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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Comportamento, ensinagem e aprendizagem

Prof. Amilcar Bernardi
 

Com o avanço das tecnologias, das psicologias, da neurociência e da área médica, o problema da não-aprendizagem escolar tem cada vez menos a ver com a didática, ou com o conhecimento específico que o professor tem. O empenho do professor na ensinagem em sala de aula, já não é mais fator decisivo na aprendizagem do aluno. O empenho é apenas mais um importante fator. Os cérebros e corpos estão saudáveis, as salas de aulas estão cada vez mais equipadas, o conforto no mobiliário está cada vez mais acessível. Livros e mais livros sobre ensinagem são publicados anualmente. Informações abundam, aulas à distância ao alcance de um monitor de computador. Então, onde estaria o principal problema do baixo desempenho nas avaliações dos alunos, e também do baixo desempenho nas avaliações externas à escola?

O problema, no sentido de algo a ser resolvido, está no comportamento. Entendo aqui como comportamento a reação da pessoa ao estímulo e as maneiras como reagem a esse estímulo. O comportamento acontece viabilizado principalmente pela formação da pessoa que reage e suas vivências psicossociais. Evidentemente que não reagimos de forma totalmente passiva. Por isso, um mesmo estímulo tem reações imprevisíveis em diferentes pessoas. Nossa liberdade ao reagir é maior do que apenas espasmos programados ou aprendidos por hábito. Porém nossas reações nos definem!

Acredito que estamos nos preocupando em demasia com os meios (didática, tecnologia, materiais) e esquecemos a prioridade: o comportamento. Aprender também é mudança de comportamento. Ora, se alguns alunos continuam a manter atitudes comportamentais nocivas à aprendizagem, se alguns professores mantêm atitudes avessas a ensinagem, se a sociedade mantém seu jeito contrário à disciplina e ao trabalho, pouca esperança há quando qualificamos os meios apenas. Mudamos de comportamento para aprender e aprendemos porque também mudamos de comportamento.  Caso não haja mudanças nas pessoas, nada mudará nas escolas.

Quando os responsáveis pelas crianças e jovens vem à escola meramente negociar a aprovação do aluno, num frenesi pelo avanço rápido pelos anos escolares, é fato que alguma coisa está mal. Aprovar ou não até pode ser negociável. Aprender não é negociável. A matriz (os pais ou os responsáveis pelos alunos) dos valores da comunidade aprendente, que é a gênese da compreensão da necessidade do aprender, nesse caso, está adoentada. O comportamento do aluno quando gestado por valores negociáveis e relativos em demasia, não é uma atitude favorável ao saber. Nesses casos, nada que o educador faça, fará sentido. Primeiro é preciso aprender (na vida) para mudar o comportamento, para que o comportamento seja favorável à aprendizagem escolar. Então a aprendizagem escolar, muda comportamentos na vida. É um efeito cascata.

Quando a sociedade privilegia determinados comportamentos restringindo outros, pode estar colocando as crianças e os jovens contra o que é esperado pela escola. Podemos dar como exemplos: aceitamos e incentivamos na criança um comportamento agressivo do tipo bateu levou, e matriculamos essa pessoa numa escola que não aceita qualquer tipo de violência. Irá igualmente colidir com a escola a família que tem um comportamento favorável a levar vantagem em tudo, quando a professora tiver um comportamento ético em relação à cola nas provas. Também é esperável um conflito quando incentivamos comportamentos favoráveis à “decoreba” num contexto de uma escola reflexiva e crítica!

Em relação ao educador, não é diferente. O comportamento favorável à ensinagem tem que ser aprendido e aprender também é mudança comportamental. Está claro que no sentido que quero dar aqui: não me refiro à dualidade disciplina X indisciplina. É bem mais que isso.
 
(imagem pública captada da internet)

 

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