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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Meu corpo é envelope...

Prof. Amilcar Bernardi

Meu corpo é um envelope.
Um envelope envelhecido.
Feito de papel pardo.
Meu corpo é um envelope.
Não tem destinatário,
não é subscritado.
Envelope sem destino certo
muito menos com destino errado.
Carrega dentro um papel fino e delicado.
Uma carta escrita à mão, às antigas.
Dentro uma carta cheirosa e bela.
Uma carta de poemas e suspiros.
Suspiros gramaticais, enleios verbais.
Meu corpo é um envelope pobre.
Meu corpo é um envelope feio, amarelecido.
Meu corpo contém preciosa carta para leitores de cartas.
Envelopes são feitos para mãos de toques fáceis e descuidados.
Cartas são feitas para olhares, entendimentos e emoções.
Eu sou carta, eu sou papel branco, eu sou verbo.
Meu corpo é envelope que me carrega e guarda-me.
Minha alma é delicada carta alva e poética.
Carta imaculada com letras douradas.
Leitores de envelopes não podem lê-la.
Destinatários de envelopes não podem recebê-la.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Psiquiatra e capitão...


Prof. Amilcar Bernardi

Preciso de um psiquiatra que me oriente
nas minhas oceânicas águas mentais...
Preciso de um psiquiatra que crie navios químicos
que não soçobrem nas ondas que me assolam...
É urgente navegar a mim pelas ondas que cortam
a minha mente em temíveis maremotos ...
Preciso de uma receita médica tal
que haja como uma carta marítima...
Procuro quem possa dar-me uma química
que seja como um sextante que possa
corrigir meus caminhos nos meus mares mentais...
Preciso de alguém que já tenha experiência como
capitão em mares cerebrais tão revoltos como os meus...
Preciso de um psiquiatra – experiente capitão em tais mares –
que possa salvar-me urgentemente de mim mesmo,
que possa salvar-me do meu iminente naufrágio em mim...




Eu sou porque tu és.


(À  Caren...)

E se tua alma fluida sente-se água e jorra
é porque pressentes que a minha tem sede...
E quando a minha alma torna-se florida e tem néctar
é porque a tua tornou-se alada e quer ser beija-flor...
E quando teu corpo é triste como solitária choupana
e os vidros das janelas dos teus olhos se embaçam...
Minha alma torna-se sol, brilho, luz, calor e vento:
minha alma então é verão porque em ti é inverno!
Quando tu te sentes música, alma feita de doces acordes inaudíveis
eu tornou-me plena audição, suave tímpano sensível aos teus harpejos...
E quando eu deliro poemas sem rima sem que haja como escrevê-los
tu te tornas delicado papel feito de atenções e registros indeléveis...
Sendo dois, somos sempre um. Mesmo sendo diferentes, somos únicos.

Eu sou assim porque tu és. Tu és assim porque eu sou...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Para um dissoluta...


Para uma dissoluta...

 

Numa noite pagã

A belíssima cortesã

Desceu do seu tétrico altar...

E na orgia - a bela - a rir e a cantar

Entregava seu adorável corpo...

Como fantástico navio sem porto

Vagava entre luzes de mar em mar...

Mulher sem dono, linda medusa a vagar!

Perdido quem dorme no teu quente abraço!

Desgraçado quem descansa no teu lúgubre regaço!

Amável cortesã, encantadora e doce vampira...

Suga as tristezas, entre prazeres contra o casto conspira!!!!!!

Encantadoramente entrega-se a todos e a nenhum...

Ao luxo dos prazeres mais loucos ela se rende...

Devassa! Por enormes quantias caramente se vende!

Dissoluta! Amorável!Crudelíssima conduta!

Mesquinha! Adorável! Bela prostituta!

Monstro! Fada! Sem um remorso sequer!

Encantadora! O mal e o encanto em bela mulher!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Direito penal e as regras de convivência nas escolas






Pesquisei, de maneira muito breve, quase irresponsável, os sites de várias escolas particulares e públicas. Todas que pesquisei, ao se manifestarem sobre as regras de convivência dos alunos, concebiam apenas duas possibilidades para trabalharem a indisciplina: puniam (suspensão e expulsão) ou advertiam (numa espécie de prevenção, avisando do comportamento inapropriado). As regras de convivência apresentavam-se de maneira bem genérica. Genérica para atingir o maior número possível de alunos, tornando-se – as regras – onipresentes. Tais normas acabam por atingir o aluno mais frágil, os “pobres” de notas e os “desviantes" (raramente atingirá o aluno de boas notas (“rico” de notas), ordeiro e com uma família equilibrada, por exemplo). Assim como no direito penal, um grupo (no caso as equipes diretivas) estabelece regras e, por consequência as punições e advertências. As punições, que na lei penal tem seu ponto alto no afastamento da pessoa da sociedade, tem similaridade nas escolas, que também propõem afastamento/expulsão do aluno do espaço social da sala de aula. As advertências nada mais são que avisos sobre a possibilidade dessas mesmas expulsões! As escolas ensinam matemática, português, ciências, enfim, ensinam conteúdos, tendo muita dificuldade em ensinar o respeito à vida em comum. Tanto as regras de convivência escolar quanto o direito penal existem mais para o medo do que para educar cidadãos.


O direito penal cuida das normas jurídicas estabelecidas pelo Estado. Tem como finalidade proibir ou prevenir condutas consideradas ilícitas. Faz isso através das sanções penais. A mais pesada no nosso país é a privação da liberdade. Em contrapartida a prevenção, grosso modo, baseia-se na coação psicológica. Afinal, a possibilidade de ser apanhado pelo Estado é muito grande, então o medo nos põe nos trilhos. As sanções atingem primordialmente os pobres e os diferentes. As regras de convivência escolar fazem semelhante, punem os “pobres” de notas e os destoantes.



Com o amplo reconhecimento hoje dos direitos humanos, da dignidade das pessoas, do direito à liberdade, ao convívio familiar e à igualdade pelo fato de todos sermos humanos, há uma tendência a limitar o arbítrio dos “fazedores” das leis e (por consequência) limitar o apelo às punições (como primeira opção). As escolas também seguem o mesmo caminho, porém, de forma mais lenta. As regras disciplinares das escolas ainda apresentam soluções monocórdias para o problema do desvio dos padrões disciplinares: a exclusão ou a ameaça de exclusão da sala de aula (e exclusão da aprendizagem, portanto).  De maneira similar, quando o juiz determina a prisão de alguém – que não sabe viver em sociedade -, o priva dessa mesma vivência em sociedade.



Se a escola ensina a gente a ser gente, não pode ameaçar irrefletidamente os alunos, quando estes se equivocam no duro caminho de tornarem-se cidadãos. Assim como a Justiça restaurativa está possibilitando novos caminhos ao direito penal, nós educadores, temos que nos modernizar. Temos que encontrar caminhos menos violentos para ensinar as crianças e jovens a serem adultos políticos (que administram suas vidas na polis), ou seja, adultos não violentos e respeitadores dos direitos e deveres de ser gente em sociedade.