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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Visita a Engels

Prof. Amilcar Bernardi


    Para entendermos melhor Engels, é importante darmos uma repassada na história moderna. Um dos elementos que deveremos relembrar é o mercantilismo.  O mercantilismo refere-se a práticas econômicas e comerciais adotadas paulatinamente pela grande maioria dos governos absolutistas europeus. Os governos, assim como os de hoje, estavam interessados em fomentar o crescimento econômico de seus países. Esse interesse dos modernos manifestou-se em um controle direto sobre a economia para controla-la. Como o pensamento capitalista não estava desenvolvido, os economistas entendiam que o que importava para a saúde da economia de um país era a quantidade de metais preciosos que ele possuísse. Es países então esmeravam-se em acumular metais (ouro e prata principalmente). Pela lógica da época (séc. XVI até aproximadamente XVIII) era muito importante incentivar a entrada de metais e impedir sua saída (queriam aumentar a exportação e reduzir a importação). Exportar significava receber moedas de ouro ou prata. Isso era tão importante que países que não possuíssem metais não comerciavam com outros países. Outra maneira de obter metais era a exploração das colônias. As colônias só podiam comerciar com as metrópoles. 
A regra era muito simples: comprar barato e vender caro.  Como a burguesia era o agente das atividades econômicas dos Estados, acumulou capital a ponto de se tornarem uma classe muito forte. Esse poder, inicialmente, veio da exploração do trabalho dos camponeses e trabalhadores das colônias. Os burgueses para ampliar a acumulação do capital, rompem com o estado absoluto.
Podemos imaginar onde isso vai dar. O desejo de acumular capital terá ainda importantes fatos que impulsionarão a humanidade a fazer história através da propriedade privada.   A revolução industrial é um desses fatos relevantes. Ela aconteceu na Inglaterra no final do séc. XVII. Essa revolução provavelmente foi uma das mais importantes da história moderna ocidental. Isso porque nos afeta até hoje. 
Ocorreu na Inglaterra porque este país soube utilizar os recursos auferidos com o mercantilismo. Como o comércio de algodão manufaturado era muito importante, os ingleses passaram a investir na pesquisa tecnológica: produzir mais fios de algodão. Em 1760 apareceu a máquina de fiar, depois a máquina a vapor que foi adaptada a máquina de fiar. A partir daí o pequeno tecelão sucumbiu surgindo as fábricas. O lucro dessas fábricas era enorme para seus proprietários. A introdução das máquinas foi essencial para a consolidação no mundo ocidental do sistema social e político baseado no capital e na propriedade privada. Esse sistema passa a ser conhecido como capitalismo. Podemos definir hoje o capitalismo como sendo o sistema econômico que tem o capital como o principal fator para a produção. O capital tornou-se a finalidade da vida econômica.  O que é mais perverso no capitalismo é a necessidade estrutural desse sistema de concentrar a propriedade dos meios de produção. Ele visa, obviamente o lucro.  Podemos iniciar uma definição de lucro dizendo que é o ganho ou vantagem que se possa tirar de alguma coisa, de um negócio ou de alguém.  Quando coloquei na definição o termo “alguém”, veio-me imediatamente a mente o empregado. Ele dá sempre lucro! Afinal seu salário é sempre menor que as vantagens pecuniárias do objeto por ele produzido. 
Engels nasce em 28 de novembro de 1820 na Prússia. Morre em 05 de agosto de 1895.
O pai de Engels era um rico empresário. Querendo que seu filho seguisse seus passos, interrompe seus estudos para iniciá-lo nos afazeres do comercio. O jovem aproveitou esse tempo para estudar línguas e ler muito. Trabalhando ele percebe aos poucos as contradições que o capitalismo traz em seu bojo.  Foi exatamente o trabalho que o encharcou de realidade, que o fez contatar com intelectuais engajados nas questões sociais. Passa a admirar a revolução francesa e a criticar a religião e a sociedade burguesa da sua época. Passa a colaborar com inúmeros jornais escrevendo artigos. Isso sem abandonar suas atividades comerciais.
No texto Esboço e uma crítica da economia política[1], Engels chama a economia política de “a ciência do enriquecimento”.  Esta ciência, segundo ele, nasceu da ambição dos comerciantes, mascada pelo egoísmo. Faz uma severa crítica do comércio, da cupidez dos homens e da sua conduta moral: enganam uns aos outros em nome da vantagem pessoal. No sistema mercantilista a imoralidade do comércio tornou-se um pouco mais disfarçada misturando conceitos comerciais com amizade e cooperação. Os economistas afirmavam que os tratados comerciais aproximavam os povos. Claro que havia aproximação, afinal não há interesse, para o comerciante, não ter boas relações com aqueles que vendem barato ou com aqueles que compram muito caro. Até para as nações é prejudicial ser hostil, pois pode perder fornecedores ou consumidores. “Quanto maior a amizade, mais ela é vantajosa”. O comercio orgulha-se dessa humanidade”. Evidentemente Engels faz, nesse texto, uma severa crítica a essa aproximação imoral. 
A economia baseia-se na propriedade privada. Tais economistas não se interrogaram sobre a propriedade. Apenas a afirmavam a priori.  Tornaram-se sofistas e hipócritas escondendo as contradições que o ter só para si trazia em seu bojo. Nesse jogo de esconde-esconde afirmavam que o comércio trazia benesses às pessoas, trazia qualidade de vida. Enquanto afirmam isso, o sistema fabril ia aperfeiçoando-se escravizando as pessoas a aviltantes salários e a muitas horas de trabalho.
Naquela época ele já advertia que a “expressão riqueza nacional” não faz sentido enquanto existir a propriedade privada.  Como pode a riqueza ser de todos em um país se existe a propriedade?  Poderia ser riqueza de alguns em um país, nunca riqueza nacional. Engels afirma que a ciência política deveria ser chamada economia privada, “porque suas relações públicas existem exclusivamente por amor à propriedade privada”.  As consequências do pensamento vinculado ao comércio, traz importantes consequências éticas.  O pensamento comercial afirma que devo comprar o mais barato possível e vender o mais caro que puder. Isso faz com que surja uma terrível hostilidade e desconfiança entre as pessoas.  A imoralidade do comércio consiste em que o comerciante e o consumidor vão ocultar e dissimular suas intenções. E o mais estranho: ambos sabem das intenções mútuas!
“Resultado: no comércio é permitido tirar o maior partido da ignorância e da confiança da outra parte interessada, atribuindo à mercadoria à venda propriedades que ela não possui. Numa palavra: o comércio é a burla legal. Qualquer comerciante, se honrar a verdade, testemunhar-me-á que a prática confere com esta teoria. ”
Os economistas perguntavam-se também sobre o que é o valor de alguma coisa. O valor de um objeto seria estimado pelos custos de produção? Por sua utilidade? Engels diz que primeiro o valor é avaliado pela relação entre ambos (custo/utilidade). O que sugere a questão: a utilidade compensa o custo da produção? “Perante a igualdade de custos de produção de dois objetos, a utilidade será o momento decisivo que definirá comparativamente o valor de cada um. ” Mas as coisas não são tão simples: a concorrência, o custo de produção e a utilidade também é subjetiva (depende da moda, do humor de quem pode comprar). O custo de produção vai oscilar de acordo com a oferta e a procura. “Contudo, é absolutamente correto que o preço seja determinado pela ação recíproca do custo de produção e da concorrência – esta é a lei essencial da propriedade privada. ”  O comerciante separa do valor, o trabalho.  Esquece que o trabalho é a fonte do lucro.  Afinal o trabalho não é remunerado com relação ao seu produto. Todo o trabalhador produz muito mais do que recebe. Mas também o trabalhador está sujeito a concorrência. Quantos para cada vaga? Então quanto mais trabalha mais se valoriza. Dessa forma consagra todas as suas forças ao trabalho. Nessa luta concorrencial o homem esvai-se: esquece que é humano e sensível.  “A concorrência penetrou todas as relações da nossa vida e completou a servidão recíproca em que os homens se encontram atualmente. A concorrência é a grande mola que impulsiona incansavelmente a nossa ordem (ou antes: a nossa desordem) social, que envelhecendo sem vontade, a cada novo esforço despende também uma parcela das suas forças declinantes.  A sociedade declina porque está doente moralmente.




[1] Friederich Engels: política. Coleção Grandes cientistas sociais.  Organizador da coletânea José Paulo Netto. São Paulo. Editora Ática. 1981