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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Todas as certezas são fictícias

Prof. Amilcar Bernardi

Todas as certezas são fictícias. Essa “certeza” ocorreu-me repentinamente, como num mal súbito que acomete alguém que está ao volante. Eu sentia-me bastante confortável com minhas verdades e esse pensamento causou-me estranheza.
Parei então para refletir. Quando eu tenho certeza? Quando algo para mim é evidente e estável no tempo, algo não contraditório. Logo veio ao meu pensamento a matemática. Ela é indubitável por ser não contraditória. Pensei mais um pouco e percebi que a certeza nada mais é que uma convicção do meu espírito. Um tipo de fé, uma adesão absoluta e voluntária ao que meus sentidos percebem ou ao que entendo como verdadeiro.
Voltando ao tema, toda certeza é fictícia. A matemática só é certeira porque é irreal, é feita pelas mentes humanas e segue a lógica humana das mentes, portanto, evidentemente não será contraditória. Ela é assim justamente porque é uma ficção engenhosa, muito produtiva e eficaz. È uma certeza inventada, irreal e, sob o ponto de vista da natureza, ilusória. A natureza não “sabe” nem se rege pela matemática.
Quando tenho certeza que o ar condicionado da minha sala está numa temperatura agradável, sempre vem um estraga-prazer dizer que o ambiente está muito frio, ou, ao contrário, está muito quente.  Quando pego uma pedra e penso que ela é pesada, para o outro ela é leve.  Como dizia Descartes, tudo é dubitável.  Então, a única coisa certa e inquestionável é a natureza, os fatos físicos, porque são independentes de nós. Entretanto, como independe de nós a natureza e a ela não temos acesso direto, pois estamos dentro do nosso corpo cercado de tecidos, músculos e ossos, pouco posso dizer da realidade “real” do mundo físico que me cerca.
Minhas certezas e verdades, concluo, são frutos de acertos, acordos e conceitos inventados pelas pessoas.  Depois de inventados e funcionais, passam a ser inquestionáveis e verdadeiros a ponto de criarmos guerras e torturarmos pessoas. Muita gente sofre e vive miseravelmente porque criamos o sofrimento e esse tipo de vida; depois fizemos isso ser verdadeiro, logo após, inventamos que somos diferentes dessas pessoas.
Em tempo: a própria ciência foi uma invenção maluca dos homens! Tão maluca que está a matar o mundo.
Quanta ficção, quanta virtualidade! Os jogos de computador, os mundos digitais nada mais são do que o reflexo do que a milênios já fazemos! Criamos o mundo, criamos as verdades. Criamos as certezas como criamos jogos virtuais, para nosso conforto e diversão. As matemáticas e as ciências apenas inventaram a estabilidade e previsibilidade.
Fiquei um pouco abalado. Se minhas certezas são incertas, terei que manter-me sempre em crise e atento. Principalmente, devo sentir-me cada vez mais responsável pelas verdades que criamos a cada dia. Verdades que podem ser falácias cruéis que fazem do mundo uma vida virtual, um jogo terrível onde poucos ganham e a grande maioria perde.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O sonho de ser livre

Prof. Amilcar Bernardi


      O sonho dele era ser livre. Não depender das pessoas. Ser independente, sair por aí sem lilmites. Admirava as aves porque eram livres e viajavam pelos ares sem depender de nada. Batiam as asas e pronto.
      Ele ficava olhando os céus e suspirava. No solo tudo era dependência, tudo era cronometrado. Nos céus não, nunca uma nuvem teve horário para navegar pelos oceâno do céu. Nunca um condor pediu permissão para voar.
      Num dia estranho um sujeito mais estranho ainda, disse a ele que tinha poderes especiais e poderia conceder-lhe o desejo de ser livre, de voar sem pedir nada para ninguém. O sujeito estranhíssimo afirmou que poderia dar a liberdade plena. Só queria algo em troca.
      Ele pensou: Este homem maluco é o demônio e quer minha alma. Todas os mitos são assim, alguém oferece algo e pede a alma da pessoa em troca. Então foi logo dizendo: Se na nossa negociação eu não perderei minha alma nem irei para o inferno, o negócio está feito. Achou-se muito prudente ao dizer isso.
      O sujeito obscuro sorriu e disse nada ter a ver com almas, demônios ou infernos!
Então ele prontificou-se a ouvir a proposta da criatura nebulosa.
Porém, antes de ouvir a proposta, num passe de mágica, asas possantes e muito belas, douradas e fortes, surgiram em suas costas. Seus pulmões obtiveram novo vigor e quase sem querer alçou voo pelos ares. Quanto mais forte batia as asas, mais sentia a liberdade! Bastava seu querer e ia pelos espaços viajando nem nada temer pelos ares e montanhas. O sol no rosto, o vento nos cabelos e a visão do horizonte sempre a frente o fizeram sentir-se feliz. Sabia que seu sonho havia sido realizado.
      O sujeito estranho esperou ele pousar quando quis, então disse-lhe: Eu quero apenas uma coisa de ti. E podes dizer não quando quiseres e tudo voltará como era antes. Eu preciso alertar que essas asas atrofiam se pararem. Tu deves estar sempre exercitando-as, sempre deves ficar curtindo tua liberdade plenamente. Se parares por mais que segundos, elas desaparecerão e voltarás a ser uma pessoa comum, pouco livre, sujeita ao trabalho, aos patrôes e tudo mais. Portanto, só isso quero de ti: que não pares nunca!
      Ele achou o pedido muito fácil, razoável, afinal, ia ao encontro do seu desejo de ser livre, cada vez mais livre. Foi só pensar nisso e o homem estranho sumiu e as asas permaneceram em suas costas, firmes. Imediatamente alçou voo novamente. Não havia limite algum, nem fome nem sede sentia. Era cem por cento livre. A sensação era indescritível porque podia tudo! Aos poucos percebeu que podia tudo se necessariamente não precisase de nada!
      Quando a solidão bateu e parou para pensar nisso, as asas enfraqueceram e ele voltou, enlouquecido de medo de perdê-las, a voar para curtir sem parar a liberdade plena. Quando deu-se um tempo para pensar se havia outra pessoa como ele, quase não consegue voar novamente. Ressurge o medo de perder tudo que tinha, ou perder o nada que tinha (pois qualquer coisa que tivesse o faria menos livre). Então alçou voos cada vez mais altos e mais rápidos. Desaprendeu a caminhar, esqueceu a fala, não sabia mais respeitar o outro pois... não havia necessidade de outras pessoas! Qualquer necessidade era contrária a liberdade plena.
      Ainda em seus ouvidos ressoava: a qualquer momento podes dizer não e tudo será como antes! O terror de que a mágica acabasse fez com que abdicasse da reflexão sobre o que estava acontecendo.
      Tão livre ele ficou que ele está preso. Está preso em si mesmo até hoje. Seu voo não tem rumo, não tem sentido. É um triste presidiário com asas. Seu voo só o faz levar suas grades por onde vai.
      Ele tão livre está que não vê o que os outros veem quando percebem seu voo. Os olhos dos outros percebem um cubo gradeado com enormes asas musculosas, dentro um corpo cego. A força delas vem do exercício diário de levar aquelas grades enormes e pesadas pelos espaços. Todos ficam arrepiados de susto! Tremem ao ver tal horror. Não querem o mesmo fim. Não querem tal liberdade. Ela aprisiona demais. É uma maldição tão terrível que agora ao entender o acontecido, viram o rosto para não comtemplarem tal sofrer.