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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conto do livro "ùltimas Páginas"



A beleza indizível
Prof. Amílcar Bernardi

Desde cedo, muito jovem, ele percebeu a importância da palavra. Ele percebeu que todos falam, quase nascem falando. Porém, tornar a fala uma arte é para poucos. Sentia-se um ser especial porque não só tinha idéias... podia expressa-las através de sons articulados. Falar é uma promessa! Falar é prometer que o que falamos terá sentido para o ouvinte! Expressar é dar esperança de entendimento e fartura de idéias! Ele sabia que abrir a boca ou escrever é comprometer-se! É deixar o outro na expectativa!
Um dia na escola escreveu sua primeira redação. A professora exigente pediu título, coerência entre os parágrafos, uma introdução, um desenvolvimento e a bendita conclusão. Enquanto escrevia como a professora queria, ele pensava sobre o ato de escrever. Descobriu por si mesmo que grafar o pensamento era algo muito especial. Grafar no papel é descontextualizar/expatriar o pensamento da cabeça do autor. Depois, é jogar essas coisas na cabeça/contexto do outro!  Uma loucura! Um ato de fé! Quem escreve acredita fortemente na capacidade do leitor de entender o que foi escrito fora do contexto da cabeça do escritor!
Ficava pensando que adultos e professores falam, orientam, e palestram na esperança de serem entendidos. E quem os ouve acredita na promessa de a fala ter conteúdo inteligível. Quanta crença!
Atilado e mordaz, sabia que o feio pode ser dito de maneira bela. Também sabia que a coisa mais linda do mundo pode ficar feia na boca de um falante inexperiente! Aprendeu isso lendo poesias e romances. Então concluiu: o que nos faz diferentes dos animais é a capacidade de expressar! A capacidade de expressar nos faz diferente e inferiores aos animais, quando pessoas más expressam maldade. Podemos ser diferentes dos animais ficando além deles... e podemos nos diferenciar ficando aquém deles!
Falar, ele concluiu, é dar nome as coisas! As coisas só existem porque as nomeamos! Nomear é existir! Eu existo porque expresso, porque falo e dou nome ao mundo!!!!!!! Então, pensou o jovem, sou dono do mundo! Eu posso tudo ao poder falar/escrever tudo! Eu sou um deus, o deus da palavra! Como as demais pessoas não sabiam disso?  Qual Nietzsche sentia-se nas alturas!
Brincava com figuras de linguagem. Divertia-se com falácias e entrelinhas. Adorava duplos sentidos e as complexidades da fala. Assistir palestras era o máximo para ele. Não interessava o conteúdo, mas o jeito com que as palavras eram utilizadas pelo palestrante. Era divino experimentar a sensação de outra pessoa construir imagens mentais na sua mente. Rejubilava-se ao perceber que nunca era um ouvinte passivo. Pensava: “Minha história de vida é a tinta com que o palestrante pinta idéias na minha cabeça!”
Como Platão, chegou a acreditar que havia um mundo perfeito. Porém acrescentava: destinado aos falantes/escreventes! Um mundo magnífico para poucos. Só os letrados, os que sabiam usar com maestria as palavras teriam contato com esse mundo maravilhoso. No seu quarto era um deus. Escrevia como um louco, lia como um viciado!
Mas ele não podia competir com o verbo divino. Deus era o falante perfeito. E Ele quis falar da beleza através de uma moça. Materializou a beleza nas formas de uma mulher linda. Não podemos competir com o nosso criador! Não havia como dizer/escrever/expressar aquela beleza! Ela era o indizível. Quando o moço escritor a viu... caiu por terra! Como dizer o indizível? Era bela demais.
Então ele olhou-se no espelho. Não era bonito nem forte. Era frágil e magro. Tez pálida e olheiras profundas! Sentiu-se horrível. Ele era dizível, pronunciável e... feio. Ela era a beleza revelada por Platão... ele era a cópia na terra... algo imperfeito e grotesco! Mas como um ateniense que, mesmo intelectual, ia à guerra e morria com honra, foi a luta. Com as armas que tinha, enlouquecido, apresentou-se a ela, a bela. Com o escudo da retórica, com a lança da grandiloqüência e apoiado pelos dardos dos versos que compunha, tentou vence-la de imediato. Guerra inglória! Ela riu. Achou graça daquela investida louca! O rapaz magro, feio e sem graça era valente, mas não tinha chance alguma. Ela sentia-se a deusa da beleza. Sabia do seu poder de sedução. Ao mover-se a moça bela, o sol a seguia. Os girassóis a seguiam e desprezavam o astro rei. Ele tentou de todas as formas. Quanto mais se machucava nas investidas insanas, mais elaborava seus escritos e suas artimanhas nas letras.  Tudo foi em vão. Ela foi embora. Adolescentes não tem moradia fixa. São como aves e sonhos. Frágeis e instáveis. Ele ficou. Ela foi embora para sempre.
Anos depois na Academia Brasileira de Letras, ainda lembrava dela. Ao receber o prêmio Nobel, ainda lembrava dela. Ao escrever seu último poema, ainda lembrava dela.
Eis o paradoxo: Ele lembrava dela. Ela não lembrava dele.
                          O mundo lembra dele. O mundo nunca soube dela.

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