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domingo, 22 de janeiro de 2012

Chuva de letrinhas

Prof. Amilcar Bernardi


Começou a chover. A estiagem no Rio Grande do Sul esta fazendo seu estrago. Fiquei feliz com a chuva. Fiquei imaginando as gotas de água, cada uma, molhado o solo. Fácil pensar em sementes revivendo e virando brotos. O campo amarelado e seco ficará, em razão de cada gota, mais verde e crescentemente mais vivo. Cada gota é um milagre, único e irrepetível.

No meu escritório rodeado de livros, ouço o som da chuva na vidraça. Meus olhos vagueiam, preguiçosos, pelo ambiente. A imagem das nuvens e das gotas d’água não saem da minha cabeça.  Divagando penso o seguinte, e se cada livro na estante fosse uma nuvem? E se cada letra desses livros fosse uma gota? E se minha alma fosse terra fértil a espera de uma chuva de letrinhas?

O dicionário seria um tufão louco, com ventos verbais jogando pingos de letras por todos os lugares, em desordem, sem sentido, sem contexto, sem se importar com nada. Seria uma nuvem escura, carregada de raios enigmáticos jogando pingos-letras com raiva.  Por outro lado os livros doces, romances, por exemplo, seriam uma nuvem diáfana, pingando letrinhas doces aos poucos, regando o solo com carinho querendo dar vida às rosas cor-de-rosa.  Os livros de mistério seriam uma chuva estranha, carregada de negror e raios repentinos.  Letras assustadoras e frias cairiam suaves regando rosas vermelho-sangue.

Se minha alma fosse um terreno fértil, os meus livros científicos seriam nuvens altas, de pouca humidade. Aquelas nuvens que ameaçam chuva, mas que raramente acontecem, ou acontecem como enxurradas repentinas inúteis para as flores. Se eu fosse um terreno fértil, com esse tipo de nuvem, viraria um deserto cheio de cactos espinhentos. As gotas de letrinhas científicas não são boas para jardins, mas ideais para desertos. Sei que muita coisa boa acontece nos desertos, que ele tem seu lugar no mundo, que as gotas de letrinhas científicas também fazem bem ao planeta. Porém, gosto mais de jardins que de desertos, questão de gosto.

Inúmeras vezes eu prefiro os trovões e ventos das nuvens dicionários. Os jardins são sacudidos, algumas flores morrem até, mas tudo se renova e as gotas de letrinhas agitadas penetram em todos os lugares. Então a vida fica possível nos lugares mais estranhos. Precisamos muito de dicionários! Sem esse tipo de nuvem a vida não tem novidades, os jardins são sempre os mesmos.

Sem as chuvas de letrinhas, não adianta ser terreno fértil. Sem a água da vida não há vida. Quantos terrenos férteis morrem sem as gotas de letrinhas? Basta vermos quantas crianças ricas e pobres que deixam (muitas vezes a contragosto) morrer seus canteiros sem esse tipo de chuva. Quantos adultos áridos não se molham, não ficam embaixo das nuvens-livros? Penso que todos nascemos terra fértil, cheia de sementes boas. O que faz a diferença é se chove muito ou pouco nos canteiros das nossas almas! Benditas sejam as chuvas de letrinhas!

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