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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A verbosfera...

Prof. Amilcar Bernardi


(Artigo retirado do baú antigo dos meus escritos)

Aquilo caiu e quebrou o telhado. A coisa tinha uma forma que ninguém havia visto antes. Apesar de estar em frente aos olhos de todos, ninguém conseguia identificar a cor daquilo. Era de um brilho e de um tom nunca visto. E o odor? Ninguém havia antes sentido. Alguém coloca a mão e não consegue identificar a densidade da coisa, pois era uma densidade nunca antes percebida por eles. O peso? Era muito estranho: o conceito de leve e de pesado não se aplicava aquilo. A temperatura dela era indescritível, pois nunca sentida antes. A coisa estava ali em frente a todos, porém, como descreve-la? Como telefonar para os bombeiros e explicar o que havia caído e atravessado o telhado?

Esta situação hipotética pouco plausível é interessante. Quando afirmei “nunca visto, nunca sentido, nunca percebido”, obrigo o leitor a não ter como representar/imaginar a tal coisa. E porque isso acontece ao leitor? Porque o impeço de puxar da memória as tintas para pintar o que caiu atravessando o telhado. Ao informar que não passou pelos sentidos (os cinco!), faço com que tenhamos que imaginar a partir da tabula rasa! E isso é impossível. Então o leitor, ao ler a descrição maluca, fica a buscar imagens para identificar a coisa. Todas as imagens vem e nenhuma se cola a descrição. Torno a indescritível coisa algo indizível! Aquilo que caiu só fará sentido após dizê-lo e dize-lo é dar sentido para ele!!!!!! É uma questão vital poder dizer o que nos rodeia, portanto, é uma questão de vida dar sentido a tudo! O sentido é dito, é criado/exposto pelo verbo! Quero dizer que só existe humanamente o que é dito, o que é tomado consciência pela linguagem! Outro exemplo: enquanto não contarem que o Joãozinho quebrou o braço, para mim o acidente não existe!  Para mim e para todos que disto não sabem. Vivemos na antroposfera, fora dela não há vida humana. O planeta é uma verbosfera! Respirar e verbalizar são uma coisa só!

Aquelas pessoas que verbalizam mal o mundo (Lêem pouco, escrevem mal, falam qualquer coisa para qualquer um, expressam só palavrões e maledicências), não podem ter qualidade de vida! A verbosfera para estes, é um lugar inóspito, vulgar, pouco inteligível e assustador. Viver é dizer o mundo em que vivemos. Dizer/entender mal o mundo é viver mal. Entendamos que quando refiro-me a dicção do mundo, indico linguagem e não apenas a vocalização.

Gente! Expressar é re/criar! É dar sentido! É, pela cultura, deixar aos descendentes um jeito de viver/entender/operar o mundo humano.

Para reorientar/melhorar a dicção/construção/fixação do mundo humano não chamo psicólogos e filósofos. Imagino um mutirão de professores de literatura, escritores, poetas, pintores e músicos re-falando da vida. Re-dizendo as belezas que nos rodeiam. Modernos rapsodos ( rhapsôidós) poetando valores, re-vitalizando um espírito estético, um jeito belo de ver/viver/construir a realidade humana. Que sejamos mais estetas e menos malfaladores/malconstrutores do mundo.

(Imagem captada no endereço:http://assessoriablog.blogspot.com.br/2010/05/comunicacao-corporativa-o-caminho-para.html)

3 comentários:

  1. Adorei o blog. Para mim, foi proveitoso ler o texto. Continue me informando pelo twitter @deinhaloreto Abraços, Andrea.

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  2. Amilcar, seu texto nos faz refletir e buscar sermos melhores a cada dia, mesmo que seja a passos lentos. Importante é ter a chance e a iniciativa de novas posturas e formas de ser no mundo.

    Abraços!

    Sonia Salim

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  3. Sonia!

    Teu olhar atento sobre meus textos fazem-me mais feliz e, com certeza, mais cuidadoso para agradar-te!

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