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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Armas e armaduras literárias


Prof. Amilcar Bernardi

Muitas vezes ele se sentia anormal. Era como se tivesse duas percepções, duas almas. Uma parte dele via as coisas como são, outra parte apenas... via coisas. Via fantasmas, via nevoas, entrevia sem ver diretamente. Difícil explicar. Esse fenômeno o acometida desde sempre. Mas na adolescência tudo ficou pior. Não só porque aos dezesseis anos se apaixonou pela professora casada, não só porque ficou encantado por uma colega adolescente grávida, querendo ser o pai da criança alheia Também porque estava sempre imaginando coisas durante as aulas de física e química. De Einstein a Lavoisier era um pulo. Ora imaginava-se um, ora imaginava-se o outro. Estava sempre num espaço paralelo, numa realidade virtual. Então era visto como desatento. Notas boas? Raríssimas! Uma parte do coitado rastejava na realidade espaço/tempo de fracassos e a outra parte, virtual, velejava pelos mares vitoriosos da imaginação.
Hoje, já adulto, calejado e mais consciente da realidade, estava arrumando seu escritório. Móveis novos. Os livros estavam caídos no chão esperando as prateleiras novas em folha. Livros coloridos anárquicos, sem ordem ou sentido. Tamanhos variados, assuntos diferentes uns dos outros. Tudo ilógico e caleidoscópico. O fenômeno alucinatório acontece novamente. Junto a uma sensação de “Vou ter que arrumar tudo isso”, sente as vibrações dos exemplares caídos. Cada um é de uma fase da sua vida. Cada título é responsável por emoções fantásticas. Os livros da juventude falavam de literatura, principalmente da poesia. Os da universidade, Filosofia, Sociologia, História, Antropologia. E por aí vai... a vida dele sendo contada pelos títulos dos livros. Era uma simbiose: livros e vida. Voltando ao fenômeno dissociativo: sentia a alma dos escritos como fantasmas, tentando comunicar-se com ele. Uma linguagem confusa, todos falando ao mesmo tempo. Os livros sérios questionando: O que fizeste com os conhecimentos técnicos que de nós sugaste? Os livros ligados à literatura, poetavam cobranças: Onde estão teus poemas? Onde está o sucesso que tu nos prometeste/sonhaste ao nos ler?
Ele não sabia responder. Esta tão longe de ser rico quanto esta longe da Academia Brasileira de letras! As vozes literárias gritavam: Porque abusaste de nós? Estávamos quietos, adormecidos nas prateleiras. Tu deste-nos vida e voz. Alimentamos, como tu querias, tua alma. Ajudamos teu lado sonhador a crescer e a crescer! Ficamos junto de ti sempre. Como deuses no templo do teu escritório, no sacrário das prateleiras, atendemos aos teus chamados sempre. Desde criança fomos teus guias e amparo. E o que fizeste de ti? Pálido e desajustado, infeliz e sonhador, o que fizeste de ti?
Ali entre os livros caídos, ele sentiu-se como os guerreiros atenienses com suas armas e armaduras no chão. Corpos saudáveis apenas descansando para a luta seguinte. As armas dele estavam no chão, os livros eram gládios e armaduras para a luta. Vencer o dia a dia, vencer as obrigações das contas a pagar, vencer a ignorância diária das pessoas que os circundam...  Como vencer?
Ombros caídos, novamente desiste. Aquelas armas literárias eram inadequadas, totalmente inadequadas para as batalhas medíocres que enfrentava.  Armas obsoletas não porque eram fracas. Ao contrário, eram fortes demais! Era como tratar uma questão comercial sobre vendas de laranjas entre dois países, e jogar bombas nucleares para resolver a questão: acabariam as laranjas, as pessoas e os países. Como enfrentar a ligação do banco falando sobre o cheque especial, usando Camões, Merleau Ponty ou Rui Barbosa? Impossível! A própria comunicação implodiria na incompreensão do humilde funcionário do banco que só entende (pois é, por obrigação, especialista nisso) de números e taxas. Livros são inúteis no dia a dia ignorante. Mais exemplos? Como discutir questões éticas com a companhia telefônica que cobrou o que ele não devia? Como filosofar com o prefeito que ignora as pessoas e os buracos na rua? “Livros não são mais armas eficientes no dia a dia” - pensou.
Ele tristemente suspira. Fecha a porta do escritório. Fica junto a seus livros e começa a escrever o que passa pela sua mente. Os livros se calam e ficam sorrindo a espera de mais livros que daquela cabeça sairiam. Talvez não fossem inúteis tais armas literárias, murmuraram as brochuras. Enquanto houver malucos com um pé no dia a dia e outro pé com asas de zéfiro, as armas e as armaduras das leituras ainda poderão ser úteis nas batalhas contemporâneas. Nas batalhas da vida livros, sonhadores e esperanças devem ser os últimos a morrer, sempre.



Figura: http://www.scenicreflections.com/download/454888/Hoplitas_in_Battle,_300_Movie_Wallpaper/

4 comentários:

  1. Viva o mundo paralelo, que não é o caixa 2, o tráfico de drogas ou os paraísos fiscais. Paraísos são os livros que me alimentam de armaduras, prováveis saídas para uma phoenix...
    A vida é um eterno correr riscos e, de vez qdo, mesmo sabendo q/ o sol vai derretê-las, é preiso voar nas asas de Ícaro. Nada de livros no chão.

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    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário Fabiana! Abraços fortes!

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  2. Uau! Os livros devem ter ficado envergonhados de falarem tais coisas diante do belo texto. E o escritor sempre nos encantando.
    Eu não sei, mas os livros sempre farão parte de nossa vida.

    Abraços!

    Sonia Salim

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  3. As vezes não é possível deixar de observar a distância dos livros e o dia a dia que os ignora! Beijos Sonia querida!

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