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domingo, 25 de setembro de 2011

A decisão

Amilcar Bernardi


Está em frente à porta. A decisão é só dele. Abrir e entrar. Ou virar-se e ir embora. A decisão tinha ares de suicídio. Sim, porque ao decidir tudo mudaria na sua vida. Dar um passo era como jogar-se de um prédio. Não haveria retorno. Era cair e cair até estatelar-se no chão. Mas não é um prédio. É uma porta. É só abri-la. Porém, onde encontraria forças? É abrir e jogar-se. É abrir e mudar tudo.

A mão toca a fechadura. Tem a sensação que todos o olham! A covardia paralisa os dedos. O movimento que abriria cessa. O coração bate forte. Tenta ir embora. Então se envolve com o desejo. Quer entrar. Quer curtir. Quer ver.  O desejo é bloqueado pela moral fortemente arraigada nele.

Avança um passo. O peito quase toca a porta. Já pode ouvir tudo. O que ouve é um chamado. Também é uma repulsa. Ali está tudo que sempre repudiou. Então vem a sua mente uma questão psicanalítica: repudiar não é um mecanismo de defesa? Repudiar com força não é demonstrar a força do desejo? Será que quanto mais evita aquilo é aquilo que ele mais quer?

Como cérberos, dois homens fortes estão cuidando da entrada. Ele fica confuso ao ser observado com desconfiança. Está hesitando muito. Cada vez mais pensa que estão olhando para ele. Treme. Será que todos sabem o drama existencial que esta passando? Entrar ou não equivale a deixar para trás todo um modo de ver o mundo. Seu terno e sua gravata chique destoam do ambiente. A alegria daquelas pessoas ofende seu jeito de ver as coisas. É um senhor austero e exigente. As demais pessoas fedem a cerveja e cantam alegremente, sem compromisso algum.

Avança mais uma vez contra a porta. Porém ela abre-se antes que possa tocar a fechadura. Uma mulher risonha com um vestido provocante sai dançando ainda. O cheiro de perfume o tonteia, pois provoca sua imaginação. Ele é um esteta, acha aquela situação feia. Feia porque desarmônica. Nada se encaixa direito. Uma porta sóbria escondendo a devassidão. Mulheres belas bêbadas. Bêbadas e felizes! O preço para entrar é caro para prazeres baratos. Bocas bonitas dizendo coisas feias. A música é vulgar, mas provoca prazer sensual. Ele é um poeta, um escritor, um literato! Um amante do belo ali em frente aquela situação feia, pois indizível. Indizível porque sua alma não aceitava!

De canto de olho ele vê os seguranças vindo em direção dele. Afinal estava hesitando muito. Sente que já não há o que fazer. Não pode voltar atrás. Como explicar aos seguranças tudo que vai na sua alma de intelectual puritano? Não é possível retroceder. Prende a respiração e joga-se para dentro. Como quem afunda no mar é envolto pelo ar do ambiente. Um ar cheio de vapores alcoólicos. As luzes coloridas arremedam uma iluminação. Álcool, perfumes e suor fazem uma espécie de neblina. A música alta tenta abafar o riso fácil. Ali tudo parece fácil. A um acenar de mão a bebida vem. A um sorriso mulheres surgem do nada. Homens com olhares de águia procuram presas. Outros homens com olhar de morto agem como zumbis em busca do esquecimento de algo. Afundam na bebida.

O prostíbulo é de má fama, de má gente. É famoso por mortes a facadas. Assaltantes são comuns nas imediações. A polícia amiúde faz prisões por ali.  Drogas são comuns. Circulam como cerveja. Algumas moças dançam nuas. Ali a regra é: pega o que podes pagar! Não há limites morais! Os corpos estão para consumo. O prazer é de aluguel. As almas já estão insensíveis. Os corpos estão energizados por uma explosão libidinal coletiva. Quase uma histeria.

Ele sente-se estranho, um estrangeiro. Não sabe como conduzir-se ali. Iria logo para o balcão pedir bebida? Sentaria nas pequenas mesas e pediria ao garçom uma prostituta? E se pedisse uma mulher, a levaria logo para um quarto? Havia quartos ali ou iriam para algum motel torpe? Quanto uma mulher custaria? E se ele chamasse uma mulher e ela não fosse prostituta? Alguma mulher ali não era prostituta? Ele não bebe: como pedir cerveja? Qual marca? Ele não dança. Como dançar se a moça pedisse para dançar? Ele tinha que pagar a moça antes ou depois do sexo?  Nenhuma dessas questões é pequena. São de vida ou de morte. Essas questões são seu diferencial: ele não pertence aquele ambiente!

Então a loira surge daquela neblina. Vem direto a ele. O sorriso é amplo, o vestido é curto. É longilínea de pernas roliças. É linda de olhar feio. É um olhar feio de olhos lindos! Ela ginga ao andar. O perfume chega antes. A moça diz oi e pega na mão dele. A mãozinha é pálida rodeada de dedos longos de unhas vermelhas. Macia como pétala de rosa. Mais alta que ele nos saltos altos. Os pés são pequenos. A maquiagem é forte, pesada. Porém, a deixa mais linda! Como evita-la?

Seu coração bate forte. Um tsunami de adrenalina afogando seus escrúpulos. No início um certo constrangimento. Não sabia o que fazer, o que dizer, o que pensar. Mas tudo ficou mais fácil quando a moça falou e pensou por ele. Ela o conduziu como um adolescente inocente. Na verdade ele era por dentro um jovem inocente. Não era um jovem com certeza, mas nunca vivera nada além do permitido. A mulher, conhecedora de todos os tipos de homens, reconheceu nele essa fragilidade. Habilidosa não o agrediu, respeitou seus apelos morais. Agiu com gentileza e sabedoria.

Eles tiveram uma noite de amor. Ele percebeu que há inúmeras formas de viver a vida. Que, talvez, os laços sociais e afetivos são também algemas e correntes pesadas. Naquelas horas ele agiu sem limites. Não precisava provar nada para ninguém. O prazer ditava as regras. O dinheiro pagava o que estava acontecendo. Sentiu-se feliz. Era um prazer pago. Bem pago. O corpo dela valia cada centavo. Era perfeito, delineado por um artista! Uma escultura!

Como ele imaginou, tornou-se outro homem. Agora podia ver alem dos seus dogmas. Um novo horizonte se delineava a sua frente. Percebeu que transgredir muitas vezes vale a pena. Claro, teria conseqüências o que ele fez. Todas as pessoas que o conheciam como alguém previsível teriam que se adaptar. Ele aprendeu a transgredir, a desconfiar do que é socialmente aceito. Mudou seu jeito, talvez mudasse de pessoas. O futuro agora era mais livre para ele.



Na casa da moça prostituta houve mudança. Ela usou sua reserva financeira para estudar. Fez vestibular, passou. Está agora numa importante universidade. Não se prostitui mais, pois conseguiu estágio em uma empresa. As boas notas dela foram a garantia dessa chance. Os professores apostaram na brilhante aluna. Ela mudou porque encontrou um homem que, na visão dela, era puro e delicado. Um homem que fez com que ela se sentisse gente. Um moço que a tratou com tal gentileza e inocência que ela lembrou como era bom ser amada: um dia ela teve um grande amor!

Essa moça nunca pode agradecer o incentivo que o rapaz deu. A inocência tem um poder incomensurável, mesmo quando desejamos perde-la.

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