Follow by Email

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Lúcido grafema

Amilcar Bernardi

Existe lúcido grafema
para bem grafar poema?
Qual grandiloquente grafia
imobilizará a translúcida poesia?
As reentrâncias das belas letras
e os versos - quais fúlgidos cometas -
grafarão a etérea magia do sonho?
E se poemas e loucuras componho?
E se escrevo fantásticas fantasias?
E se escrevo não-sensos e idiossincrasias?
Então não pode haver lúcido grafema
nem verbo, nem doce e sutil cantilena
que possa registrar o tênue poema?
Como escrever o infinito
ou registrar o pujante grito
dos que vivem para poetar?
Como um amor belo grafar?
Como uma dor escrever?
Como numa página prender
o amor que uma alma algema?
Não!  Não há lúcido grafema
para bem grafar um poema.

Vento norte

 No dia de vento norte
Sou como um barco à velas:
Leva-me o vento forte...

O vento na rua corre.
É como sangue nas veias,
Por tudo forte escorre....

Vento rio, vento correnteza!
Leva tudo, levanta tudo...
Sou uma pandorga, com certeza!

Vento norte todo ano!
Faz ondas, faz naufrágios...
Sou veleiro veloz  no oceano!

Se sou veleiro, se sou embarcação forte,
Se eu navego de velas sempre abertas
É porque tu és meu vento norte!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Obviedades

 Prof. Amilcar Bernardi

Fiquei com vontade de falar coisas óbvias, então escreverei infantilidades. Vou falar de árvores e de padarias. Uma maneira eficiente, porém trabalhosa de matar árvores, é impedir que suas raízes se alimentem. Demora um pouco, é preciso alguns cuidados para impedir que as raízes achem nutrientes, mas com certeza ela morrerá silenciosamente.  Secará, cairão as folhas, o verde desaparecerá até que morra totalmente. Outra obviedade: se eu tenho uma padaria, fico muito preocupado com os cursos de formação de padeiros. Porque se as pessoas não quererem fazer mais pães, ou fizerem pães ruins, como vou sobreviver? Eu vivo de pães! Uma sociedade que não sabe fazer pães, esta fadada a não ter cafés da manhã gostosos! Ela começará a reclamar da ausência dos pães, sem reclamar da ausência dos padeiros!  Credo! Esses parágrafos são óbvios demais!
Coisas evidentes muitas vezes tornam-se invisíveis por parecerem insignificantes. As pessoas não estão vendo o que está acontecendo ante nossos olhos. Se a educação fosse uma árvore, os educadores seriam as raízes.  Fácil entender que a educação formal é feita de professores. Então, basta olharmos para o número destes profissionais e fica mais claro ainda o problema. Cada vez temos menos gente querendo ser professor. As universidades não conseguem captar candidatos nesta área da mesma maneira que outras áreas captam. É só ver os números. Se a educação fosse árvore, estaria morrendo pelas raízes, de fome. Se a escola fosse uma padaria, faltariam padeiros. E mais, pouca gente desejaria fazer o curso de padeiro, mesmo querendo pães muito gostosos!
A sociedade cobra muitas coisas. Porém, esquece de cobrar um tratamento digno aos professores. As pessoas até clamam por uma educação melhor e não lembram dos educadores. Não podemos ser hipócritas, é preciso aumentar salários, como é preciso aumentar número de vagas para os alunos. Não é preciso qualificar o professor, é urgente dar as condições salariais para que possa ele mesmo qualificar-se. O mestre não quer nada de graça. Ele quer dignidade. Continuo dizendo obviedades.
Temo por meus netos. Quem serão seus professores? Haverá professores? Qual a qualidade das vivências culturais dos que se candidatarão à docência?  As respostas são óbvias também, mas não quero escreve-las. Vou deixa-las doendo no meu peito de professor.

domingo, 25 de setembro de 2011

A decisão

Amilcar Bernardi


Está em frente à porta. A decisão é só dele. Abrir e entrar. Ou virar-se e ir embora. A decisão tinha ares de suicídio. Sim, porque ao decidir tudo mudaria na sua vida. Dar um passo era como jogar-se de um prédio. Não haveria retorno. Era cair e cair até estatelar-se no chão. Mas não é um prédio. É uma porta. É só abri-la. Porém, onde encontraria forças? É abrir e jogar-se. É abrir e mudar tudo.

A mão toca a fechadura. Tem a sensação que todos o olham! A covardia paralisa os dedos. O movimento que abriria cessa. O coração bate forte. Tenta ir embora. Então se envolve com o desejo. Quer entrar. Quer curtir. Quer ver.  O desejo é bloqueado pela moral fortemente arraigada nele.

Avança um passo. O peito quase toca a porta. Já pode ouvir tudo. O que ouve é um chamado. Também é uma repulsa. Ali está tudo que sempre repudiou. Então vem a sua mente uma questão psicanalítica: repudiar não é um mecanismo de defesa? Repudiar com força não é demonstrar a força do desejo? Será que quanto mais evita aquilo é aquilo que ele mais quer?

Como cérberos, dois homens fortes estão cuidando da entrada. Ele fica confuso ao ser observado com desconfiança. Está hesitando muito. Cada vez mais pensa que estão olhando para ele. Treme. Será que todos sabem o drama existencial que esta passando? Entrar ou não equivale a deixar para trás todo um modo de ver o mundo. Seu terno e sua gravata chique destoam do ambiente. A alegria daquelas pessoas ofende seu jeito de ver as coisas. É um senhor austero e exigente. As demais pessoas fedem a cerveja e cantam alegremente, sem compromisso algum.

Avança mais uma vez contra a porta. Porém ela abre-se antes que possa tocar a fechadura. Uma mulher risonha com um vestido provocante sai dançando ainda. O cheiro de perfume o tonteia, pois provoca sua imaginação. Ele é um esteta, acha aquela situação feia. Feia porque desarmônica. Nada se encaixa direito. Uma porta sóbria escondendo a devassidão. Mulheres belas bêbadas. Bêbadas e felizes! O preço para entrar é caro para prazeres baratos. Bocas bonitas dizendo coisas feias. A música é vulgar, mas provoca prazer sensual. Ele é um poeta, um escritor, um literato! Um amante do belo ali em frente aquela situação feia, pois indizível. Indizível porque sua alma não aceitava!

De canto de olho ele vê os seguranças vindo em direção dele. Afinal estava hesitando muito. Sente que já não há o que fazer. Não pode voltar atrás. Como explicar aos seguranças tudo que vai na sua alma de intelectual puritano? Não é possível retroceder. Prende a respiração e joga-se para dentro. Como quem afunda no mar é envolto pelo ar do ambiente. Um ar cheio de vapores alcoólicos. As luzes coloridas arremedam uma iluminação. Álcool, perfumes e suor fazem uma espécie de neblina. A música alta tenta abafar o riso fácil. Ali tudo parece fácil. A um acenar de mão a bebida vem. A um sorriso mulheres surgem do nada. Homens com olhares de águia procuram presas. Outros homens com olhar de morto agem como zumbis em busca do esquecimento de algo. Afundam na bebida.

O prostíbulo é de má fama, de má gente. É famoso por mortes a facadas. Assaltantes são comuns nas imediações. A polícia amiúde faz prisões por ali.  Drogas são comuns. Circulam como cerveja. Algumas moças dançam nuas. Ali a regra é: pega o que podes pagar! Não há limites morais! Os corpos estão para consumo. O prazer é de aluguel. As almas já estão insensíveis. Os corpos estão energizados por uma explosão libidinal coletiva. Quase uma histeria.

Ele sente-se estranho, um estrangeiro. Não sabe como conduzir-se ali. Iria logo para o balcão pedir bebida? Sentaria nas pequenas mesas e pediria ao garçom uma prostituta? E se pedisse uma mulher, a levaria logo para um quarto? Havia quartos ali ou iriam para algum motel torpe? Quanto uma mulher custaria? E se ele chamasse uma mulher e ela não fosse prostituta? Alguma mulher ali não era prostituta? Ele não bebe: como pedir cerveja? Qual marca? Ele não dança. Como dançar se a moça pedisse para dançar? Ele tinha que pagar a moça antes ou depois do sexo?  Nenhuma dessas questões é pequena. São de vida ou de morte. Essas questões são seu diferencial: ele não pertence aquele ambiente!

Então a loira surge daquela neblina. Vem direto a ele. O sorriso é amplo, o vestido é curto. É longilínea de pernas roliças. É linda de olhar feio. É um olhar feio de olhos lindos! Ela ginga ao andar. O perfume chega antes. A moça diz oi e pega na mão dele. A mãozinha é pálida rodeada de dedos longos de unhas vermelhas. Macia como pétala de rosa. Mais alta que ele nos saltos altos. Os pés são pequenos. A maquiagem é forte, pesada. Porém, a deixa mais linda! Como evita-la?

Seu coração bate forte. Um tsunami de adrenalina afogando seus escrúpulos. No início um certo constrangimento. Não sabia o que fazer, o que dizer, o que pensar. Mas tudo ficou mais fácil quando a moça falou e pensou por ele. Ela o conduziu como um adolescente inocente. Na verdade ele era por dentro um jovem inocente. Não era um jovem com certeza, mas nunca vivera nada além do permitido. A mulher, conhecedora de todos os tipos de homens, reconheceu nele essa fragilidade. Habilidosa não o agrediu, respeitou seus apelos morais. Agiu com gentileza e sabedoria.

Eles tiveram uma noite de amor. Ele percebeu que há inúmeras formas de viver a vida. Que, talvez, os laços sociais e afetivos são também algemas e correntes pesadas. Naquelas horas ele agiu sem limites. Não precisava provar nada para ninguém. O prazer ditava as regras. O dinheiro pagava o que estava acontecendo. Sentiu-se feliz. Era um prazer pago. Bem pago. O corpo dela valia cada centavo. Era perfeito, delineado por um artista! Uma escultura!

Como ele imaginou, tornou-se outro homem. Agora podia ver alem dos seus dogmas. Um novo horizonte se delineava a sua frente. Percebeu que transgredir muitas vezes vale a pena. Claro, teria conseqüências o que ele fez. Todas as pessoas que o conheciam como alguém previsível teriam que se adaptar. Ele aprendeu a transgredir, a desconfiar do que é socialmente aceito. Mudou seu jeito, talvez mudasse de pessoas. O futuro agora era mais livre para ele.



Na casa da moça prostituta houve mudança. Ela usou sua reserva financeira para estudar. Fez vestibular, passou. Está agora numa importante universidade. Não se prostitui mais, pois conseguiu estágio em uma empresa. As boas notas dela foram a garantia dessa chance. Os professores apostaram na brilhante aluna. Ela mudou porque encontrou um homem que, na visão dela, era puro e delicado. Um homem que fez com que ela se sentisse gente. Um moço que a tratou com tal gentileza e inocência que ela lembrou como era bom ser amada: um dia ela teve um grande amor!

Essa moça nunca pode agradecer o incentivo que o rapaz deu. A inocência tem um poder incomensurável, mesmo quando desejamos perde-la.

sábado, 24 de setembro de 2011

A fortaleza...

Amilcar Bernardi 

De cinza o céu se veste,
um raio nos espaços investe
como se tudo fosse destruir!

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!

O mundo treme – vai acabar?
A doce criança tem medo!
A noite cai bem mais cedo:
o dia fugiu assustado!
O vento  - apressado –
passa tudo querendo levar...

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!

Então a natureza se esconde
- o temporal não está longe!
A tempestade vai tudo derrubar?

O terno ninho do galho vai cair,
a chuva há de tudo alagar!


Acreditem! Naquela
Casinha tão bela
a tempestade não assusta!
A bela casinha é tão robusta
que fraca fica a tempestade!

Adverte a quente claridade
que vem da crepitante lareira,
que a procela é infantil brincadeira
que a casinha linda não pode assustar!

A casa é ninho que não vai cair,
é montanha que não vai alagar!

Acontece que as tempestades possantes
são apenas doce garoa para os amantes
da tão bela casinha!
O amante diz: “Veja que chuvinha!”
Ela responde: “Vem amor, deixa a tempestade sozinha!”

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sophia

Esse amor teve início na infância. O primeiro contato com ela aconteceu na biblioteca do pai dele. Ele mal aprendera a ler. O menino estava na biblioteca quando a percebeu lá. Não a conhecia. Não sabia quem ela era. Mas aquele doce olhar era convidativo. Vale a pena dizer que ela era muito bonita. Como ninguém daquela casa a havia visto antes? Os encontros aconteciam quando a sala estava vazia. O nome dela? Sophia.

Sophia era muito legal. Só falava o que Carlos queria saber. Só ensinava o que ele queria aprender. Ele apaixonou-se. Quanto mais o tempo passava, mais se apaixonava por Sophia. Quanto mais velho ele ficava mais a mágica acontecia: Sophia ficava mais bonita e atraente; cada vez mais brilhante. Os olhos mais doces, a voz mais tranqüila.

Carlos perguntava muitas coisas para ela. A resposta era rápida. Mas havia um encanto especial com aquela moça. Para cada resposta que ela dava, uma dúvida surgia. Então Carlos tentava fazer perguntas que tivessem uma resposta só. Ela então sorria e respondia sempre criando novas dúvidas. Sempre mais perguntas se tornavam necessárias.

O legal de tudo isso era que não enjoava a presença dela. Ao contrário, como ela era um enigma, a paixão só fazia crescer. Queria desvendá-la.  Queria conhecê-la totalmente... mas não dava. Ela escondia algo.

Carlos agora era adulto. Resolveu fazer uma pergunta especial para ela. Havia ensaiado muito para fazer tal pergunta. Afinal Carlos queria Sophia só para ele. Queria casar com ela. Mas como fazer isso se ela era uma figura mágica que só aparecia entre aqueles livros velhos? Só aparecia quando ele queria aprender algo? Estava ficando triste porque dedicara muitos anos a ela e ela sumia, fugia, se escondia. Ele vivia para Sophia e aquela figura linda escondia algo. Naquela tarde foi à biblioteca e fez a pergunta que tanto queria fazer:

-          Sophia, tu me amas?

-          É evidente que sim. Convivo contigo há muitos anos. Vi-te crescer e virar um homem bom, honesto e verdadeiro.É claro que te amo.Mas, o que é amar?Tu só podes exigir de mim o que sabes o que é.

-          Sophia, estou triste. Não quero discutir nem ser sábio hoje. Quero saber porque foges de mim.

-          Não fujo de ti.És tu que tens que me achar, que me procurar e me merecer.Se não demonstrares o tanto que me amas, vou embora. Eu exijo tudo de ti e tu tens que me dar tudo o que quero.

-          E tu, dás-me o que?

-          Conhecimento. Eu só tenho sabedoria para dar. Só.

-          Mas eu sofro muito porque tu não és totalmente minha...

-          Carlos, todos que me querem sofrem. Tu não és o único que me deseja.Muitos já morreram por mim. Outros enlouqueceram. Tantos outros foram mortos porque acreditaram no que eu disse. É preciso que me aceites como eu sou. Eu nunca serei como tu queres que eu seja. Mas tu serás o que eu quero de ti. Não sou má, nem sou boa. Apenas deves me amar com toda a tua alma.

-          Isso é injusto Sophia! Tu me enfeitiçaste quando eu era criança! Não tive defesa!

-          Tu ainda és cego. Abra os olhos e veja o que eu fiz por ti. Tu sabes mais que os outros. Tens a mente ágil e forte. Entendes o que acontece no mundo com rara inteligência. És admirado por todos porque aprendeste muito comigo. Aprendeste a amar, a desejar a sabedoria. És sábio e ainda não percebeste o tanto que sabes. E tudo deves a mim. Enquanto me amares mais crescerás. E nunca esqueças: tudo que me perguntares te responderei. Mas o preço que deves pagar é tua dedicação e empenho em me possuir.