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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Visita a Engels

Prof. Amilcar Bernardi


    Para entendermos melhor Engels, é importante darmos uma repassada na história moderna. Um dos elementos que deveremos relembrar é o mercantilismo.  O mercantilismo refere-se a práticas econômicas e comerciais adotadas paulatinamente pela grande maioria dos governos absolutistas europeus. Os governos, assim como os de hoje, estavam interessados em fomentar o crescimento econômico de seus países. Esse interesse dos modernos manifestou-se em um controle direto sobre a economia para controla-la. Como o pensamento capitalista não estava desenvolvido, os economistas entendiam que o que importava para a saúde da economia de um país era a quantidade de metais preciosos que ele possuísse. Es países então esmeravam-se em acumular metais (ouro e prata principalmente). Pela lógica da época (séc. XVI até aproximadamente XVIII) era muito importante incentivar a entrada de metais e impedir sua saída (queriam aumentar a exportação e reduzir a importação). Exportar significava receber moedas de ouro ou prata. Isso era tão importante que países que não possuíssem metais não comerciavam com outros países. Outra maneira de obter metais era a exploração das colônias. As colônias só podiam comerciar com as metrópoles. 
A regra era muito simples: comprar barato e vender caro.  Como a burguesia era o agente das atividades econômicas dos Estados, acumulou capital a ponto de se tornarem uma classe muito forte. Esse poder, inicialmente, veio da exploração do trabalho dos camponeses e trabalhadores das colônias. Os burgueses para ampliar a acumulação do capital, rompem com o estado absoluto.
Podemos imaginar onde isso vai dar. O desejo de acumular capital terá ainda importantes fatos que impulsionarão a humanidade a fazer história através da propriedade privada.   A revolução industrial é um desses fatos relevantes. Ela aconteceu na Inglaterra no final do séc. XVII. Essa revolução provavelmente foi uma das mais importantes da história moderna ocidental. Isso porque nos afeta até hoje. 
Ocorreu na Inglaterra porque este país soube utilizar os recursos auferidos com o mercantilismo. Como o comércio de algodão manufaturado era muito importante, os ingleses passaram a investir na pesquisa tecnológica: produzir mais fios de algodão. Em 1760 apareceu a máquina de fiar, depois a máquina a vapor que foi adaptada a máquina de fiar. A partir daí o pequeno tecelão sucumbiu surgindo as fábricas. O lucro dessas fábricas era enorme para seus proprietários. A introdução das máquinas foi essencial para a consolidação no mundo ocidental do sistema social e político baseado no capital e na propriedade privada. Esse sistema passa a ser conhecido como capitalismo. Podemos definir hoje o capitalismo como sendo o sistema econômico que tem o capital como o principal fator para a produção. O capital tornou-se a finalidade da vida econômica.  O que é mais perverso no capitalismo é a necessidade estrutural desse sistema de concentrar a propriedade dos meios de produção. Ele visa, obviamente o lucro.  Podemos iniciar uma definição de lucro dizendo que é o ganho ou vantagem que se possa tirar de alguma coisa, de um negócio ou de alguém.  Quando coloquei na definição o termo “alguém”, veio-me imediatamente a mente o empregado. Ele dá sempre lucro! Afinal seu salário é sempre menor que as vantagens pecuniárias do objeto por ele produzido. 
Engels nasce em 28 de novembro de 1820 na Prússia. Morre em 05 de agosto de 1895.
O pai de Engels era um rico empresário. Querendo que seu filho seguisse seus passos, interrompe seus estudos para iniciá-lo nos afazeres do comercio. O jovem aproveitou esse tempo para estudar línguas e ler muito. Trabalhando ele percebe aos poucos as contradições que o capitalismo traz em seu bojo.  Foi exatamente o trabalho que o encharcou de realidade, que o fez contatar com intelectuais engajados nas questões sociais. Passa a admirar a revolução francesa e a criticar a religião e a sociedade burguesa da sua época. Passa a colaborar com inúmeros jornais escrevendo artigos. Isso sem abandonar suas atividades comerciais.
No texto Esboço e uma crítica da economia política[1], Engels chama a economia política de “a ciência do enriquecimento”.  Esta ciência, segundo ele, nasceu da ambição dos comerciantes, mascada pelo egoísmo. Faz uma severa crítica do comércio, da cupidez dos homens e da sua conduta moral: enganam uns aos outros em nome da vantagem pessoal. No sistema mercantilista a imoralidade do comércio tornou-se um pouco mais disfarçada misturando conceitos comerciais com amizade e cooperação. Os economistas afirmavam que os tratados comerciais aproximavam os povos. Claro que havia aproximação, afinal não há interesse, para o comerciante, não ter boas relações com aqueles que vendem barato ou com aqueles que compram muito caro. Até para as nações é prejudicial ser hostil, pois pode perder fornecedores ou consumidores. “Quanto maior a amizade, mais ela é vantajosa”. O comercio orgulha-se dessa humanidade”. Evidentemente Engels faz, nesse texto, uma severa crítica a essa aproximação imoral. 
A economia baseia-se na propriedade privada. Tais economistas não se interrogaram sobre a propriedade. Apenas a afirmavam a priori.  Tornaram-se sofistas e hipócritas escondendo as contradições que o ter só para si trazia em seu bojo. Nesse jogo de esconde-esconde afirmavam que o comércio trazia benesses às pessoas, trazia qualidade de vida. Enquanto afirmam isso, o sistema fabril ia aperfeiçoando-se escravizando as pessoas a aviltantes salários e a muitas horas de trabalho.
Naquela época ele já advertia que a “expressão riqueza nacional” não faz sentido enquanto existir a propriedade privada.  Como pode a riqueza ser de todos em um país se existe a propriedade?  Poderia ser riqueza de alguns em um país, nunca riqueza nacional. Engels afirma que a ciência política deveria ser chamada economia privada, “porque suas relações públicas existem exclusivamente por amor à propriedade privada”.  As consequências do pensamento vinculado ao comércio, traz importantes consequências éticas.  O pensamento comercial afirma que devo comprar o mais barato possível e vender o mais caro que puder. Isso faz com que surja uma terrível hostilidade e desconfiança entre as pessoas.  A imoralidade do comércio consiste em que o comerciante e o consumidor vão ocultar e dissimular suas intenções. E o mais estranho: ambos sabem das intenções mútuas!
“Resultado: no comércio é permitido tirar o maior partido da ignorância e da confiança da outra parte interessada, atribuindo à mercadoria à venda propriedades que ela não possui. Numa palavra: o comércio é a burla legal. Qualquer comerciante, se honrar a verdade, testemunhar-me-á que a prática confere com esta teoria. ”
Os economistas perguntavam-se também sobre o que é o valor de alguma coisa. O valor de um objeto seria estimado pelos custos de produção? Por sua utilidade? Engels diz que primeiro o valor é avaliado pela relação entre ambos (custo/utilidade). O que sugere a questão: a utilidade compensa o custo da produção? “Perante a igualdade de custos de produção de dois objetos, a utilidade será o momento decisivo que definirá comparativamente o valor de cada um. ” Mas as coisas não são tão simples: a concorrência, o custo de produção e a utilidade também é subjetiva (depende da moda, do humor de quem pode comprar). O custo de produção vai oscilar de acordo com a oferta e a procura. “Contudo, é absolutamente correto que o preço seja determinado pela ação recíproca do custo de produção e da concorrência – esta é a lei essencial da propriedade privada. ”  O comerciante separa do valor, o trabalho.  Esquece que o trabalho é a fonte do lucro.  Afinal o trabalho não é remunerado com relação ao seu produto. Todo o trabalhador produz muito mais do que recebe. Mas também o trabalhador está sujeito a concorrência. Quantos para cada vaga? Então quanto mais trabalha mais se valoriza. Dessa forma consagra todas as suas forças ao trabalho. Nessa luta concorrencial o homem esvai-se: esquece que é humano e sensível.  “A concorrência penetrou todas as relações da nossa vida e completou a servidão recíproca em que os homens se encontram atualmente. A concorrência é a grande mola que impulsiona incansavelmente a nossa ordem (ou antes: a nossa desordem) social, que envelhecendo sem vontade, a cada novo esforço despende também uma parcela das suas forças declinantes.  A sociedade declina porque está doente moralmente.




[1] Friederich Engels: política. Coleção Grandes cientistas sociais.  Organizador da coletânea José Paulo Netto. São Paulo. Editora Ática. 1981

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Livro: A arte de amar Erich Fromm

 Prof. Amilcar Bernardi



Nascido em 1900, em Frankfurt, Alemanha, Erich Fromm estudou psicologia e sociologia. Doutorou-se em Filosofia em Munique e recebeu sólida formação psicanalítica no Instituto Psicanalítico de Berlim. A partir de 1933, ano da ascensão de Hitler ao poder, passa a exercer o cargo de professor nos EUA, em Chicago, e, posteriormente, a exercer a clínica em Nova York. Foi professor em várias universidades, inclusive no México. E seus livros passaram a se ater em questões humanistas que atraíram a atenção de profissionais de vários campos, como Sociologia, Filosofia e Teologia. De certa forma, muitas de suas ideias foram contemporâneas de várias abordagens humanistas.
Na sua obra A arte de amar, salienta um equívoco importante: uma prova de amor seria não amar a mais ninguém. Esse sentimento é uma atividade da alma; caso ame alguém, amo a todos, amo tudo. “Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti”.
O amor erótico é o anseio pela fusão, pela união com outra pessoa. Aqui aparece a exclusividade e não universalidade. Acrescenta que é, provavelmente, a forma mais enganosa de amar. Isso porque confundimos com cair enamorado, algo súbito e avassalador.  Mas esse avassalamento tem tempo curto de vida. A familiaridade com a pessoa faz surgir um sentimento que diz: nada mais há para conhecer na pessoa. Mas se nos déssemos tempo para realmente nos aprofundar na intimidade da pessoa, descobriríamos a impossibilidade de conhece-la totalmente em suas profundezas.  Sem conhece-la totalmente, a cada dia o milagre se renovaria: a pessoa eleita teria sempre coisas novas, maravilhas novas a serem descobertas. O desafio do conhecimento dela seria eterno. De outra forma, a pessoa seria explorada à exaustão. Exaurida perderia o brilho e valor. Tornar-se íntimo não é somente atingido pelo sexo, ou pela fala diária sobre “o que temos em comum”; nem mostrarmos nossas frustrações e magoas sendo sinceros ao máximo. Nem a complexa desinibição com relação ao companheiro (a) é intimidade. Esse tipo de proximidade torna-se rotineira e morre.
O amor erótico contrasta com o amor fraternal e o amor materno. O amor erótico consiste na união com uma só pessoa, diferente dos demais amores, que não estão restritos a uma única pessoa. O amor pode inspirar desejo sexual, mas mistura-se a ternura, essa ternura é produto do amor fraterno que está em nós. Fromm diz isso por que uma das características do amor erótico é a exclusividade, a exclusão do resto da humanidade. Mas o casal que ama é também humanidade, então há um sentimento de separação entre o casal, e entre o casal e o resto das pessoas. Para corrigir essa distorção, a pessoa que ama, ama na outra toda a humanidade, tudo que vive.  Entregamo-nos profundamente a uma única pessoa, mas não nos fechamos ao amor fraterno que vive em nós. 
O problema na reflexão de Fromm é que se amamos fraternamente, e em essência somos todos iguais, somos todos um. Não fará diferença quem amemos.  Ele resolve dizendo que amar é um ato de vontade, de decisão a quem vou entregar-me. Existe um aspecto racional por trás da indissolubilidade do matrimônio (em suas diversas formas). Amar alguém não é só sentimento, mas decisão, um julgamento, uma promessa. Isso seria a morte do amor e a vitória da racionalidade fria? Não, pois como Fromm diz, amamos a humanidade fraternalmente, escolhemos uma pessoa porque apesar de sermos um, somos pessoas diferentes, irrepetíveis. Essa especificidade nos faz sermos escolhidos.
Para Erich Fromm o amor consiste na compreensão de que ele não é uma situação acidental em que nele se “tropeça”. Na verdade, é algo que, na qualidade de arte, exige conhecimento e esforço.
Quanto ao amor próprio Fromm, traz importantes informações. Alegar que amar a si é inversamente proporcional a amar o próximo, não é bem verdade. Amar o próximo é louvável. Eu e o outro somos humanos; então amar outra pessoa é amar a mim mesmo! Por outro lado, amar a mim mesmo me torna apto a amar o outro. É impossível, segundo Fromm, amar só o outro. Quem não ama a si também, não pode amar ninguém.
A pessoa egoísta só se interessa por si mesma, não sente prazer em compartilhar, só quer tomar do outro.  O mundo é visto como algo a ser dominado e dele subtraído tudo.  O egoísta não pode ver senão a si mesmo, julga tudo por si mesmo. É, portanto, incapaz de amar.  Importante: para Fromm a pessoa egoísta não ama demais a si mesma, ao contrário ama de menos: odeia-se. Furta da vida o que por si mesmo não consegue atingir. Quer encobrir o fracasso em cuidar de si mesma.
Fromm diz que o amor é uma atitude, uma orientação de caráter.  Não há, a priori, um objeto de amor, mas uma visão amorosa com relação ao mundo. Pois se amo uma única pessoa, excluo o resto da humanidade. Aqui meu afeto torna-se simbiótico ou um egoísmo ampliado.
A sociedade capitalista se funda na ideia de um mercado o mais livre possível.  O mercado é regulado pela utilidade das coisas. Nele tudo é transformado em artigo de compra e venda, desde as coisas mortas até a energia e capacidade de trabalho. Fromm afirma: “O capital comanda o trabalho; as coisas acumuladas, que são mortas, têm valor superior ao trabalho, às forças humanas, àquilo que é vivo”. Ele alerta que o capitalismo tem necessidade de pessoas que cooperem sem atrito. É importante que consumam muito e de forma padronizada. No capitalismo o homem experimenta suas forças de vida como um investimento que deve produzir o máximo de lucro possível. Estamos tão alienados que mesmo buscando nos aproximarmos dos outros, não conseguimos superar a separação.  Então a civilização moderna/capitalista nos oferece soluções de curto prazo, fáceis e instantâneas: o trabalho rotinizado e burocratizado, a diversão acrítica e o consumo compulsivo patrocinado pela mega indústria da diversão. Mas isso não diminui a separação entre as pessoas!  E como fica o amor nesse ambiente?  Estamos impossibilitados de amar: “Autômatos não podem amar; podem trocar seus fardos de personalidade e esperar um bom negócio”.  O casamento passa a ser uma equipe de dois destinada a auferir lucros. Um ajuda o outro a ter sucesso no mundo capitalista.  “Forma-se uma aliança de dois contra o mundo, e esse egoísmo a dois é enganosamente tomado por amor e intimidade”.

O amor é uma arte. E só aprendemos uma arte praticando-a: não há uma receita. A experiência de amar é pessoal e intransferível. E para dominar uma arte é necessário disciplina e concentração. Concentração é algo muito difícil de conseguir em nossa cultura. Somos multifuncionais, multiuso, fazemos tudo ao mesmo tempo. O tempo tem pressa. Somos incapazes de ficarmos sós, em companhia de nós mesmos.  “Sentar-se quieto, sem falar, fumar, ler, beber, é impossível para a maioria das pessoas, precisam fazer alguma coisa com a boca ou as mãos”. Temos que aprender a ficarmos sós conosco mesmos, pois é essa capacidade uma das condições da capacidade de amar. Aprender a concentrar-se exige do aprendiz que evite a conversação trivial.  Falar das coisas de maneira abstraída não é concentrar-se, falar de lugares comuns, falar do que o coração não sente não é ficar atento.  Deve-se inclusive evitar as más companhias. “Por más companhias não me refiro apenas a pessoas que sejam viciadas e destruidoras; deve-se evitar a companhia destas por que sua órbita é venenosa e deprimente. Falo também da companhia dos zumbis, da gente que tem a alma morta, embora seu corpo esteja vivo; daqueles cujos pensamentos e conversas são triviais; que tagarelam em vez de falar e que emitem opiniões estereotipadas em vez de pensar”.
Outro fator é a falta de paciência. Queremos andar rápidos, mas a rapidez é má professora de uma arte.  “O homem moderno pensa que perde alguma coisa – o tempo – quando não faz as coisas rapidamente; todavia, ele não sabe o que fazer com o temo que ganha – a não ser matá-lo”. Aristóteles dizia que obtemos as virtudes através do hábito. Semelhantemente Fromm diz que se alguém quer tornar-se um mestre em alguma arte, devote a vida inteira a ela.  “Com relação à arte de amar, isto significa que quem aspire a tornar-se mestre nessa arte deve começar por praticar a disciplina, a concentração e a paciência, em todas as fases de sua vida”.
Mas, afinal, qual é a principal condição para eu realizar minha capacidade de amar? A superação do narcisismo. Para o narcisista só é real o que existe dentro de si mesmo. O que é exterior só visto sob o ponto de vista do útil e do perigoso. A pessoa insana toma como verdadeiro só aquilo que vai na sua cabeça, como num sonho eterno.  Todos nós somos meio insanos, somos atingidos por uma visão narcísica do mundo.  Nas palavras de Fromm: “A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é da humildade. Ser objetivo, usar a razão, só é possível quando se consegue uma atitude de humildade, quando se emerge dos sonhos de onisciência e onipotência que se tem quando criança”. Por isso o amor requer uma certa renúncia ao narcisismo, requer o desenvolvimento da humildade, da objetividade da razão. Humildade e objetividade são inseparáveis.  Preciso ver a pessoa que vou amar como ela realmente é, renunciar a quadro que pinto dela com as cores do meu desejo. A pessoa pode fazer parte do meu projeto pessoal, mas não é o meu projeto pessoal.
Não podemos deixar de salientar que Fromm diz: a fé em si mesmo é condição fundamental para o amor. Essa ”fé” é racional, uma convicção fundamentada na minha própria experiência ou sentimento. É a certeza e a firmeza que nossas convicções possuem, isso de forma argumentada, defensável e objetiva. Ter fé em mim abre espaço em meu psiquismo para ter fé no outro, para dota-lo da capacidade de eu amá-lo. “Ter fé requer coragem, a capacidade de correr um risco, a disposição de aceitar mesmo a dor e a decepção”. Quem tiver pouca fé em si, ou pouca fé no noutro, não pode amar em plenitude.


Em resumo: o homem moderno transformou-se em artigo, em coisa; experimenta sua energia vital como um investimento com que pode alcançar o mais alto lucro, considerando sua situação no mercado de personalidades. Alienou-se de si, dos semelhantes e da natureza. Seu objeto principal é a troca proveitosa de suas capacidades, conhecimentos e de si mesmo, de seu “fardo de personalidade” com outros que querem igualmente uma troca justa e proveitosa. A vida não tem meta, exceto de movimentar-se, nem princípio a não ser a de boa troca, nem satisfação que não seja a de consumir. (Revista pensamento biocêntrico. Página 36. http://www.pensamentobiocentrico.com.br/content/edicoes/14full.pdf)


domingo, 20 de setembro de 2015

DESAFIO NO BRONX; uma perspectiva maquiaveliana.

Prof. Amilcar Bernardi

Maquiavel propõe questões que tratam sobre como conquistar Estados e como conserva-
los. Sabia ele que a estratégia política trabalha com a fortuna fazendo com que os mais determinados e habilidosos controlasse a história. A iniciativa política deve ajustar-se às circunstâncias. O necessário é manter-se à frente dos acontecimentos, procurando imprimir-lhes rumo e alternativas mais propícias ao príncipe.
Para ele o povo é uma matéria que aguarda sua forma e a engenharia da ordem parte da análise da situação social, não resultando do arbítrio do fundador de Estados, mas de sua capacidade de captar, num momento de gênio, aquela forma desejável e de sua disposição para impô-la sem qualquer vacilação. Em suma, bom príncipe é aquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças que caracteriza a política para agir com energia a fim de conquistar e manter o poder. Sua reflexão é realista.
Maquiavel sabia que a política não pode ser algo ideal, mas algo que seja realizável entre homens comuns. O que é deve orientar o político bem mais do que deveria ser.
O filme DESAFIO NO BRONX pode ser lido sob a perspectiva maquiaveliana. O que vimos na tela foi um jogo forças. Alguns queriam dominar, outros apenas sobreviver, ainda outros precisavam manter o poder já estabelecido. Eram aparentemente interesses diferentes. Aparentemente porque era o mesmo: o domínio. Evidentemente que, sendo o mesmo interesse, eram irreconciliáveis.
Como qualquer Estado moderno (discutido por Maquiavel) as fronteiras entre bairros eram fixas. Cada bairro tinha seu comando, seus asseclas, amigos e inimigos; inclusive normas internas bem estabelecidas. Por exemplo: bairro de branco não tem negros e vice-versa. A vigilância é forte porque as pessoas acreditam naqueles valores. Tais valores são encarnados pelos comandantes dos bairros.  Para manter o status quo os “cidadãos” de cada bairro defendem seus espaços arriscando-se na medida do possível, não mais que isso. Quando a polícia, mais forte que cada comunidade isoladamente, aparece, há uma espécie de cessar fogo para que as forças se mantenham ativas para outros embates.
O bairro dos brancos, mais evidenciado, tem seu chefe. Mais velho e mais astuto. Leitor de Maquiavel entende os princípios do escritor italiano.  Para manter seu domínio, na maioria das vezes tenta ser amado. Quando não consegue usa da violência na medida certa. Não extrapola. Chama atenção na medida do medo que quer produzir. Está sendo fiel ao princípio do Príncipe quando diz que os homens têm menos escrúpulo de ofender o que se faz amar do que se faz temer.
O chefe sabe que não pode confiar em ninguém, sabe que seu bairro é feito de homens, e homens são ingratos e simuladores. Então também usa de artifícios e artimanhas para controlar as pessoas sob seu domínio.
O menino, filho do motorista do ônibus, admira tal figura esperta. Quer ser seguidor. Não aponta o responsável pelo assassinato que vira. O comandante sente-se em dívida com seu comandado. Estende sua proteção em troca de fidelidade.  O pacto é feito. Tal contrato é tão forte que tudo que o pai faz para afastar o filho de tal influência é inútil. O poder que o jovem passa a ter o corrompe fazendo dele dependente de seu protetor. E é assim que deve ser: a figura de protetor mantém as pessoas dependentes e esperançosas de poder partilhar um pouco do poder.
A dependência, a troca de favores entre quem comanda e quem é comandado é tão forte que quando o chefe morre, o poder é transferido para outra pessoa do mesmo estilo. O medo da violência da mudança deixa tudo como está. Não só o poder foi tomado quanto foi mantido. O jogo criado naquele bairro teve força suficiente para sobreviver ao seu criador.

O interessante é que houve pouca violência. Este era usado como último instrumento para manutenção do sistema montado. O jovem aprendiz de gangster era frequentemente advertido para agir com astúcia. A astúcia valia mais que a força. Sequer a polícia conseguiu prender alguém dos poderosos e descumpridores da lei.  A astúcia venceu sempre. Ninguém queria o mal de ninguém. Queriam apenas a manutenção dos privilégios. Não sentiam culpa em suas almas. Eram políticos que sabiam o que queriam.

sábado, 12 de setembro de 2015

Jogos de linguagem em Wittgenstein


Jogos de linguagem em Wittgenstein[1]


Neste estudo falaremos apenas da segunda fase de Wittgenstein, pois entendemos como mais relevante para o ensino médio as questões apresentadas nas investigações filosóficas.  Nesta fase passou a afirmar que é impossível uma redução legítima entre um conceito lógico (da linguagem) e um conceito empírico (realidade). Em outras palavras, a linguagem não é a captura conceitual da realidade, isto é, não é a reprodução do objeto, mas sim uma atividade, um jogo. E os jogos de linguagem adquirem seu significado no uso social, nos diferentes modos de ser e de viver no qual a linguagem está inserida. Estes jogos, portanto, são produzidos socialmente e não individualmente. “A linguagem é como uma caixa de ferramentas”.  Ela não é falsa ou verdadeira, mas se sabemos ou não a usar.  A tarefa da filosofia é usar adequadamente a linguagem, sabendo dos seus limites e calando-se diante do que não pode ser falado.
Na a obra Investigações Filosóficas o filósofo fala em semelhanças entre jogos de linguagem. Esse pensar dá mais vitalidade a linguagem, pois exercitamos tais jogos na vida cotidiana adaptados a cada circunstância: trabalho, lazer, disputas filosóficas e etc. O que há em cada situação é apenas uma “semelhança” de família. Assim pensando Wittgenstein, nas investigações, conclui que o sentido da palavra é o seu uso e o papel da filosofia é esclarecer o uso de cada uma das palavras em cada jogo de linguagem. 
A linguagem para este filósofo é baseada no habitual, no cotidiano.    Wittgenstein diz que há várias maneiras de representar os fatos, existem muitas linguagens semelhantes a jogos governados por regras próprias, inerentes a um dado contexto, cada jogo. Pertence a uma certa forma de vida onde tira seu sentido. Esse sentido se dá no uso que se faz da linguagem. Uso contido no cotidiano, nos modos comuns de falar ou nas linguagens específicas de artesãos e dos técnicos, e que não necessita de esclarecimentos. O fim de um determinado jogo é definido pela forma de vida em que se insere esse jogo. O proferimento humano é responsável por um padrão de correção. Tal padrão é um artefato humano. Isso não quer dizer que um indivíduo pode decidir por si mesmo o que é certo e o que é errado na arte da comunicação. Estamos vinculados à concepção que fazemos de nós mesmos como seres que observam um mundo independente e nele agem.  Se nos opomos a verdades que nos parecem necessárias, tal se dá apenas porque fomos nós que criamos as regras que as fazem ser assim; e   também podemos abrir mão daquilo que criamos.
Fica mais evidente a existência de jogos quando ensinamos uma criança. Dizemos, “Isto é um giz”.  Ela entende. Mas de repente ela nos pergunta, “O que é isto? Como mostrar a palavra isto? Patenteia-se que o significado de isto ou ali se aprende no seu uso mesmo e não tanto no aprender do uso. As palavras só se tornam claras no seu uso comum num determinado jogo de linguagem. A palavra explica-se no contexto em que for usada. Representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida. Essa referência à vida nos faz lembrar movimento, associações e variações. Assim é nossa linguagem.
As palavras explicitam-se quando nos inteiramos do jogo em que elas fazem parte. A frase do chefe ao funcionário: “Tu podes fazer isso para mim? ” Para o funcionário significará, apesar de ser uma pergunta, uma ordem na práxis da linguagem do escritório. Mas esse mesmo funcionário, ouvindo a mesma frase, mas proferida por um amigo, a entenderá de forma diferente. Uma expressão dita a um estranho, por exemplo, “Ë legal! ”, será ambígua. Poderá significar um fato juridicamente válido ou uma gíria com sentido bem diverso. Para reduzir a ambiguidade, torna-se necessário que convivam algum tempo no mesmo jogo.
Fica então evidente, que simplesmente denominar não faz uma linguagem. Quando apontamos à uma criança muito nova uma mulher e dizemos ”mãe”, a criança entenderá imediatamente que todos têm mãe? Que nem todas as moças são mães?  Que a mesma mulher que é mãe, também é tia, irmã, esposa, empregada? E quando ouvir a expressão “mãe pátria? ” Entenderá ela que a palavra mãe ocupa vários “lugares” nos vários jogos de linguagem?
A linguagem funciona em seu uso. Não nos cabe indagar sobre os significados das palavras, mas sobre suas funções práticas. Essas funções se exercem na vida. Isoladas de todos os contextos, a expressão não deve ser transformada em objeto de ponderações profundas sobre sua essência. Devemos considerar toas as espécies de contexto em que ela pode aparecer, só assim a elucidaremos.
Segundo o autor a linguagem engendra, ela mesma, suas superstições. A filosofia tem como tarefa esclarecer e neutralizar os efeitos enfeitiçadores da linguagem. O problema encontra-se no ímpeto em perguntar sobre a essência da linguagem. Devemos voltar nossa atenção a estudos sobre o funcionamento da linguagem.  Os usos múltiplos e variados, constituem múltiplas linguagens. Ela é um conjunto de jogos. Esses jogos são como ferramentas usadas para esclarecer o que queremos expressar. 





[1] Bibliografia:
Abbagnano, Nicola. A sabedoria da filosofia, Rio de Janeiro, Vozes, 1989.
Cotrim, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. 15a edição. São Paulo. Editora Saraiva. 2000.
Doria, Francisco Antônio. Marcus vida e obra, Rio de Janeiro, José Álvaro editor, 1969.
Stegmüler, Wolfgang. A filosofia contemporânea, 6a edição, São Paulo, USP, 1977.
Wittgenstein, Ludwig. Investigações Filosóficas, 3a edição. São Paulo. Abril Cultural, 1984.

sábado, 5 de setembro de 2015

Podemos ou não conhecer?

Prof. Amílcar Bernardi

Podemos ou não conhecer?

           Temos aqui um dilema. Algumas pessoas dizem que sim, podemos. Os que acham que podemos conhecer não entendem nem a pergunta se é possível ou não o conhecimento.  Pois é, para estes, óbvio que existe! Sob esse ponto de vista é uma bobagem perguntar se há dúvidas sobre a cor vermelha do farol. Não faz sentido então discutirmos se a cor vermelha da rosa é diferente para as pessoas que a veem.
Por outro lado, existe inúmeras pessoas que dizem que não podemos saber as coisas. Por exemplo, nem todos sabem física. Para quem não sabe, parece impossível saber. Para o daltônico* o vermelho é impossível. Para o cego, as cores não existem. O que é para mim, pode não ser para ti. Estranho, não? A filosofia acompanha essas questões. Surgiram várias correntes filosóficas antagônicas que tentam esclarecer se é possível ou não conhecer. Trabalharemos didaticamente apenas as principais teses.

“A inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela. (...).  Mas a inteligência culturalmente constituída não é mais fixa ou programada como a do cupinzeiro ou a da colmeia. Por meio de transmissão, invenção e esquecimento, o patrimônio comum passa pela responsabilidade de cada um.  A inteligência do todo não resulta mais mecanicamente de atos cegos e automáticos, pois é o pensamento das pessoas que pereniza, inventa e põe em movimento o pensamento da sociedade.  (...) Nada é fixo, o que não significa que se trate de desordem ou de absoluto relativismo, pois os atos são coordenados e avaliados em tempo real, segundo um grande número de critérios constantemente reavaliados e contextualizados. ” Lévy, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço, editora Loyola, 5ª edição, 2007. Pág.31




Afinal, o que é a razão?


Tanto a ciência quanto a filosofia jactam-se de fazerem uso da razão. Parece que a simples pronúncia de tal expressão afasta o senso comum e nos aproxima da ciência e da filosofia. Sabemos que não é tão simples assim.
A razão pode ser usada em vários sentidos. Aqui vamos diretamente nos ocupar do seu sentido filosófico ou científico. Não é fácil encontrar palavras não complexas para explicar. Iniciaremos dizendo que quando usamos o termo razão referimo-nos a uma instância que nos transcende e que através dela cotejo as informações externas e avalio minhas emoções e pensamentos.
A razão harmoniza, conecta o “dentro” de mim com o que está “fora”. Ela é transcendente porque está em cada um de nós de forma personalizada, mas também está em todos, pois todo o ser humano é racional. A razão é criativa porque trabalha nas infindáveis conexões e nos contextos.  Isso acontece porque a realidade não é algo único, fechado, linear. A realidade existe, humanamente falando, num contexto: como um enorme quebra-cabeças que só faz sentido em relação as partes. É ele que cria o sentido de tudo, o sentido da realidade.


Compreender é contextualizar, compreender é fazer ilações.


Os Gregos com os mitos trouxeram o uso da razão como explicação da realidade. Aristóteles avançou fantasticamente. A filosofia nascia. Mais próximos temporalmente de nós tivemos Francis Bacon, Descartes, Kant e infindáveis outros pensadores que estudaram e fizeram uso da razão nas suas vidas de intelectuais. 
A promessa feita pelos que estimulavam o uso da racionalidade era uma existência menos sofrida com mais tempo para o ócio. O progresso viria pelas mãos da filosofia e da ciência. De fato, o avanço material multiplicou-se geometricamente. Mas os espíritos continuaram sofrendo. A razão, a lógica, a física e a matemática cobraram sua conta: o desencantamento do mundo. Viver para quê? Sem Deus, sem poesia, sem plantas e pássaros... viver para quê? A razão nos libertou para nos escravizarmos na lógica fria do utilitarismo e nos ditames do mercado.





Jactar-se: Ter jactância, gabar-se, ufanar-se

Transcender: Passar além de; ultrapassar, Elevar-se acima de.

Cotejar: Confrontar, comparar, pôr em paralelo; confrontar.

Avaliar: Determinar o valor de, reconhecer a grandeza.

Ilação: Aquilo que se conclui de certos fatos; dedução, conclusão.

domingo, 16 de agosto de 2015

Dicas de Sociologia

Dicas de sociologia

Revolução Francesa – Marco Histórico, início da idade contemporânea

Contexto histórico: França no Século XVIII
- Contradição: A França abrigava importantes personagens do pensamento iluminista e contava com um estado monárquico centralizado e ainda marcado por diversos costumes atrelados a diversas tradições feudais.
-Extrema injustiça social no Antigo Regime;
- Os impostos pagos pelo 3º estado alimentando o luxo da nobreza;
- Era um país absolutista (Rei governava com poderes absolutos, controlando até a religião dos súditos);
- Havia a Bastilha (Prisão política da monarquia); 


- Sociedade hierarquizada:                 Clero (Não pagava impostos)
Nobreza (Rei e familiares, condes,   duques. Muito luxo)
Terceiro Estado (trabalhadores, camponeses, burguesia
                                                           – sustentavam a pirâmide)

Realidade social brutal: Os desempregados abundavam nessa sociedade. Os que trabalhavam e os camponeses viviam em miséria. Os burgueses desejavam uma situação melhor e maior participação política, pois estavam enriquecendo aos poucos.

Queda da Bastilha

- A situação do povo agravou-se tanto que foram às ruas para tomar o poder. Luis XVI acaba deposto.
- A bastilha foi invadida pelo povo, pois simbolizava a Monarquia Francesa. Isso em 1789.
-  A Nobreza foge da França.
- O Rei e sua família fogem, mas não capturas e acabam guilhotinados.
- O Clero teve seus bens confiscados.

Em agosto de 1789 a Assembleia Constituinte promulgou a Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão. Surgem avanços significativos na área social, com garantia de direitos iguais aos cidadãos franceses, além da maior participação política para o povo.
A declaração previa:
O respeito pela dignidade das pessoas 
Liberdade e igualdade dos cidadãos perante a lei
Direito à propriedade individual
Direito de resistência à opressão política
Liberdade de pensamento e opinião

No mês de agosto de 1789, a Assembleia Constituinte cancelou todos os direitos feudais que existiam e promulgou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Este importante documento trazia significativos avanços sociais, garantindo direitos iguais aos cidadãos, além de maior participação política para o povo.

Principais avanços nessa constituição:

Igualdade jurídica entre os indivíduos
Fim dos privilégios do clero e nobreza
Liberdade de produção e de comércio (sem a interferência do estado)
Proibição de greves
Liberdade de crença
Separação do estado da Igreja
Nacionalização dos bens do clero
Três poderes criados (Legislativo, Executivo e Judiciário)     

Curiosidade

A invenção da guilhotina foi atribuída ao médico e político Joseph Ignace Guillotin. Não tinha inicialmente o objetivo de amedrontar ninguém. Na verdade, diversos relatos históricos dizem que versões primitivas da guilhotina existiam ou foram experimentadas há muito tempo. Na verdade, a função de Joseph Guillotin foi aperfeiçoar o instrumento e propor o seu uso para a realização de uma execução rápida e indireta.

Ficou para o mundo ocidental

A Revolução francesa foi um marco na história Moderna. Afinal, o absolutismo caiu derrubado pelas mãos do povo. Os cidadãos lutaram e conseguiram derrubar os privilégios dos poderosos e obtiveram mais autonomia e mais direitos sociais. Isso refletiu-se em toda a Europa. Mas em contrapartida, a burguesia acaba por garantir seu domínio político. Com isso iniciam ao pensamento capitalista alicerçados no iluminismo.
Iluminismo

Agora fica fácil imaginar porque a França foi o principal difusor do iluminismo. Ele foi um movimento que agitou o mundo ocidental. Refletiu na política, no pensamento social, econômico e no pensamento filosófico. Baseava-se no uso da razão para encontrar o melhor caminho para a liberdade, a autonomia e, claro, a emancipação das consciências. O nome iluminismo faz alusão (creio que de maneira injusta) ao período “das trevas” da Idade Media, afirmando-se como sendo o contrário desse negror histórico.
O nome “iluminismo” fez uma alusão ao período vivido até então, desde a Idade Média, período este de trevas, no qual o poder e o controle da Igreja regravam a cultura e a sociedade.

Sociedade

Caracterizar o que seja sociedade não é coisa fácil. O conceito de sociedade foi tragado pelo senso comum, ao imaginário coletivo e ao discurso político das sociedades contemporâneas, a ponto de perder precisão. O conceito deveria servir a defesa da autonomia dos cidadãos, mas hoje presta-se tanto para ideais da esquerda quanto da direita, uma espécie de terra de ninguém. Hoje a culpa sempre é da sociedade: mas, em última análise, quem é a sociedade? Durante o Renascimento, este conceito diferenciava-se do conceito de sociedade natural, significando uma ordem social organizada, civilizada e racional. Para o capitalista é de suma importância definir « sociedade », pois o capitalista quer defender seu espaço. O conceito que melhor serve a essa classe é : as relações sociais são o ambiente para o exercício das liberdades, ou seja a liberdade de empreendimento e investimentos.
Apesar disso podemos afirmar que uma definição possível de sociedade é a seguinte:
É o relacionamento dos homens entre si que, organizado por formas distintas de trabalho, dá origem a uma cultura.
Sociedade: Corpo orgânico estruturado em todos os níveis da vida social, com base na reunião de indivíduos que vivem sob determinado sistema econômico de produção, distribuição e consumo, sob um dado regime político, e obedientes a normas, leis e instituições necessárias à reprodução da sociedade como um todo; coletividade.

A sociedade não pode ser definida como sendo um grupo de pessoas unidas por objetivos comuns; primeiro porque sociedade não é apenas uma reunião de indivíduos, mas o contato social entre pessoas que possuem valores diferentes, modos de agir diferentes e que por isso estão construindo constantemente relações entre si; segundo, porque tal relação, por sua vez, nem sempre significa que todas as pessoas de uma determinada sociedade estão unidas, pois uma sociedade pode ser organizada através da exploração, onde o conflito separa os indivíduos de um possível objetivo comum. A sociedade pode ser vista como um sistema em constante adaptação.
Assim sendo, estamos admitindo a existência de um relacionamento social também conflituoso e, por consequência, vamos aproximando-nos mais da nossa realidade.

Sistema de status e papéis

Todo o indivíduo ocupa na sociedade posições sociais que lhe dão maior ou menor ganho, prestígio social e poder.
O status social implica direitos, deveres, prestígios, conforme o valor social conferido a cada posição. Quanto mais elevado o status mais direitos e deveres são exigidos.
Numa sociedade, o individuo ocupa tantos status quantos forem os grupos sociais a que pertence. Ex.: uma pessoa é chefe de família, ocupa o cargo de gerente de vendas de uma empresa, é sócio de um clube, frequenta a igreja. São vários status.

Status: O grau de distinção ou de prestígio, ou a situação hierárquica de um indivíduo ou grupo de indivíduos perante os demais membros de seu grupo social, dependente de avaliações e critérios variáveis conforme as diferentes sociedades, e associados a ações, comportamentos e expectativas correspondentes.

O professor dando aula e exigindo o respeito dos alunos está cumprindo os deveres e usufruindo os direitos ligados a seu status social. Ou seja, está cumprindo seu papel social.
Papel social é o comportamento que o grupo social espera de qualquer pessoa que ocupe determinado status social. Corresponde mais precisamente às tarefas, às obrigações inerentes ao status.
Status e papel são coisas inseparáveis e só os distinguimos para fins de estudo. Não há status que não corresponda a um papel social e vice versa.

O que é o ser humano? [1]

A expressão “humano” pode referir-se a uma ideia menos determinada. “Humano” pode referir-se ao homem das cavernas (que ainda não era exatamente uma pessoa). Homem pode indicar o gênero (sapiens refere-se a espécie). Usar o termo pessoa parece ser mais específico, pois aponta para ser alguém, ter consciência de si mesmo, ser sujeito de sua história; portanto, ser sujeito ético. Ser pessoa é ter uma ação personalizada (no sentido de marcar sua ação por seus valores pessoais – inspirado pela sua vontade) e marcada pela liberdade de escolha. Despersonalizar o indivíduo é torna-lo menos pessoa mesmo continuando homem.
importante: o quesito determinante para ser pessoa é ser livre.
Somos pessoa quando transcendemos, ou seja, nos elevamos acima da nossa vida material/social e a questionamos. Ao questionarmos “de cima” e decidirmos sobre nossas ações, personalizamos nossa existência. Transcender é bom para reflexão, mas não podemos esquecer que a “pessoa”mora dentro de um corpo. Esse corpo relaciona-se com os demais corpos. Um corpo “masculino” comporta-se de maneira especial com o corpo “feminino”a sua frente. Aí a cultura mostra sua influência. Minha visão do mundo e do outro é uma visão sexual/cultural. A aparência convida ao interesse, vamos ao outro. Mas ser pessoa é refletir sobre a pessoa do outro (seu mundo interior, seu jeito de agir no mundo). Meu mundo interior lê o mundo interior do outro. Na verdade meu mundo interior (eu/pessoa) lê o mundo.
Nesse texto vamos usar a expressão homem, pois não será necessário para entendermos a ideia que queremos dizer, um detalhamento tão forte.  Mas, o que foi dito antes convém não esquecer.
Quando perguntamos o que é ser humano, de maneira geral as pessoas acreditam saber a resposta. Quando questionamos de maneira mais profunda fica claro que é utilizado o sendo comum para explicar. As pessoas acreditam saber mais do que realmente sabem. Ouvimos muitas pessoas dizerem que o homem é mau. Ora, parecem saber o que é o mal. Afirmam que o homem é isso ou aquilo com incrível certeza. Parece que nada muda, sempre foi assim e sempre será. As pessoas no seu dia a dia falam mais do que a ciência pode confirmar.
Nas nossas afirmações diárias expressamos o que pensamos sobre a humanidade, como ela é na sua aparência.
A nossa intenção com esse texto é justamente refletir sobre os pressupostos teóricos que deixamos de observar quando falamos sobre a espécie humana.
Os animais vivem em harmonia com sua própria natureza porque os instintos animais são regidos por leis biológicas naturalmente imutáveis, o que torna possível prever as reações típicas de casa espécie. A ciência que se ocupa do estudo comparado do comportamento dos animais, indicando sua regularidade, chama-se etologia.

Etologia: Estudo dos hábitos dos animais e da sua acomodação às condições do ambiente.

Os animais superiores são capazes de encontrar soluções criativas porque fazem uso da inteligência. Um macaco mobilizado pela fome, ao encontrar uma banana fora do alcance da mão, enfrenta uma situação problemática, resolvida apenas com a capacidade de se adaptar às novidades mediante improvisação.  Acontece que a inteligência animal é concreta, porque se acha presa à experiência vivida naquele momento. Por exemplo, quando o macaco pega a banana com um bambu, este esforço não é aperfeiçoado posteriormente. Os chipanzés são capazes de criar organizações sociais e de fazer utensílios com formas mais elaboradas de comunicação. Apesar disso, essas habilidades servem apenas para melhor adaptar o animal ao mundo natural.

Natureza humana: Antropologia - O conjunto das características físicas e orgânicas, mentais, psicológicas, afetivas, etc., que, nos seres humanos, são supostamente comuns a toda a espécie e invariáveis, isto é, independentes da influência das sociedades ou culturas específicas em que os indivíduos nascem e se desenvolvem.  Filosofia - O conjunto das qualidades percebidas como idênticas, imutáveis e comuns a todos os seres humanos, e que seria suficiente para caracterizá-los como tais.

Inteligência: Aptidão para obter conhecimento e para apresentar questões teóricas a si próprio. A inteligência produz atos voluntários e criativos. É diferente do instinto, pois baseia-se na capacidade de improvisação e na previsão das consequências futuras. Não há um único conceito, é uma questão complexa.

Nós, ao contrário dos animais, desenvolvemos comportamentos diversificados e precisamos da educação para nos tornar propriamente humanos. Cada criança recebe a herança cultural sempre mediada pelos outros, com os quais aprende os símbolos que a tornam capaz de agir e compreender a própria existência.
Portanto o processo que possibilita o desenvolvimento da individualidade se encontra em íntima relação com a socialização, pela qual o ser humano se apropria dos resultados da experiência histórica da sociedade em que nasceu.

Socialização: [De socializar + -ção.] - Desenvolvimento do sentimento coletivo, da solidariedade social e do espírito de cooperação nos indivíduos associados. - Processo de integração mais intensa dos indivíduos no grupo.

Com o passar dos séculos, das grandes invenções e da criação da propriedade privada, o homem desenvolveu-se espiritualmente, quero dizer, intelectualmente. O homem tornou-se um híbrido: simultaneamente um ser biológico e cultural. Nele ocorre uma síntese, isto é, uma integração de características hereditárias e adquiridas, aspectos individuais e sociais, elementos do estado de natureza e de cultura. Por isso o ser humano é contraditório, ambíguo, instável e dinâmico. Um produto da natureza e da cultura e, ao mesmo tempo, um transformador da natureza e da cultura. Um ser capaz de dominar a natureza mesmo fazendo parte dela. Transformou e qualificou o mundo, mas também o está destruindo. Acumula tecnologia, ciência, saberes sem conta e, no entanto, permanece angustiado por dúvidas profundas que o fazem sempre propor novas perguntas e novos problemas a si próprio.
Dentro da biosfera o ser humano criou a ideosfera. A ideosfera é o cosmo humano, um espaço construído pelos conhecimentos e realizações desenvolvidos e compartilhado pelos diferentes grupos sociais.

Émile Durkheim: [2]

Nasceu em 1858 na cidade francesa chamada Épinal. Era descendente de rabinos. Os valores de sua família eram muito tradicionais: respeito e obediência ‘as ordens do chefe da família. Perdeu seu pai quando era ainda pequeno. Isso influiu bastante na sua vida. Sendo o mais velho assumiu o lugar do pai ficando responsável, inclusive, pelo sustento da família.
Recém-formado começa a dar aulas na universidade de Bordéus, lecionanda ciência social e pedagogia. Em 1902 (44 anos) passa a lecionar na Sorbonne, lá ele fundará a cadeira universitária de sociologia. Através de Durkheim que a sociologia torna-se obrigatória no ensino de ciências humanas nos cursos universitários.
Escolhemos Durkheim como representante da sociologia para nossos estudos porque ele foi um dos principais teóricos desta ciência.
A sociologia estuda os fatos como eles são, descrevendo-os, analisando-os e explicando os mesmos.  Esta ciência contextualiza a interação social no todo e não o explica através de uma única faceta.  A sociologia baseia-se no positivismo.

Sociologia: Estudo objetivo das relações que se estabelecem, consciente ou não, entre indivíduos que vivem em comunidade ou grupo social. A sociologia tem por objetivo o estudo das relações que surgem e se reproduzem na coexistência de diferentes pessoas ou grupos em uma sociedade mais ampla.  Relação contextualizada nas normas, leis e valores gerados pelo próprio grupo (conscientemente ou não).

O conhecimento científico avançava sobre o mundo social.  A sociedade estava sob o crivo da ciência. Tornou-se então necessário um avanço nas metodologias, na linguagem (vocabulário próprio) e nos instrumentos de comprovação que dessem conta das necessidades de explicação da sociedade.

O positivismo e a sociologia

O positivismo é uma opção filosófica que opta por uma visão de mundo baseada na ciência, ou seja, no método científico.   O método científico seria o meio mais confiável para que possamos conhecer o mundo físico e humano.  O positivismo só aceita o conhecimento racional e objetivo.  Notadamente na segunda metade do século XIX os valores são estipulados por uma ética humana. Há um afastamento da teologia e da metafísica. Os estudos se destinam aos fatos observáveis e suas relações. A ciência se baseia apenas no mundo físico/material. Nesse século a Europa teve um notável desenvolvimento tecnológico refletindo-se  na produção industrial. A Europa saia de seus domínios e conquistava novas terras e povos (África e Asia). Aproximavam-se o imperialismo e a ciência. Este pensamento é profundamente otimista, pois acredita que todo o conhecimento é possível dentro de uma visão científica.
Durkheim tentou provar que a sociologia é uma ciência e que dever ser neutra diante dos fatos sociais. Ou seja, o cientista tenta não se envolver em ideologias nem emite opiniões infundadas. Esta ciência deve basear-se primeiro no conhecimento prévio e cientifico da sociedade e não na ação política desvinculada da realidade dos aspectos econômicos e históricos dessa mesma sociedade. A sociologia não deve apenas explicar o que acontece em sociedade, mas também propor soluções para os problemas.
A sociologia desenvolvida por Durkheim tenta compreender o capitalismo, para conseguir essa compreensão desenvolve uma série de conceitos, ou seja, uma teoria. Vejamos alguns conceitos dessa teoria:
√ Consciência coletiva: é a ideia do psíquico social. Cada indivíduo tem uma psique, isto é, um jeito de pensar e agir, de entender a vida. Cada um tem uma consciência individual que faz parte de nossa personalidade. Esta, porém, não é a única forma de consciência: existe também aquela formada pelas ideias comuns que estão presentes em todas as consciências individuais de uma sociedade. Essas ideias comuns formam a base para uma consciência de sociedade: uma primeira consciência que determina a nossa conduta e que não é individual, mas social e geral, denominada por Durkheim de consciência coletiva.  Ela é objetiva, não vem de uma pessoa ou um grupo, mas está difusa em toda a sociedade. É o que a sociedade “pensa”. São condutas padronizadas e formas de pensar anteriores a quem está pensando. Aqui aparecem as regras sociais, que já existem antes do indivíduo nascer, fazendo com que este já esteja imerso numa consciência que tende a determiná-lo.  Não nos referimos as condutas e formas de pensar de grupos, mas de toda uma sociedade.
Ex.: Não sou obrigado a falar o mesmo idioma dos meus companheiros de pátria nem empregar a moeda legal, mas é impossível agir de outra maneira.

√ Solidariedade mecânica: As sociedades anteriores ao capitalismo (sociedades tribais e feudais) a divisão do trabalho social era pouco desenvolvida, não havia um grande número de especializações das atividades sociais. No feudalismo a produção dos bens de consumo era realizada pelo trabalho artesanal que não dependia de outras pessoas. Para fazer uma mesa, o servo só precisava de sua força. Nas sociedades tribais a pessoa não se une porque um depende do trabalho do outro, e sim, são unidos por uma religião, tradição ou sentimento comum a todos. Aqui a consciência coletiva consegue aparecer com todo seu poder de coerção.
Esta união das pessoas a partir da semelhança na religião, tradição ou sentimento é o que Durkheim chama de solidariedade mecânica.

√ Solidariedade orgânica: ao contrário aparece quando a divisão do trabalho social aumenta, e aí, como vimos, o que torna as pessoas unidas não é a crença comum a todos, mas uma interdependência das funções sociais.
A união das pessoas a partir da dependência que uma tem da outra para realizar uma atividade social é o que Durkheim chama de solidariedade orgânica.
Durkheim admite que a solidariedade orgânica é superior a mecânica, pois ao se especializarem as funções, a individualidade, de certo modo, é ressaltada, permitindo maior liberdade de ação.  Isso porque nossa conduta é orientada pela consciência coletiva que é coercitiva, mas no momento em que as atividades sociais são muito divididas, as pessoas passam a depender umas das outras e ao mesmo tempo, cada uma, ao especializarem-se na atividade que realiza, passa a desenvolver sua individualidade. A atividade de cada um é tanto mais pessoas quanto mais ela for especializada. Por isso, há uma frouxidão na possibilidade de coerção exercida pela consciência coletiva.
Durkheim tinha uma visão otimista sobre o futuro do capitalismo. O processo desencadeado pelo capitalismo traria um aumento generalizado da divisão do trabalho social e, por consequência, da solidariedade orgânica. Assim desapareceria os conflitos e os problemas sociais. Para ele o capitalismo é a sociedade perfeita. Trata-se apenas de conhecer os problemas e de buscar uma solução científica. Estas seriam então a tarefa da sociologia: compreender o funcionamento da sociedade capitalista de modo objetivo para observar, compreender e classificar as leis sociais, descobrir as que são falhas e corrigi-las por outras mais eficientes.

Fato social

Os fatos sociais são o objeto de estudo da sociologia, segundo o autor em estudo. O que são fatos sociais? Toda a maneira de agir e pensar fixa ou não, capaz de exercer sobre o individuo uma coerção exterior, apresentando uma existência própria independente das manifestações individuais que possa ter.  Diz-se externo porque são fatos coletivos, como a religião ou o sistema econômico, por exemplo, independentes do indivíduo, que já o encontram prontos quando nascem e que morrerão antes que estes fatos deixem de existir.  São internalizados através do processo de socialização.  O fato social é percebido pela pessoa como uma realidade independente dela e que já existia antes do seu nascimento. Ele tem força porque vem alicerçado em sanções legais ou espontâneas.
As maneiras de agir são formas de agir e pensar coletivas, que determinam o comportamento dos indivíduos, que os obrigam a agir de uma determinada forma, mas não tem uma longa duração no tempo, ou seja, são efêmeras e instáveis. Um exemplo: linchamento – individualmente não fariam. É o grupo com sua capacidade de coerção que os leva a agir dessa maneira.
As maneiras de ser também são fenômenos de ordem coletiva que determinam o comportamento dos indivíduos, mas nesse caso há uma durabilidade no tempo, uma permanência ou estabilidade. Exemplos: sistema religioso ou econômico.
Mas há uma relação entre esses dois fenômenos: muitas vezes um movimento social se inicia como maneira de agir e pode vir a se fixar e estabelecer (se institucionalizar) e daí se tornar uma maneira de ser. Exemplo: Uma gíria acaba se estabelecendo em padrão ou regra (neologismos). Mas na maioria das vezes as gírias são maneiras de agir (efêmeras).
Podemos então fazer uma observação importante: a sociologia deve explicar os fatos sociais e não todo e qualquer fenômeno que tenha algum interesse social.
Os fatos sociais são exteriores, acabam por serem introjetados pelos sujeitos e acabam por domina-los.

Características dos fatos sociais

Generalidade: o fato social é comum aos membros de um grupo;
Exterioridade: o fato social é externo ao indivíduo, existe independentemente de sua vontade;
Coercitividade: os indivíduos se sentem obrigados a seguir o comportamento estabelecido.
Em função dessas características podem ser tratados como coisas.

Para identificar os fatos sociais entre os diversos acontecimentos da vida, Durkheim orienta o sociólogo a ater-se àqueles acontecimentos mais gerais e repetitivos e que apresentem características exteriores comuns. De acordo com esses critérios, são fatos sociais, por exemplo, os crimes, pois existem em toda e qualquer sociedade e têm como característica comum provocarem uma reação negativa, concreta e observável da sociedade contra que os pratica, a que podemos chamar de “penalidade”.   Agindo dessa forma objetiva e apreendendo a realidade por suas características exteriores, o cientista pode analisar os crimes e suas penalidades, sem entrar nas discussões de caráter moral a respeito da criminalidade, o que, apesar de útil, nada tem a ver com o trabalho científico do sociólogo. (Costa, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade – 3ª edição – São Paulo, editora Moderna, 2005. Página 84)

Cidadania

A palavra cidadania deriva da palavra cidade. Mas não se refere apenas a quem mora nela, mas aponta principalmente para a efetividade dessa residência.  Essa efetividade manifesta-se nos direitos políticos que garantem a participação na vida política do país. A cidadania é exercida por cidadãos. Cidadão é um indivíduo que tem consciência de seus direitos e deveres e participa ativamente de todas as questões da sociedade. Tudo o que acontece no mundo, acontece comigo. Então eu preciso participar das decisões que interferem na minha vida. Um cidadão com sentimento ético forte e consciência da cidadania não deixa passar nada, não abre mão desse poder de participação. A ideia de cidadania ativa é ser alguém que cobra, propõe e pressiona o tempo todo.
A cidadania é natural e legal. Natural porque surge quando nascemos em determinado país. O nascimento faz com que eu pertença aquela nacionalidade. Também é legal, por que em virtude de residirmos em certa parte do território nacional, a cidadania pode ser outorgada, por exemplo, a naturalização. Outro exemplo são os limites a cidadania legal quando a pessoa é presa.
A cidadania está diretamente vinculada aos direitos humanos, uma longa e penosa conquista da humanidade, que teve seu reconhecimento formal com a Declaração Universal dos Direitos do Homem; aprovada pena ONU em 1948.
Observe alguns tópicos desses direitos e reflita se estão sendo postos em prática:
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos.
todo homem que trabalha tem direito a remuneração justa.
Todo homem tem direito a alimentação, vestuário, habitação e cuidados médicos.
Todo homem tem direito à vida, à liberdade e segurança pessoal.
Todo homem tem direito ao trabalho e à livre escolha de emprego.
Todo homem tem direito à instrução.

Agora observe alguns itens dos Direitos das crianças, uma declaração de dez itens aprovados pela assembleia geral das Nações Unidas, em 1950:

☼ Direito a proteção especial para seu desenvolvimento físico, mental e social.
☼ Direito à alimentação, moradia e assistência médica adequadas para a criança e a mãe.
☼ Direito a educação e a cuidados especiais para a criança física ou mentalmente deficiente.
☼ Direito a educação gratuita e ao lazer.
☼ Direito a ser protegido contra o abandono e a exploração no trabalho.



DUDH: Declaração Universal dos Direitos Humanos [3]


O DNA da Violência

A cada grupo de 10 adolescentes internados na Fundação de Atendimento socioeducativo do Estado (Fase) em Porto Alegre, quatro não convivem com o pai – porque não conheceram ou porque eles se ocupavam em roubar, traficar, matar enquanto os filhos cresciam e se tornavam criminosos. É o que constatou Zero Hora em uma pesquisa realizada com o auxilio da assessoria de Informação e Gestão da Fase, levantamento que ajuda a revelar uma das raízes da violência juvenil. Nas páginas seguintes, a partir da trajetória de um homicida, um punguista e um assaltante, ZH revela como famílias desestruturadas alimentam a criminalidade e transformam vítimas em algozes. (Artigo do Jornal Zero Hora. 20/maio/2007


É nosso direito enquanto humanos sermos protegidos pelo Estado. Para que possamos viver em uma nação democrática e moderna, precisamos ter um mínimo de qualidade de vida. Os governos estão aí para isso, estabelecer um nível razoável de dignidade para seu povo. Podemos fazer essa afirmação embasados nos tão famosos “Direitos Humanos”. Eles são fundamentais: toda a pessoa tem de ser protegida em sua integridade física e psicológica. Proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana.
Em uma realidade tão sofrida parece não ser real tais direitos. Mas pensemos se não existissem: Como viver sem o direito de ir e vir sem ser molestado? Como ter tranquilidade sem o direito de ser tratado pelos agentes do Estado com respeito e dignidade? Como querer a recuperação do infrator sem o direito de ser acusado dentro de um processo legal e legítimo? Agora creio que dá para perceber que é necessário, para mantermos nossa civilização, regras que garantam segurança para todos.
Constituição brasileira

Art. 4o A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
II – prevalência dos direitos humanos.
Art. 5o Leia todo.
Art. 6o São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta constituição.

A constituição brasileira reconhece tais direitos. Isso acontece porque eles são anteriores a qualquer ordenamento jurídico nacional. Eles são intrínsecos a própria natureza humana. Qualquer ordenamento jurídico que não reconheça o que é da própria natureza humana é injusto. Mas não podemos ter um entendimento, fruto do senso comum, que tais direitos fundamentais protejam bandidos impedindo que a lei civil ou penal os atinja. Isso seria um absurdo que levaria os Estados ao caos social. O que de fato existe é o respeito à pessoa, não significando impunidade. Caso isso aconteça, é uma deturpação dos Direitos Humanos.
No momento em que dissemos que os direitos humanos são intrínsecos às pessoas, passam a serem globais: onde há pessoas, há tais direitos. Eles existem para garantir a todos, principalmente, o direito à vida, à liberdade, à igualdade e à dignidade. Tenta-se garantir através de leis um mínimo de respeitabilidade à pessoa, de decência e amor próprio. Ë uma garantia contra a qual nenhuma outra lei atentará, nem nenhuma autoridade a poderá ignorar. Os direitos humanos têm tal relevância porque sem eles não há como sobreviver, pois a sociedade ficaria tão inóspita que não mais nos desenvolveríamos de forma sã. É por demais importante que as benesses da sociedade sejam distribuídas, do contrário não haverá justificativa para a própria existência da sociedade. Nosso estado gregário se dissiparia reinando a violência.
Todos somos iguais. Pelo menos em direitos. Todos, independentes da sua cultura, de onde esteja ou da cor que tenha é humano, e, portanto, portador de direitos. Isso acontece por que todos têm igual necessidade de dignidade e conforto mínimo, então, são idênticos no que se refere ao amparo legal da sua condição humana. Imperioso lembrar que tal igualdade existe inclusive para o criminoso mais repugnante que exista. Gozar desses direitos é condição indispensável para a manutenção da paz entre os povos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos na sua introdução é muito elucidativa quando se utiliza do termo “família humana”. Vivemos todos na mesma casa/terra, todos somos familiares, portanto.
O surgimento de tais direitos e seu reconhecimento aconteceu porque o mundo está sob a opressão e a guerra, a fome e a miséria. Foi a negação dos direitos mínimos do homem que fez surgir a proteção legal para todas as pessoas.  Inúmeros países se comprometeram em respeitar essa regulação. Evidente que mesmo os Estados que se comprometeram não os cumprem em sua integralidade. Mas ao menos a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um paradigma onde podemos vislumbrar o grau de afastamento dos governos do mínimo exigido para o bem estar das pessoas.
Após a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) é reconhecida a dignidade intrínseca à condição humana. Todas as ações que atentem contra esse reconhecimento são ações bárbaras, incivilizadas. A DUDH existe para criar uma atmosfera de liberdade e desopressão.  A partir dela passa a existir a desnecessidade de revoltas civis dolorosas contra governos totalitários; pelo menos em tese. Se os homens não conseguem viver em harmonia naturalmente, que agora sob o império da lei internacional possam.
É reconhecido que todos os povos têm direito a terem direitos. Para tanto todas as constituições devem se inspirar nos direitos humanos inalienáveis e imprescindíveis. Através dessa postura, e somente através dela, será possível o progresso social e crescimento da qualidade de vida. Sem respeito às pessoas e sem liberdade é impossível uma sociedade saudável. A DUDH é um ideal a ser buscado através de ações práticas, principalmente através do ensino e da educação.

O ser humano é fundamentalmente um ser de cuidado mais que um ser de razão e de vontade.
Cuidado é uma relação amorosa para com a realidade, com o objetivo de garantir-lhe a subsistência e criar-lhe espaço para o seu desenvolvimento. Em tudo os humanos colocam e devem colocar cuidado: na vida, no corpo, no espírito, na natureza, na saúde, na pessoa amada, em quem sofre e na casa. Sem cuidado, a vida perece.
A ética do cuidado é seguramente a mais imperativa nos dias atuais, dado o nível de descuido e desleixo que paira como uma ameaça sobre a biosfera e o destino humano, objeto de crescentes alarmes dos grandes organismos ecológicos mundiais.
Boff, Leonardo

Cabe aqui lembrar que é necessária a visão da terra como pátria, ou seja, somos cidadãos do mundo e, portanto, sujeitos as vantagens e desvantagens disso. As nações não estão mais sós no momento de suas decisões. No dizer de Leonardo Boff, o conceito de Estado está sendo influenciado pela consciência da cidadania planetária. A terra é o centro das preocupações e nós, humanidade, somos seus filhos. Todos temos, então, um certo parentesco. Para essa realidade global, impõe-se uma ética global. Sob esse ponto de vista, podemos inserir os direitos humanos nessa visão planetária.Todos temos os mesmos direitos porque moramos na mesma casa (terra) e como irmãos devemos nos respeitar e cuidar. Os povos devem manter suas singularidades, mas também manter a abertura ao diálogo. Nações fechadas promovem desrespeito ao diferente e, portanto, segregação, perseguição e injustiças: isto é, na contra mão da DUDH.
Os três primeiros artigos da DUDH são muito claros quando dizem na integra:
Artigo I - Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.  
Artigo II - Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Artigo III - Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Igualmente importante é o artigo XI:
1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.  
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

A democracia política

De uma maneira bem simples podemos afirmar que democracia é o governo do povo. O fundamental é isso: o povo detém o poder. Ele está acima dos poderes legislativo e o executivo. A liberdade passa a ser institucionalizada, ou seja, o Estado passa a garantir nossos direitos e, em troca, consentidamente, exige obrigações. Que todos saibam: a democracia exige trabalho para sua manutenção. É necessário, no mínimo, a constante vigilância do povo através do voto, das instancias instituídas ou através das ONGS internacionais.
A principal função hoje da democracia é proteger os direitos humanos fundamentais como a liberdade de expressão e de religião; o direito a proteção legal igual; e a oportunidade de organizar e participar plenamente na vida política, econômica e cultural da sociedade (tais direitos são explícitos na DUDH). Outra vantagem da democracia é que ela permite o uso consciente da liberdade. O uso consciente da liberdade permite a correção dos erros do regime democrático.
Constituição Federal brasileira
Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: [4]
I – plebiscito;
II – referendo:
III – iniciativa popular

A democracia hoje parece ser uma forma de governo inquestionável no sentido de ser a melhor possível. Essa unanimidade nem sempre foi assim. A democracia surgiu na Grécia, século V ªC. Filósofos do peso de Platão e Aristóteles não pensavam ser a democracia a melhor forma de governar, ao contrário. O povo dominando as decisões políticas é perigoso, pois a massa é instável e ignara. O argumento é simples: quando temos uma doença, chamamos o médico. Quando a energia em minha casa é interrompida, chamo o eletricista. Quando meu cachorro está doente só chamo o veterinário. Para cada problema um especialista. A democracia chama qualquer um, ou todos, para decidirem de forma igualitária sobre assuntos específicos e difíceis como economia, guerras, saúde pública e etc. Como pode quem não entende do assunto opinar sobre ele?
Atualmente alguns elementos são condição para que um país possa ser chamado de democrático. As leis devem ser claras, privilegiando o acesso a todos os cidadãos ao voto. Os poderes devem ser autônomos, haver mais de um partido político e estes serem livres para expressar suas ideias e propostas dentro dos limites da lei.
Por que o voto é tão importante para a democracia? É importante porque nos alerta que o poder não é de ninguém, ou melhor, é de todos (povo).  O poder é uma espécie de lugar vazio onde o cidadão tem o direito de o ocupar por algum tempo a favor de todos.

Em Atenas desenvolvia-se pouco a pouco uma democracia com assembleias populares e tribunais. Um pressuposto para a democracia era o fato de que as pessoas recebiam educação suficiente para poder participar dos processos democráticos. Em nossos dias, podemos ver o quanto uma jovem democracia precisa de um povo esclarecido. Entre os atenienses era particularmente importante dominar a arte de bem falar, a retórica.
Gaarder, Jostein. O Mundo de Sofia: romance da história da filosofia – São Paulo: companhia das letras, 1995. Pág. 77

Nas democracias a educação é de suma importância, é necessário às pessoas entenderem o valor da coisa pública. O cidadão precisa colocar acima dos interesses particulares o interesse público. Esse pensamento não é algo que acontece naturalmente. É bem provável que primeiro pensemos em nossos interesses, depois nos interesses dos outros. Por isso educar o povo é necessário, através de bons exemplos discipliná-lo a ponto de respeitarem o outro e votando sempre pelo bem da polis, não de si mesmo. A democracia é o sistema político que mais exige um povo educado!    
Democracia: Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade.

O dissenso vai ceder espaço para consensos a medida que a democracia vai amadurecendo. Debaixo para cima as coisas vão acomodando-se, ou seja, do povo vêm as decisões sobre os rumos das nações democráticas. É possível dizer que a democracia precisa do dissenso para amadurecer e crescer qualitativamente. As tiranias sufocam os conflitos.
É corrente na democracia a ideia de igualdade. A igualdade é um problema, por que não somos de fato iguais. O que acontece é a criação artificial de uma igualdade para que a política seja mais saudável com a participação de todos. Cuidado: não podemos cair na massificação, ou seja, um mundo homogeneizado no desejo de consumir coisas semelhantes: tênis da moda, roupas de marca, enfim, indivíduos buscando o consumo de forma igual. O capitalismo diz que para sermos diferentes (e livres) consumamos com igual volúpia objetos que nos diferenciarão uns dos outros. Igualdade não é a capacidade de consumirmos igualmente produtos no mercado.
A ideia de maioria veio da Grécia. A maioria seria a vontade da nação. Claro que, na Grécia clássica, não era cogitada a figura dos representantes e, consequentemente, de eleições para cargos públicos. Acontecia uma assembleia em que todos aqueles que eram considerados cidadãos participavam tomando as decisões públicas.
Façamos da democracia um espaço político para a cooperação na criação de um mundo de convivência no qual nem a pobreza, nem o abuso, nem a tirania surjam como modos legítimos de vida. A democracia é uma obra de arte político-cotidiana que exige atuar no saber que ninguém é dono da verdade, e que o outro é tão legítimo quanto qualquer um.
Maturana, R., Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte. Ed. UFMG. 1998.
Uma maioria numa condição de igualdade, hoje, passou a ser critério para uma escolha popular democrática. Mas há falhas. As minorias passam a ser discriminadas e caladas pela maioria. E com certeza inúmeras vezes as minorias tem ideias mais apropriadas para o momento que as grandes massas. Então passa a ser de suma importância a ideia de igualdade, onde as minorias terão voz e vez. A maioria, agindo e pensando de forma semelhante, força uma normalidade na sociedade, uma normalidade que nem sempre é saudável para todos. É claro que, a luz dos direitos fundamentais das pessoas, mesmo numa democracia, não ser retirará os direitos e as liberdades fundamentais de um grupo minoritário ou de um indivíduo. Os fracos e em menor número, portanto, com seus direitos assegurados, passam a participar e contribuir para as instituições democráticas.
Em um mundo globalizado a democracia sofre influência forte do mercado. O mercado tende a fazer o papel do Estado, ou seja, dita as regras para as economias nacionais influindo na qualidade de vida dos povos e no princípio da independência (soberania) das nações.

Soberania: Propriedade que tem o Estado de ter uma organização interna suprema que não deve a sua validade a nenhuma outra ordem superior. O Estado soberano se autodetermina no âmbito interno e externo independentemente dos demais Estados.

Então fica claro que já não basta só votar. Eleições livres são o mínimo para sermos democrático. E politicamente falando, é necessário muito mais que o mínimo numa sociedade complexa e globalizada. É necessário o mais difícil: a sociedade a organizar-se. O cidadão deve lutar por seu espaço e vez. Unidos a força é maior. As pessoas sabem melhor do que precisam que seus representantes. Um bom exemplo é o orçamento participativo de Porto Alegre/RS. O OP foi indicado como uma inovação na participação popular. Inúmeros outros municípios passaram a utilizar-se de metodologia semelhante.
                                      
O cidadão:

A palavra cidadania deriva da palavra cidade. Não só porque a pessoa nela resida, mas porque a cidade lhe confere direitos políticos para que possa da vida da cidade participar. Então podemos dizer que cidadão é a pessoa que tem o direito de gozar plenamente seus direitos civis e políticos na cidade, mas que também tem deveres para com ela. Os deveres estão materializados nas regras a serem cumpridas. Essas regras são a garantia da liberdade para o usufruto das benesses defendidas pelo Estado.
Ser cidadão significa participação e, principalmente, vigilância: ou seja, a democracia exige trabalho e manutenção constante. Os cidadãos votam, é o povo que se candidata aos cargos eletivos, são as pessoas comuns que mantém a democracia exigindo o cumprimento das leis e as cumprindo.
Uma reflexão importante sobre cidadania é que ela baseia-se no princípio que os cidadãos são iguais perante a lei; a lei, e só ela, garante essa igualdade. Por que a lei deve garantir?  Porque essa igualdade tende a não ser respeitada dentro do capitalismo. Afinal o capitalismo gera a desigualdade: riqueza, posse, enfim, gera o acúmulo de bens. A cidadania nasce da tensão entre o capital e seus defensores e os trabalhadores dependentes desse capital.  Por isso afirmamos que a democracia é um processo. Algo em andamento eterno, aperfeiçoando-se através do controle dos cidadãos sobre o Estado e não o Estado controlando a opinião do cidadão. Podemos até dizer que a sociedade faz o Estado; sociedade discriminatória e corrupta faz um governo discriminatório e corrupto.

Constituição Federal de 1988:

        Art. 3º - Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.


[1] Aranha, Maria Lúcia de Arruda. Temas de filosofia. 2a edição – São Paulo. Editora Moderna, 1998.
Cotrin, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e grandes temas. São Paulo. Editora Saraiva. 2000.

[2] Meksenas, Paulo. Aprendendo Sociologia: a paixão de conhecer a vida. Edições Loyola, São Paulo. 1995 Costa, Maria Cristina Castilho. Sociologia: introdução à ciência da sociedade – 3ª edição – São Paulo, editora Moderna, 2005.

[3] Boff, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os humanos, Brasília: Letraviva, 2000.
Araújo, Ulisses F. Os Direitos Humanos na Sala de aula: A ética como tema transversal – São Paulo: Moderna, 2001.

[4] Plebiscito: plebiscitum (aprovado pelos plebeus).  Manifestação da vontade popular através de voto acerca de um assunto.
Referendo: quando algo é submetido a aprovação de outrem.