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domingo, 6 de novembro de 2011

Comunicação e pesca

Prof. Amilcar Bernardi

Comunicamo-nos quando emitimos/recebemos mensagens através de processos convencionados (linguagem: sinais, símbolos, pausas, enfim signos...). Como disse Aristóteles, somos animais políticos. Entendamos aqui política como habilidade adquirida no trato das relações humanas: civilidade, negociações, cortesia e astúcia.  Habilidades exclusivamente humanas por que dependentes da capacidade comunicação.

A comunicação só poderá acontecer num sistema estruturado, num contexto onde seu conjunto de elementos possua alguma relação, uma coordenação inteligível. Simplificando: as pessoas entendem-me quando falo porque mantenho-me dentro das regras de fala comuns a mim e a quem escuta-me. O que falo relaciona-se com a capacidade de entendimento do outro (ouvinte).  Portanto, o ouvinte/receptor não é passivo. Ele está escolhendo sentidos dentro de sua história pessoal. É a sua história que vai “pintar” na tela da mente as imagens e sentimentos relacionados com o que está sendo ouvido.

Fico então imaginando o trabalho do pescador. Vai até o rio em que haja peixes. Não qualquer peixe, mas aquele que deseja pescar. Não é qualquer rio, mas aquele que tenha o peixe que deseja. Encontrado o local adequado, escolhe o melhor caniço. “Melhor” significa o mais adaptado para o porte do peixe. E mais ainda: preocupa-se com o anzol compatível e a isca perfeita. É uma espécie de planejamento onde o determinante (o peixe) está fora do pescador, está invisível dentro da água. Aí que está a graça da pescaria, o investimento no desconhecido: sabemos que o peixe está lá, mas também sabemos que é possível voltarmos com as mãos vazias.

Comunicar-se é algo semelhante a pescaria.  O rio é a mente do outro. Sei que lá tem idéias, experiências, conhecimento, preconceitos, desejos...  E lá vou eu – o comunicante – prepotente, pensando que a pescaria será boa. Pretendo pescar representações na cabeça do outro. Representações que sejam aquelas que eu quero pescar/provocar nele. As que eu quero e não outras que o receptor tenha para me oferecer. Caso eu seja um pescador inexperiente, esquecerei de procurar o argumento-anzol adequado. Não serei escrupuloso ao oferecer a idéia-isca “perfeita”, muito menos escolherei a cabeça-rio que tenha o que preciso para inspirar representações específicas. Saio por aí jogando iscas e anzóis como um louco. Isso prova que não percebi que tão importante quanto meu desejo de seduzir/capturar/inspirar é o desejo do peixe, a realidade dele.

Comunicar é isto: uma arte arriscada onde tenho que quase adivinhar o que está abaixo das águas da aparência para preparar meus caniços, anzóis e iscas. Quanto mais hábil eu for em ver prever o que está abaixo da superfície, melhor pescador/comunicador serei.

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