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sábado, 12 de abril de 2014

Missão fracassada

Prof. Amilcar Bernardi


Naquela manhã acordou com ímpetos estranhos. No dia anterior havia se aposentado. Olhou para frente no tempo e imaginou-se alguém já fora de uso. Um móvel a espera do desgaste do tempo. Mais de trinta anos de casado. Uma vida monótona. Uma vida de trabalho, vida respeitadora da lei e da ordem. Sempre levantou cedo e dormiu tarde. Estudou sempre. Não lembra de um dia sem livros na mão. Sabia muito de muitas coisas. E sabia nada de tantas outras! Como seria, pensava o atual aposentado, ultrapassar o sinal vermelho? Qual seria a sensação de ser investigado por um crime? Perfeitinho como sempre fora, de nada disso sabia. Kantiano, sempre fizera o que era certo e pronto. Apesar de ser latino, conseguira dominar seus ímpetos de entropia. Contra Freud, dominara seus instintos tornando-se totalmente civilizado.
Porém, com certeza em função do trauma da assinatura da aposentadoria, queria transgredir. A sensação de inutilidade o estava invadindo. Era um sujeito forte, magro, ia à academia. Não tinha doença alguma. Forte como um eucalipto! Não ia aceitar a inatividade assim sem lutar contra ela. Tomar chimarrão na calçada esperando a vida passar? Nunca! Queria emoções.
Vestiu-se sem avisar ninguém da família e saiu de carro. Tentou passar o sinal vermelho. Acelerou mas... não conseguiu. Imaginou que se houvesse um acidente, um inocente iria ferir-se. Aquela bondade do seu ser o perseguia! Como transgredir sem prejudicar ninguém? Isso é muito difícil. Tudo o que pensava, imaginado-se maldoso, prejudicava alguém! Percebeu que viver em sociedade é um impeditivo de praticar o mal! Afinal, somos exemplos para a humanidade segundo Sartre. Tinha que ser algo então bem escondido, que ninguém percebesse, um mal regulado e sem maiores consequências.  Uma coisa bem simples, imperceptível e desculpável... o que seria?
Pensava sobre esse tema quando viu uma prostituta de estrada. Aquelas que acenam para os caminhoneiros. Então algo saltou em seu peito! Porque não? Era o crime perfeito. A moça iria acenar para ele. Portanto, era algo consentido pela vítima. A levaria para algum lugar e pagaria pela traição, pelo sexo de aluguel. Então não chamaria a atenção de ninguém. Isso seria um bem para ela, afinal, ela precisava de dinheiro. Para ela, não seria nenhuma novidade fazer sexo com uma pessoa desconhecida. Ele, para ela, seria um nada, nem se lembraria de seu rosto após um segundo! Entretanto para ele, seria o máximo, pois nunca fizera isso. Seria uma traição à sua moralidade e a sua esposa, porém, uma maldade perfeita, tão perfeita que nem seria maldade!
Ao passar pela moça, como imaginara, ela acenou. Ele parou o carro. Ela veio. Ele abriu a porta timidamente e disse: entra. Ela entrou sem problemas e perguntou: Para onde vamos? O que faremos de especial hoje querido? Ele achou isso fantástico! Ela facilitava tudo. Queria fazer algo de especial. Muito bom isso! – Pensou.
Levou-a a um hotel muito chique. Ela portou-se muito bem. Ficou quietinha e ele acertou tudo. Foram direto para o quarto. Lá chegando ela fez menção de tirar a roupa.
- Ainda não moça! Tu pareces faminta (condoeu-se com o aspecto magro dela). Vamos comer algo antes? Se para ti não tiver problema, gostaria de ficar contigo muito tempo, sem pressa. Eu pago o tempo em dobro, pode ser?
Claro que ela aceitou prontamente. Ele solicitou um café muito gostoso. Teve o cuidado de antes perguntar à moça suas preferências. Atendeu a todas as solicitações dela. Enquanto o café não vinha, ele pediu para ela tomar um banho, descansar um pouco, havia trabalhado a noite toda na estrada (Coitada! – pensou ele). Ela achou isso maravilhoso!
Quando chegou o café gostoso, a moça já estava com o chambre do hotel, cheirosa, cabelo molhado. Tomaram juntos o café. A moça acabou contando um pouco da sua vida. Impossível saber se era verdade ou não. Apenas uma história triste de pobreza e abandono. Tinha apenas dezoito anos, mas trabalhava daquela forma desde os doze. Tinha estudado apenas até o sexto ano do fundamental. Mas falava bem, quase sem erros. Ele a ouvia e nada contava de si.  Não acreditava que sua história iria interessar a alguém, muito menos a ela. Mas estava deliciando-se com sua imoralidade, com sua infidelidade conjugal, com a expectativa da coisa errada que logo iria fazer. Apostava na sua capacidade humana de fazer o errado.
Sem que a moça pudesse impedir, boceja tentando esconder o movimento com a mãozinha delicada. Ele percebeu, pois estavam muito juntos conversando. Compadeceu-se novamente e disse para ela dormir um pouco, depois eles consumariam o contrato sexual. Ela estranhou esse tratamento delicado. Perguntou se ele era um religioso tentando salvá-la. Ele disse que não, que era do mal, que queria apenas se divertir com ela. Então a moça dormiu, afinal, com os maus-caracteres ela estava acostumada.
Ele fiou observando-a. Era bonita. Agora estava cheirosa. Olhou as roupas dela no chão. Eram puídas, sujas, feias. Um nojo. Desceu até a loja do hotel. Comprou roupas novas.  Antes havia observado o número delas pela etiqueta. Mentiu para a funcionária que era para sua esposa, uma surpresa. A atendente mostrou tudo do bom e do melhor. Ele comprou várias roupas e enfeites bonitos.  Ora, se ele ia se divertir com a moça, nada melhor que vê-la bem arrumada, cheirosa, bem tratada. Iria consumi-la com estilo! Além disso, coitada, era horrível andar com aqueles andrajos.
Voltou ao quarto. Deixou os presentes junto à cama. Ela dormia como um anjo. Não iria acordá-la. Estava cansada. Pensou: já que estou pagando por ela, só vou transar quando a moça estiver refeita, bem disposta. Assim tirarei melhor proveito. – Achou-se um sujeito de péssimo caráter ao pensar assim. Mas esse era seu objetivo!
Quando a moça acordou encontrou o almoço no quarto. Um almoço cheiroso, gostoso! Ele estava ali, esperando-a acordar para almoçarem juntos. Nesse momento a moça sorriu! Estava mesmo com muita fome. Que sujeito legal esse senhor, ela pensou. Mas nada falou, porque ele disse que só queria divertir-se com ela.
Comeram muito. Riram. Ela estava seminua. Havia até passado um creme no corpo, gentileza dele que percebeu que sua pele estava ressecada. Inclusive, deu de presente para ela um protetor solar. Ele preocupou-se, pois ela trabalhava na estrada, muito sol. Havia perigo para a saúde. A moça estava encantada com tantos agrados. Porém, estava a espera do momento de transar, receber o pagamento, pegar seus presentes e ir-se embora. Ele, pelo seu viés, acreditava-se um facínora aproveitando-se de uma moça tão jovem e vulnerável.
Ele perguntou à ela se precisava de mais alguma coisa. Ela riu e disse que até já tinha recebido demais. Contou que havia saído de casa há anos, que tinha saudades dos pais. Mas que aprendeu a ganhar a vida assim. Até nem sofria mais com isso. Apenas estava cansada, pois eram muitas horas de trabalho. Aproveitou para agradecer o descanso, o alimento, as roupas e os cuidados. Ele disse que não precisava agradecer. Só iria usá-la e pronto, não haveria envolvimento emocional. O que a moça concordou.
Ela então tirou totalmente a roupa e convidou-o para a cama. Ela tinha que ir para casa logo. Tinha um filho pequeno. A vizinha cuidava dele. Isso fez o rapaz sorrir. Também tinha um neto pequeno.  Que time ele torce? - Indagou ele. O guri é colorado. A moça falou sorrindo. O coração do senhor esquentou, pois seu neto era colorado também. Interrompeu a conversa, voltou ás lojas do grande hotel. Comprou brinquedos vermelhos, camisetas do Colorado. Ele pensou: Vai ser demais o guri ver esses presentes todos! Voltou rapidamente para o quarto. Ambos riram pensando na cara da criança ao receber tudo aquilo.
Repentinamente ele a abraça com força. Ela acha que agora é o momento de cumprir o contrato e relaxa o corpo. Para surpresa dela, ele a solta e sorri. Pede para ela vestir-se e juntar os presentes. Ele a paga pelas horas que ficou com ela. Pagou bem mais que o devido. A leva para a casa. Deixa mais dinheiro para que, se ela quisesse, comprasse uma passagem e fosse ver seus pais. Trocam sorrisos. Ele vai embora.

Ele descobre que ser “do mal” não é para todos. É preciso longa aprendizagem para transgredir e fazer as pessoas sofrerem. Ele não havia aprendido isso. Kant sorriu no túmulo. O senhor voltou para casa sem conseguir mal agir. Missão fracassada.



Imagem retirada da internet

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