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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A escola é um lugar de tensões...

Prof. Amilcar Bernardi

Dias atrás recebi uma mãe aflita.  Queixosa, contava que seu filho de onze anos estava tendo dificuldades de relacionamento, e por consequência, tinha notas baixas também. Alegava que seu filho não tinha amigos na sala de aula. Muitas vezes não era bem recebido nos grupos para fazer trabalhos. Quando o professor intervinha pior ficava, pois a contragosto, os colegas o aceitavam. Essa mãe sofrida descrevia um quadro onde a criança aparecia como uma pessoa que não era entendida pelos demais. Afirmou que o filho era nervoso e que quando era contraditado, não suportava e ficava “emburrado”. Ela deixou transparecer que a escola, no imaginário da mãe, deveria ser um lugar de compreensão e harmonia. A sala de aula não poderia permitir a desigualdade, e que a aprendizagem só é possível num ambiente sem tensões.
Após essa conversa, fiquei refletindo sozinho. Interpretei as queixas da jovem mãe como um equívoco. Ela partia do princípio de que a escola é um lugar sem tensões ou que, pelo menos, a direção e os professores deveriam impedir tensões. Imagino que a moça acreditava que o filho para ser feliz, tinha que ser aceito como ele era e pronto.  Dei-me o direito de ficar “matutando” e concluí que penso totalmente diferente dela.
A escola também é um lugar para tensões. Na verdade não existe um lugar de não tensão. A sala de aula é, em escala menor, a sociedade que a mantém. Então, as tensões do dia a dia dos adultos, refletem-se no das crianças e no dia a dia dos adolescentes.  Não adianta “emburrar-se”. A não aceitação imediata da gente em um grupo faz parte do aprender a ser gente. A necessidade da minha modificação e da modificação do outro para que aceitemo-nos todos, é fato. O professor (ou o juiz na vida adulta) ao provocar forçosamente a aceitação, trás para si o risco de piorar a questão. É a tensão decorrente dos processos que promove crescimento e aprendizagem. A aprendizagem é uma tensão que ao ser solucionada, provoca alívio e também novas tensões.  Se existisse um lugar sem tensões e com aceitações imediatas, este lugar não seria uma escola com certeza. A escola é um lugar de mudanças, mesmo que dolorosas.
Dores na escola? Para o espanto da jovem mãe, eu afirmo que sim. Da mesma maneira que tem a alegria, o choro e o riso. As dores do primeiro amor, as dores do primeiro fracasso, assim como as alegrias do primeiro beijo e da primeira nota boa, acontecem geralmente na escola. E acontecem de maneira democrática. Todos vão passar por muitas emoções na escola... quer queiram, quer não queiram.   O espaço escolar também é o lugar da incompreensão. Afinal, é um lugar de aprendizagem. Aprender a se fazer compreender e a compreender o outro, é a alma da aprendizagem escolar. O colégio é meio para um fim. Não é creche nem um paraíso.  Os professores são um meio para um fim.  Qual a finalidade então? A aprendizagem.  Aprender não é um processo fácil. Também não é em si mesmo doloroso. Creio que é um processo cheio de tensões. Tentar fugir delas faz a aprendizagem ser dolorosa. Fugir trás dor. Enfrentar trás crescimento e fortaleza moral.
A escola é um bom lugar, cheio de emoções, prazeres, dores e in/sucessos diários.  Assim como a vida de um adulto é.  As instituições de ensino não são propagandas enganosas da vida. Ser feliz é superar-se criando forças próprias, é se tornar autônomo. Por isso os alunos estudiosos tendem a serem felizes, porque não fogem. Resta saber o que definimos por felicidade. Eu não sei bem o que ela é, mas tenho certeza que não é a ausência de esforço. Temo que a propaganda enganosa venha das novelas, do Big Brother, dos políticos de vida fácil e da mídia que quer o consumo. A escola, insisto, é um ótimo lugar, um abençoado recanto onde os que vêm querem aprender com seu esforço pessoal e intransferível.

2 comentários:

  1. Perfeito! Peço sua permissão para usar o seu texto (fazendo as devidas referêcias,claro) em reuniões em que o tema contemple as reflexões que a sua escrita propicia.

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