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segunda-feira, 6 de maio de 2013

A rede não precisa de nós


 Prof. Amilcar Bernardi


Marx nos disse num dos livros do O Capital, que o homem, ao atuar sobre a natureza, ao modificá-la, ele modifica a sua própria natureza. Esta afirmação ficou buzinando na minha cabeça, como um mantra. Mesmo no século XXI, ela faz sentido.  Sabemos que nosso século é o tempo em que trabalhamos sobre(e com) a informação. Ela, a informação, está personificada no mundo virtual, o ciberespaço. E quanto mais fuçamos no virtual mais o virtual fuça em nós.  Viver interligado e refletir sobre a interligação muda nosso modo de ser, muda-nos culturalmente e ontologicamente.  Quanto mais vivemos, ou sobrevivemos, em rede, mais nos diferenciamos do que éramos há décadas atrás. Cedemos às investidas do on-line.
A realidade on-line tem vida própria. Cada indivíduo relaciona-se com o mundo das informações como se elas fossem um “outro”. Um lugar onde Eu, individuo, vou buscar coisas. Aventuro-me pessoalmente na cornucópia virtual e lá (não sei onde fica o lá) encontro tudo o que quero. Minha fé religiosa no” ciber”, faz com que  eu creia na infalibilidade da internet, ela tem sempre algo a dizer sobre alguma coisa. Eu, indivíduo, se morrer amanhã, não farei falta nos espaços on-line. Ele independe de mim. Ele é um ser onipresente e onisciente pronto para devorar-me se eu não o adorar, se eu não fizer cursos para entendê-lo, é esse deus que dirá do meu emprego e do meu futuro. Se eu não comer fatias dele diariamente, ele devora-me por inteiro matando-me. Eu nada sou individualmente na rede. Eu sou porque estou nela (se fico off-line, desapareço virtualmente).
Sem a humanidade a rede nada é. Porém, a rede sem alguns indivíduos continua sendo.  A inteligência virtual só precisa de mim para que eu reproduza seu poder. Porém, se eu não a reproduzir não farei falta. Isso porque desaparecerei e serei logo substituído por outro. Ela cresce exponencialmente enquanto os indivíduos, comparados a rede, são criaturas mortais que vivem para alimentá-la. Inclusive eu, neste momento, já sei que vou por na rede este texto, pois só assim ele existirá. Só assim sei que ao morrer meu Eu, continuarei vivo na rede. A imortalidade está fora de nós, fora dos espaços físicos, dos livros e das artes. Sem a rede estamos soltos sem comunicação possível.
Porque criamos o ciberespaço nós nos recriamos. Nossos neurônios sofrem mutações porque nossas crianças vivem em frente aos monitores. As crianças ganharam conhecimento e perderam habilidades motoras, obesas e de cabeças cheias de informações. A rede não se importa com isso. Ela é eterna e não espacial. Ela não precisa de mim ou de ti. Nós é que precisamos dela.


Imagem:http://www.rafaelnova.com/2011/09/rede-social.html


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