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sábado, 5 de setembro de 2015

Podemos ou não conhecer?

Prof. Amílcar Bernardi

Podemos ou não conhecer?

           Temos aqui um dilema. Algumas pessoas dizem que sim, podemos. Os que acham que podemos conhecer não entendem nem a pergunta se é possível ou não o conhecimento.  Pois é, para estes, óbvio que existe! Sob esse ponto de vista é uma bobagem perguntar se há dúvidas sobre a cor vermelha do farol. Não faz sentido então discutirmos se a cor vermelha da rosa é diferente para as pessoas que a veem.
Por outro lado, existe inúmeras pessoas que dizem que não podemos saber as coisas. Por exemplo, nem todos sabem física. Para quem não sabe, parece impossível saber. Para o daltônico* o vermelho é impossível. Para o cego, as cores não existem. O que é para mim, pode não ser para ti. Estranho, não? A filosofia acompanha essas questões. Surgiram várias correntes filosóficas antagônicas que tentam esclarecer se é possível ou não conhecer. Trabalharemos didaticamente apenas as principais teses.

“A inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela. (...).  Mas a inteligência culturalmente constituída não é mais fixa ou programada como a do cupinzeiro ou a da colmeia. Por meio de transmissão, invenção e esquecimento, o patrimônio comum passa pela responsabilidade de cada um.  A inteligência do todo não resulta mais mecanicamente de atos cegos e automáticos, pois é o pensamento das pessoas que pereniza, inventa e põe em movimento o pensamento da sociedade.  (...) Nada é fixo, o que não significa que se trate de desordem ou de absoluto relativismo, pois os atos são coordenados e avaliados em tempo real, segundo um grande número de critérios constantemente reavaliados e contextualizados. ” Lévy, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço, editora Loyola, 5ª edição, 2007. Pág.31




Afinal, o que é a razão?


Tanto a ciência quanto a filosofia jactam-se de fazerem uso da razão. Parece que a simples pronúncia de tal expressão afasta o senso comum e nos aproxima da ciência e da filosofia. Sabemos que não é tão simples assim.
A razão pode ser usada em vários sentidos. Aqui vamos diretamente nos ocupar do seu sentido filosófico ou científico. Não é fácil encontrar palavras não complexas para explicar. Iniciaremos dizendo que quando usamos o termo razão referimo-nos a uma instância que nos transcende e que através dela cotejo as informações externas e avalio minhas emoções e pensamentos.
A razão harmoniza, conecta o “dentro” de mim com o que está “fora”. Ela é transcendente porque está em cada um de nós de forma personalizada, mas também está em todos, pois todo o ser humano é racional. A razão é criativa porque trabalha nas infindáveis conexões e nos contextos.  Isso acontece porque a realidade não é algo único, fechado, linear. A realidade existe, humanamente falando, num contexto: como um enorme quebra-cabeças que só faz sentido em relação as partes. É ele que cria o sentido de tudo, o sentido da realidade.


Compreender é contextualizar, compreender é fazer ilações.


Os Gregos com os mitos trouxeram o uso da razão como explicação da realidade. Aristóteles avançou fantasticamente. A filosofia nascia. Mais próximos temporalmente de nós tivemos Francis Bacon, Descartes, Kant e infindáveis outros pensadores que estudaram e fizeram uso da razão nas suas vidas de intelectuais. 
A promessa feita pelos que estimulavam o uso da racionalidade era uma existência menos sofrida com mais tempo para o ócio. O progresso viria pelas mãos da filosofia e da ciência. De fato, o avanço material multiplicou-se geometricamente. Mas os espíritos continuaram sofrendo. A razão, a lógica, a física e a matemática cobraram sua conta: o desencantamento do mundo. Viver para quê? Sem Deus, sem poesia, sem plantas e pássaros... viver para quê? A razão nos libertou para nos escravizarmos na lógica fria do utilitarismo e nos ditames do mercado.





Jactar-se: Ter jactância, gabar-se, ufanar-se

Transcender: Passar além de; ultrapassar, Elevar-se acima de.

Cotejar: Confrontar, comparar, pôr em paralelo; confrontar.

Avaliar: Determinar o valor de, reconhecer a grandeza.

Ilação: Aquilo que se conclui de certos fatos; dedução, conclusão.

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