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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Não era fácil aprender...


Prof. Amilcar Bernardi


Não era fácil aprender. Nossa, como aprender? Ela não podia querer que eu aprendesse. Eu lembro bem. A sala de aula da escola pública era fria e sem graça... mas lá vinha "ela"! Os cabelos cheirosos, pelo menos acho que eram cheirosos, nunca cheguei perto. Voltando as memórias: lá vinha "ela" com aquele vestido justo na cintura, o sapatinho de salto, toc, toc, toc. Então, quem iria aprender algo?
Aprendi a amar um prego. Sim , um prego na parede, lá em cima, bem em cima do quadro negro. Certa feita  ela colocou um cartaz  naquele prego abençoado. Subiu na cadeira..., primeiro um pezinho, depois o outro..., a saia... bem, a saia...., vocês entenderam né?  Como eu ia aprender química, hem, hem?
Não era fácil aprender com ela. Tinha graça tirar dez? Claro que não. Nota baixa tinha o prêmio daqueles olhinhos procurarem o aluno e presentea-lo com a doçura plena do céu. Ora, capaz que eu ia estudar. Para eu ganhar apenas um parabéns frio? Eu não! Ela era o prêmio.
Numa manhã fria, na prova dela, eu escrevi uma poesia. Tudo a ver com química, não? Ganhei nota 2,5. Mas ela disse baixinho: Eu li, viu? Como aprender química se ela lia minhas poesias!  Então escrevia versos na aula dela. Ela lia sempre. Em silêncio, de forma que os meus colegas não percebessem. E eles não percebiam nada. Não percebiam... ela! Ora, burros que eram, só percebiam: química! Eu sim tinha olhos para ver: ver... ela.
Reprovei de ano. Então ela veio e disse: Serás poeta, ou já és, não sei. Mas deixa de sonhar e estuda muito.  Mas eu que sabia ouvir... ela, entendi a mensagem, eu havia tornado-me seu aluno inesquecível.
Formei-me um dia. Fui fazer estágio na antiga escola. Ela estava lá. Eu disse: Viu o que fizeste de mim? Sou professor. Ela respondeu:  Um professor poeta, espero. Então retruquei: Professor eu quis ser. Poeta? Ah, isso é obra tua.

Um comentário:

  1. Que lindo, Amilcar Bernardi! Dá até para encenar esse seu lindo texto. Eu imaginei cada cena, cada diálogo. Amei essa história! Merecido prêmio! Parabéns!

    Abraços!

    Sonia Salim

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