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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Resumo: Os pré-socráticos

Prof. Amilcar Bernardi 

Umas das primeiras cidades gregas foram Mileto e Éfeso. Estas cidades tornaram-se centros econômicos e culturais, pois suas localizações eram propícias. Desenvolveu-se a navegação e o comércio. Evidente que isso fez com que travassem relações com diversos povos. As tradições dessas cidades foram enfraquecendo-se a medida que conheciam novas culturas e formas de pensamento.  A adoção de um regime monetário fortaleceu os que viviam do comércio e da navegação. A aristocracia (que era herdada pelos filhos) entra em decadência. A técnica floresce fazendo com que novos modelos explicativos da realidade tornem-se necessários.  A visão mítica enfraquece dando espaço para uma visão racional. É esse o momento perfeito para o surgimento da filosofia.  Acredita-se que o primeiro filósofo grego tenha sido Tales de Mileto.  Ele viveu entre o séc. VII e o séc. VI antes de Cristo.
Os gregos antigos tiveram uma característica especial desenvolvida no que se refere a forma de pensar o mundo. Desenvolveram apreço pelo conhecimento racional e teórico. Esse conhecimento, porém, vincula-se, integra-se à experiência sensível, pois queria apreender a realidade. Essa racionalidade desenvolveu-se rapidamente no período denominado pré-socrático (séc. VII-V a.C. desde Tales de Mileto até Sócrates).
 Os filósofos pré-socráticos tinham como preocupação entender o universo (cosmologia) e porque as coisas nascem e morrem, como acontece a mudança na natureza, sendo que esta continua imutável. Queriam encontrar um princípio único e fundamental, estável e eterno, que regulasse o vir a ser.
Os pré-socráticos voltaram sua preocupação para o estudo da physis ou natureza.  Por natureza, além do testemunho dos sentidos, entendiam o processo de nascer, se desenvolver e desaparecer das coisas. Podemos dizer que para esses pensadores a physis se relacionava com o que é fundamental se opondo ao que é acidental, temporário. A mudança assustava esses homens. A mudança era o instável, o não previsível. Para isso buscavam uma cosmologia (narrativa a respeito da origem, da natureza e dos princípios que ordenam o mundo ou o universo. Narrativa racional e sistemática) evitando a antiga cosmogonia (narrativa explicativa do mundo baseada nos mitos).
É importante salientar que não existem documentos completos sobre o que escreveram os pré-socráticos. Na verdade o que temos são fragmentos citados por outros autores da antiguidade. É como um quebra-cabeça. Temos que juntar citações em textos onde ocorreram referências a esses pensadores antigos. Esses fragmentos são chamados de doxografias (do grego doksa = aparência, opinião, juízo, glória) e grafé (= escrito, documento).

Doxografia: vem de doxógrafo.
Doxógrafo: Cada um dos compiladores gregos que coligiam extratos dos filósofos antigos.

Esse período compreende o pensamento de Tales de Mileto (623 – 546 aC) até Sócrates (468 –399 aC.). Estes filósofos queriam construir uma Cosmologia superando a cosmogonia.
Não vamos trabalhar todos estes pensadores. Escolhemos Anaximandro de Mileto, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eléia, Leucipo e Demócrito.


Anaximandro (610-547 aC)

Era geógrafo, matemático, astrônomo e político.  De sua vida quase nada chegou até nós.  Escreveu um livro: Sobre a natureza. Estudava a origem de todas as coisas.  Procurava a arché (princípio primordial-básico, principal, primeiro - de tudo). Ele observava os quatro elementos formadores do mundo material: a água, o ar, o fogo e a terra. Mas não acreditava ser possível eleger um elemento como principio de tudo. E também pensava que, uma coisa que possui propriedades determinadas, e só existe por causa delas, não pode ser origem e principio de tudo.  Então esse elemento – principio de tudo - deverá estar fora do mundo dos sentidos. Chama esse princípio Ápeiron – o indeterminado, infinito.  O apeíron seria o gerador de tudo. A gênese se dá pela separação dos contrários num movimento eterno. Na verdade o apeiron está animado por esse movimento eterno, movimento que separaria em pares opostos. O apeíron, por ser indeterminado, é eterno.  Haveria uma espécie de justiça entre os opostos: a primavera como a compensação entre os excessos do verão e do inverno.

Anaximandro, “que também viveu em Mileto. Ele achava que nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa e se dissolvem nesta alguma coisa que chamava de infinito. É difícil dizer o que ele entendia por infinito. Mas uma coisa é certa: (...) Anaximandro não imaginou uma substância determinada. Talvez ele quisesse dizer que aquilo a partir do qual tudo surge é algo completamente diferente do que é criado. E como tudo que é criado é também finito, o que está antes e depois deste finito tem de ser infinito. (...)” Gaarder, Joinstein. O MUNDO DE SOFIA: Romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das letras, 1995. pág. 45 e 46


Heráclito de Éfeso (+- 500 aC)

É um dos mais conhecidos pré-socráticos. É o filósofo do movimento eterno.  Heráclito é, provavelmente, o fundador do pensamento dialético. Era conhecido como “o obscuro”. Para ele tudo é movimento, mutação, transformação.  Tudo é um fluxo eterno cuja força motriz é a luta das forças contrárias: o bem e o mal, justiça/injustiça, ordem/caos...
Suas frases são eminentemente simbólicas, de difícil interpretação, pois optou pela mobilidade e transformação o que influiu na forma com que dizia suas ideias.  Usava como imagem de sua ideia o fogo. O fogo simboliza a realidade dinâmica do mundo.
O que existe é uma unidade, tudo é um, é um em movimento. O logos consiste na unidade profunda das oposições (unidade oculta). Sabia que somente a palavra (logos) penetra apreender a simultaneidade do múltiplo e do uno. Ele é a unidade nas mudanças e nas tensões eternas da realidade. 

Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida.

É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que as coisas são um.

Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sobre ti.


Parmênides de Eléia (+- 530 – 460 aC)

Escreveu um poema em versos chamado “Sobre a natureza”. Polemiza com Heráclito, é contra o mobilismo heraclítico. Ele dizia haver apenas dois caminhos para compreendermos a realidade: a filosofia e a crendice.  Claro que ele afirmava que Heráclito caminhava pelo caminho do senso comum, da aparência, ou seja, da crendice.  Parmênides não admitia o “não ser”. Tudo está cheio de ser.  Não pode haver contradição: o ser é eterno, único, imóvel e ilimitado (pleno).  Os sentidos são ilusórios quando mostram o movimento, e é no mundo dos sentidos que vivemos. Por isso Heráclito havia errado. Só existe o ser. Não é concebível o não ser. Devido a Parmênides hoje temos uma visão estática do mundo. A ciência quer descobrir o que ainda não sabe, mas que existe em algum lugar. A verdade está em algum lugar, basta ser descoberta.

 

          

          O Atomismo


Os atomistas tiveram seu início, segundo a tradição, com Leucipo. Demócrito seguiu os passos de Leucipo. Esses dois pensadores refletiram sobre o movimento. Pensaram que se o movimento existe, e o movimento “movimenta-se” na ausência de resistência, o vazio existe também. Ora, se não existisse o vazio, onde o movimento ocorreria?
Além disso, as concepções sobre número estava bem desenvolvida.  Cada número é uma unidade. Cada coisa que se via era uma unidade. A partir daí chegaram a conclusão que haveria unidades mínimas, que chamavam de átomo. Os átomos se moviam no vazio. Essas partículas eram invisíveis fisicamente.  Eles se moviam por si mesmos sendo diferentes apenas na forma e no tamanho. O movimento ocorria em todas as direções se chocando e podendo unirem-se de acordo com suas formas.

          

          

          Leucipo e Demócrito


Tudo leva a crer que Leucipo nasceu em Mileto e que foi o criador da teoria do átomo. A sua teoria tem como fundamento a pesquisa natural e racional. O interessante é que, para ele, tanto o átomo quanto o vazio eram igualmente importantes e necessários. Os átomos movimentando-se no vazio formam as coisas. O peso dos corpos é devido ao tamanho dos átomos e as suas combinações. Ou seja, os átomos tinham peso. Tanto o vazio quanto o número de átomos são infinitos. Assim como vemos um turbilhão, o vento movimentando-se e arrastando coisas, no vazio também ocorrem turbilhões onde os átomos são jogados uns contra os outros se agrupando e criando as coisas. Demócrito desenvolveu essa teoria tornando-a mais precisa. A separação acontece quando partículas mais fortes agita e dispersa outras. Os corpos surgem e desaparecem por causa da combinação e da separação dos corpos primários (os átomos). "Nada nasce do nada" (por isso os átomos são infinitos), escreve Demócrito, e tudo se encadeia, necessariamente; os corpos nascem de combinações de átomos e desaparecem pela separação dos átomos. A alma é feita de átomos e o conhecimento sensorial é devido à emissão, pelos objetos, de substâncias muito finas que agem sobre os sentidos. Os sentidos captam o impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma, e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. Disto decorre que os objetos dos sentidos não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver, mas as "imagens" que os corpos estão constantemente emitindo. Por isso é impossível sabermos se o que vemos é de fato semelhante ao corpo do qual provém, pois os átomos emitidos estão sujeitos às distorções causadas pela interferência do ar.
Demócrito nasceu em Abdera. Foi discípulo de Leucipo.  Pela semelhança das ideias percebe-se que não podemos distinguir com suficiente segurança o que se deve a Demócrito e o que a Leucipo.  Demócrito foi um escritor muito produtivo. Provavelmente tenha escrito em torno de noventa obras. Demócrito também afirma o vazio e a existência dos átomos. Como essas partículas indivisíveis são de diversas formas elas se unem. Os átomos são indivisíveis Esses átomos seriam indivisíveis porque se pudessem ser divididos em partes menores, ou desintegrados, a natureza acabaria se diluindo completamente.


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