Follow by Email

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Do meu livro "Primeiras páginas"

Papo com a psiquiatra...


- Doutora, como a senhora pode achar essa situação simples?
- Tu tens que ver com outros olhos. A moça é bonita?
- Sim, claro que sim.
- Tu gostas dela?
- Com certeza. Ela é um encanto de pessoa!
- Então...?
- A senhora não consegue ver do meu ponto de vista. Sou um executivo. Tenho como um artista de novela, um papel a desempenhar na empresa. Esperam isso de mim... é uma espécie de roteiro cênico que tenho que cumprir. Esperam que eu tenha determinados comportamentos... até a roupa que uso é importante!
- E daí?
- Essa moça, segundos eles todos, não está no roteiro... entendes?
- Não, não entendo. Explica por favor.
- Minha liberdade é limitada. Ou melhor: é uma liberdade vigiada. Algumas coisas eu posso fazer, outras não. Posso ter um caso extraconjugal. Porém, não pode ser com uma colega nem pode ser de maneira evidente. Percebes? Posso ter dívidas, mas não posso reclamar delas no meu trabalho.
- Entendo... e a moça?
- Eu preciso do meu emprego. Eu vivo dele. Sabes quando o instinto de sobrevivência é acionado? Quando pensamos que vamos morrer, tudo é válido para sobreviver. Até a lei prevê a tese de legítima defesa. Nada existe que valha a vida de alguém.
- Sim, e a moça?
- Olha, se eu perco o emprego, eu vou morrer sem as condições de sobrevivência. Então, tudo o que fizer para não perde-lo é legítima defesa. É defender a minha vida. A mesa que eu sento para trabalhar não é minha. A caneta que eu uso não pertence-me. Acho que até o ar que eu respiro não é meu lá. O que eu penso e falo só possível de ser pensado e falado se é coerente com a filosofia da empresa. Eu existo enquanto alto executivo porque deixam eu estar nesse posto. Essa posição social não é minha. É algo emprestado, é algo que uso em confiança do dono. E perder a confiança é algo muito fácil.  As vezes penso que nada é meu. Nem meu corpo. Afinal, eu o alimento porque deixam-me alimenta-lo... a comida não é minha, é do mercado. As palavras que eu uso quando estou trabalhando... serão minhas? Eu falo só o que deixam eu falar... então não são minhas. Se eu querer poetar... ou falar alguma bobagem... assumo o risco de ser admoestado... talvez ser demitido. Sou um alienado.
- Estás fugindo do assunto?
- Claro que não doutora!
- Cheguei a pensar que estava analisando o Marx! – Ela riu.
- Estou sofrendo doutora!
- Voltemos ao assunto então. Porque não assumes teu amor por ela?
- Por que nem o amor pertence-me.
- Como isso? Ninguém manda na tua alma!
- Doutora, existe alma sem corpo?
- Que eu saiba, só se for fantasma!
- Então, quem manda no teu corpo, manda na alma também. Voltamos à questão do instinto de sobrevivência. Se eu perder o emprego, perco meu corpo. Ele não me pertence mais. Vou morrer de fome ou de tristeza sem meu emprego. De tristeza porque ninguém aceita o desemprego. É o emprego que faz ser eu uma pessoa.Viver é estar empregado. Se eu afirmar que a amo, não haverá aceitação. Serei advertido, demitido com certeza. Eu sou um alto executivo da empresa!
- Qual o problema em amá-la, mesmo ela sendo trabalhadora da mesma empresa?
- Não seja ingênua Doutora. Qual a relação que há entre um carro e a minha inteligência, competência e ética na empresa?
- Nenhuma relação, óbvio.
- Pois os donos da empresa acham que há sim. Não querem que eu use o carro que é meu, que eu gosto. Querem que eu use outro. Mais novo, bonito, que não faça feio.  Como posso usar o que eu quero se outros querem que eu queira outra coisa? Vão mandar-me embora se eu quiser aquilo que eu quero.
- Estás novamente fugindo do assunto. E a moça?
- Eu a quero como nunca quis alguém. Ela é o ar que eu respiro. Porém, não querem que eu a queira. Se quiser aquela que eu quero, não me quererão mais. Como posso dizer que a amo e condenar nos dois ao desemprego? Como condena-la e a mim próprio ao desprezo das pessoas? E a nossa conservação enquanto seres vivos? Acho que nem nossa vida é nossa mesmo. Ela tem um preço, ela vale uma quantia de dinheiro por mês.
- Assuma o risco, saia da empresa!
- Meu salário é enorme. É um vício ganhar bem. Eu já não pertenço-me. Sou do mercado de capitais! Eu não tenho culpa disso. Eu nasci num mundo assim, ensinaram-me assim, viciaram-me nisso. Eu era criança, não tinha como defender-me disso. Ela é da faxina. Não ganha como eu. Porém, vive disso. Ela e a mãe dela. Como pô-la em contato com um viciado como eu? Ela não merece isso. Nossas vidas tem um preço. A senhora sabe, nem essa terapia é minha. Eu pago à senhora. A sua atenção não é para mim, mas para meu dinheiro. Quanto mais em pago, mais atenção eu tenho. Estamos todos alienados. Inventamos um deus para sermos escravos. Loucura não?
- Que deus é esse?
- O dinheiro.
- O Senhor está delirando. Talvez uma medicação bem forte ajude o senhor.
- Ajude-me a esquecer a moça dos meus sonhos?-
- Não, claro que não. Com a medicação o Senhor diminuirá o estresse. Se sentirá melhor.
- Doutora, o melhor não seria mudar o sistema econômico? Talvez o socialismo ou o comunismo? Quem sabe, poderíamos tentar desalienar as pessoas. Faze-las entender sua dignidade própria. Puxa doutora! Poderíamos ensinar nas escolas que não temos donos! Ensinar que o capital foi inventado pelo homem, não é um deus! Podemos destruí-lo a qualquer momento! Então eu poderia amar Maria sem ofender meus donos. Então poderia casar com Maria sem ser ameaçado em minha sobrevivência! Amar não teria pena de morte. O mundo poderia ser outro. O que a senhora diz doutora?
- Sei. Vou aumentar a dose da sua medicação e triplicar o número das suas consultas. Nossa sessão de hoje acabou. Pague a consulta ali com minha secretária. Obrigada.



Nenhum comentário:

Postar um comentário