdido a paciência com todo mundo. O dia inteiro fez só o que queria e pronto. Fechou a porta do quarto muito nervoso e cansado. Não estudou, não tomou banho, não cumprimentou ninguém e estava esquecendo o que significava o dia seguinte. Só pensava no hoje. Só queria dormir agora. Ainda bem que era sábado.

Acordou de madrugada. Muito cedo. Novamente uma energia absurda o fazia agitar-se, querer pular e correr. Era saúde em demasia. Estava muito confuso e já queria comer algo. Também queria passear, tomar água, lamber um sorvete, andar de bicicleta, brincar de pega-pega com os amigos... Mas era apenas cinco horas da manhã. Não deu importância para a hora e desceu até a cozinha para abrir a geladeira. Então ouviu um rizinho abafado.
Assustado olhou. Havia uma bruxinha muito bonitinha sorridente no escurinho da cozinha. Após o susto ele perguntou o que estava acontecendo.
- Não percebeste nada, Marquinhos?
- Sim! Estou diferente, pareço mais forte e só faço o que quero, o que eu gosto.
- Estás gostando? _ Ela ria ainda mais.
- Sim... Não... não sei. Tem algo estranho!
- Eu tirei a tua alma e deixei só o corpo...
- Como isso? Mentira!
- É verdade. Tu querias fazer só o que gostavas. Então tirei de ti o que  tu tinhas de humano... a reflexão, o pensar sobre o que fazer, pensar sobre o futuro... enfim, és apenas corpo agora. Como um cachorrinho.
Antes que Marquinhos se refizesse do susto, a bruxinha sumiu. E agora? O que ele iria fazer? Quais seriam as consequências de não ter alma? De ficar só com o corpo, que é animal como qualquer outro?
A responsabilidade diminuia e ficava a vontade de fazer só o que o corpo quer, ou seja, só o que é gostoso e sem planejamento. Não conseguia mais pensar com clareza. Então comeu tudo que tinha de gostoso na geladeira e foi para a rua. Ficou brincando sozinho até que os amigos aparecessem para ficarem juntos. Aí não deu mais certo. Como só fazia o que o corpo mandava, ou melhor, como só fazia o que os animaizinhos faziam, logo brigou feio com todos os amiguinhos. Afinal, cada vez pensava menos no que poderia acontecer no minuto seguinte e cada vez ficava mais bravo. Não estava ficando burro. Estava cada vez mais irresponsável!
Só voltou para casa quando a fome bateu na barriga. A mãe xingou, o pai também. Mas logo esqueceu a bronca recebida e já queria brincar novamente. Não podia perceber que a bruxinha ria o tempo todo ao ver o guri todo sujo, mal cheiroso e cheio de doces na boca.
Quando a noite chegou Marquinhos estava exausto. Só queria dormir. Quase não pensava mais. Já não conseguia falar sobre o futuro e o passado já havia esquecido. Por alguns minutos esquecia quem era, pois o desejo de comer, brincar e dormir era mais forte do que pensar em si mesmo. Os desejos não davam sossego e ele ia de uma vontade a outra, ia satisfazendo a todo minuto o que podia satisfazer. O que não podia conseguir, esquecia segundos depois.
A bruxinha ficou com pena porque se ele ficasse mais tempo assim, ficaria um bichinho para sempre. Para sempre ficaria escravo dos desejos e ia esquecer de si mesmo.  Também já estava perdendo a graça ver o guri assim, tão feio, tão perdido e tão... animalzinho. Então pegou um vidrinho do seu bolso e lá estava a alma, a responsabilidade do Marquinhos. A alma era transparente e super cuidadosa. Alma suplicou com o olhar para que a bruxinha a deixasse voltar ao corpo. Ela estava com medo que fosse rejeitada pelo corpo do Marquinhos. O corpo estava forte e cada vez mais mandava na mente do guri.

              A Bruxinha abriu o vidrinho, a alma pulou e como um raio, plof, atingiu a cabeça do Marquinhos. O guri tremeu todo e voltou a si. A bruxinha riu alto e foi embora. Com a inteligência restabelecida, a ficha caiu! Entendeu a lição que ficou daquela traquinagem da bruxinha!
E tu? Entendeste?

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O idoso cuidadoso...

O idoso cuidadoso contava
a historia da sua própria vida.
Cada frase era por palavras entalhada
com uma voz muito forte e atrevida!

Cada modulação é um delicado entalhe,
cada palavra é um brilho que da alma parte.
A história é do idoso sua mais bela obra de arte!
É jóia, é  ouro, é diamante cada conto, cada detalhe!

O senhor é um ourives da história passada.
Conta com detalhes de escultura entalhada,
com carinho e tons de cuidadoso cantor.
Ele pinta as palavras com cuidados de pintor.

Esculpe com palavras, faz de sua vida uma obra.
Ourives e artista, de si mesmo faz sublime arte!
Cada detalhe e colorido é da sua alma uma parte!
Ele tem história, tem vida, tem talento de sobra!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Lendo inúmeras "pérolas" nas redes sociais, publico novamente...

                      A erudição é uma boa opção para os cibernautas
                                                                                                                                            Prof. Amilcar Bernardi
 

Um mouse e um PC conectado leva o adolescente ao mundo sem sair do conforto do seu quarto. A infinidade de informações apresenta-se como o horizonte, uma promessa sempre à frente, inalcançável em plenitude. Horizontal também pode ser entendido como ausência de profundidade, não verticalidade. O internauta afoito ganha em horizontalidade, perde em profundidade. É fato que não é possível aprofundar tudo o que a internet oferece em termos de informações.

A erudição pode ser uma boa escolha para os cibernautas. Afinal, nunca as pessoas tiveram tanto acesso às informações, nem nunca o acervo cultural foi tão amplo. Porém, tudo está muito raso, tão superficial que uma pessoa plugada, lincada a tudo, não pode ser chamada de erudita. Este paradoxo chega ser constrangedor.

Ter acesso a tudo que é produzido pela mente humana, não faz de mim um erudito. A amplitude do acesso pode impedir o foco em algo. Afinal, focar pressupõe algum critério de seleção. Hoje, cada critério elaborado é quebrado por uma tecnologia nova que amplia o leque de opções.  A maioria das pessoas está vagando sem rumo pelo ciberespaço, da mesma forma que uma pessoa do interior na Avenida Paulista observa os enormes prédios.  É um olhar sem critérios para ver.

Uso o termo erudição como uma antítese do que normalmente as pessoas fazem no ciberespaço, pela questão histórica que envolve a palavra. Quando penso em erudição, lembro-me das pessoas de séculos atrás, que liam muito, exercitavam a memória, gastavam horas absorvendo conhecimentos para expô-los com maestria. Os que não tinham tal erudição, ironizavam as pessoas que estudavam apenas para mostrar sabedoria decorada! No Brasil de outrora, poucos se dedicavam a falar bonito, a encantar ouvintes! Estes poucos eram os eruditos, os que estudavam numa concepção estética: era bonito falar, pensar e aparentar conhecimento! Por isso a crença de que os eruditos sabiam pouco (profundidade) e buscavam apenas a beleza da expressão. E hoje? Será que além de perdemos profundidade, também perdemos o senso estético da expressão?

Sou um esteta não por opção. Creio que a quantidade de livros que li retiram a minha liberdade de escolher ser feio ao expressar-me. Portanto, sou um erudito.  Adoro falar bem, pensar bem. Leio e estudo muito para fazer bonito. É lindo saber, refletir, argumentar e falar. Uma modelo profissional, escolhe muito bem suas roupas para as fotos. Pode ser muito linda fisicamente, porém, a roupa bem escolhida, a maquiagem adequada fazem a diferença. Quando eu vou falar/escrever, visto minhas idéias com as palavras mais bonitas que posso escolher. Quando vou dizer o que quero, também quero causar prazer estético. Não basta ser inteligente, esperto e ter bom conteúdo, a forma conta muito. Seria hipócrita se dissesse o contrário!

Ao internauta fica esta minha preocupação: ter acesso a tudo faz do sujeito plugado um erudito? Saber muito pouco de muita coisa faz da pessoa plugada uma pessoa que aprende e se expressa de forma bonita? Hoje obtemos informações, na maioria das vezes, rasas de conteúdo, para que? Qual sentido da obtenção de tantas informações? O esquecimento da busca pelo belo faz muita diferença. Ao cidadão comum do ciberespaço, deixo estas perguntas.

domingo, 8 de abril de 2012

Eu posso nada, você pode tudo!

            Por que você torna frágil minha pele?

Por que ao embate você me impele

se tira meu escudo e minha proteção?

Por que me faz só de poema e canção?



Não quero sua onipresença!

Você é antraz, terrível doença

ou terrível fatalidade!

Seu nome? Sensibilidade!



Você me toma e me consome!

Mesmo sendo doce seu nome,

terrível é sua força na fragilidade!

Não! Não te quero sensibilidade!



Quero ser duro, quero ser pedra!

Mas pela alma você medra

fragilizando minha armadura!

Quero ser bruto de alma dura!



Quero endurecer na crueza e fealdade!

Mas penetra-me melíflua sensibilidade!

Não quero mais compadecer, sentir ou poetar,

Nunca mais ter alma ou me sensibilizar!



Quero ser bruto, quer ser negro pedregulho,

Quer ser rocha sem dor ou orgulho!

Quero ser frieza sem nenhuma docilidade!

Eu posso nada, você pode tudo maldita sensibilidade!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Lembranças de um bipolar

Prof. Amilcar Bernardi


Meus amigos de quatorze anos mal pensavam sobre o futuro. Para ser mais específico, pouquíssimo se falava das profissões possíveis para sonhos adolescentes.  Alguém falava em ser médico, outro falava em ser piloto de avião e talvez alguém já influenciado pela família, imaginava-se advogado.  Ficávamos na frente de minha casa, nas noites de verão, falando mil coisas que somadas eram o seguinte: gurias, colégio e gurias.  Época muito boa, de poucas preocupações.
No meu quarto eu era bem diferente. Lembro que eu tinha uma antiga caneta nanquim e queria escrever como os antigos escreviam, com letra enfeitada e em folhas amareladas pelo tempo. Tentei muito ter letra redondinha, fininha com tinta preta.  Também queria uma máquina de escrever que fosse de antiquário. Imaginava uma bem grande, pesada, com teclas bem horizontais, redondas e ruidosas.  Na madrugada eu apagava a luz para ver as estrelas e desejava muito ter um telescópio.  Nem pedi tal instrumento ótico, meus pais não dariam por ser caro e exótico para minha realidade.
Na solidão do meu quarto quando eu imaginava o futuro, não pensava em medicina ou direito. Nem pensava em faculdade.  Eu lia as biografias de escritores, lia livros de poesia e romances. Acreditava que se no século dezenove jovens que liam muito podiam virar escritor muito cedo, porque eu não podia? Se Castro Alves quase nasceu escrevendo, porque eu não podia? Se ele antes de ir para a faculdade já fazia poemas fantásticos, porque comigo não seria igual? 
Seguindo a lógica de que um sujeito jovem no século dezenove podia tornar-se um grande escritor, lendo muito e trabalhando cedo, meu primeiro emprego foi num jornal. Fui um vigia que lia muito no emprego e vivia namorando a redação. Mas não deu certo. Não me tornei um grande escritor.
Quando frequentava o Ensino Médio, apaixonei-me por literatura. Minha mãe deixava comprar muitos livros. Li bastante.  No colégio não me distinguia de ninguém. Era um piá igual a todos. Mas no meu quarto eu já tinha uma máquina de escrever antiga e não tinha telescópio. Porém, já tinha uma letra enfeitada e minha estante já estava repleta de livros de poesias. Nesse período minha gagueira já estava sob controle. Mas continuava tímido. Passava mais tempo apaixonado que namorando. Apaixonava-me pelas gurias mais bonitas, com certeza as que nem me enxergavam!
No Ensino Médio eu me sentia um bipolar, um sujeito com duas personalidades. Para os amigos eu era um cara absolutamente previsível, sem graça até.  Porém, no meu quarto, sozinho, transformava-me! Teclava como louco na máquina antiga, escrevia com a caneta nanquim muitos poemas.  Teve um tempo, eu já estava na Universidade, acometido de extremo delírio, li Rui Barbosa, seus discursos.  Minha bipolaridade fez com que eu nem fosse notado por ninguém, afinal, meu lado escritor só aflorava na solidão do meu quarto.
Hoje, adulto e homem sério, o paradoxo acontece. Estou no meu escritório sozinho. A janela está aberta e vejo as estrelas. A solidão faz-me companhia. Escrevo num moderno computador. Eu ainda não tenho, mas meu filho já tem um telescópio.  Minha estante está repleta de livros.  Já tive na vida minhas Eugênias (Eugênia Câmara foi o grande amor de Castro Alves). Já não sou vigia de um jornal, nem sou médico ou advogado. Porém aquele guri adolescente hoje voltou à vida. Na solidão do meu escritório o piá voltou a sonhar em ser um grande escritor. Um sonho que com certeza me manterá um adolescente de quatorze anos para sempre.

domingo, 1 de abril de 2012

Texto para o 4o ano refletir...

                    Era uma vez um louco muito louco...



Era uma vez um lugar onde havia tudo para todos. Tinha muitos rios. Tantos que ninguém ficava sem nadar se quisesse. Os rios eram cheios de peixe. Eram tantos que todos podiam pescar. Esse lugar era tão bom que as árvores tinham como fruto coisas bem gostosas. Algumas árvores davam pão. Outras estavam cheínhas de bolachas recheadas. No quintal das casas, tinha pé de arroz com feijão e um pomar lotado de frutas mingau com aveia. Havia árvores de todos os tipos e gostos. Além disso, se as crianças deste lugar misturassem as sementes, as árvores misturavam os sabores também.

Pelos campos as vaquinhas tinham torneirinhas na tetas. Todos podiam beber leite. As vacas pretas, ofereciam café com leite. As marrons forneciam achocolatado.  As brancas, claro, tinham nas torneirinhas leite puro. As magras e brancas tinha leite light, claro! Elas vagavam pelos campos, disponíveis.  As casas eram simples e confortáveis. Eram, inclusive, muito parecidas. Tinha tanta coisa, mas tanta coisa que ninguém dizia isso é meu, pois todos tinham tudo e até sobrava.

Um dia um jovem caiu e bateu forte com a cabeça. Pof! Ficou maluquinho, maluquinho! Dava até pena! Ele era bonzinho, mas não estava bem da bola. Ficou esquisito, cheio de manias. Cada dia ficava mais maluco. Os médicos desse lugar legal, não conseguiam cura-lo. O jovem cada vez era menos feliz, mesmo tendo tudo. Então enlouqueceu totalmente. Sabe o que ele fez?

Acordou numa bela manhã e foi até o jardim da sua casa. Começou a construir uma cerca. Todos estranharam... uma cerca? Para que? Todos se visitavam e todos tinham tudo, não precisava proteção.  Ele estava cada vez mais louco, coitado! Plantou árvores no seu jardim. Criou cachorros bravos e colocou no pátio. Quando estava na pior fase da sua loucura, usou uma palavra pouco usada naquele lugar. Alguns nem a conheciam. Ele disse:

Não entrem aqui. Essa casa é MINHA. Este cachorro é MEU. Estas árvores são MINHAS.

No início as pessoas riram. Ora, que idéia estranha essa de ter coisas! Se ele tinha um cachorro, todos tinham também. Se ele tinha casa, todos também tinham! Que homem louco! Todos riam e não davam ouvidos ao rapaz.

A loucura aumentou. Um dia ele pegou mais um cachorrinho da rua e disse a todos:

Vocês têm UM cachorro e eu tenho DOIS. Vocês têm UMA casa e eu vou construir outra para ter DUAS casas!

Algo estranho aconteceu! Talvez aquela loucura fosse contagiante! As pessoas pararam, emburrecidas, para pensar sobre aquelas idéias do louco. E, pasmem,  Acreditaram nela! Muitos foram correndo para suas únicas casas para construírem muros e fazerem mais casas. Então alguns teriam UMA coisa e outras teriam DUAS ou MAIS  coisas! Que loucura, como acreditaram que uma coisa é pouco e que é melhor ter mais????

O jovem louco piorava. Inventou mais coisas loucas. Chamou seus irmãos e disse que precisava cuidar das suas DUAS casas e seus DOIS cachorros. Afinal, alguém poderia pegar as coisas que ele tinha em excesso e que os outros não tinham, por terem só o suficiente!  Todos ficaram mais locos ainda quando gostaram da idéia de proteger o que tinham a mais que os outros!

Tempos depois, todos já doentes da cabeça, aconteceu o pior. Alguém tentou pegar o que o outro tinha sobrando. E quem cuidava teve que bater para defender o que alguém tinha em excesso.



Ninguém mais foi feliz ali. Tu podes imaginar porque?