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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Texto para uma aula no E. Fundamental

A lição da bruxinha.


Quando Marquinhos acordou estava sentindo-se diferente. Não dava para dizer exatamente o que estava acontecendo. Estava um pouco mais pesado. A fome parecia ser mais fome que o normal. A sede também.  A vontade de brincar estava multiplicada por dez. A desvontade de estudar estava a mil! O desejo de comer doces e tudo que era gostoso maltratavam sua barriga! Queria muito muitíssimo brincar o tempo todo! Queria saltar da cama logo, não escovar os dentes ou pentear-se. Desejava apenas correr, dar cambalhotas. Mas o pior não era essas vontades. O pior mesmo é que, naquela manhã, não conseguia controlar-se! Uma força muito estranha, de lá de dentro do seu corpo, o fez desobedecer a mãe e correr logo para a rua brincar. Lembrou que tinha prova na segunda feira, mas não conseguia impedir a si mesmo de saltar, dar cambalhotas, gritar, rir com os amigos pela vizinhança!
Sabia o Marquinhos, que alguma coisa não ia bem nele, afinal, sempre foi mal criado e mimado, mas nunca ficou sem cumprir regras por tanto tempo. E mais, não estava cumprindo nenhuma regra! Não conseguia conter-se!  Estava feliz, irresponsavelmente feliz, mas percebia que não ia dar certo tal procedimento.  Porém, como conter-se? Estava fazendo tudo o que queria e que era prazeroso, imediatamente prazeroso.
No fim da manhã já não conseguia pensar direito. Não conseguia pensar além de minutos a frente. Difícil explicar... não conseguia mais perceber com clareza o futuro, o que ia acontecer as duas da tarde, por exemplo.  Estava preso no desejo presente! Não dava para pensar na prova de amanhã, só existia o prazer de brincar agora.  Isso era muito estranho até para ele que não gostava de estudar nem de tomar banho! Estava até sentindo medo da força estranha que vinha de dentro dele. Sentia-se um pouco bicho. Queria só fazer coisas gostosas que não precisava pensar. Estaria emburrecendo? Seria alguma doença?
No final do dia estava de barriga cheia. Doía. O corpo estava todo arranhado e roxo das travessuras. Brigou com vários amigos, a tapa! Havia perdido a paciência com todo mundo. O dia inteiro fez só o que queria e pronto. Fechou a porta do quarto muito nervoso e cansado. Não estudou, não tomou banho, não cumprimentou ninguém e estava esquecendo o que significava o dia seguinte. Só pensava no hoje. Só queria dormir agora. Ainda bem que era sábado.

Acordou de madrugada. Muito cedo. Novamente uma energia absurda o fazia agitar-se, querer pular e correr. Era saúde em demasia. Estava muito confuso e já queria comer algo. Também queria passear, tomar água, lamber um sorvete, andar de bicicleta, brincar de pega-pega com os amigos... Mas era apenas cinco horas da manhã. Não deu importância para a hora e desceu até a cozinha para abrir a geladeira. Então ouviu um rizinho abafado.
Assustado olhou. Havia uma bruxinha muito bonitinha sorridente no escurinho da cozinha. Após o susto ele perguntou o que estava acontecendo.
- Não percebeste nada, Marquinhos?
- Sim! Estou diferente, pareço mais forte e só faço o que quero, o que eu gosto.
- Estás gostando? _ Ela ria ainda mais.
- Sim... Não... não sei. Tem algo estranho!
- Eu tirei a tua alma e deixei só o corpo...
- Como isso? Mentira!
- É verdade. Tu querias fazer só o que gostavas. Então tirei de ti o que  tu tinhas de humano... a reflexão, o pensar sobre o que fazer, pensar sobre o futuro... enfim, és apenas corpo agora. Como um cachorrinho.
Antes que Marquinhos se refizesse do susto, a bruxinha sumiu. E agora? O que ele iria fazer? Quais seriam as consequências de não ter alma? De ficar só com o corpo, que é animal como qualquer outro?
A responsabilidade diminuia e ficava a vontade de fazer só o que o corpo quer, ou seja, só o que é gostoso e sem planejamento. Não conseguia mais pensar com clareza. Então comeu tudo que tinha de gostoso na geladeira e foi para a rua. Ficou brincando sozinho até que os amigos aparecessem para ficarem juntos. Aí não deu mais certo. Como só fazia o que o corpo mandava, ou melhor, como só fazia o que os animaizinhos faziam, logo brigou feio com todos os amiguinhos. Afinal, cada vez pensava menos no que poderia acontecer no minuto seguinte e cada vez ficava mais bravo. Não estava ficando burro. Estava cada vez mais irresponsável!
Só voltou para casa quando a fome bateu na barriga. A mãe xingou, o pai também. Mas logo esqueceu a bronca recebida e já queria brincar novamente. Não podia perceber que a bruxinha ria o tempo todo ao ver o guri todo sujo, mal cheiroso e cheio de doces na boca.
Quando a noite chegou Marquinhos estava exausto. Só queria dormir. Quase não pensava mais. Já não conseguia falar sobre o futuro e o passado já havia esquecido. Por alguns minutos esquecia quem era, pois o desejo de comer, brincar e dormir era mais forte do que pensar em si mesmo. Os desejos não davam sossego e ele ia de uma vontade a outra, ia satisfazendo a todo minuto o que podia satisfazer. O que não podia conseguir, esquecia segundos depois.
A bruxinha ficou com pena porque se ele ficasse mais tempo assim, ficaria um bichinho para sempre. Para sempre ficaria escravo dos desejos e ia esquecer de si mesmo.  Também já estava perdendo a graça ver o guri assim, tão feio, tão perdido e tão... animalzinho. Então pegou um vidrinho do seu bolso e lá estava a alma, a responsabilidade do Marquinhos. A alma era transparente e super cuidadosa. Alma suplicou com o olhar para que a bruxinha a deixasse voltar ao corpo. Ela estava com medo que fosse rejeitada pelo corpo do Marquinhos. O corpo estava forte e cada vez mais mandava na mente do guri.

              A Bruxinha abriu o vidrinho, a alma pulou e como um raio, plof, atingiu a cabeça do Marquinhos. O guri tremeu todo e voltou a si. A bruxinha riu alto e foi embora. Com a inteligência restabelecida, a ficha caiu! Entendeu a lição que ficou daquela traquinagem da bruxinha!
E tu? Entendeste?

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