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sábado, 21 de julho de 2012

Abdução de um escritor em hospital de Santa Maria

Prof. Amilcar Bernardi 

A sensação foi de abdução. Logo que cheguei fui imediatamente abduzido para uma sala extremamente fria, muito iluminada e habitada por uma falange de criaturas de branco. Assim que cheguei fui crucificado sobre uma mesa estreita. Cada um dos indivíduos de branco tinha uma missão específica. Uns ataram meus pulsos mantendo-me de braços abertos, como Cristo. Outros furaram minhas mãos colocando caninhos flexíveis estranhos. Dutos especiais que pareciam sugar meu sangue. Outros tantos ligaram aparelhos enigmáticos a meu corpo. Fiquei atado firmemente por tecidos e fitas similares a esparadrapo. Também fui rapidamente plugado a monitores fantasmagóricos. Pouco falavam comigo. O frio e a angústia eram enervantes.

Em dado momento uma pessoa também de branco deu-me a fatal sentença: “Vou injetar em ti algo que vai dar-te tonturas e sentir-te-ás mal. Isso é normal nessa situação”. Sem ter como reagir, antes de poder queixar-me o líquido foi injetado rasgando-me as veias, e de fato fiquei tonto e enjoado. Para eles então, tudo ficou mais fácil. Comigo fora de combate, atordoado quimicamente, voaram sobre mim cada vez mais me preparando. Alguns minutos passaram. Retornou a figura exótica que me injetou a potente poção e, novamente, sentenciou: “Agora vou introduzir em teu organismo uma química forte, vais dormir imediatamente. Relaxa que logo vais acordar e tudo terá terminado.” E assim foi. Nada pude fazer, não pude expressar nada. Creio que sorri antes de dormir como um morto dormiria. Fui corajoso. Em nenhum momento expressei meu medo. Heróis morrem amedrontados sem se importar com o próprio medo. Meu atavismo gaúcho bradava dentro de mim: que venham as dores, as mutilações e as torturas, não vou implorar por piedade.

Dizem que tudo é relativo. Que tudo depende do ponto de vista. Os médicos e enfermeiros viam apenas um paciente com cólicas renais. Eu via o que queria ver e juro, foi como eu descrevi. Contaram para todos que eu tinha um cálculo renal. Na verdade, eu sei que foi uma conspiração. Colocaram algum chip em mim, algum aparelho diabólico para saberem tudo que eu faço e penso. Afirmo e torno público que não foi uma cirurgia! Foi uma abdução. Os aliens vestiam-se como médicos, enfermeiros e técnicos.  Nesse momento já me sinto diferente. O DNA alienígena esta provocando mutações em meu corpo. Ninguém percebe. Nada posso fazer se só eu sei o que aconteceu. Poucos acreditarão, eu sei.

Apesar de ser uma intervenção extraterrestre, preciso dizer que fui bem atendido. Trataram-me com especial gentileza e rara dedicação. Bastava acionar um mecanismo que produzia um som estridente, como uma campainha, e as enfermeiras aliens surgiam e davam-me analgésicos do outro mundo e a dor desaparecia. Era tão especial o carinho por mim que, logo percebi, era claro que se sentiam culpados pela abdução de um terráqueo tão indefeso. Fica aqui minha denúncia.

3 comentários:

  1. O que precisa ser mudado é o diálogo médico-paciente existente em nosso país pois esse diálogo é deficitário.Há situação em que as ações se fazem mais necessárias que as palavras quando tratamos de salvar uma vida.

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  2. Gostei!Um pouco trágico!hehehe!

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  3. Meu querido amigo, Amilcar Bernardi, você é um grande escritor! Mas a foto é real... Sua leitora terá de ler mil vezes para entender o que aconteceu realmente, mas pelo menos sei que já está no ofício de escritor novamente, fico mais calma. Surpresa com tudo isso. Como o paciente não fica sabendo do que está acontecendo com o seu corpo? Em que mundo estamos?

    Recupere-se!

    Abraço!

    Sonia Salim

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