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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O veredito

Prof. Amilcar Bernardi


Ele não era novato na direção da escola. Porém, sempre que a questão era grave  sentia-se como se fosse um novato. Quando a coisa era séria, tinha um olhar de primeira vez, sempre.  Cada movimento para solucionar o problema era precedido de reflexão intensa. Sabia que nenhuma questão que envolva pessoas é simples. A obviedade não existe, muito menos a previsibilidade.  As pessoas são assim mesmo, imprevisíveis. Assim tem que ser. Atrás da sua mesa muitas vezes sentia-se como um juiz. As pessoas queriam sua palavra final. Apenas isso, uma palavra final. E como não dá-la? Seria possível um diretor que não finalizasse as questões, pelo menos as mais difíceis? Sabia que a autonomia das pessoas que constituíam a equipe diretiva, era relativa. A democracia também era relativa. Tinha consciência que uma hora ou outra, entre muitas opiniões e votos da maioria, ele, o diretor, teria que dar um basta.

Naquela manhã novamente a situação de ter que decidir absolutamente estava posta. Em frente a mesa, sentado como um réu estava o aluno. Quatorze anos. Boas notas, porém, indisciplinado e arrogante. Pessoa de difícil trato. Jogava papel nos colegas e negava. Quando era pego em “flagrante”, afirmava que não estava sozinho e dedurava os colegas. Sentava no fundo da sala. Cabelo despenteado, tapava os olhos.  Com frequência sacudia os ombros para dizer que não dava importância para a escola. Já havia sido advertido e suspenso. Muita conversa com a psicóloga da escola e nada. Os pais estavam cientes da arrogância e do egocentrismo.

O guri estava a sua frente, quieto. Olhar altivo. A professora havia pedido para que ele sentasse em outro lugar. Ele negou-se. Disse que não iria e pronto. Claro, foi parar na direção. A professora esperava uma atitude firme do diretor. Os colegas  dele também porque o guri não era suportado mais. Os pais dos colegas haviam reclamado do aluno-réu. Com exceção da psicóloga, todos e tudo depunham contra ele.

A psicóloga pedia mais diálogo, mais tempo para trabalhar com o jovem. Afirmava que as tramas da vida dele impunham sofrimento psíquico. E tal dor materializava-se no comportamento em sala de aula. Ela afirmava que o guri pedia socorro aos adultos de uma forma equivocada, porém, era ainda uma mensagem de socorro. Lembrava sempre à equipe que as famílias eram problemáticas, que elas não davam mais conta da educação dos filhos. As questões familiares eram atenuantes. Era preciso, portanto, compreende-lo e acolhê-lo. Dizia com convicção que não era papel da escola julga-lo ou puni-lo. Escola não é, segundo ela, local de justiçamento ou de linchamento de alunos. Ela era uma boa advogada de defesa. Sim, fazia sentido a fala da psicóloga-advogada-de-defesa.

Por outro lado havia os professores, os colegas do guri e os anseios dos pais. No conselho de classe todos foram unânimes: ele era bom em notas e terrível em comportamento. Era debochado e insensível. Era conversador e fazia brincadeiras de mau gosto.  Os colegas não queriam mais fazer trabalhos escolares com ele, afinal, não fazia sua parte ou era retirado da sala de aula momentos antes de apresentar o trabalho! Como ele incomodava o pessoal do fundo, os colegas passaram a reclamar que não aprendiam, que não conseguiam ficar atentos à aula porque o guri atrapalhava. Contavam em casa e os pais ligavam para o diretor reclamando uma solução para o caso. Até os funcionários reclamavam da petulância dele. Jogava coisas no chão porque, segundo o petulante, a escola tinha faxineiros para limpar.

Na sala do diretor estava o adolescente. Os professores lá estavam também, a espera de um desfecho. Os pais idem. Os responsáveis pelo guri queriam a absolvição. Os pais dos colegas queriam a pena capital. Já a mídia desejava escândalo, qualquer que fosse. Advogados a espreita para defender o menor.  O sindicato dos professores esperava a defesa dos interesses dos seus filiados, da mesma forma que a mantenedora da escola queria a defesa dos seus interesses. Também o aluno, por si só, já era uma exigência ética. Ele era um ser humano, portanto, digno, com direitos e com a necessidade civilizatória de ser tratado sempre e incondicionalmente,  com justiça.

O relógio grande de parede marcava os segundos passando. Tudo havia sido dito. Acusação e defesa haviam explanado seus pontos de vista. Era chegado o momento da decisão, do veredito.  O público escolar esperava o resultado como num grande julgamento ou como num grande circo. Haviam palmas guardadas e impropérios. Com certeza, para o diretor, ambos aconteceriam. Os contentes com o resultado aplaudiriam. Os descontentes clamariam por justiça. Seja qual fosse o resultado, não havia escapatória, o diretor seria julgado também.

Repentinamente o diretor escreve algo de próprio punho. Na verdade dois documentos ele escreveu e assinou. Em um a expulsão imediata do aluno. No outro o seu pedido de exoneração. Achou melhor assim, se o jovem falhou o diretor também falhou. Expulsão para os dois. Caso resolvido. Que venham outros alunos.

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