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domingo, 26 de maio de 2013

A minha história sobre o medo

Prof. Amilcar Bernardi

Estava com o Jornal de Domingo quando li o texto da escritora Martha Medeiros.  Em um determinado momento ela escreveu algo sobre a sua “própria história sobre o medo”.  Fiquei com essa frase na cabeça. Já não é a primeira vez que escrevo sobre o medo. Mas qual seria minha história sobre ele?
Eu tenho sim algo a falar sobre o medo. Por duas vezes fui demitido. Em ambas as vezes eu era bem jovem. Ambas foram traumáticas, porém, lembro-me mais da primeira vez que da segunda. Quando fiquei sem emprego, ainda morava com meus pais, mas isso não impediu que eu sentisse a realidade de ser expulso do mundo social. E isso dá muito medo.
Lembro bem de passar pelo supermercado e não sentir-me convidado a entrar. As lojas eram templos ao consumo onde eu não era desejado. Tudo se tornou para mim muito estranho. Desde o táxi que a lugar nenhum me levaria até as farmácias que me deixariam morrer sem remédios. Réprobo, não havia mais lugar para mim no mudo dos economicamente vivos. Havia uma maldição em mim.
Percebi sem precisar ser filósofo ou cientista social, a loucura que é ser reconhecido como vivo no mundo humano. Mundo tão antinatural quanto fatal. Senti na pele que tudo é inventado pelo homem: a rede bancária, a roupa, a cura, a doença, (des)emprego e a morte por exclusão. Senti fortemente que fora desse mundo humano, nada há. Fora dele o lugar é de mortos-vivos. Eu, renegado pela invenção humana chamada emprego e salário, estava num lugar que era lugar nenhum: o mundo dos que não poderem pagar para permanecer no fictício espaço social. Por isso virei zumbi, um caminhante sem lugar social para ficar. Eu podia existir, mas não podia conviver.
Nesse mundo ilusório, mas real porque pode matar, chamado sociedade, até meus amigos tinham dificuldade de continuarem meus amigos. Eles, assalariados e socialmente viventes, não sabiam como conviver comigo. Agora eu era um ente estranhável e de difícil acesso.  Os amigos tinham vergonha de oferecerem-se para pagar as coisas para mim, como o ingresso num simples cinema. E também sofriam porque não podiam convidar-me para nada sem ter que tudo pagar!  Banido da vida econômica eu também tinha vergonha de não poder participar do mundo produtivo/consumidor. Então me isolava no mundo zumbi dos desencaixados socialmente.
Isso sim me dá medo: existir como consciência e inexistir como pagador/consumidor da vida social fictícia. Eu podia existir onde não era necessário pagar para estar. Então eu descobri que não existem muitos lugares para os que não podem pagar para estar. Eu era jovem e a lição foi muito, muito dura. Aprendi, entre tantas coisas, que tudo que eu sabia: ler e escrever, falar bem, escrever poesias, amar e ser amado, dizer bom dia e obrigado, de nada valia. Lá no meu quarto eu olhava meus livros e isso doía muito. Li muito, sabia muito de coisas que valiam nada. Quero dizer, coisas que não valiam uma passagem de ônibus, um refrigerante, um cafezinho ou um almoço. Muita gente boa achava que eu valia menos porque não tinha salário. E ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas admiravam os que me negavam emprego.
Essa é a minha própria história sobre o medo. Medo que ainda me acompanha. Nunca mais quero viver o mundo zumbi dos que são enjeitados pelo mundo social inventado pelo homem. Essa esquizofrenia que é a vida paga, está tão enraizada que permite zumbis que caminham gemendo, socialmente semivivos.  
Eu fui um zumbi social. Só deixei de ser um quando fui (re)incorporado a esquizofrenia coletiva dos que podem pagar. Essa é minha história de terror. A história de um tempo em que eu era um ser vivo, mas não era reconhecido como gente, caminhando sozinho numa terra inóspita onde ninguém sabia o que fazer comigo. Eu era um zumbi cuja cura era a dignidade de um salário. Mas ninguém queria pagar por isso. Quem puder que conte medo maior que esse!



2 comentários:

  1. Diante disso eu só posso dizer que essa experiência e a maneira como você nos relata construiu um grande escritor. O seu livro de crônicas, "Últimas Páginas" é maravilhoso. Confesso que senti medo quando li uma das crônicas contidas nele - O Sofista. Seria o teor de realidade?

    Abraços, Amilcar!

    Sonia Salim

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  2. Adoro teu jeito de "me sentir" quando eu escrevo! Teu medo faz com que eu creia que escrevi bem, pois consegui fazer com que tivesses um sentimento genuíno, verdadeiro, a ponto de temer que eu fosse "O sofista" na vida real! Amei!

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