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sábado, 28 de janeiro de 2012

Sinto-me...

Amilcar Bernadi


Sinto-me estranho. Fico quieto.
Quero solidão. Ninguém perto.

Sinto-me grande. Olho abismos.
Quero caos. Quero cataclismos.

Sinto-me profundo. Sou abissal.
Quero ser tudo. Sonho ser colossal.

Sinto-me estranho. Um esquizóide.
Quero ser colisão. Sou asteróide.

Planto coisas... planto letras, rima e cor!
Quero plantar palavras e colher-me escritor!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Escafandrista ou benévolo?

 Prof. Amilcar Bernardi


Eu adoro palavras. Sempre que posso escolho uma e fico admirando-a. Estava vendo um desenho animado, Bob Esponja para ser mais exato, e vi uma pessoa usando um escafandro. Fiquei imaginando como seria estar dentro daquele aparelho impermeável, ligado por um respirador, embaixo da água. A palavra "Escafandro" é horrorosa, feia. Eu iria sentir-me horroroso, feio, isolado, pesado e desengonçado ao vestir tal coisa, o escafandro.
Tem pessoas que estão dentro de seus corpos, como o mergulhador está dentro do equipamento escafandro. Não conseguem sair de lá de dentro para entender o mundo de fora. Se a sociedade fosse um oceano, algumas pessoas seriam mergulhadores pesados, isolados dentro de seus corpos sólidos, hermeticamente fechados, incomunicáveis.  Pensei nos egocêntricos, nos egoístas e nos que criaram a ilusão que estão certos apenas em 99% dos casos.  Os escafandristas na sociedade vivem nas águas da vida sem se molhar. Que vida triste! Essa palavra (escafandro) tão feia e esquisita combina com estes indivíduos.
Eu adoro palavras. Então fiquei imaginando as que fossem o contrário de escafandro. Lembrei que acabei de ler um livro sobre a comunicação não violenta. Ora, se a comunicação fosse um mar, escafandristas seriam coisas estranhíssimas! Pensei em quais palavras bonitas apareceram no livro. Lembrei de algumas, mas uma achei que era o contrário do nosso mergulhador: compaixão. Compaixão é um sentimento benévolo que nos domina quando algum mal acontece a alguém. Temos compaixão, portanto, quando saímos de dentro de nós e ficamos enternecidos pelo outro que sofre. Bonito, não?
Agora, vamos pensar na palavra benévolo. Muito linda essa palavra. Somos benévolos quando desejamos o bem ao outro. Compaixão e benévolo são a antítese de escafandro. Nos mares da vida tem muito escafandrista, não?
Resta-me refletir se eu sou benévolo ou um mergulhador blindado, incomunicável. Enquanto não tenho resposta para essa reflexão, vou continuar saboreando palavras.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Chuva de letrinhas

Prof. Amilcar Bernardi


Começou a chover. A estiagem no Rio Grande do Sul esta fazendo seu estrago. Fiquei feliz com a chuva. Fiquei imaginando as gotas de água, cada uma, molhado o solo. Fácil pensar em sementes revivendo e virando brotos. O campo amarelado e seco ficará, em razão de cada gota, mais verde e crescentemente mais vivo. Cada gota é um milagre, único e irrepetível.

No meu escritório rodeado de livros, ouço o som da chuva na vidraça. Meus olhos vagueiam, preguiçosos, pelo ambiente. A imagem das nuvens e das gotas d’água não saem da minha cabeça.  Divagando penso o seguinte, e se cada livro na estante fosse uma nuvem? E se cada letra desses livros fosse uma gota? E se minha alma fosse terra fértil a espera de uma chuva de letrinhas?

O dicionário seria um tufão louco, com ventos verbais jogando pingos de letras por todos os lugares, em desordem, sem sentido, sem contexto, sem se importar com nada. Seria uma nuvem escura, carregada de raios enigmáticos jogando pingos-letras com raiva.  Por outro lado os livros doces, romances, por exemplo, seriam uma nuvem diáfana, pingando letrinhas doces aos poucos, regando o solo com carinho querendo dar vida às rosas cor-de-rosa.  Os livros de mistério seriam uma chuva estranha, carregada de negror e raios repentinos.  Letras assustadoras e frias cairiam suaves regando rosas vermelho-sangue.

Se minha alma fosse um terreno fértil, os meus livros científicos seriam nuvens altas, de pouca humidade. Aquelas nuvens que ameaçam chuva, mas que raramente acontecem, ou acontecem como enxurradas repentinas inúteis para as flores. Se eu fosse um terreno fértil, com esse tipo de nuvem, viraria um deserto cheio de cactos espinhentos. As gotas de letrinhas científicas não são boas para jardins, mas ideais para desertos. Sei que muita coisa boa acontece nos desertos, que ele tem seu lugar no mundo, que as gotas de letrinhas científicas também fazem bem ao planeta. Porém, gosto mais de jardins que de desertos, questão de gosto.

Inúmeras vezes eu prefiro os trovões e ventos das nuvens dicionários. Os jardins são sacudidos, algumas flores morrem até, mas tudo se renova e as gotas de letrinhas agitadas penetram em todos os lugares. Então a vida fica possível nos lugares mais estranhos. Precisamos muito de dicionários! Sem esse tipo de nuvem a vida não tem novidades, os jardins são sempre os mesmos.

Sem as chuvas de letrinhas, não adianta ser terreno fértil. Sem a água da vida não há vida. Quantos terrenos férteis morrem sem as gotas de letrinhas? Basta vermos quantas crianças ricas e pobres que deixam (muitas vezes a contragosto) morrer seus canteiros sem esse tipo de chuva. Quantos adultos áridos não se molham, não ficam embaixo das nuvens-livros? Penso que todos nascemos terra fértil, cheia de sementes boas. O que faz a diferença é se chove muito ou pouco nos canteiros das nossas almas! Benditas sejam as chuvas de letrinhas!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Todas as certezas são fictícias

Prof. Amilcar Bernardi

Todas as certezas são fictícias. Essa “certeza” ocorreu-me repentinamente, como num mal súbito que acomete alguém que está ao volante. Eu sentia-me bastante confortável com minhas verdades e esse pensamento causou-me estranheza.
Parei então para refletir. Quando eu tenho certeza? Quando algo para mim é evidente e estável no tempo, algo não contraditório. Logo veio ao meu pensamento a matemática. Ela é indubitável por ser não contraditória. Pensei mais um pouco e percebi que a certeza nada mais é que uma convicção do meu espírito. Um tipo de fé, uma adesão absoluta e voluntária ao que meus sentidos percebem ou ao que entendo como verdadeiro.
Voltando ao tema, toda certeza é fictícia. A matemática só é certeira porque é irreal, é feita pelas mentes humanas e segue a lógica humana das mentes, portanto, evidentemente não será contraditória. Ela é assim justamente porque é uma ficção engenhosa, muito produtiva e eficaz. È uma certeza inventada, irreal e, sob o ponto de vista da natureza, ilusória. A natureza não “sabe” nem se rege pela matemática.
Quando tenho certeza que o ar condicionado da minha sala está numa temperatura agradável, sempre vem um estraga-prazer dizer que o ambiente está muito frio, ou, ao contrário, está muito quente.  Quando pego uma pedra e penso que ela é pesada, para o outro ela é leve.  Como dizia Descartes, tudo é dubitável.  Então, a única coisa certa e inquestionável é a natureza, os fatos físicos, porque são independentes de nós. Entretanto, como independe de nós a natureza e a ela não temos acesso direto, pois estamos dentro do nosso corpo cercado de tecidos, músculos e ossos, pouco posso dizer da realidade “real” do mundo físico que me cerca.
Minhas certezas e verdades, concluo, são frutos de acertos, acordos e conceitos inventados pelas pessoas.  Depois de inventados e funcionais, passam a ser inquestionáveis e verdadeiros a ponto de criarmos guerras e torturarmos pessoas. Muita gente sofre e vive miseravelmente porque criamos o sofrimento e esse tipo de vida; depois fizemos isso ser verdadeiro, logo após, inventamos que somos diferentes dessas pessoas.
Em tempo: a própria ciência foi uma invenção maluca dos homens! Tão maluca que está a matar o mundo.
Quanta ficção, quanta virtualidade! Os jogos de computador, os mundos digitais nada mais são do que o reflexo do que a milênios já fazemos! Criamos o mundo, criamos as verdades. Criamos as certezas como criamos jogos virtuais, para nosso conforto e diversão. As matemáticas e as ciências apenas inventaram a estabilidade e previsibilidade.
Fiquei um pouco abalado. Se minhas certezas são incertas, terei que manter-me sempre em crise e atento. Principalmente, devo sentir-me cada vez mais responsável pelas verdades que criamos a cada dia. Verdades que podem ser falácias cruéis que fazem do mundo uma vida virtual, um jogo terrível onde poucos ganham e a grande maioria perde.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Crescentemente você...

Amilcar Bernardi


Você em tudo,

Você contudo,

Com tudo sem fim!

Fora e dentro de mim...

Você sempre em todo lugar...

Você sempre em mim a vagar!

Crescentemente em mim você está!

Você em mim, você ali, você aqui e lá!

Você sempre! Crescendo, você onipresente!

Onipresente! Onisciente em mim! Tão presente!

Cresce você!Toma conta da minha alma a amplitude!

Se sou jardim, você é as flores! Se você é peixe sou açude!

Você em tudo! Dentro e fora de mim. Cresce como sol que nasce!

Você em tudo! Cresce sempre! É vida! É luz! É cor! É amor e enlace!




sábado, 14 de janeiro de 2012

Homem invisível

 Prof. Amilcar Bernardi

     Seria muito estranho se num grupo de videntes, um raio cheio de luz não fosse visto.Igualmente de se estranhar seria num grupo de ouvintes, se um trovão não fosse ouvido. Na nossa vivência diária, muitas coisas são estranháveis. Porém meu foco será a invisibilidade de que sou investido pelos que possuem olhos, mas não veem sutilezas, matizes.
     Falo isso por mim mesmo. Sou invisível... não totalmente, mas fui investido de uma invisibilidade que beira a maldade. Cruzo pelas pessoas e elas dão-me passagem, pois dois corpos não podem permanecer no mesmo espaço. Quando uso uma camisa que não combina com a gravata, muitos aconselham a esmerar-me melhor ao escolher as cores das camisas e gravatas. Fisicamente sou perfeitamente visível como todo mundo... então qual é meu problema?
     Sofro porque minha invisibilidade é indesejável e imposta. Minha gentileza com as pessoas não é vista. Não é percebido meu Bom dia ensolarado em dias de chuva. A cegueira dos outros afoga-me em trevas quando deixo a moça sentar antes de mim e ela mesma nem percebe. Quando não interrompo os verborreicos e fico a esperar minha vez para falar, então sendo obliterado, esquecido, invisibilizado. Para ser visto preciso forçar a barra, fazer-me perceptível. Com esforço, os olhos passam a ver-me. Imediatamente a imposição da minha visibilidade cansa-me e retraio-me. Penso que não vale a pena tal esforço.
     Sou feito de letras. Leio muito, escrevo mais ainda. Mas vivo num mundo iletrado, cego para frases bem feitas, para as rimas raras, para os contos mágicos. O manto da invisibilidade abate-se sobre mim. Para materializar-me a ponto de ser visto devo fazer, dizer, produzir coisas materiais. Tenho dificuldade de materializar-me, visibilizar-me nas rodas de amigos, nas festas, no trabalho. Claro que tento manter-me presente e visível. Esforço-me muito para comentar coisas que faço no trabalho, coisas que compro, coisas que guardo, coisas que ponho em gavetas e penduro em paredes. Dou ordens e fico bravo. Mas canso muito nesse esforço para manter-me visível. Não gosto de cansar-me.
     Acabo sendo o que não aparece. Por exemplo, espero minha vez na fila para entrar no elevador. Escrevo poemas rimados não lidos. Escrevo crônicas sobre quem não percebe-me. Sou delicado quando a grosseria é esperada. Falo sobre o amanhã para os ouvidos de hoje. Falo coisas diferentes para quem fala coisas iguais. Falo de filosofia para banqueiros. Minha invisibilidade é fruto da minha incompetência em reconhecer o que as pessoas gostam de ver. Acontece que tenho preguiça de ficar esforçando-me para ser visto. Sou invisível por preguiça de ser visível!!!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Amanhã...

Amilcar Bernardi


Não vivo hoje, moro no amanhã...
Por isso essa minha solidão malsã...
Não estou aqui, estou noutro lugar...
Estou sempre lá, como me encontrar?
Sou feito de amanheceres, de alvoradas...
Tenho versos e asas, sou feito de revoadas!
Não tenho nada, tenho a mim só.
Sou vento, sou estranho, sou pó!
Vivo de estranhos desejos...
Vivo de amores, abraços e beijos...
Na minha porta não batam por favor...
Estou no amanhã, pois do hoje tenho pavor!
Não me amem... já estou de partida!
Nunca estou, sempre sou despedida!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O sonho de ser livre

Prof. Amilcar Bernardi


      O sonho dele era ser livre. Não depender das pessoas. Ser independente, sair por aí sem lilmites. Admirava as aves porque eram livres e viajavam pelos ares sem depender de nada. Batiam as asas e pronto.
      Ele ficava olhando os céus e suspirava. No solo tudo era dependência, tudo era cronometrado. Nos céus não, nunca uma nuvem teve horário para navegar pelos oceâno do céu. Nunca um condor pediu permissão para voar.
      Num dia estranho um sujeito mais estranho ainda, disse a ele que tinha poderes especiais e poderia conceder-lhe o desejo de ser livre, de voar sem pedir nada para ninguém. O sujeito estranhíssimo afirmou que poderia dar a liberdade plena. Só queria algo em troca.
      Ele pensou: Este homem maluco é o demônio e quer minha alma. Todas os mitos são assim, alguém oferece algo e pede a alma da pessoa em troca. Então foi logo dizendo: Se na nossa negociação eu não perderei minha alma nem irei para o inferno, o negócio está feito. Achou-se muito prudente ao dizer isso.
      O sujeito obscuro sorriu e disse nada ter a ver com almas, demônios ou infernos!
Então ele prontificou-se a ouvir a proposta da criatura nebulosa.
Porém, antes de ouvir a proposta, num passe de mágica, asas possantes e muito belas, douradas e fortes, surgiram em suas costas. Seus pulmões obtiveram novo vigor e quase sem querer alçou voo pelos ares. Quanto mais forte batia as asas, mais sentia a liberdade! Bastava seu querer e ia pelos espaços viajando nem nada temer pelos ares e montanhas. O sol no rosto, o vento nos cabelos e a visão do horizonte sempre a frente o fizeram sentir-se feliz. Sabia que seu sonho havia sido realizado.
      O sujeito estranho esperou ele pousar quando quis, então disse-lhe: Eu quero apenas uma coisa de ti. E podes dizer não quando quiseres e tudo voltará como era antes. Eu preciso alertar que essas asas atrofiam se pararem. Tu deves estar sempre exercitando-as, sempre deves ficar curtindo tua liberdade plenamente. Se parares por mais que segundos, elas desaparecerão e voltarás a ser uma pessoa comum, pouco livre, sujeita ao trabalho, aos patrôes e tudo mais. Portanto, só isso quero de ti: que não pares nunca!
      Ele achou o pedido muito fácil, razoável, afinal, ia ao encontro do seu desejo de ser livre, cada vez mais livre. Foi só pensar nisso e o homem estranho sumiu e as asas permaneceram em suas costas, firmes. Imediatamente alçou voo novamente. Não havia limite algum, nem fome nem sede sentia. Era cem por cento livre. A sensação era indescritível porque podia tudo! Aos poucos percebeu que podia tudo se necessariamente não precisase de nada!
      Quando a solidão bateu e parou para pensar nisso, as asas enfraqueceram e ele voltou, enlouquecido de medo de perdê-las, a voar para curtir sem parar a liberdade plena. Quando deu-se um tempo para pensar se havia outra pessoa como ele, quase não consegue voar novamente. Ressurge o medo de perder tudo que tinha, ou perder o nada que tinha (pois qualquer coisa que tivesse o faria menos livre). Então alçou voos cada vez mais altos e mais rápidos. Desaprendeu a caminhar, esqueceu a fala, não sabia mais respeitar o outro pois... não havia necessidade de outras pessoas! Qualquer necessidade era contrária a liberdade plena.
      Ainda em seus ouvidos ressoava: a qualquer momento podes dizer não e tudo será como antes! O terror de que a mágica acabasse fez com que abdicasse da reflexão sobre o que estava acontecendo.
      Tão livre ele ficou que ele está preso. Está preso em si mesmo até hoje. Seu voo não tem rumo, não tem sentido. É um triste presidiário com asas. Seu voo só o faz levar suas grades por onde vai.
      Ele tão livre está que não vê o que os outros veem quando percebem seu voo. Os olhos dos outros percebem um cubo gradeado com enormes asas musculosas, dentro um corpo cego. A força delas vem do exercício diário de levar aquelas grades enormes e pesadas pelos espaços. Todos ficam arrepiados de susto! Tremem ao ver tal horror. Não querem o mesmo fim. Não querem tal liberdade. Ela aprisiona demais. É uma maldição tão terrível que agora ao entender o acontecido, viram o rosto para não comtemplarem tal sofrer.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Casa da Barbie...


Amilcar Bernardi


Estante bem arrumada,
sala ampla, bem enfeitada...
Relógio bem ajustado,
quarto limpo, bem arrumado...
Metais bem polidos,
bem limpos os ladrilhos...
Bem organizada: hora de dormir, hora de sair,
hora de chegar, hora de partir...
Na sala de visitas belo tapete,
na geladeira das compras lembrete...
Sóbrias cortinas, guardanapos bordados,
cama arrumada, lindos acolchoados...
Casa da Barbie, casa engomada,
toda bonita, toda dourada...
Tudo bem cuidado, mas amor não tem
Não entra pó, não entra ninguém!