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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Revisão: O que é Filosofia.

Disciplina de Filosofia – 1º ano
Prof. Amilcar Campos Bernardi

O  que é filosofia?
Esta é uma questão muito difícil de responder. A filosofia é uma postura, não uma coisa palpável de fácil esclarecimento. Não podemos falar da filosofia, mas do filosofar. Por que do filosofar? Porque a pergunta sobre o que é a filosofia já é um problema filosófico; sendo assim, torna-se possível uma variedade de respostas.
Toda a pessoa que possui um ponto de vista; uma maneira de pensar e agir sabendo argumentar, está filosofando. Aquele que argumenta, filosofa. Quer dizer que todos filosofam? Sim. Sim, no sentido do senso comum, ou seja, todos têm uma filosofia de vida, uma maneira de ver o mundo e de explica-lo. E não, no sentido técnico, estrito do termo.
Tecnicamente filosofar é argumentar com intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade, no sentido de tentar compreender o mundo na sua totalidade. Para isso se utilizando da razão e da sabedoria. O filosofar das pessoas leigas no assunto, tende a argumentar para defender suas ideias e não para amplia-las. Dá para perceber a diferença?
Um filósofo e matemático no século VI ªC, Pitágoras, usou pela primeira vez a palavra filosofia (philos + Sophia), significando amor à sabedoria. Atentemos para a palavra amor. Significa que só faz filosofia quem ama o estudo, os porquês, quem ama saber sempre mais. Veja que quem ama tem o sentimento de dedicação. Filósofo é quem se dedica a sabedoria! E, com certeza, de forma prazerosa.

A filosofia é movimento. A mola do movimento é a dúvida, a pergunta.

 Por exemplo, podemos responder o que é a filosofia dizendo que ela é o amor a sabedoria, como já dissemos antes. Ora, mas o que é o amor? O que é sabedoria? Posso amar a sabedoria se não consigo saber o que é o amor? Vejam só: novamente nos movemos! Pois é, meus alunos, é isso que eu quis dizer com movimento através da dúvida e da pergunta. Vamos a outro exemplo? O médico trata a doença. O filósofo pergunta: o que é a doença? Ë a ausência da saúde? E se eu tenho um câncer nos meus genes que ainda não se manifestou? Tenho saúde, mas sou doente. Ou não?   Outro exemplo: o advogado interpreta a lei a favor do cliente. O filósofo pergunta - o que é lei? E mais: A boa lei pode ser interpretada ou a lei é má quando está sujeita a interpretações? A lei perfeita é aquela que não pode ser interpretada devido a sua natureza lógica e clara?
Também podemos dizer que a filosofia é o exercício da razão que eleva a pessoa acima das coisas evidentes, dos preconceitos e da pura opinião.
Porque nem todas as pessoas filosofam como faz o filósofo? Para que filosofemos é necessário uma atitude especial, o espanto. Espantar-se é olhar o óbvio e não vê-lo com tal, mas vê-lo como algo misterioso. É certo que tudo guarda mistérios. Por exemplo, olho um livro sobre a mesa. O livro é matéria. É algo “morto”. Ao observa-lo mais de perto, percebo que ele “fala”. Espanto-me. A matéria falou comigo através de sinais de tinta. As moléculas constituintes do papel e da tinta afetam meus olhos que também são constituídos de moléculas (orgânicas). Mas esse “afetar” produz pensamentos não materiais... como pode isso? Um mistério espantoso não?

E o que é o espanto? O espanto é exatamente aquilo que sentimos diante de algo que não nos parece por inteiro explicável. É o desejo de ir um pouco mais além na compreensão dos fenômenos que nos cercam. É pelo espanto que crescemos em conhecimento e é através dele que liberamos nossos canais de percepção, comunicação e compreensão de tudo que nos rodeia. 
Schirato, Maria Aparecida Rhein. Iniciação à filosofia: Viva a filosofia Viva; editora Moraes, São Paulo – SP; 1990. Pág. 23.

E as outras ciências não se espantam? Sim. Mas a filosofia responde de forma diferente a esse espanto.  O filósofo não fica preso à experiência, mas a transcende. Aprofunda-se para além do laboratório. Um bom exemplo é quando nos perguntamos: o que é a ciência?Qual o limite do conhecimento? Outra coisa interessante: o físico não pode perguntar-se sobre a física. Não pode perguntar: o que é a física? Se fizer isso está filosofando e não fazendo física. A filosofia é a única ciência que questiona a si mesma. Inclusive há muitos filosofando muito afirmando que a filosofia não existe.

Assim concebida, a filosofia não é bem um saber que possamos utilizar aqui ou ali. É, isto sim, um fazer (uma forma de pensar) que nos ajuda a escolher que saber podemos (para o bem ou para mal) utilizar, seja em que circunstância for. Se, ainda sim, você quiser pensar na filosofia como um instrumento, digamos que ela seria uma espécie de “desconfiômetro”, uma peça de nossa inteligência utilizada para não engolirmos a primeira certeza que nos oferecem como sendo uma verdade indiscutível. Serve, por exemplo, para nos estimular a suspeitar de que a importância de algo está em sua utilidade, e assim descobrirmos que é porque não é útil que a filosofia é importante . Abrahão Costa Andrade[1]

Descartes, um grande filósofo, dizia que só era verdadeiro o que era indubitável (sobre que não pode haver dúvida; o que é incontestável). O restante era pura dúvida. Caso tu tenhas incontáveis dúvidas, não encontrando muitas verdades por aí, tu estás no caminho de tornar-se um filósofo.


Mito
O mito não é um simples contar de coisas, um inventar sem sentido. Ele é uma narrativa. Historicamente, os Gregos o utilizavam na tentativa de explicar a realidade e os fenômenos da natureza. Afinal, não explicar as coisas é viver num mundo de medo e instável. Podemos dizer que é impossível não tentar explicar nosso entorno. O mito falava do mundo natural, das origens do homem, enfim, falava de tudo que não era compreendido pelos homens. Como a ciência não existia como a conhecemos hoje, o mito exercia seu papel de rotinização, de explicação dos fenômenos.  Estas falas sobre o mundo eram cheias de simbologia, eivadas de criaturas sobrenaturais e heróis.  Dessa forma o conhecimento acumulado era transmitido envolto por rituais, cerimônias e orações.
Portanto, não podemos confundir mito com religião ou com histórias. Ele é uma narrativa racional, diferente das demais narrativas, pois tem objetivo de explicar, ensinar, dizer “verdades”.



[1] Revista Discutindo Filosofia. Ano 1, número 1. Página 12

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