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domingo, 26 de julho de 2015

Conceito de justiça para crianças

A justiça: o que é? 
(Baseado nos diálogos platônicos)


Carlinhos: Eu acho que justiça é dar para cada um o que é seu.
Betinho: Seria então o caso de devolver a alguém o que é seu? Quero dizer, caso alguém empreste
para mim uma arma, depois peça de volta dizendo que vai matar alguém... é justo devolver o que é dele?
Carlinhos: Não sei. Mas vou dizer melhor então. Justiça é fazer mal ao inimigo e bem ao amigo. Que tal?
Betinho: Deixa-me pensar. O médico é justo quando cura doenças?
Carlinhos: Claro!
Betinho: A enfermeira é justa quando dá os remédios ditados pelo médico?
Carlinhos: Acho que sim!
Betinho: É justo que o médico faça mal com a medicina e a enfermeira com os conhecimentos de enfermagem?
Carlinhos: Lógico que não é justo. Seriam indignos da medicina e da arte da enfermagem.
Betinho: Caso o médico e a enfermeira fossem tratar seus inimigos, seria justo fazerem o mal?
Carlinhos: Sei lá cara, sujou. Acho que não seria justo não. Cada vez estou mais confuso.
Betinho: Eu também. Mas estou gostando do papo. Tenta dizer outra coisa sobre a justiça. Tenta!
Carlinhos: Está bem. Vamos lá...estou pensando...Já sei! A justiça é boa quando fazemos um contrato. Por exemplo, o contrato de aluguel da nossa casa. Ou quando contratamos um empregado. O contrato tem que ser justo.
Betinho: Legal, agora é minha vez de pensar um pouco... Imagino que o contrato para ser justo tem que ser elaborado por pessoas justas, não?
Carlinhos: Claro, o papel não é bom nem mau. A justiça está nas pessoas que escrevem o contrato. Acho que é melhor escolher quem entenda de contratos para escreve-los. Assim saberei que não serei enganado. É melhor eu escolher uma pessoa boa, quero dizer, não qualquer advogado, mas um que não seja mau. Os maus são injustos. Os injustos fazem contratos injustos. Não é assim?
Betinho: Aceito o que dizes. Mas e se a gente se enganar, quero dizer, achar que a pessoa é boa e ela é má?
Carlinhos: Essa é fácil. Escolho advogados que sejam meus amigos. Assim eles serão bons para mim. Sai dessa agora!
Betinho: É fácil também contrariar o que disseste! Como tu sabes quem são teus amigos de verdade? E os falsos amigos?
Carlinhos: Sujou. Só sei que uma pessoa para ser minha amiga tem que ser justa. Sei que uma pessoa justa não pode cometer injustiça. Por isso estarei seguro. Não serei injustiçado.
Betinho: Agora te peguei! Tu, antes, disseste que era justo fazer mal ao inimigo. Agora dizes que uma pessoa justa não faz injustiça. Então uma pessoa justa pode fazer uma coisa ruim sendo justa? Acho que não. Então o que disseste está errado!
Carlinhos: Estou tonto. Sei lá, acho que não tinha razão mesmo. Não consigo imaginar uma pessoa justa fazendo coisa ruim.
Betinho: Sabe o que lembrei agora? Se meu inimigo é um cara justo e eu faço mal para ele, então ele se vingará fazendo o mal para mim que sou inimigo dele. Então ele será uma pessoa justa fazendo mal?
Carlinhos: Não sei responder.
Betinho: Eu também não.
Carlinhos: Como seremos então justos se não sabemos?
Betinho: Estudando. O que diz o dicionário?
Carlinhos: Diz assim ó: a virtude É de dar a cada um aquilo que é seu.
Carlinhos: Isso faz com que voltemos ao começo da nossa conversa.

Dias depois os amigos se encontram novamente.

Betinho: Desde a nossa última conversa, fiquei ainda pensando sobre justiça. Eu tenho um tio que é militar, até já lutou numa guerra. Sabe o que ele disse que era a justiça?
Carlinhos: Fala logo, o que ele disse?
Betinho: Que a justiça é o interesse do mais forte.
Carlinhos: Não entendi bem. Mais forte é aquele que ganha a luta?
Betinho: Acho que sim, o mais forte sempre ganha uma luta.
Carlinhos: Então se justo é o mais forte, o que ele faz também será justo, não?
Betinho: Credo caramba! Acho que sim.
Carlinhos: Olha só, quer dizer que se a justiça é o interesse do mais forte e o que ele faz é justo, o que
acontece quando ele errar?
Betinho: Como assim?
Carlinhos: Ora, quando ele fizer uma coisa errada, quero dizer, fizer algo que não traga nada de bom para ele. Quando fizer algo que antes achava que era do seu interesse (o interesse do mais forte) e acabar por beneficiar o mais fraco?  O mais forte estará sendo injusto, pois não agiu de acordo com o mais forte? 
Betinho: Espera um pouco, deixa eu pensar. Como meu tio disse que a justiça é o interesse do mais forte, caso ele realize o interesse do mais fraco... ele foi injusto segundo o que meu tio pensa!
Carlinhos: Então o mais forte pode ser justo e injusto. E como tu disseste que o que o mais forte faz sempre é justo, então, é justo fazer injustiça?
Betinho: Carlinhos depois disso, tenho certeza que meu tio está errado. A justiça não pode ser o interesse do mais forte.



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