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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fontes verbais

 Prof. Amilcar Bernardi

Hoje lembrei das fontes de água. Delas saem água límpida. Os caminhos dessas águas seguem irracionalmente a força da gravidade e os acidentes do terreno. A fonte natural não tem consciência do que pode acontecer com a sua produção pura e cristalina. Ela apenas deixa fluir o líquido e o deixa por conta própria. A fonte existe para doar água e só.
Cada um de nós é uma fonte. Jorramos idéias através das palavras. Até nosso silêncio é um manancial de informações sobre nós.  Porém, diferentemente da fonte natural de água, não seguimos as forças irracionais da natureza. Somos criaturas muito complexas e fugimos das leis da natureza.
Quando “jorramos” nossas falas, seguimos algumas tendências, notadamente influenciados pelo convívio social. Sermos diferentes dos outros, marcar nosso diferencial não é fácil. Tudo tem um preço. Aprendemos isso jorrando falas, comunicando coisas por anos a fio. Às vezes somos inundações de águas verbais, outras vezes somos desertos. Acertar nosso desejo/necessidade de comunicar com o entendimento/abertura do outro não é fácil. Afogamos uns sendo verborrágicos, matamos outros de sede comunicando quase nada.
São poucos os falantes experientes. A maioria são apenas fontes irrefletidas de falas. Os falantes mais experientes têm consciência do que e para quem falam. Escolhem palavras, procuram ampliar vocabulário e se preocupam em relacionar o fluxo das águas verbais com a capacidade de armazenamento dos ouvidos alheios.  Sim, porque existem ouvidos rasos, que pouco retêm, escorre quase tudo. Tem ouvidos seletivos, escolhem o que querem armazenar. Há também ouvidos profundos que acolhem tudo, depois selecionam para esquecer o que não é importante.
Os mais experientes são amorosos ao saberem-se fontes. Procuram manter as águas verbais puras, para que todos possam dela beber. Os falantes cuidadosos procuram não ofender quem procura saciar a sede nas suas águas. Sabem que a água tem que ser potável, estar agradável ao paladar e sempre que possível cristalinas.
Os menos experientes jorram de qualquer jeito. Acabam perdendo o controle, são inconscientes do que pode acontecer com suas águas. Algumas fontes provocam deslizamento de lama e soterram pessoas. Outras apenas sujam suas águas escorrendo por qualquer lugar. Tem outros ainda que já jorram águas contaminadas, são fontes prejudicadas por infiltração de coisas ruins. Fazem mal a saúde.
De qualquer forma somos fontes verbais. Não podemos reprimir nossas águas por muito tempo, acabamos por escorrer nossos conteúdos através das palavras. É inevitável, faz parte da nossa essência. Porém, cuidemos da qualidade. Fontes más fazem estragos incalculáveis. Cuidemos de nós mesmos, sejamos boas fontes de águas puras e vivas. Que todos possam vir beber de nós e tenham sua sede de compreensão e respeito satisfeita.

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