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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ensino Religioso, o queremos?

Prof. Amilcar Bernardi
 
Estava num grupo de pessoas conhecedoras do tema educação. Informalmente discutíamos as mazelas que esta área sofre. O assunto pendeu, sem motivo algum, para os conteúdos do Ensino Religioso nas escolas confessionais, e se havia a necessidade de tal disciplina, afinal o Estado é laico. Fiquei ouvindo as avaliações e devo dizer que eram de alto nível.

Repentinamente, alguém do grupo lembrou que minha formação acadêmica é na Filosofia. Então perguntaram minha opinião “filosófica”. Confesso que não estava à vontade, pois tinha certeza que eu desagradaria os argumentadores da mesa. A fala unânime era que a liberdade de credo e a liberdade para não ter credo algum deveriam prevalecer. Devido a essa prevalência, o Ensino Religioso deveria desaparecer ou ser uma espécie de estudo da cultura religiosa. Afinal, entendiam os meus amigos, o Estado é laico e, portanto, a educação necessariamente seria laica também. Foi lembrado que um aluno agnóstico, ateu, cristão ou budista, não poderia ser constrangido na sua consciência de nenhuma forma.  Portanto, todo o Ensino Religioso por fundamentar-se em uma religião específica em escola confessional, deveria ser abolido. E se não tiver uma religião como fundamento, não teria sentido seu existir. Substituiria-se por alguma disciplina “das humanidades”!

Os olhares voltaram-se para mim. Imaginavam que, sendo eu sempre a favor das liberdades, concordaria com eles, mas, para espanto de todos, eu discordei. Afirmei que, em tese, o Ensino Religioso deveria manter-se nas escolas (todas) e, notadamente, nas confessionais tendo como inspiração a mística de uma religião. Evidentemente, a “inspiração na mística” não significa catecismo puro e excludente dos demais credos! Recebi uma enxurrada de questionamentos, críticas e olhares piedosos que previam uma evidente falta de argumentos de minha parte.  Tive que falar das minhas razões e vou enumerá-las.

O argumento da liberdade é muito importante. Eu diria de suma importância. Porém, desconhecer algo não faz de mim alguém mais livre. Talvez me faça um ignorante, um inconsciente de mais uma possibilidade de escolha. Deixar os jovens sem acesso ao transcendente do tipo que tratamos aqui, é jogá-los na ignorância de que milhões de pessoas experimentam isso (a espiritualidade) e são felizes.  A liberdade só acontece quando conhecemos as opções, quando temos consciência delas. Portanto, ignorar a vivência da espiritualidade nas crianças e jovens, não permite reflexões sobre ela. Sem reflexões, por menores que sejam, reduz-se a liberdade de escolha.

Claro que existe a possibilidade de só as famílias assumirem em suas casas a vivência religiosa de acordo com sua espiritualidade. Dessa forma estas questões seriam algo de cunho familiar, fora do ambiente escolar, e pronto. Creio que esta questão está a um passo de impedirmos os professores que creem em Deus de participarem dos concursos públicos, ou que trabalhem em escolas. Talvez, os mestres tenham que assinar documentos que cerceiem seu direito à expressão e a crença, para que não possam falar de algo proibido: fé e religião. Novamente a liberdade entra em cheque, só ateus ou agnósticos poderiam lecionar!

Em nosso país as pessoas podem matricular seus filhos em qualquer escola. Caso queiram que seus filhos tenham acesso à mística de uma congregação religiosa, esses pais possuem a liberdade de escolher uma escola de sua fé e gosto. Eu quero que meu filho siga os ensinamentos de Jesus, seja porque eu acredite que Ele é filho de Deus ou simplesmente porque seus ensinamentos morais são de suma importância. Nesse caso eu vou exigir o direito de matriculá-lo numa instituição de ensino que siga os passos Dele. Da mesma forma, respeito quem queira matricular seus filhos numa instituição leiga de qualidade, mesmo que sua e seu deus sejam o vestibular e o curso de medicina, por exemplo. Cada um tenha a fé que quiser, em Deus, no mercado ou no sucesso.

Também imagino o ferimento, talvez fatal, no ideal da liberdade democrática, quando os argumentos dos meus amigos tentam impedir que uma instituição religiosa possa ter escolas. É um absurdo igual a impedir que as igrejas tenham hospitais, creches, prestem assistência humanitária ou que tenham orfanatos. Alguém poderia também usar o argumento hipócrita de que os religiosos poderiam ter escolas se elas não fossem espiritualizadas, se não seguissem a mística dos seus santos fundadores!  Nesse caso as escolas seriam apenas lugares para ganhar dinheiro, sem missão espiritual alguma! Uma instituição leiga pode existir para e através do lucro; uma instituição religiosa não pode por essência!

Estamos numa época em que é moda defendermos a liberdade da imprensa, os direitos das minorias, dos presos, dos homossexuais, dos excluídos e do direito ao livre comércio entre blocos econômicos. Nesse clima de afirmação dos direitos humanos estamos tentando, já na contramão, impedir os discursos que falam do amor e da paz, só porque se filiam a instituições ligadas a transcendência! É mais fácil hoje filiar-se a um partido político do que filiar-se publicamente à mística de uma religião!

(A figura ilustrativa foi retirada do site: http://www.domtotal.com)

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