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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Paradoxo da liberdade nas mãos invisíveis do mercado.


 "Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta, é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade." Adam Smith

Situação hipotética, mas plausível:
O Sr. Onofre não tem intenção de obter renda alguma. Não quer trabalhar sob a tutela do mercado. Não quer crescer em patrimônio, nem quer ter posses. Vive num terreno público. Construiu um barraco confortável. Confortável porque está bem protegido das intempéries, do calor e do frio. Levanta diariamente bem cedo. Faxina seu barraco, depois cuida de uma pequena horta e de alguns animais. Têm as mãos calejadas e a pele machucada pelo sol. É incansável. Quando a horta produz mais do que ele pode comer, ele doa aos vizinhos o excesso. Portanto, planta muito, colhe muito, trabalha muito, mas fica somente com o suficiente. Sua lógica é modesta: “ Se não posso consumir nem guardar sem estregar o que colho, porque não doar? ”  A mesma coisa com o feijão que plantou. O Sr. Onofre rejeita o excesso, portanto rejeita o lucro. Quer viver assim. Os vizinhos gostam dele. Portanto, doam também o que lhes sobra. É pouco, mas Onofre precisa de quase nada. Vive bem, trabalha muito, mas não se queixa. Um dia ganhou galinhas. Estas produzem muitos ovos. Doou o excedente. Ganhou um galo. Surgiram pintinhos e novas aves. Doou o excesso. Por quê? Se mantivesse os bichos, teria que mantê-los. Isso seria um custo desnecessário e excessivo.  Onofre quer ter apenas o suficiente. Os moradores intuem que este senhor é boa pessoa.  E mais: quanto mais doam coisas para ele, mais ele retribui se desfazendo do que sobra. Simples assim.
Certo dia o fiscal da prefeitura chegou no casebre do Sr. Onofre. Gentilmente informou que a terra era pública e que não era possível um particular lá viver. Em trinta dias a administração pública mandou as máquinas para o terreno. Destruiu tudo que o Onofre tinha construído. A ilha idílica do cidadão Onofre desapareceu. Esta pessoa está agora jogada aos cuidados das mãos invisíveis do mercado. Sem a expertise dos que adotaram desde a infância a lei do mercado, ele está abandonado. Esta é a situação hipotética. Agora podemos refletir.


O sr. Onofre repudia muito mais que a lógica das mãos invisíveis do mercado. Ele rejeita o próprio mercado. Portanto, é uma opção de consciência: rejeita o sistema para não ser sequer julgado por ele. Aqui começa o paradoxo.
Os conservadores podem chama-lo de vagabundo, de avesso ao trabalho? Não. Onofre pode provar isso com suas mãos calejadas e a pele ferida pelo sol escaldante. Está ele desejando um governo à esquerda, que proteja os cidadãos? Também não. Vive tranquilo e autossuficiente. Tem culpa (quase um pecado) por sua pobreza? Culpa não é termo aqui cabível. Se ser pobre é ter o suficiente, ele é responsável, pois assim quer e se esforça para se manter dessa forma. Ele é responsável, mas não cabe culpa (moral), pois não é possível julgamento algum! Ao não reconhecer o mercado, não pode ser julgado por ele! Este cidadão é um estrangeiro ao mercado e no mercado. Rege-se por outras normas! O Sr. Onofre não entende nem os argumentos mercadológicos, pois estes critérios são para ele desconhecidos. São outra língua que ele não entende.
Este cidadão hipotético não é um ignorante aloucado. Acredita na liberdade, e optou por ignorar a forma de ver a vida sob a ótica do mercado. Não quer viver controlado por mãos invisíveis. Mãos fantasmagóricas e instáveis, inexoráveis e insensíveis. Mãos demoníacas e científicas. Sabia o Sr. Onofre que, para destruir a ciência das mãos invisíveis, bastava ignorar o universo do mercado. Pronto, as mãos desaparecem. Fora deste universo, inclusive as críticas sobre a forma em que Onofre vive, desaparecem. Onofre está fora dos padrões. Não é comunista, não é petralha, não é da direita nem da esquerda... não é coisa nenhuma. É, ou tenta ser, livre da moral do mercado.
Ao ser expulso do terreno, o dilema surgiu às pessoas do mercado. Os liberais que exaltam a liberdade de escolha das pessoas, ficam atônitos. Têm ímpetos de dizer que a culpa é do Sr. Onofre. Que ele escolheu ficar sem nada ao nada produzir em dinheiro. Entendem que o cidadão escolheu seu final melancólico: pobre, sem teto, sem emprego, sem nada. Mas, algo ainda não está respondido. O liberal sabe que só é livre quem tem escolhas. Só é livre quem tem o “plano b”. Só é livre que pode ir embora de onde está. Só é livre quem pode ir e vir. Mas, e o Sr. Onofre? Não há escolhas para ele, muito menos um “plano b”. Ao ser expulso, ele somente pode se render ao mercado ou morrer. E mais: não uma morte qualquer, mas uma morte lenta pela fome, pelo sofrimento e pela humilhação. Para o Sr. Onofre não há liberdade para sair da lógica do mercado. O mercado é terrível e onipresente. Pune e persegue quem o rejeita. Não há um centímetro de espaço no mundo físico brasileiro que não tenha dono. O Sr. Onofre não tem mais um país para viver. Ou se submete, e aí nega a tese da liberdade dos liberais, ou morre apenas provando que a liberdade é impossível.
Sabe o liberal cristão que não pode condenar à morte os divergentes. Mas também sabe que pode abandona-los à morte.
Onofre é trabalhador no seu mundo. Uma pessoa honesta. Um cidadão exemplar em sua conduta. É amável e amado pelos vizinhos. Como explicar sua desgraça? Escolher não se envolver de nenhuma forma com dinheiro, é naturalmente uma morte em vida?
Para que o Seu Onofre se mantenha livre, é preciso dar a ele um “plano b”. Se ele quer sair da lógica do mercado, é imperioso dar a ele as condições disso. Ou, se não queremos dar as condições, ao menos devemos deixa-lo livre desta sociedade mercantil. Afinal, obrigar alguém sob pena de morte por tortura a permanecer na lógica do capital, é inumando e inaceitável. Mas aqui novamente surge o paradoxo: não é possível ao mercado deixa-lo ir. Porque não há para onde ir, tudo é o mercado: a garra aprisionante e invisível do mercado.

Então fica a questão: como resolver o enigma?